Conexão Seattle
27 Da Cabeça Aos Pés
Notas iniciais
Acordar nunca pareceu a Freddie uma tarefa tão difícil. Ele não sabia dizer se era pelo frio que fazia, pelo seu nível de cansaço ou simplesmente por não está habituado a acordar às cinco da manhã em pleno sábado. O fato é que foi só quando o celular tocou pela quinta vez, (às dez para as seis) foi que ele finalmente se levantou da cama.
A medida em que foi deixando a água quente cair sobre os ombros, foi despertando cava vez mais, e ao final do banho, já conseguia manter os olhos completamente abertos. Assim que saiu do banheiro, enrolado numa toalha e deixando pegadas de água por todo o quarto, ele escutou a voz da mãe vindo da sala, parecia estar conversando com alguém.
Em circunstancias normais, Freddie ignoraria aquilo, mas a verdade é que em circunstancias normais ele nem mesmo estaria acordado aquela hora em pleno sábado! Lenta e silenciosamente, Freddie abriu a porta do quarto e escutou. A mulher estava na sala, falando ao telefone, o mais baixo que podia.
–Uma vadiazinha. Não dou um mês para aparecer grávida. –Silêncio. –Vou fazer o que acho certo, Ana ele é meu filho! No fim ele vai me agradecer. –Silêncio. –Mas me diga, e a transferência? –Silêncio – Ano que vem? Não, tem que ser antes do fim do ano, o mais depressa possível. –Um silencio mais longo. –Tudo bem, até mais!
Freddie fechou a porta com cautela e voltou a se arrumar. Como ela podia se achar no direito de interferir na sua vida daquele jeito? Quando estava completamente arrumado, Freddie ouviu a porta da sala ser fechada, sabia que a mãe havia saído. Era a oportunidade para sair àquela hora das manhã sem ter de dar satisfação. Ela não desconfiaria de nada se ele voltasse cedo e era isso que ele tinha em mente. Porém seus planos não saíram bem como ele planejava.
Dois homens conversavam dentro de um pequeno escritório sem saber que eram ouvidos por um garoto que estava do outro lado da porta. Se perguntava se não havia cometido um erro em contar ao pai o que Gibby lhe dissera, mas ele ficaria sabendo de qualquer jeito. Os dois homens estavam nervosos. Douglas estava sentado atrás de sua mesa fingindo uma paciência que não possuía. Havia um lápis esmigalhado em sua mão e um sorriso forçado quando perguntou ao homem em sua frente:
–Como se sente em estar sabendo de noticias de sua filha por mim?
–Qualquer noticia dela é um conforto não importa de onde venha.
–Não banque o sentimental, Mick! Sabe que a situação é complicada não é? Sua filha pôs muita coisa a perder, muita coisa!
–Poderia ser menos insensível? Minha filha esta desaparecida!
–Desaparecidos não mandam cartas! –O homem deu um violento tapa na mesa. –Ela ridicularizou meu filho, a minha família e você vem falar de sensibilidade?
– Ela vai voltar não pode ficar tanto tempo longe! Até lá, gostaria de te pedir que...
–Deixe eu lhe refrescar a memória, Michael. No ano de 1997, quando nos tornamos sócio, você entrou com a ideia, e eu com o dinheiro. Graças a isso temos hoje uma bela companhia de seguros. Lembre-se também...
–Não precisa me lembrar de...
–Lembre-se também. –Continuou no mesmo tom. –Que em dois mil e dois, quando, misteriosamente quase fomos à falência, juntamos nosso capital para obter crédito.
–Sei disso. Sei que foi quando conseguimos no recuperar que inventamos esse casamento. Acho que foi um erro!
–O único erro foi da minha parte.
–Da sua?
–Claro. –O homem arremessou o lápis quebrado longe e elevou a voz. –De não perceber que estava lidando com dois incompetentes. Você e o meu filho! Nossos negócios estão indo bem, com o casamento, em quinze anos, no mínimo, nos tornaríamos uma família tradicional nessa cidade! Sabe o que é isso? Respeito, poder, investimentos, sócios, dinheiro, em fim, tudo!
