Conexão Seattle
11 Selando um pacto
Notas iniciais
Ela desceu as escadas de casa em alta velocidade. Eram apenas três degraus, que nunca pareceram tão altos. A ansiedade lhe apertava o peito, a vontade desistir era forte, mas estava decidida a levar aquilo até o fim.
A manhã estava ensolarada com poucas nuvens dispersas no céu. A medida em que ela andava, o vento balançava levemente seus cabelos. Acabou por fazer um coque dando um nó no cabelo para ter mais liberdade em andar sem ter que se ajeitar continuamente.
Ao chegar ao ponto de ônibus, surpreendeu-se ao encontrar o garoto ao lado de uma moto aparentando certa impaciência. Admitir que sentiu o estômago revirar ao encontrar seus olhos foi mais difícil do que pensou.
–Achei que havíamos combinado às nove. –Disse o garoto assim que ela se aproximou.
–E são nove e cinco! –Respondeu.
–E então? Podemos ir?
–Claro. –Disse se pondo a caminhar. -Foi difícil achar o ponto?
–Não. Achei a praça central rápido daí logo vi o ponto. Não podemos mesmo ir de moto?
–Não. Quer deixar ela la em casa?
–E cabe?
–Vem ca você acha que eu moro numa caixa de fósforo ou o que?
–Não, é que...
A garota lhe lançou um olhar fulminante e ele achou melhor se calar. Subiu na moto sendo acompanhado por Sam que lhe indicou o caminho. O perfume da garota lhe inebriava, mas ele se manteve firme enquanto pilotava.
Freddie deixou a moto na garagem, olhando com desprezo mortal o lugar escuro, úmido e repleto de instrumentos de segunda-mão. Havia a entrada de carros pela qual entraram e outra que dava acesso a casa.
–Vamos. –Chamou Sam sem dar importância a expressão enojada que ele exibia.
Ele a acompanhou um pouco constrangido, não é educado reparar nas moradias das pessoas, mas a casa de Sam era realmente muito pobre. A fachada envelhecida, com algumas plantas contrastantemente bonitas em uma pequena varanda, e ao lado uma garagem onde mal cabia um fusca. Não chegou a entrar, mas era possível perceber que a casa toda era pouco maior que o sótão de Carly.
Foram andando pelas ruas extremamente maltratadas, esburacadas repletas de casas pobres e estabelecimentos pequenos. Ferro velho, mercadinhos, e muitos bares. Andaram por quase meia hora em silencio (exceto pelas pessoas a quem Sam cumprimentava), quando de repente Sam virou uma curva onde as ruas estavam completamente desertas.
–É abandonado aqui? –Perguntou assustado.
–É que seu pai veio aqui e espantou os moradores com a cara feia dele!
–Hei!
–Não esta vendo as roupas estendidas? Essa rua é desertas as pessoas ficam em suas casas ou la em cima. É costume por aqui, acho que pra ter melhor percepção da vida alheia.
Sam começou a descer uma ladeira um pouco torta e Freddie começava a cogitar em voltar. Mas já tinha ido até ali, precisava ir até o fim. Quando a escadaria chegou ao fim, Sam entrou em um beco e por fim entrou num lugar que mais parecia um galpão repleto de móveis artesanais.
–É aqui. Falei que era perto...
–Ah, é... –Disse ironicamente. Levaram quase uma hora andando.
Havia um homem magro, aparentando ter uns quarenta anos, sentado aos fundo num banco de madeira, fumando e nem ao menos os encarou. Aquele devia ser o atendente.
–Bom dia. –Cumprimentou Freddie.
Silencio.
–Juvenal, o Karl ta ai? –Perguntou Sam um tanto grosseira.
–La dentro. –Respondeu Juvenal sem encara-los.
–Pode chama-lo?
O homem soltou um muxoxo impaciente e entrou por uma porta que havia atrás dele de onde vinha ruídos compassados e desagradáveis.
