Conexão Seattle
7 Confusos
Notas iniciais
Durante a semana, houve uma breve audição na escola para decidir quem cantaria na abertura da festa de encerramento do ano letivo. Sam ganhou, e aproveitando-se da ausência da mãe, deu uma pequena festinha no sábado de manhã para comemorar.
Não é um horário bom para festas, mas no fim da tarde teria que gravar o Conexão Seattle, e a noite a mãe estaria em casa.
Apenas os amigos da banda e Brad (que era o "empresário") estavam, e foi só quem ela convidou. Depois de dançar muito e tomar dois goles de um drink de morango com leite condensado, estava sentada no chão da sala olhando pro nada quando Brad se aproximou.
–Sam! Posso saber por que você esta assim?
–Assim como, Brad?
–De uma hora pra outra fica estranha, distante....
–Impressão sua. Estou tão bem que ganhei aquela droga la.
–Se é uma droga por que quis tanto cantar?
Sam deu de ombros e deitou no chão olhando pra cima. A música alta já estava lhe dando dor de cabeça, sem falar na bebida forte que Shelby fizera. Não gostava de admitir, mas era fraquíssima pra bebida. Alguns poucos ml de álcool já lhe deixavam tonta e enjoada. Estava observando absorta, os demais entornarem copos como se estivessem bebendo água e se perguntava como conseguiam.
Levantou e saiu para o quarto à francesa destinada a dormir.
–O que há de errado com sua amiga, Shelby? –Perguntou assim que ela saiu.
–Não sei ta assim a vários dias. –Shelby estava visivelmente bêbada. -Foi depois que ela trouxe o Spike pra casa. Ele deve ta carregado de energias negativas!
–Sei...
–E por que tanto interesse, Brad? –Perguntou Jonah.
–Não pelo que sua mente suja ta pensando!
–Calma! Tava brincando, vai ver a garota ta de TPM, ué, deixa ela la!
Brad não respondeu, do jeito que estava parecia mesmo que ele tinha algum interesse pela amiga. E tinha. Mas não queria deixar transparecer.
Griffin observou a cena entornando outro copo da batida de sabe Deus o que e se deixou convencer que sua imaginação lhe pregara uma boa peça em relação à amiga. Não demorou muito, voltaram a rir das piadas sem noção de Jonah e dançar desajeitadamente na pequena sala.
Por volta das cinco da tarde, Sam tomou banho, se trocou e desceu encontrando apenas Shelby dormindo no sofá. “Bela festa”, pensou. Saiu para a casa de Carly sem a menor vontade. Mas já estavam atrasados de mais e tinham muitas coisas para por em ordem. Era doloroso admitir, mas os vídeos lhe rendiam muito mais dinheiro que a banda.
No apartamento de Carly, cinco adolescentes conjecturavam sobre futilidades e a festa de encerramento do ano letivo. Era o assunto do momento.
–Tem algo mais ridículo do que a Sam cantar na festa e não a Carly? –Perguntava Wendy.
–Ela deve ter ameaçado o diretor. –Sugeriu Gibby.
–Eu não acho ridículo.
–Qual é, Missy, quer que agente acredite que não se importa com o fato da Sam ser a estrela da noite?
–Não Wendy, sabe por que? Por que essa é nossa chance. –A menina tinha um brilho meio lunático nos olhos. -Vamos nos vingar dela destruindo a apresentação dela por tudo de ruim que ela já fez. Quem esta comigo?
–Eu até estaria. –Disse Freddie. –Se a gente fosse ganhar algo com isso, mas não, só estaremos nos rebaixando ao nível dela.
–Total, Freddie. –Disse Gibby. –Bom ouvir a sua voz.
O comentário de Gibby se devia ao fato de Freddie estar a maior parte do tempo calado, com o olhar perdido. O que mais lhe angustiava não era o fato de ter beijado Sam na semana passada, mas o fato de ter gostado. Mesmo contra sua vontade, sempre acabava se pegando nisso.
–Eu to com a Missy. E o Jeremy também, não é amor?
–Claro . –Respondeu o garoto sem ânimo. Dizer não a namorada não era boa ideia. Mas achava aquilo uma idiotice por um motivo logo revelado por Gibby.
–E quando ela descobrir, a vida de vocês, ou melhor da gente, vai virar um inferno.
–Quando quem descobrir o que, Gibby?
Carly finalmente apareceu da escada. Toda produzida, com um perfume exalando.