–Eu, sei disso. Mas a Wendy não é uma marionete. –Disse olhando-o chocado. –Como vínhamos pensando. O erro foi nosso, deixe ela e o Jeremy fora disso. Admita, perdemos.
–Você perdeu. Eu tenho outros planos, em breve tenha certeza, estarei mais rico do que possa imaginar!
–Boa sorte. Agradeço que tenha me contado sobre ela. Eu lamento profundamente aquilo que ela fez. Poderia ter fugido discretamente, mas não...
–Você não é a pessoa mais indicada para que eu possa dizer o que penso daquela garota. Não mesmo. Agora deixe-me sozinho, preciso pensar. Alguém por aqui precisa fazer isso!
Michael levantou sem dizer mais nada. Sabia que o amigo estava bravo, mas era a primeira vez que o via explodir daquele jeito. Se perguntou de qual forma ele pretendia estar em breve tão rico quanto afirmava. No corredor, viu Jeremy olhando-o sem expressar absolutamente nada. Sentiu remorso. Teria ele ouvido o que o pai disse? Ele esperava que não. O homem saiu pela manhã fria, com o céu coberto de nuvens escuras prometendo desabar a qualquer momento. “Só espero que você esteja bem”, pensou.
Ele desligou o telefone e suspirou. Já era a segunda vez que ela dizia já estar a caminho e nisso já se haviam passado vinte minutos. Freddie se encontrava há alguns metros da casa de Sam em um sedan preto, quando alguém bateu na janela, assustando-o. Ele saiu do carro, ao ver uma mulher loira, de traços familiares sorrindo de maneira forçada para ele.
–Como vai, senhora Puckett?
–Hunter se não se importa. –Disse rispidamente.
–Ah... Me desculpe.
–Esta esperando alguém?
–A Sam. –Respondeu corando.
–Soube que esta se dando melhor com a Sam. Fico feliz.
–Obrigado. –Freddie sorriu satisfeito. –Gosto muito dela!
–Não duvido. Então por que não se afasta dela?
–Como?
–Você chegou a conhecer o Michael? Ele sempre liga pra Sam. Virou ator, sabia?
–Não. –Ele se controlava para não explodir. –Não sabia disso.
–Mas foi. Sabe, as mães querem o melhor pros seus filhos. Eu gosto de você, rapaz, mas não acredito...
–Mãe! –Sam parou do outro lado do carro. –O que faz aqui?
–Conversando com o seu amigo. Não é, Freddie?
–Sei. –Disse desconfiada. –A gente vai dar uma volta, mais tarde a gente volta.
–Divirtam-se. –Ela sorriu simpática.
Os dois entraram no veiculo e se foram. Pam observou bebia com uma amiga no bar quando vira Freddie dentro carro, e soube que tinha que entrar em ação. Bater de frente com Sam a faria fugir com Freddie no primeiro avião que pudesse pegar, para ser abandonada assim que ele se cansasse. Faria o que estivesse ao seu alcance para evitar que isso acontecesse.
Dentro do carro, Freddie permanecia no mais absoluto silencio. Sentiu vontade de dispensar Sam no instante em que ela apareceu, por causa do que a mãe dela havia dito, mas queria tirar aquela história a limpo. Procurava um jeito de começar a perguntar de forma direta, sem parecer que estava com ciúme, mas não encontrava. Ela parecia perceber que havia algo errado, mas não foi sobre o clima estranho que falou quando resolveu quebrar o silêncio:
–De quem é esse carro?
–Meu. –Respondeu de olho na estrada.
–É muito bonito.
–Obrigado.
–E a Carly? –Perguntou ligando o rádio. Tocava Bom Jovi.
–O pai foi visitar ela hoje e ela não pode vir.
–Poderíamos ir outro dia. O tempo esta muito ruim...
–O tempo esta passando, Sam não posso desperdiçar.
–O que vai fazer se achar alguma coisa?
–Não sei. Não tenho ideia do que fazer.
–Vamos pensar em algo. –Ela fez uma pausa antes de perguntar. –Freddie, como comprou esse carro?
–Com o dinheiro da minha poupança. –Ele arqueou a sobrancelha. –Por que?