–Aqui é uma carpintaria. –Explicou Sam. –As caixas são feitas por encomenda.
–Você encomendou aquela?
–Minha mãe me deu quando eu era pequena.
A conversa foi interrompida por Karl que veio gritando com total ignorância. Um homem velho, magro com os poucos dentes restantes amarelos. Exibia um anel de caveira e tinha blusa surrada e manchada de azul.
–O que quer aqui?
–Saber se você é capaz de dizer quem te encomendou uma caixa. –Disse a loira. -Há muitos anos atrás.
–Com uma cobra dentro?
Freddie e Sam se entreolharam surpresos e confusos. O homem riu triunfante e continuou.
–Reconheço o rapazinho. O pai dele foi o sortudo que recebeu, não foi? –O sujeito falava com uma risada sinistra.
–Como sabe? –Perguntou Freddie.
–Foi a ultima que encomendaram pra codificar mensagem. Agora virou presente de criança! –Disse com desgosto- Quanto trouxeram pelo o que eu sei?
–Vai cobrar? –Perguntou Sam indignada.
–Tudo bem. –Interveio Freddie. –Cinquenta dólares.
–Passa pra ca. –Disse o velho.
Freddie abriu a carteira e tirou algumas notas da carteira e entregou ao homem.
–O Petter, é obvio, garoto burro. –Disse o velho. –Ele encomendou.
–E ele te disse mais alguma coisa? –Freddie tinha as faces ruborizadas. “Garoto burro?”
–Não. Mas eu te digo. Va pra casa e viva sua vidinha de garoto bacana em vez de se meter nesses buracos ao lado de uma garota nada confiável como a Puckett.
–Eu disse isso a ele... –Disse Sam ignorando o “pouco confiável”
–Calada. –Cochichou Freddie -O senhor sabe se o Petter conhecia alguem que morava no centro de Seattle, se alguma vez mencionou alguém diferente?
–Sim. Ele mencionava uma mulher. Esqueci o nome, ah Marissa! Uma vez no bar do Dr° Wisk ele disse que ia no casamento dela conhecer os noivos que tanto desgosto trouxeram a alguém importante para ele.
Freddie cerrou os punhos. Sentiu uma fisgada no peito.
–Esse alguém importante era o Crawelt, certo? –Perguntou Freddie. -O desgosto foi a manifestação contra os assaltos?
O homem riu alto e assustadoramente. Freddie achou que aquilo era uma confirmação. Sam não. Essa versão já era velha e conhecida por quase todos no subúrbio, Sam poderia ter dito a Freddie de graça. Uma lenda de que Petter e Crawelt tinha um caso. Crawelt negou dizendo que ele queria encobrir alguém, mas quem da ouvido a dois bandidos comparsas?
–Mais 50 e eu falo mais. –Essa foi a resposta.
–Vamos embora Freddie. –Disse Sam vendo Freddie pegar a carteira.
Ele assentiu confuso e a acompanhou a loira que já se aproximava da saída.
–Olha la, Karl. –Disse Juvenal vendo os dois saindo. –A historia se repetindo.
Freddie voltou-se furioso, mas Sam alertou que Juvenal sofria de esquizofrenia e levou Freddie para fora da carpintaria. Ele não disse nada se deixou conduzir pela mão pequena e macia que segurou forte a sua entrelaçando seus dedos nos dele. Não deixou de reparar no tabefe que Juvenal levou de Karl.
Na escada, Sam o soltou e pegou o celular e discou um numero.
–Mike? Cancela o que eu te pedi, ta bem? Valeu.
Voltaram em completo silencio. Sam estava arrependida de te-lo levado ali. Devia ter imaginado que o trapaceiro do Karl não iria falar coisa que preste. Mas de uma coisa estava certa, Freddie desistiria dessa ideia louca.
Freddie ia tão quieto e pensativo que nem ao menos reparou quando chegaram a casa de Sam novamente. Na garagem, Sam tentou escolher as palavras
–Freddie, não liga pro Karl não, ele é um velho louco e...
