Conexão Seattle
37 A última charada
Notas iniciais
Uma coisa parecia se desprender daquela situação: Que fora o fato de Sam ter se aproximado de duas pessoas que não apenas moravam no centro, mas que também eram filhos de quem eram que desencadeara tudo aquilo. Ela passou a representar uma perigosa conexão entre o subúrbio e o centro da cidade de Seattle, o que certamente significava uma ameaça para alguém que vinha se beneficiando dessa divisão que se instaurara na cidade.
E de todas as pessoas que Freddie conhecia havia uma que sempre o induzira a ficar longe de qualquer pessoa que morasse naquela região.
"O que você tem não lhe pertence de fato
Devolva ao menos uma parte ou ela morre
Saia agora e não fale com ninguém"
Eram as ordens escritas na mensagem entregue pelo detento na prisão, e Freddie não ousou desobedecer. Não sabia quem era “ela”, mas tinha um pressentimento estranho sobre aquilo tudo que o fez sair da penitenciária sem duvidar daquelas frases ou tampouco mostrá-las a alguém.
Após passar por todas as recepções, e recuperar alguns objetos que ficaram na primeira, como celular e o relógio, Freddie caminhou apressadamente e um ponto de ônibus onde havia maior movimento de pessoas e por alguns segundos se pôs a tentar organizar os pensamentos. Não tinha ideia do que fazer mas achou que era melhor verificar se pelo menos as pessoas mais próximas estavam bem. Pensou em ligar para Sam, pois a considerava a mais vulnerável naquele momento mas antes que pudesse encontrar o nome dela na agenda um homem desconhecido aproximou-se encarando-o.
Freddie se manteve firme devolvendo o olhar.
–Olá garoto, vejo que se meteu numa encrenca!
–Quem é você e do que está falando? -Perguntou sério.
–Falo das suas tentativas de bancar o Sherlock Holmes. Foi isso que ocasionou o sumiço da garota loira, a família dela está bastante preocupada, sabia?
Freddie não conseguiu pronunciar uma palavra que fosse apenas se deixou dominar pela sensação de estar caindo num abismo profundo.
–Mas eu estou disposto a te ajudar, sei com que tipo de gente está lidando, só peço que confie em mim, fui um grande amigo do seu pai. Me chamo Davis.
Freddie olhou hesitante para os lados e pensou em sair imediatamente dali, mas o simples fato do homem ter mencionado o sumiço de uma garota loira o fez esquecer o perigo que era andar com um estranho naquele momento. Mesmo sem saber se aquilo era mesmo verdade, Freddie se pôs a acompanhar o homem até um bar onde se sentaram a uma mesa afastada das outras pessoas.
–Onde está a Sam? -Freddie foi logo perguntando.
–Eu não sei. -Respondeu o outro. -Mas posso te ajudar a encontrá-la
–E o que você quer em troca?
–Que você desfaça uma injustiça cometida pela sua família.
–Que injustiça? -Perguntou cético.
–Engraçado você perguntar isso a mim. -Disse sorrindo. -Bom, pra começar o seu pai se apropriou indevidamente de uma propriedade intelectual que não pertence a ele. Os códigos de segurança.
–Se diz amigo do meu pai e o chama de ladrão? -Perguntou o garoto. -Estranho isso.
–O fato de eu ter sido amigo dele não me obriga a concordar com tudo o que ele fazia. Ele enganou os próprios amigos, Freddie para ficar com algo que não pertence a ele, acha isso certo?
Freddie não respondeu.
–O que eu peço nesse momento é que você repare isso.
–Como? -Perguntou friamente.
–Robinson, McCartney e Roger estão nesse momento reunidos, tentando se fortalecer numa sociedade. Dois deles estão falidos, todo o capital está sendo disponibilizado pelo Steve. O sobrenome Benson tem força nessa cidade, garoto se você entrar nessa sociedade, seja com capital, ou com a marca Play&Back, isso fará muita diferença pra eles, e você estará sendo justo.
–Então sequestraram a Sam para que eu concordasse com isso?
–Não tenho nada a ver com o sumiço da menina, acho que ela é quem anda metida com o que não deve, apenas me proponho a te ajudar, desde que nos ajude também.
–Está bem, eu aceito. Quando será feito isso?
–No sábado, num jantar que o Steve oferecerá para apresentar a nova sociedade. Será uma honra ter você entre nós, Fredward.