–Por que sabe que aquele outro dinheiro é ilegal. Vai ter que se livrar dele mais cedo ou mais tarde.
–Não tem como, sabe disso.
–Tem sim. –Disse calmamente. –Desmonta a empresa, doa o dinheiro e pronto.
–Não ta falando sério. –Ele a fitou rapidamente.
–To sim. É um patrimônio gigante, que não paga imposto por que pra todos os defeitos não existe! É crime! Você é inteligente, não precisa disso!
–Vou ver se tem um jeito de reverter isso. Sei lá, pagar o que a empresa deve... É uma solução não é?
–Não sei. Mas, meu tio sempre diz que não tem como alguém fazer fortuna de uma hora pra outra honestamente. Tenta saber também o que mais o seu pai andou fazendo.
–Seu tio? –Ele riu sarcástico. –O que esta preso? Claro, não vou esquecer de fazer uma consultoria com ele!
Sam o fitou por um tempo incrédula e depois mirou a janela sem dizer mais nada. Sentiu ímpetos pedir que ele parasse o carro, pois não queria ir a lugar algum atrás de nada que o ajudasse a ficar mais perto daquele maldito dinheiro, mas conteve-se. Não estava reconhecendo aquele garoto ao seu lado. Permaneceu em silencio durante o resto da viagem.
Carly conversava com Gibby na escada de emergência do Bushwell, enquanto esperava o pai. Ele falava sobre o estado em que Jeremy voltara a ficar, depois de ter recebido a carta de Wendy, mas percebeu que ela estava distante. Se mostrou feliz ao saber da carta, mas ela pouco falava, olhava constantemente para o relógio e suspirava a toda hora.
–Aconteceu alguma coisa, Carly?
–Aconteceu. Meu pai devia ter a aparecido há uma hora atrás!
–Ele é um homem importante... Deve ter acontecido algum imprevisto.
–Eu deixei de ir fazer algo importante!
–Que pena. Mas falando nisso, eu tenho que ver minha mãe. Meu pai ficou de ir me visitar hoje, e eles costumam brigar quando estão sozinhos.
–Ah, claro! Me liga depois pra gente ir ver o Jeremy. Tem falado com a Missy?
–Tenho sim. Continua a mesma. Até mais.
–Thau, Gibby.
Carly continuou sentada, olhado para a cidade, pensando que poderia estar na estrada àquela hora. Spencer havia saído com uma mulher, e ela havia dispensado todos os convites que recebera para sair naquele sábado, acreditando que o pai iria vê-la. Após algum tempo sentada ali, ela levantou e foi pro seu apartamento. Nada que um bom sanduiche não pudesse fazer!
Entrou em casa, pôs uma roupa mais confortável e foi para a cozinha. Preparou um hambúrguer enorme, pegou uma lata de coca cola e sentou na frente da TV. Durante a semana, faria uma dieta para compensar as calorias que ganharia naquela extravagância.
Quando estava prestes a morder o hambúrguer, a campainha tocou. Uma ponta de esperança de que fosse o pai a fez se dirigir a porta sorrindo, mas o sorriso se desvaneceu do seu rosto ao ver que não se tratava do seu pai.
–Posso entrar?
–Não, Griffin fala daí mesmo.
–Eu vi o Gibby saindo daqui. Esta sozinha?
–Não. Tenho facas bem amoladas na cozinha!
– Carly por que não pensa na minha proposta?
–De namorar escondido? –Disse voltando ao sofá. –Eu já pensei. Não.
–Esta sendo boba. Olha a Sam e o Benson, deu certo!
–Isso é problema deles. Jamais vou me submeter a isso, mesmo por que eu não sinto mais nada por você!
–Tem certeza? –Perguntou fechando a porta. –Depois vai se arrepender...
–Griffin, vai embora!
–Não. – O garoto sentou no sofá e se apossou do hambúrguer. –O que vamos assistir?
–Um filme chamado “Meu pai esta chegando”, conhece?
–Nossa, detesto esse filme! –Disse levantando. –Se mudar de ideia, eu to la em casa, de bobeira...
–E assim vai permanecer.