–Cancelar o que? –Perguntou olhando nos olhos da loira.
–Hã?
–Você ligou pra alguém pedindo pra cancelar. Cancelar o que? Ia me dar um susto não é?
–É. –Respondeu sem jeito. –Ia estourar uns fogos pra ver você assustado e atirar uma bala de tinta vermelha em você.
–Obrigado por cancelar. Eu já sabia que não ia me trazer de graça, mas agradeço assim mesmo.
Freddie tinha um semblante ainda mais triste e preocupado. Sam não soube o que dizer. Pedir desculpa por esta sendo ela mesma? Mas o fato é que ele pediu por muito menos. Apenas se precipitou num momento de fúria.
–Desculpa. –Disse depois de um suspiro. –Eu só queria que você se tocasse de que não precisa procurar problema. A vida vai se encarregar de te arrumar muitos. Você é só um garoto...
A ruga de preocupação de Freddie se desfez num sorriso divertido.
–Estava preocupada comigo, Sam?
–Não! –Respondeu indignada. –Também queria me divertir e ter mais um belo conteúdo pro Conexão Seattle. “Patetão apavorado”. Seria perfeito!
–Ok. -Freddie subiu a na moto dando partida. –Até mais.
–Espera. –Ela se aproximou tocando os ombros do garoto. –Vai desistir dessa maluquice, não é?
–Como eu disse, só ia te envolver nisso até aqui. Agora esquece o que viu e ouviu.
–E se eu contar a Carly? A sua mãe?
–Eu confiei em você.
–Quem disse que eu sou confiável? –Perguntou de forma doce e travessa ao mesmo tempo.
Um riso discreto se formava nos lábios de Sam e Freddie teve certeza de que não havia nada que ele desejasse mais do que apaga-lo com um beijo. Ela estava tão perto e ele não a via assim tão doce desde o dia em que ele lhe dera Spike. Era uma pessoa imprevisível e isso a tornava ainda mais atraente.
Um baque ensurdecedor os tirou do transe em que se encontravam perdidos no olhar um do outro.
–A Shelby! –Disse Sam se afastando. Ela entrou, deve ter ido pro quarto. Sai agora!
Freddie assentiu confuso e acelerou saindo do local. Sam, ainda atônita viu a porta da garagem que dava acesso a casa abrir com a morena aparecendo com um pote de sorvete na mão.
–Quem tava aqui, o Griffin?
–Não. Foi la fora. –Disse sentando num puff.
–Ah, ta. Tão alto que achei que a moto estivesse aqui!
–Foi por que a porta tava aberta. –Disse soltando o cabelo. –Como foi o teste?
–Péssimo. Sam como você pode faltar a um teste numa gravadora?
–Já disse que estava com dor de barriga. Não ia fazer diferença... E outra temos um teste na semana que vem, esse era só pra eles verem nossa cara.
–Exatamente.Era importante que nos conhecesse antes.
–Shelby, desculpa. Mas algumas coisas realmente são mais urgentes, inadiáveis. Nos somos quatro, algumas pessoas são sozinhas, então vamos encarar as coisas pelo lado positivo?
–Do que esta falando? –Perguntou Shelby confusa.
–Que quando um passa mal, outros devem quebrar o galho. –Respondeu sem jeito.
Shelby desapareceu pela porta com um ar intrigado. A amiga estava diferente. Antes, a banda era sua prioridade, e por mais que ela fizesse o tipo revolucionária, protetora dos fracos e oprimidos, nunca uma dor de barriga lhe despertaria um lado tão otimista e solidário.
Carly estava sentada na calçada com Jeremy e Gibby esperando Missy sair de casa. A garota estava cada vez mais azeda e mal humorada. Freddie a esnobava ainda mais depois dela ter humilhado Sam. Carly parecia troca-la pela loira, e o pai era uma pilha de nervos por não conseguir por as mãos numa loja falida e fracassada. Parecia que aquilo era o dilema de sua vida.