–Veremos. Por que não poderão contar com o sobrenome Benson se a Sam não aparecer ainda hoje.
–Hei, já disse que vou ajudar mas não tenho nada a ver com...
–Tenho certeza de que fui suficientemente claro. -Disse levantando e retirando-se dali.
Mas não assino nada antes de ver ela, e mais insinue qualquer coisa sobre a índole dela novamente e eu arrebento toda a sua cara.
Dizendo isso, Freddie levantou e saiu apressadamente dali, destinado a falar com a única pessoa do antigo grupo de amigos do pai que não fora citada na tal sociedade, e talvez a que mais tivesse sido atingida nos últimos dias, chegando ao ponto de quase perder a filha de forma brutal.
Com um pouco de esforço, Carly já conseguia balbuciar algumas palavras, quase todas relacionadas a sua aparência. Na primeira vez em que ela acordou, fora preciso sedá-la novamente pois ela ficara extremamente nervosa ao saber que vários amigos, incluindo Griffin estiveram ali e a viram naquele estado. Agora, um pouco mais conformada com o fato, ela já conseguia conversar mais calmamente, sobretudo com Spencer que não saia de perto da cabeceira da irmã.
–Você está linda irmãzinha, sempre está, não tem por que ligar pra maquiagem.
–Tenho uma reputação a zelar. -Disse baixo
Ela falava com dificuldade dando longas pequenas para respirar.
–Eu sei, mas procure não se cansar. Durma um pouco está bem?
Ela assentiu sorrindo e fechou os olhos cedendo ao cansaço que sentia, mesmo tendo conversado por apenas alguns minutos. Sabia que isso se devia as lesões no pulmão e como desejava se recuperar depressa, seguia a risca todas as recomendações que lhe eram feitas.
Não demorou muito e ela voltou a dormir, agora usando apenas um único aparelho para auxiliar na respiração mais as aplicações de soro a que seus braços estavam ligados. Cerca de 20 minutos após a menina pegar no sono, o pai dela entrou no quarto e sentou numa poltrona onde passou a conversar com Spencer.
Eles esqueceram que o sono de Carly não estava mais condicionado aos efeitos do remédios.
–Quando contará a mamãe? -Perguntava Spencer.
A vos dele estava distante, mas aos poucos ela foi despertando e passava a ouvir com mais clareza a conversa baixa que o pai e o irmão tinham encostados a janela.
–Ela não precisa saber.
–Sabe que precisa.
–Spencer, por que falar disso agora?
–Por que não pode esconder isso a vida toda! Sabia que outro dia a Carly me perguntou pela Helena? E se ela souber de alguma coisa?
–O que? Não tem como ela saber, por que ela perguntou, por que ela perguntou?
–Não sei. Aparentemente o Freddie é quem estava interessado mas não vai demorar até que ela sozinha junte dois e dois e descubra que o senhor tem outra...
–Nunca descobrirá, tenho uma reputação a zelar, Spencer!
Parecia que diante de tal argumento, tudo o que restara a Spencer foi dar meia volta sem dizer mais nenhuma palavra tamanha era sua indignação. Mas ver Carly com os olhos abertos, encarando-os pasmada o fez parar no meio do quarto completamente sem ação.
Eram por volta das onze da manhã quando Freddie bateu no escritório de Arthur que se encontrava sentado confortavelmente em sua cadeira assistindo a um programa sobre vida animal. Ele pareceu surpreso ao ver Freddie, que foi se adiantando:
–A sua atendente me deixou entrar. -Disse -Eu vim comunicar uma decisão.
–Qual?
–Vou vender a loja.
–Como?
–Vou vender a loja. Tio pegaram a Sam e agora estão me propondo uma troca, eles sabem de tudo não vão entrega-la se eu não aceitar entrar na sociedade.
–Ok, vamos com calma. -Disse desligando a TV. -Sei que gosta da Sam mas vamos com calma.
–Não tem conversa. Só preciso que me ajude com a papelada!
–Freddie tem de haver outra saída se deixar que usem a Sam para chegar aonde querem, farão isso a vida toda com as pessoas que você ama.
–Não por que é só a loja que querem, essa droga de loja que tem infernizado a minha vida! Por causa dela o meu pai morreu, minha mãe vive amargurada, vocês dois não se falam e agora a Sam? Ela não tem nada com isso!
–Tem sim Freddie sabe que tem. Ela escolheu entrar nisso.