Griffin assentiu contrafeito, mas antes de se afastar, inclinou-se e deu um rápido beijo sobre os lábios da garota. Afastou-se sorrindo ignorando os insultos que a menina lhe lançou. Quando ele se foi, Carly se pôs a devorar o hambúrguer com voracidade. O esforço que teve de fazer para não agarrar aquele garoto dobrou sua fome. Após algumas horas a campainha tocou novamente e ela se pegou desejando que o garoto tivesse voltado. Abriu a porta e sorriu largamente ao ver ali um homem alto, forte e com um ar exausto.
–Filha desculpe. –Disse após um abraço. –Não posso sair com você hoje, surgiu uma emergência.
–Tudo bem. –Assentiu decepcionada. –Então na semana que vem?
–Talvez. Eu ligo pra te dizer se poderemos. Eu realmente sinto muito.
–E a mamãe?
–Esta em um spa em Miami. Ela anda ocupada com jantares de caridade, você sabe.
–Não eu não sei. –Disse ríspida.
–Carly, por favor.
–Você disse que surgiu uma emergência...
–Ah sim. Mas é confidencial.
–Mas é aqui mesmo na cidade?
–Não, fora!
–Entendo. Nesse caso até mais, pai.
–Até mais querida.
O homem fez um breve aceno imitando uma saudação militar e se foi. Carly fechou a porta e subiu para o quarto. Minutos depois, desceu arrumada decidida a não passar o sábado sozinha. Ligou para alguns amigos, mas todos já haviam marcado encontros, ou estavam passando o fim de semana com a família. Alguns a convidaram, mas ela achou que seria inconveniente.
Carly sentou no sofá e suspirou observando o hambúrguer abandonado. Devia ter aceitado o convite de Griffin, pensava. Se o pai o visse ali quando chegasse talvez passasse a lhe dar mais atenção. Alem disso ele estava incrivelmente bonito aquela manhã. Foi tirada dos seus devaneios pelo barulho da campainha. Carly abriu a porta e não pode conter um sorriso discreto quando viu o garoto novamente.
–Estava la em baixo quando vi o seu pai indo embora... Cinema?
Ela pegou a bolsa e o casaco atrás da porta e saiu.
Freddie havia levado todos os papeis que encontrara no porão para a sala, onde a claridade era melhor. Após revirar todos os papeis, sentou no sofá exausto, sem ter encontrado nada que pudesse comprovar o que a mãe dissera. Já era quase meio dia, quando Sam apareceu dizendo que tinha comprado um lanche. Ela estava linda, com os cabelos soltos e uma roupa simples. Tinha um corpo magnífico, ele não deixava de observar nunca, mesmo quando estava aborrecido, e naquele momento ele estava muito aborrecido.
–E então? –Disse ela sentando-se no chão. –Achou o que procurava?
–Achei. Houve um atraso dos fornecedores que gerou uma divida com um cliente. Mas nada que comprove que foi o meu tio.
–Hm... Podemos ir agora? –Disse levantando –Eu quero descansar.
–Sam, eu não quis te ofender falando do seu tio no carro.
–Não ofendeu Freddie. –Ela o fitou friamente. –Não viemos aqui por desconfiar do meu tio!
–O que quer dizer?
–O que você entendeu. Agora podemos ir?
–Não. Esta chovendo, e vamos esperar a chuva passar!
–Freddie não posso demorar se não me levar, eu volto sozinha!
–Eu apenas disse que vamos esperar a chuva passar! –Disse elevando a voz. –Ou quer que eu dirija nessa chuva e bata no primeiro poste que aparecer?
–Grita comigo mais uma vez e eu juro que quebro todos os seus dentes!
–Se acha muito durona não é? –Disse friamente voltando a sentar. –Ou simplesmente já se cansou de mim? Algo melhor em vista?
–De que diabos você esta falando?
–Não sei, por que não me diz você?
–Por que se eu soubesse a que droga você se refere, agiria como uma pessoa de caráter e falaria logo sem mandar indiretas!
–Esta dizendo que eu não tenho caráter?
–Estou dizendo que não estou te entendendo! Fala logo o que aconteceu se não quiser que eu vá embora de uma vez!
–Não teria coragem... –Disse com um sorriso desafiador.