–Vamos. –Ela saiu de casa e se pôs a caminhar chamando os amigos que estavam sentados esperando-a.
–Nossa, por que a demora? –Perguntou Gibby.
–E é de sua conta?
–Hei, Missy não precisa tanta ignorância... –Repreendeu Carly. –Me diz, o que houve?
–Nada. –Ela parou sorrindo. –Vamos nos divertir, e o Freddie?
–Ele vai nos encontrar la. Disse que apareceria por volta das cinco.
Continuaram andando conversando sobre futilidades até chegarem ao shopping que ficava quase ao lado da casa da ruiva. Se dirigiram ate a praça de alimentação onde Freddie já devia estar, e sentaram para aguardarem o garoto. Alguns minutos depois e ele apareceu com seu ar nerd- gato atraindo muitos olhares.
–Oi! –Cumprimentou Carly –Onde você estava a manhã toda?
–Dando umas voltas de moto. –Respondeu. –Mas vamos logo pra bilheteria, eu não posso passar das sete.
Freddie tentava passar a maior tranquilidade possível, mas mal prestava atenção a conversa dos amigos e ansiava em conversar com alguém com quem pudesse desabafar, falar de suas suspeitas, medos e angustias, que naquele momento eram muitas. Por que Sam ficou tão seria após sair da carpintaria? Não era típico dela cancelar as brincadeiras, as levava até o fim. Mas decidiu que não a envolveria mais, dali pra frente era só ele.
–FREDDIE! –Berrou Carly.
–O que?
–Definitivamente sua mente não esta aqui. Vamos ver o Batman, pode ser?
–Ah, claro.
Surpreendentemente, ele conseguiu se concentrar no filme. Tinha mistério, da mesma forma que sua vida naquele momento. E ao fim ele saiu com certas reflexões. Será mesmo que conhecemos as pessoas? Comparar a sua própria vida a um filme foi um pouco demais, porem uma coisa era certa. Quando há uma grande parte de determinada historia é desconhecida, a tendência é meter os pés pelas mãos ao tentar desvenda-la da maneira que muitos já tentaram, e sucessivamente fracassaram.
Sam entrou no Ridgeway na manhã de segunda-feira exausta após o corrido fim de semana. Evitara os amigos por causa do furo, mas agora não tinha mais jeito. Assim que os vislumbrou se dirigiu até eles com o melhor esboço de sorriso que conseguiu por no rosto.
–Oi! –Cumprimentou sentando nas escadas.
Nenhum deles respondeu. Apenas Shelby sorriu avisando que ela estava encrencada. Brad começou com a voz mais severa que pode.
–Meu avo disse que te viu no sábado na ladeira do Karl com um garoto.
–Que pela discrição era o Benson. –Completou Griffin.
–E daí?
–E daí? –Disse Shelby incrédula- E dai que foi bem na hora que a gente estava enrolando o pessoal da gravadora, por que você disse que estava passando mal!
–A gente foi gravar um...
–Sam, fala logo que você ta dando pra ele e pronto, é mais fácil.
Jonah levou um forte soco no rosto e sentiu o gosto de sangue ao passar a língua no lábio partido. Brad olhou reprovadoramente pra ele antes de ir atrás de Sam. Os olhos da garota estavam marejados e suas faces alvas da cor de tomates maduros.
–Jonah, como é que você fala uma loucura dessas? –Perguntou Shelby- A Sam odeia o Freddie, é óbvio que ela só esta dando mais prioridade ao web show por que da mais lucro, seu babaca!
–E você acha isso justo? Ela mereceu! Vaca!
–Xinga ela de novo e eu te dou outro soco! –Gritou Shelby chamando ainda mais atenção de quem passava.
–Agora já chega. –Interrompeu Griffin. –Jonah, você desrespeitou a garota, na próxima, com ela ou com a Shelby, eu mesmo te arrebento.