Missy não deixou de ficar feliz ao ver que Freddie não saiu de seus devaneios para olha-la como de costume. Continuou atrás do balcão da cozinha com a mão no queixo e o olhar distante.
–Eles querem destruir a apresentação da Sam. –Respondeu Gibby abobalhado com a beleza da amiga.
–Vão em frente. Mas aposto que vocês não vão conseguir. Não é Freddie? –Ela sentou num banco ao lado do garoto.
–Ah, é. –Respondeu sem ter ideia do que dizia.
–Querem apostar? –Perguntou Missy.
–Aposto meus dois vestidos que meu pai me deu no fim do ano. –Adiantou-se Carly. –E você Freddie?
Wendy partiu na frente.
–Um beijo. Se a gente estragar o Freddie paga um beijo. Na Missy, lógico que eu tenho namorado.
–N.. na... não, e eu e-eu..
–Aceito! –Disse Missy sorrindo. –Na frente de todo mundo na festa!
–O que? –Foi um uníssono na sala.
–E se a Missy perder o que ela paga? –Perguntou Gibby.
–Se eu perder convenço meu pai a não lhe importunar mais com propostas de vendas e a Carly, eu dou meu colar de perolas que ganhei da minha vó nos meus 15 anos. Estamos todo de acordo?
Freddie quis dizer que não. Mas poderia magoar a amiga e muito, na frente de todos. Mas não se preocupou muito, pois tinha certeza que seria impossível estragar a apresentação de Sam. Eram apenas três nerds contra uma gang do subúrbio. Mas Missy estava determinada a ter seu beijo. Por isso e por outros motivos.
Seu pai tinha contraído uma divida com um agiota e a ultima coisa que ela faria era levar problemas para ele. Ainda mais esse. Só não sabia como ele pretendia comprar um imóvel se estava endividado.
O celular de Carly vibrou anunciando a chegada de Sam.
–Freddie, a Sam chegou vamos subir.
–Vai na frente que eu já vou indo. –Respondeu desanimado.
Carly subiu pelo elevador e encontrou Sam deitada no puff com expressão de profundo tédio. Não o mal humor de sempre, pronta a distribuir patadas, mas uma expressão vaga como se não soubesse o que estava fazendo ali.
–Sam! –Ela sentou a sua frente e a olhou amavelmente. –Ta tudo bem? Se não estiver passando bem, pode ir, e gravamos outro dia.
–Não é nada. –A loira deu um longo suspiro. -Mas sabe quando você faz uma coisa muito ruim e gosta?
–Como isso é possível?
–Tipo usar drogas, sabe? –Ela tinha uma voz mais entediada que a cara. -Você sabe que é ruim, sabe que faz mal, mas gosta.
–Você...
–Não, Carly,é só um exemplo! –Sam gargalhou. –Vamos mudar de assunto.
–Ta bem -Carly assentiu rindo confusa.
– Sabe, eu tava pensando a gente devia fazer algo diferente no Conexão Seattle. A gente já fez sobre paquera, compras de garota, escola e hoje é maquiagem. Acho que esta tudo muito fútil, que tal se fizéssemos algo mais universal?
–Como assim?
–Algo que fosse alem do publico infanto-juvenil.
–Mas esse é nosso publico.
–Eu pensei que a gente poderia satirizar algo mais adulto, sem ser sexo lógico.
–Hum, parece legal...
–Eu só não sei como...
–Deixa comigo, eu pesquiso e você faz as sátiras, ok.
Ambas riram uma pra outra e se puseram a arrumar o lugar. Gravariam um vídeo sobre maquiagem. Uma sátira, obviamente. Freddie chegou logo depois e mesmo não querendo foi obrigado a falar com Sam. Na escola ainda podia evitar, mas ali não.
Eles não pareciam nem um pouco diferente, um com outro. Sam continuava a insulta-lo, a fazer piadas grosseiras e ameaças. Freddie continuava com sua postura arrogante falando constantemente sobre o desprezo que lhe causava dividir o espaço com ela.
Sobre o beijo, nenhum dos dois falou mais. Era como se não tivesse acontecido.
Carly deu inicio a gravação do vídeo assim que Freddie deu o sinal com a câmera ligada.