Freddie não conseguiu acreditar quando ela deu as costas, abriu a porta e saiu bem no instante em que um raio clareou o seu rosto. Ela só podia estar blefando, não havia como ir longe com um tempo daqueles. Freddie esperou alguns segundos. Nada. Minutos. Ela não voltou. Já estava impaciente, olhou pelas janelas e não a viu. Ligou e ela não atendeu. Será que havia exagerado? Ele se perguntava enquanto esfregava as mãos e caminhava de um lado pro outro impaciente. Quase meia hora depois, Freddie saiu. Não havia nada ali além de uma chuva torrencial e uma rua completamente deserta.
Ao constatar que a chave do carro não estava sobre a mesinha onde deixara, ele caminhou até o veiculo. Sam estava ali dentro ouvindo musica, e observando a chuva e os raios. Seus olhos não expressavam absolutamente nada. Freddie parou em baixo de toda a chuva com a porta do carro aberta, sem conseguir mover um músculo, tamanho era o seu alivio.
–Vamos entrar. Sam, esta me ouvindo? Vamos entrar! –Ele entrou no carro e fechou a porta. –Desculpe, não queria falar daquele jeito com você! Mas quando eu soube, não pergunte como, que você tem falado com o seu ex... Podia ao menos me contar!
Ela permanecia em silêncio.
–Eu já me sinto suficientemente excluído da sua vida, então se você não me conta uma coisa dessas, eu fico achando que sei la que eu não importo pra você...
–E não importa mesmo. –Disse com rispidez. –Só estou aqui por que tenho pena de você. É só isso de que você é digno.
Ele a fitou incrédulo, enquanto seus olhos se enchiam de lagrimas e sua expressão passava de surpresa a indignação. Ela não o olhara uma única vez, estava com as faces avermelhadas e com um leve tremor nas mãos. Freddie observou se era possível dirigir, mas a chuva estava cada vez pior. Desceu do carro e entrou em casa novamente, batendo a porta do quarto.
Os dois lanchavam na praça de alimentação do movimentado Shopping Center, como se fossem bons amigos. A verdade é que ainda se gostavam muito, tinham gostos parecidos e divergiam em pouquíssimos aspectos. Mas era exatamente nesses poucos aspectos que se davam as crises. Forma por esses poucos, porem significativos aspectos que se afastaram um do outro. Agora, ali conversando sobre o filme que haviam acabado de assistir, pareciam aos olhos de quem os visse, um belo casal quando não podiam ser classificados nem mesmo como amigos.
–Precisamos repetir mais vezes. –Dizia ele.
–Até parece que você iria querer... Me diz, o que aconteceu?
–Como assim?
–Está sozinho em pleno sábado...
–Você também esta. Deve ser o destino!
–Eu to falando sério. Onde estão as garotas?
–Por ai. Eu é que só me interesso por uma.
–Bobo. Obrigada por me trazer, fico te devendo uma!
–Sabe como pode me pagar...
–Para, vai. A gente não deu certo antes não é agora que vai dar.
–Eu ainda não desisti. Gosto de você!
–Para! –Disse desviando os olhos –Melhor voltarmos.
–Se você quer... Mas quem sabe um dia, quando não dependermos da aprovação de ninguém...
Carly mirou um ponto distante por um bom tempo e depois fitou o garoto nos olhos. Ali estava alguém por quem ela sempre sentiria algo muito forte, mas que pela tal “aprovação de alguém” se encontrava fora do seu alcance. Mas esse alguém tinha motivos de sobra para ser contra aquele relacionamento. Hesitante, Carly disse:
–Se você e sua mãe não implicassem tanto com o meu pai...
–É ele que implica com a minha mãe. –Ele deu um longo gole no refrigerante. –Somos meio que Romeu e Julieta, não é?
–Não mesmo. Se você se suicidar, garanto que não vou me matar!
–Se eu te ver desmaiada eu também não vou me suicidar.
–Por que não me diz por que sua mãe e meu pai são brigados?
–Por que eu não sei. Não é só com o seu pai, mas com todos os amigos do colégio, deixa isso pra lá não interfere no que eu sinto por você.