–É o que?
–O que você ouviu. E vai logo pedir desculpas a ela. Mesmo que ela esteja afim do cara se por contra ela só vai piorar as coisas!
–Impossível. –Sentenciou Shelby. –Vocês piraram.
Shelby levantou e ordenou que ele fosse atras de Sam para se desculpar. A loira estava no jardim, tremula de raiva ao lado de Brad. A sorte foi que ainda era cedo, e a escola estava vazia. Se mais pessoas os vissem brigando, certamente isso seria pessimo a suas reputações.
Embora brava, Sam aceitou as desculpas de Jonah. E todos aceitaram a desculpa de que ela estava gravando um vídeo com Freddie, e que Carly teve medo de ir. Exceto Griffin. Jonah era burro demais pra sacar, só dissera aquilo pela raiva que sentia, propositalmente para ofende-la haja vista que Sam consideraria qualquer aproximação com Freddie repulsiva. Brad e Shelby simplesmente consideravam isso impossível. Griffin também consideraria caso não os tivesse visto no ponto de ônibus.
Mas Sam sentia a culpa invadir sua alma ao trair os amigos. Era assim que ela se sentia. Uma traidora. Enquanto, as seis horas, esperava na esquina Marissa sair do prédio. Enquanto caminhava relutantemente até o local de onde a mulher saíra. Enquanto subia o elevador principal. Enquanto parava no oitavo andar. Enquanto estava parada em frente ao 8=D. Enquanto tocava a campainha.
–Sam? –Freddie abriu a porta incrédulo. –O que faz aqui?
–Nem eu sei. –Disse baixando o olhar.
Freddie a puxou para dentro antes que a porta da frente se abrisse e eles tivessem que dar explicações sobre aquela cena.
–Senta. –Pediu gentilmente.
Sam reparou que havia sobre o sofá e a mesa de centro, artigos sobre as investigações do assassinato. Ele não desistira. Na Tv, o vídeo pausado do casamento dos pais, onde ele provavelmente procurava por pistas.
–Você ta achando que é o Sherlock Holmes? -Perguntou forçando um sorriso.
– Diz logo o que quer. –Disse ele sentando no chão e voltando aos recortes.
Sam deu um longo suspiro e procurou cautelosamente as palavras. Como dizer que não parava de pensar nele e em uma forma de ajuda-lo?
–Descobriu mais alguma coisa? –Perguntou vagamente sentando a beira do sofá.
–Sim. –Ele parecia um pouco animado. "Animado" não era bem a palavra, menos tenso com certeza, se adequava melhor –Fiz uma lista de todos os amigos do meu pai que poderia ter tido lucro com a morte dele. Não que eu desconfie deles, mas...
–Me diz os nomes. –Sam sentou no chão ao lado de Freddie que pareceu se animar ainda mais.
–Ok. Eu usei a lista de convidados no casamento. Haviam duzentas pessoas!
–Festão, heim? –Comentou Sam. –Devia ter muita comida.
Freddie a encarou incrédulo. Ele falava de suspeitos e ela estava pensando em comida? Ela lia a lista com rapidez e viu alguns nomes conhecidos. Arthur Benson (tio de Freddie), Charles e Amanda Shay (pais de Carly), Paul e Olivia Peterson (pais de Griffin), Gilbert e Ana Gibson(pais de Gibby), Michael e Brenda Cartney (pais de Weny), Douglas e Emily Roger (pais de Jeremy)e Steven e Diana Robinson (pais de Missy).
–Onde foi que eu ouvi esse nome Robinson? –Disse distraidamente...
–É o pai da Missy.
–Eu sei, mas... –Ela arregalou os olhos. –Num bar la no subúrbio, um cara falava de... Eu esqueci, mas eu sei que ouvi. Mas devem ter vários desses por ai...
–Ou não. A Carly me disse que ele deve a uns caras de la. Agiotas. Coitado, espero que consiga pagar.