–Você sabia que o habito de se maquiar nasceu no Antigo Egito? Sabia que naquela época ter a pele clara significava ser da nobreza e mais escura, ser escravo, já que ficavam expostos ao sol? Mas eram todos morenos, os egípcios, então para se diferenciar, as mulheres da nobreza passaram a fazer uso de pós embranquecedores e tomavam banhos de argila e diversos tipos de leite na tentativa de clarear a pele! Somado a isso, eles também pintavam os olhos em sinal político de respeito, para evitar que os olhassem nos olhos e...
Sam a interrompeu.
–Tudo mentira. Isso começou muito antes! Agora, em primeira mão, tudo dobre a verdadeira história da maquiagem! As maquiagens surgiram quando um pterodátilo se apaixonou por um tiranossauro. Entretanto, o tiranossauro não o quis, e pterodátilo magoado saiu chorando. Correu tão depressa que tropeçou numa poça de lama. O tiranossauro o viu assim e se apaixonou. Todas as tardes, quando o tiranossauro vinha, o pterodátilo se cobria de lama, e foi desenvolvendo técnicas de maquiagens. E assim nasceu esse belo habito que as jovens possuem de se maquiar toda manhã. E viva aos pterodátilos! Viva a lama!
Elas prosseguiam na discussão falando sobre técnicas de maquiagem tentando misturar a maquiagem da Cleópatra com alguém sujo de lama. Esse alguém eram elas mesmas.
O fim do vídeo consistia em ambas jogando maquiagem e lama na cara uma da outra. Freddie não conseguiu segurar o riso.
Quando encerraram, Carly e Sam desceram para se limpar..
Freddie permaneceu no lugar por mais algum tempo ajeitando as coisas no estúdio. Estava dando tempo pra Sam ir embora para poder conversar com sua amiga, e quando achou que havia passado tempo suficiente, desceu.
Se deparou com uma visão no mínimo diferente. Sam estava sentada na beira da cama de Carly, usando apenas um short preto muito curto e justo, que deveria ser uma calcinha, e uma blusa preta de alcinha. Estava de cabeça baixa passando algum produto nas pernas. Ela começava a massagem dos dedos dos pés e levava as mãos até as coxas. Estava de lado para a porta, e com a cabeça baixa, os cabelos caindo pelos ombros, cobriam-lhe o rosto. Alguns fios descansavam nas costas. “Sai daí agora”. Esse era aquele tipo momento em que o ser humano não ouve a própria mente, e se deixa levar pelos sentidos. A garota tinha as pernas brancas e bem torneadas. Da posição em que estava, era possível ver o contorno dos seios e a ponta do sutiã roxo que usava. Quando se deu conta de que era observada, a garota olhou distraída para a porta certa de que era Carly e suas feições foram mudando de surpresa pra muito brava.
–D... Desculpe. E- eu pensei que fosse a Carly...
–SAI DAQUI, SEU IMBECIL! -Gritou indignada sem sair do lugar.
Freddie finalmente usou o raciocínio e saiu dali. Quase correndo.
Encontrou Carly na escada e perguntou aflito:
–O que ela faz no seu quarto?
–Se trocando. Você entrou sem bater?
–A porta tava aberta.
–Vai pra casa, — Carly tentava segurar o riso. -quando ela sair de la não posso me responsabilizar por ela.
Carly observou o menino descer as escadas até desaparecer e ouviu o barulho da porta da sala se fechando. Entrou no quarto, Sam estava no mesmo lugar terminando de passar seu creme.
–Sam desculpa o Freddie é que...
–Não sabia que eram dados a essa intimidade. –Interrompeu visivelmente transtornada.
–Por que não fechou a porta? –Carly perguntou com tom ofendido. -Ai ele teria batido!
–Pensei que só estávamos nós aqui.
–Você tava nua?
–NÃO! Tava assim. — Disse ruborizada.
–Ta, então já chega de drama, pior é na praia. Alias eu tenho shorts menores que essa sua
As duas riram e Sam disse que queria ver os tais shorts curtíssimo de Carly. Ficaram até as oito vendo umas roupas e falando bobagens. Depois desceram e ficaram na cozinha comendo almôndegas que sobraram do almoço.
–Diz ai Carly, nunca rolou nada, mesmo entre você e o nerd la? –Perguntou Sam desinteressadamente.
–Não. –Respondeu no mesmo tom. -O fato da gente ter crescido junto me faz ver ele como um irmão. Sabia que nossos pais são muito amigos? Eu conheci ele e a Missy através dos nossos pais. Eram todos colegas de faculdade.
–Sei. –Disse com a boca cheia.