–Tanto interfere que terminamos! Acha que é muito grave? Acha que tem a ver com o que houve com o pai do Freddie?
–Sei lá. É só por mim mesmo que quer saber disso?
–Também. Mas como acha que me sinto em meio a isso? Meu pai vem sendo investigado, eu estou confusa...
–Se quer saber, acho que o que houve entre eles foi mera briga colegial. Afinal, não foi seu pai quem incentivou o Benson a levantar a campanha contra os assaltos? Então devia ser muito amigos.
–Meu pai o que? –Ela fez um esforço pra não gritar. –Como sabe disso?
–Minha mãe me disse. Aliás, ela também já não se dava muito bem com o Benson, só falavam o básico. Vamos ficar fora disso, somos outras pessoas, não precisamos nos envolver.
–Eu aceito namorar você escondido se você descobrir o que rolou entre esse pessoal. Pensa, pode ser até divertido.
–Não. Eu sinceramente nem quero saber.
–Então até mais. –Ela levantou com um ar sério. –E não os nossos pais, mas a sua covardia mais uma vez se pões entre a gente. Até, Griffin.
Carly se afastou rapidamente em direção à saída do shopping com a mente fervilhando. O esforço que fazia para confiar no pai não era mais suficiente diante das evidencias. Uma lágrima rolou pela sua face, enquanto ela entrava angustiada no taxi. Não bastasse ser apaixonada por um covarde, ainda tinha de suportar a ideia de que o pai era sim suspeito. Rezava para que Freddie encontrasse algo que revertesse aquilo tudo.
Sam já estava com os punhos doendo por causa dos socos que dera no interior do carro. Como Freddie podia ser tão estúpido ao ponto de acreditar numa mentira daquelas? O pior é que ela tinha certeza, de que se não fossem pelas circunstancias, ele jamais diria nada, e eles teriam tudo ameaçado por aquela intriga barata. Ela se esforçava para pensar em quem poderia ter dito aquilo, até que se lembrou da mãe, conversando amigavelmente com ele.
–Claro!
Ela abriu a porta do carro, e saiu correndo em direção à casa. A chuva parecia ter ficado mais forte é que era possível, e ela chegara a conclusão de que ter ido para tão longe não fora de fato uma boa ideia. A sala estava vazia e escura, e ela precisou ascender a luz para arrumar a bagunça que Freddie tinha feito. Ela pôs de volta todos os papeis na caixa, com exceção dos que ele dissera ser importante, deixando-os sob a pequena mesa de centro.
Observando bem a casa, Sam percebia que era muito bonita e bem decorada. A maioria dos moveis eram de uma madeira escura, no enquanto as paredes tinham um tom claro. Haviam poucos quadros e objetos de decoração, mas todos de muito bom gosto, que pareciam combinar perfeitamente com o ambiente.
Quando deu a arrumação por encerrada, ela foi até o quarto que estava com aporta fechada. Entrou sem bater, e se aproximou da janela onde Freddie estava vendo a chuva. Se ele percebeu o momento em que ela entrou no quarto, não demonstrou.
–Eu estava certa. -Disse após um suspiro. –Devíamos ter vindo em outro dia.
–Desculpe por ter te trazido aqui. –Disse ainda no mesmo tom vago.
–Hei, eu me ofereci pra vir!
–Ah, é. Foi a sua mãe que te ensinou a ser tão generosa? –Perguntou num tom sarcástico.
–Sabe... –Ela deu um longo suspiro. –Minha mãe namorava um cara que tinha grana. Quando engravidou dele ele foi embora dizendo voltaria depois para que se casassem. Ele voltou. Casado. E só voltou por isso. A mulher dele era estéril, e ele queria uma criança. Como éramos duas, ele decidiu ficar com uma.
–Você tem uma irmã? –Ele a olhou de relance.
–Gêmea. Tínhamos dois anos quando ele foi passar uma semana dizendo sentir saudade da agente. Mas ele estava apenas observando qual de nós duas levaria. Como eu era um pouco mais hiperativa, ele levou a Melanie. É o que a minha mãe me diz. A Melanie vem aqui as vezes mas a cada dia eu a reconheço menos. –Ela fez uma longa pausa. –O fato é que se fossemos uma, e não duas, ele levaria de qualquer jeito e minha mãe sofreria ainda mais. Eu acho que no fundo ela ainda gosta dele.