–Freddie, eu estive pensando. –Sam deu um longo suspiro. -Se você quisesse matar alguém, por que avisaria a ela?
–Como assim?
–A caixa, talvez não tenha sido uma ameaça, mas um presente mesmo. –Ela hesitava a cada palavra.
–O que?
–Nunca perguntei a minha mãe por que ela me deu aquela caixa, mas ontem, eu perguntei e ela disse que quando eu era criança, me fazia tomar café e eu dançava engraçado.
–Não brinca...
–Calado! E me deu a caixa por que eu parecia uma palhaça... Então...
–Então o que?
–A cobra podia ser uma representação do seu pai.
O semblante de Freddie se tornou completamente sombrio. Não podia ser. O pior é que Sam estava fazendo o que ele sabia que era o certo. Olhar os fatos de uma maneira que ninguém havia olhado. Não percebeu quando duas lagrimas rolaram dos seus olhos.
–Ah, não! –Disse Sam aflita. –Eu falei pra não entrar nessa, se você pirar vão por a culpa em mim!
Freddie se recompôs como pode e olhou atônito para a loira.
–Sam, melhor você ir. Por favor, não se envolve mais nisso.
–Sabe o que o Karl ia te dizer? –Começou alterando a voz. –Um monte de estórias sem pé nem cabeça que as pessoas do subúrbio que conheciam o Ronald, o Petter conta. Você não conhece nada disso e se for se meter nessa loucura vai a falência com todos os mentirosos que vão tentar lhe extorquir. Mas eu vou embora, se vire sozinho se não confia em mim.
Sam levantou se dirigindo até a porta, mas Freddie a segurou pelo braço ainda atônito.
–Eu só não quero te envolver, sua estúpida, não quero te por contra os seus amigos por mim, fazer você perder seu tempo comigo!
Sam puxou o próprio braço rindo com desdém.
–Não espere que eu te agradeça.
Saiu pelo corredor furiosa e apertou os botões com força. Então ia ajudar aquele babaca retardado e era enxotada como um cão sarnento? Pois que ficasse la com os suas duvidas ridículas, pois mesmo que ela ajudasse não resolveria, mas ao menos não estaria sozinho, pois Sam sabia bem o que era não ter ninguém pra falar do que sente.
–Você acha que eu não sei? –Disse Freddie um pouco mais baixo por estarem no corredor. –Que não vai ser fácil como eu penso que estou completamente sozinho como alias sempre fui a minha vida toda? Não quero que os seus amigos te virem as costas e você se torne alguém como eu!
Sam voltou-se para o garoto tentando manter a calma.
–Se forem meus amigos de verdade nunca vão me abandonar, Freddie. Mas esquece, acho que eu troquei as bolas... No que eu tava pensando, não é? A gente se odeia!
Sam entrou no elevador e fechou a porta. Que se abriu no mesmo instante sendo ocupado por um Freddie sério e decidido.
–Você vem comigo em um lugar. –Disse fechando apertando o térreo.
–Não vou mesmo. –Sam cruzou os braços e encarou as portas de metal trancadas.
Quando o elevador abriu no térreo, Freddie verificou se havia alguém na portaria, e não havendo, puxou Sam pela mão e saiu guiando-a até para fora onde parou um taxi. Sam não entendia do que se tratava aquilo, nunca Freddie mostrou tanta determinação, e definitivamente havia perdido o medo que sentia dela.
–É um sequestro? –Perguntou entrando relutante no veículo.
–Acorda garota, não se sequestra pobre!
Sam reprimiu um riso virando o rosto para a janela. Freddie deu um endereço ao motorista que ela não identificou, mas não ficava longe. Quando o veiculo parou, Sam reparou na fachada do lugar onde pararam. P_AY _BA_H. A algum tempo atrás deve ter sido Play&Bach. Mas o tempo se encarregou de destruir o belo letreiro que ainda possuía certa imponência.