–Tem um vídeo do casamento dos pais do Freddie la no estúdio, é meio tosco.eu peço permissão a ele amanhã e te mostro, ta?
– Ok. –Sam levantou sorrindo. -Mas eu já vou indo to muito cansada. E já são oito horas, extrapolei hoje!
–Ta bem. Vem aqui amanhã que te mostro o vídeo. –Disse a morena sorrindo animadamente.
–Me leva a mal não, mas eu não me sinto motivada a ver isso. Bem que podíamos jogar esse vídeo no Conexão Seattle, não é?
–Ai o Freddie surta..
Sam gargalhou com a possibilidade. Mas aquilo de fato seria muita crueldade. Principalmente com quem ia assistir. Se despediu de Carly e foi pra casa.
Assim que Sam saiu, Carly foi até o apartamento de Freddie. Marissa a deixou ir até o quarto dele, e la estava o garoto, sentado na cama com o notebook no colo.
–Oi! –Cumprimentou Carly entrando. –Ta melhor?
–Melhor do que?
–Você tava branco como cera quando saiu la de casa.
–Foi só o susto. –Disse rindo
–Ah, deixa de drama, ela ta meio fora de forma, mas não é pré tanto.
Freddie levantou os olhos para a amiga. Certamente o corpo magrelo dela não o teria feito cair em baixo do chuveiro frio assim que chegou em casa. Mas era bom saber que Carly não entendeu nada. Na verdade ele também não, Carly devia estar com razão devia ter se assustado, se sentido enojado, mas nada disso ocorreu.
–Não devia tê-la deixado sozinha no seu quarto.
–Ela precisava de um banho.
–E por que demoraram tanto? Fiquei dando tempo la em cima pra ela ir embora...
–Por que eu tomei banho primeiro. Ai desci pra deixar ela a vontade...
–Tudo bem deixa pra la. –Disse dando de ombros.
–Eu vou indo. –Disse a garota se levantando. -Tenha uma boa noite. Se é que é possível.
–Vou tentar. –Respondeu sorrindo.
Assim que ela saiu, se jogou na cama. A imagem não lhe saia da cabeça. Nem em seus vídeos “animados” que assistia na internet, uma cena jamais lhe causara tamanha serie de arrepios prazerosos. Afinal, foi ao vivo. Achava que garotas daquele tipo, só na Tv, a base de silicone e Photoshop, mas existe.
–Oh, inferno! –Foi um grito. De impaciência, de raiva e de frustração.
Freddie sonhava em encontrar uma linda garota delicada, linda e meiga por quem se apaixonar. Carly era sua idealização de mulher perfeita. Mas o fato de passar horas com ela e nunca sentir nada parecido com o que sentiu aquela manhã, ou essa tarde o atormentava, o assombrava.
–Eu só posso estar ficando louco.
O garoto desligou o computador e o pôs na cômoda. Deitou e não demorou a dormir. Em algumas horas a imagem perderia o efeito inicial sobre os seus hormônios e ele voltaria ao normal. Garotas bonitas existem aos montes pela cidade, e nenhuma delas segundo ele, são cruéis e desprezíveis como Samantha Puckett. Não fosse por Carly, já teria largado o web show a muito tempo.
Pra completar, tinha que torcer pra Missy não conseguir estragar a apresentação dela, ou teria que beijar a ruiva na frente de todos.
Sam empurrou a porta da cozinha com o pé. Saiu de la com os pratos e serviu a mesa sob os aplausos de Shelby e sua mãe. Sentaram e comeram enquanto conversavam, sempre era ela quem preparava as refeições, era quem tinha mais tempo das três. Quando raramente jantavam juntas, era aos sábados, e por volta das dez, como agora. Era sempre muito animado.
Ficaram conversando um pouco e depois Sam resolveu escovar os dentes e deitar. Dormir era outra história. Ficou olhando Spike em sua caixinha forrada de jornal dormir tranquilamente.
Pensava no seu agitado sábado. A festa chata pela manhã, a gravação divertida a tarde, e o incidente no quarto de Carly. Seu rosto queimava de ódio ao lembrar.
A imagem de Freddie olhando pra ela como se fosse uma aberração a transtornava. Sabia que não tinha o corpo adoravelmente esquelético da maioria das menininhas da sua idade, mas não era pra tanto. Pior do que isso só a importância que ela dava ao que ele achava dela. Inaceitável. Precisava dar um basta nisso. Mas nada como um dia após o outro, e aquele já havia sido cheio de mais.
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