–Ai ela acha que eu...
–Não só ela, Freddie. Quantas pessoas também não pensam assim? Aliás esse é o tipo de história que acontece todo dia!
–Eu não sou assim.
–Eu sei! Mas se você continuar se deixando levar por intrigas a gente vai terminar se separando! Tem que confiar em mim! A última vez que o Michael me ligou tem mais de seis meses!
Ele ficou em silencio, parecendo um pouco constrangido com toda a confusão. Depois disse com um tom indiferente:
–Tudo bem. A chuva ta passando, logo a gente vai poder voltar. Se importa de me deixar sozinho?
Sam não teve como disfarçar a frustração. Saltou um suspiro, deu as costas e depois voltou buscando as palavras. Ele permanecia na mesma posição de quando ela entrara, com as mãos no bolso. Se perguntava por que as pessoas diziam tantas besteiras quando estavam com raiva.
–Me desculpe pelo que eu te disse. –Ela tinha a voz tremula – é claro que você importa pra mim, importa muito. Só disse que sinto pena de voce por que tava com muita raiva, isso não é verdade! –Ela hesitou antes de continuar, depois segurou o rosto do garoto e o virou fazendo com que seus olhos se encontrassem. – Eu amo você.
Sam observou apreensiva o conflito interno pelo qual ele parecia estar passando. Ao entrar no quarto, Freddie decidira ser firo e impassivo independente do que ela dissesse. Ela só podia fazer aquilo de propósito, para testar o poder que tinha sobre ele. Um misto de ódio e satisfação o fizeram se voltar pra ela destinado a dizer um “Eu também” frio e indiferente. Ali estavam aqueles olhos azuis fitando-o.
–Eu também amo você. –Disse num tom exausto –Muito.
–Eu sei. –Ela sorriu vitoriosa. –Agora se me da licença...
–Não dou não. –Disse puxando-a pelo braço.
Ele a segurou com força pelo braço sendo invadido por um prazeroso sentimento de posse. O olhar dela vacilou no instante em que um sorriso começava a se formar no canto dos lábios dele. Com a roupa úmida, os cabelos desgrenhados e aquela expressão, Freddie deduziu que devia estar parecendo um louco. Ela parecia assustada, e Freddie achou que era melhor deixa-la ir. Mas no instante em que a saltou, ela o beijou nos lábios.
Sam sabia que devia ter saído quando teve oportunidade, mas o jeito como ele a olhou, e depois sorriu a impediu de pensar direito. Os lábios dele exerciam sobre ela um forte magnetismo. Mas não só os lábios, todo o corpo dele a atraía.
Ele a enlaçou pela cintura, pressionando-a conta si, enquanto ela acariciava-lhe os cabelos úmidos. Suas línguas entrelaçadas dançavam num ritmo lento e envolvente e ignorando o risco, Freddie levou uma das mãos até um dos seios da garota, que para sua surpresa, apenas aprofundou o beijo.
Minutos depois, Freddie estava com as mãos sob a blusa que ela usava, acariciando a pele macia e alva por debaixo dos tecidos. Ela se arrepiava constantemente e soltava suspiros prazerosos quando ele descia os beijos ao pescoço dela. Mas no momento em que ele começou a caminhar em direção a cama, levando-a junto, ela fez uma leve pressão nos ombros dele. Ele sabia que ela estava hesitando, que deveria parar, mas não dominava mais a si mesmo. Ela teria de fazer muito mais do que aquilo para conseguir conte-lo, mas aparentemente pra ela estava quase tão difícil quanto pra ele. Quando finalmente a deitou na cama, Freddie sustentou o corpo com as mãos e friccionou o quadril sobre o dela enquanto suas línguas estavam entrelaçadas. A pressão que ela ainda fazia para tentar afasta-los cessou, as mãos dela desceram de encontro aos botões da blusa que ele usava, abrindo-os, e quando se encontrava despido da cintura pra cima, Freddie levantou e fechou e a persiana da janela.
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