–Não, ela escolheu ficar ao meu lado. -Disse -Tio, por favor nada do que disser me fará mudar de ideia.
–Freddie...
–Tio, serpa que não entende a gravidade disso? São eles, os antigos amigos do meu pai estão tentando ter os códigos novamente farão de tudo para conseguir não posso deixar a Sam em risco!
–Sei, mas podemos encontrar outra saída.
–Qual?
–Não sei, mas não deixe que eles percebam o quanto essa garota importa pra você.
–Acha mesmo que já não sabem?
O homem girou impaciente e voltou-se novamente ao garoto olhando-o nos olhos.
–Freddie, seu pai levou uma vida construindo o que você tem. Quem garante que ficará com a Sam a vida toda?
–Ninguém. Na verdade não estamos juntos agora.
O homem encarou o garoto confuso esperando uma explicação que não veio.
–Freddie, talvez um deles, ou mesmo todos eles... Tenha sido o responsável pela morte do seu pai. Vai mesmo deixar que eles vençam?
–É a Sam, tio. -Disse determinado. -Se não puder providenciar a papelada por favor avise, eu peço ao advogado.
–Não se preocupe. -Disse o homem. -Eu cuidarei disso.
O garoto assentiu e saiu logo em seguida.
Quando estava prestes a cruzar a porta, Freddie lembrou que passara um bom tempo sem se comunicar com a mãe e, ao ver que o celular descarregara completamente pediu a vendedora do pet shop para usar o telefone. Ao por o objeto no ouvido, reconheceu de imediato a voz do tio pela extensão.
–Retenha todas as ações, não deixe que o meu sobrinho faça qualquer movimentação. -Dizia o homem. -Em quinze minutos chego aí.
Freddie desligou o telefone o mais rapidamente possível e saiu apressado acenando rapidamente para a vendedora. Estava surpreso, irritado confuso e acima de tudo desesperado. A única pessoa com quem podia contar acabava de traí-lo friamente, demonstrando que mesmo as coisas que ele contara poderiam ser mentiras.
A fechadura cedeu a primeira tentativa de arrombamento o que facilitou bastante a saída de Sam do galpão onde fora deixada. Ela passou então a se preocupar com os latidos do cachorros vindo de algum ponto do enorme terreno em que se encontrava, completamente coberto pelo mato que lhe ia até metade das pernas. Era difícil caminhar por causa disso, a vegetação provocava uma intensa irritação em sua pele o que aliado a fome que sentia a deixava cada vez mais irritada.
Ela já estava no limite das suas forças quando avistou uma pequena vila que de imediato reconheceu ser perto da região onde morava. Já estivera ali algumas vezes, a última delas fugindo de dois policiais que perseguira ela e o resto da Purple por eles terem atirado ovos numa viatura.
A rua estava vazia como de costume, a exceção de duas crianças que brincavam no passeio, há alguns metros de onde Sam estava. Ela tentou se aproximar, a fim de pedir ajuda, mas foi quando de dentro de um belo sobrado, saíram dois homens, um deles com uma reluzante tetuagem de serpente no braço. Eles ficaram surpresos ao ver a garota mas isso não os impediu de irem imediatamente ao local onde ela estava.
Reunindo as forças que lhe restavam ela se pôs a correr o mais desesperadamente possível na direção contrária, mas um outro homem, com dois cães presos a coleiras caminhava lentamente na mesma direção dela que se viu sem alternativa a não ser permanecer onde estava.
–Boa tentativa, loirinha. -Disse um dos homens atrás dela. -Não sei como conseguiu sair do quarto mas isso certamente deixará a Olivia irritada.
Dizendo isso, ele a pegou pelo braço e a arrastou até o sobrado de onde havia saído sendo seguido pelos dois outros homens. Sam estranhava que os latidos dos cães não estivessem chamando a atenção nem mesmo das crianças, que agora haviam sumido, o que poderia significa que as pessoas ali questionava o comportamento suspeito dos vizinhos.
Quando chegaram ao sobrado, Sam percebeu que a casa não era tão pequena quanto aparentava ser, havia mais terreno para trás contrastando com as demais construções ali. A fachada era velha e mal cuidada como as demais, mas não demorou para Sam perceber que aquilo era de fato apenas uma fachada. O primeiro cômodo pelo qual passaram também parecia uma simples sala de estar, com alguns móveis antigos, mas a sala onde o homem a jogou era moderna e elegante: paredes azul e branca, móveis prateados, um forte ar-condicionado e uma pequena janela gradeada. No quadro atrás da mesa, havia a foto de uma mulher que Sam reconheceu horrorizada.