–O que estamos fazendo aqui? –Perguntou Sam.
Freddie se dirigiu até a entrada e retirou um enorme chaveiro do bolso. Enquanto procurava pela chave correta, Sam pegou um graveto no chão e arrombou em poucos segundos. Ele pareceu um pouco sem graça, mas acima de tudo surpreso.
O lugar estava sujo, escuro e muito frio. Freddie procurou pelo interruptor com um toque iluminou grande parte do lugar. Haviam algumas prateleiras cobertas de teias de aranha, e ratos correndo pra la e pra ca.
–O que estamos fazendo aqui, Freddie?
–Procurando pistas. Não quer me ajudar?
–Não mais! –Disse ríspida. -Agora vamos voltar.
–Mas eu preciso de você. –Ele olhou diretamente nos olhos de Sam. –Eu devia ter começado por aqui, mas não quis vir aqui sozinho, tem muitas lembranças...
Sam não sabia se estava mais surpreso por ele ter admitido que precisa de ajuda ou por considera-la um apoio emocional. Aproximou-se e sentiu ímpetos de acariciar a cabeleira castanha projetada em sua frente. Em vez disso, correu os olhos pelo local imundo.
–Não. A policia já deve ter tirado tudo que havia aqui. Temos que ir aonde ninguém mais foi.
–Vai mesmo me ajudar? –Perguntou Freddie sorrindo de lado.
Sam não respondeu. Aproximou-se e lhe depositou um beijo nos lábios. Abriu os olhos azuis e viu a surpresa estampada no rosto de Freddie. Quando cogitava se afastar constrangida, foi enlaçada pela cintura e teve o selinho retribuído por outro muito mais adulto. Freddie a apertou contra o corpo e entrelaçou sua língua a dela ávido por aprofundar cada vez mais aquele beijo.
Quando interromperam, arfando pela falta de ar, Sam saiu pela porta sem encarar Freddie e se odiando pela impulsividade.
–Sam! –Chamou Freddie já na rua trancando a porta da loja. –Volta aqui!
Ela não voltou, continuou andando a passos largos pela rua pouco movimentada. Freddie a alcançou e a girou pelo braço uma segunda vez aquela noite.
–Calma ai. Não fizemos nada, lembra? –Disse com um sorriso de lado.
–Não? –Perguntou confusa.
–Não. Somos inimigos. Nossa única ligação é o Conexão Seattle. Ou assim todos pensam. E continuarão a pensar.
Sam sorriu discretamente olhando nos olhos castanhos de Freddie. Ele estava propondo um duplo envolvimento secreto? Amoroso e investigativo? Não ia passar como burra perguntando. Preferiu colar os lábios aos dele pra ter certeza. A confirmação veio com um beijo ainda mais intenso que o anterior. Aquele beijo selava um novo pacto entre eles.
Freddie a afastou e parou um taxi. Pediu que ela entrasse e entrou logo em seguida. Trocaram alguns beijos até chegarem ao Bushwell. Eram beijos ainda sutis em relação à vontade de Freddie. Não arriscava caricias maiores que toques de mãos ou afagos na cintura fina da loira. Mas ela acariciava sua nuca e seus cabelos de um jeito que fazia seu corpo incendiar.
Quando o taxista pigarreou alto e incomodado avisando que haviam chegado, Freddie desceu e pagou o suficiente para deixa-la em casa. Deu um selinho na loira pela janela do carro e entrou no prédio sorrindo feito um bobo.
Quando Sam chegou ao seu bairro, mais uma vez se deixou tomar pela culpa. O sorriso que trazia pela lembrança dos beijos desapareceu. O que um garoto como ele ia querer com alguém como ela alem de diversão?
Entrou em casa e agradeceu a Deus por não haver ninguém a quem dar explicações. A ideia de ajudar Freddie era assustadora, e louca. Mas já havia decidido. Iria até o fim. Fosse ele qual fosse.
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