–Helena? -Disse. -Mas o que...
–Por que diabos a trouxeram para cá? -Perguntou Olivia levantando. -Disse que ela não poderia sair do galpão, será que não conseguem cumprir uma simples ordem?
–Ela saiu sozinha, nos viu saindo daqui. -Respondeu o tatuado. Achei que seria melhor deixa-la aqui.
Olivia deu um suspiro cansado e sentou novamente.
–Sam, por que não me ouviu quando disse para se afastar do Benson?
–Não estamos mais juntos, já disse! -Disse erguendo-se.
–Hm... Vocês, podem se retirar, -Disse dirigindo-se aos homens. -Os chamarei se precisar. Já que a trouxeram, vou fazer umas perguntinhas a essa linda mocinha. Sempre quis que namorasse o Griffin, sabia?
Sam observou os homens saírem lentamente da sala fechando a porta logo em seguida e depois encarou a mulher.
–Por que essa foto?
–Acha que te devo explicações? Eu faço as perguntas. O que mais você e o Benson andaram descobrindo enquanto brincavam detetives?
–Estou com fome... -Respondeu sentando-se no chão novamente. -Estou fraca.
–Quanto drama! Escute bem, você vai ficar num quarto aqui em cima, muito bem vigiada até o seu namorado resolver colaborar, então não tente nada que possa te colocar em risco.
Sam permaneceu quieta observando a mulher pegar o telefone e pedir um café da manhã a alguém do outro lado da linha.
–Você vai me matar não é? -Perguntou.
–Gostaria que houvesse uma forma de apagar suas memórias, mas... -Respondeu. -Agradeça ao seu namorado.
–Então... poderia me contar o que é tudo isso?
–Imagine que os nerds de quem você e meu filho caçoam resolvem se vingar das brincadeira, e que por algum motivo, uma decepção com você por exemplo, o Griffin passa pro lado deles... Ele sabe suas fraquezas, a melhor forma de atacá-los e está do outro lado agora. -A mulher levantou rindo misteriosamente. -Seu café já está vindo. Quando terminar, será levada para cima.
Olivia caminhou lentamente até a porta, e antes de sair lançou um último olhar a garota ainda sentada no chão.
–Procure ser boazinha Sam, você não vai querer me ver de mau humor.
Sam desviou o olhar no que pareceu ser uma simples anuência às palavras da mulher, mas só conseguia pensar em como seria prazeroso socar o rosto daquela mulher até que ela estivesse desacordada. Não desistiria até que não houvesse nenhuma maneira de fazer isso.
Assim que a mulher saiu, Sam levantou rapidamente e tentou ouvir por trás da porta. Haviam vozes exaltadas e, vencida pela vontade de descobrir do que se tratava, Sam abriu a porta e observou, ao final do corredor, Olívia discutindo com outros dois homens. Um deles, de cabelos brancos, Sam reconheceu como o carpinteiro Carl.
–O garoto quer a menina primeiro. -Dizia o mais jovem.
–Eu já esperava. -Respondeu Olivia. -As garotas estão descendo, leve-as para a operação e diga ao Will para ficar de olho nelas. E quanto ao pequeno Freddie, diga que a levaremos no jantar, onde cada um terá o que quer.
O pequeno grupo se afastou e Sam arriscou alguns passos para fora do escritório, mas no mesmo instante ouviu um barulho vindo do outro lado do corredor. Ela avançou até a origem do som e observou aturdida, um grupo de meninas descendo do que deveria ser o quarto e seguindo em direção a uma espécie de porão, guiadas por um homem de aparência familiar.
–Senhor Lili... -Sussurrou. -Mas o que...
Ela parou de falar ao reconhecer, entre as garotas ali presentes, sua antiga colega Wendy.
Percebendo que já ficara ali por algum tempo, Sam voltou rapidamente ao escritório onde fora deixada e percebeu que ninguém dera por sua falta. Talvez por acreditarem que ela estava fraca e amedrontada demais para tentar alguma coisa, e de fato estava.
Agora restava a Sam esperar. As peças finalmente pareciam estar se encaixando e dada as alternativas que tinha, um tempo para organizar os pensamentos parecia realmente útil.
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