Conectando-se
15 Capítulo 15 - Eu te amo!
Notas iniciais
"As pessoas que mais gostamos são as que mais nos decepcionam, pois pensamos que são perfeitas e esquecemos que são humanas."
(Giulia Passagem)
***
As palavras de Grissom e a forma com a qual as disse, fez parecer para Sara que ela tinha obrigação de ouvir o que quer que seu chefe tinha a dizer. E em seu modo de ver, ela não tinha qualquer obrigação, e muito menos vontade disto!
— Não, eu não tenho que te ouvir e nem quero!
De forma abrupta, ela puxou o braço, livrando-o do contato com a mão de Grissom e saiu pisando duro, deixando seu chefe sozinho, sendo alvo dos olhares curiosos de várias pessoas das mesas próximas.
O ex-supervisor estático com aquela reação dela apenas seguiu com o olhar a silhueta perfeita de Sara ir se afastando em passadas mais que apressadas. Ainda que já estivesse desconfiado que as coisas acabariam não sendo boas para seu lado, ver isto se concretizar, foi um choque. A rejeição e a revolta de Sara foram um soco na boca do estômago de Grissom.
Só que ele não veio até ali para desistir ou tampouco, deixar as coisas por isso mesmo. Não! Ele veio disposto a ser ouvido e, quem sabe, conseguir explicar essa situação toda a Sara. E, com sorte, até se acertar com o amor de sua vida ao final de tudo.
Assim sendo, ele agiu com rapidez antes que fosse tarde. Apanhou de cima da mesa o vasinho de violetas-africanas que Sara não fez a menor questão de levar consigo e se apressou em ir atrás de sua amada. Conseguiu alcançá-la quando Sara já estava atravessando a rua para pegar seu carro.
— Deixa eu explicar tudo, por favor? — Ele implorou, caminhando ao seu lado.
— Ah, você quer explicar?
Com fúria, Sara se virou de frente para Grissom quando ambos, naquele instante, alcançaram o meio fio. Em sua expressão raiva e em seus olhos lágrimas, que a qualquer instante estariam rolando fácil por seu rosto.
A visão dela naquele estado quebrou algo dentro do ex-supervisor. O sentimento de culpa e arrependimento bateram em cheio nas defesas dele.
Já do lado de Sara o sentimento era outro: raiva. Jamais imaginou que o homem diante de si pudesse lhe enganar daquela forma tão desonesta, brincando com seus sentimentos.
Que espécie de homem ele era?
Não bastou todos esses anos lhe rejeitando e agora ele apronta isso?
Se sentia traída, enganada e tomada de uma ira absurda, que não imaginou sentir pelo homem que durante anos e até bem poucos meses atrás, era perdidamente apaixonada.
— Então me explica o porquê de me enganar assim Grissom?... O que foi que eu te fiz pra você brincar desse jeito com os meus sentimentos?... Anda me explica... qual é a sua hein?! — ela deslizou uma das mãos pelo rosto para enxugar as lágrimas que aquela altura já derramava. Lágrimas de pura raiva e indignação por ver que tinha feito papel de idiota todo esse tempo.
Enquanto a escutava e olhava para Sara, Grissom só conseguia ver indo pelo ralo sua esperança de ser perdoado pelo que fez. E isso lhe deixou temeroso, porque já não saberia mais como viver sem sua amada e muito menos, saberia lidar com o fato dela lhe odiar e não olhar mais em sua cara direito depois de hoje. Pior seria ainda se ela acabasse arrumando alguém futuramente. Isso ia ser sua derrota.
— Eu não queria brincar com seus sentimentos, Sara. — Ele iniciou de maneira cuidadosa. — Jamais foi a minha intenção isto. Eu... apenas... queria me aproximar de você.
— Me enganando? Se passando por um amigo virtual durante três meses?... Essa foi a pior escolha pra se aproximar, Grissom.
A aspereza em sua fala que saiu um tom acima do "normal", fez Grissom engolir a seco e apertar o vaso de flores em apreensão. Estava dando tudo errado, exatamente como ele temia.
— Concordo que foi a pior escolha mesmo. — Ele admitiu, baixando o olhar para as flores por uns segundos. Depois dando um suspiro derrotado, deslizou a mão direita pelo rosto e ergueu os olhos para encarar Sara outra vez.
Não fazia a menor ideia de quais argumentos usar a seu favor. E o fato da mulher diante de si estar lhe encarando com uma explícita raiva o deixava mais nervoso ainda, tornando seu raciocínio confuso a ponto de quando resolveu enfim se expressar, ainda foi de modo errado.
— Droga! Eu bem que falei para o Arthur que isso não daria certo, mas ele como sempre nunca me escuta.
— Como assim... "Eu bem que falei para o Arthur"? — Sara não entendeu aquilo. Ele não era o Arthur?
Grissom congelou diante de tal questionamento de Sara e do seu olhar faiscando de uma raiva muito maior do que a de segundos atrás.
Seu nível de nervosismo naquele momento chegou a estratosfera. Mais ainda ficou difícil de articular sua defesa. E levando em consideração que ele já não era bom com as palavras, aí mesmo que piorava mais ainda a situação para seu lado. Sua inabilidade ganhava proporções maiores ainda.
Mas ele tinha que arrumar uma forma de que explicar toda aquela história. A tarefa não era das mais fáceis, contudo, ele estava disposto a fazer tudo que fosse para reverter a situação que estava desfavorável a ele.
Seu barco podia estar navegando no momento por águas agitadas, mas ele era um capitão determinado e sem medo de agora enfrentar marés revoltosos e fortes tempestades para obter no final daquela jornada o perdão de seu grande amor. Ela era a única por quem valeria a pena arriscar tudo. E ele tinha sido tolo o suficiente para não enxergar isso antes e medroso o bastante para negar o óbvio: sua vida sem ela era vazia e triste.
— Eu — um casal de jovens que pareciam ser namorados, passou de mãos dadas naquele instante ao lado deles fazendo Grissom pausar em sua fala. Ali, no meio da rua, não era o lugar mais apropriado para se ter a conversa que ele queria com ela, mas como não estava em condições de propor nada, quanto mais exigir, então que fosse onde estavam mesmo. O ex-supervisor esperou até que os dois jovens se afastassem o suficiente para retomar o que dizia. — preciso que me ouça com toda atenção.
— Estou ouvindo. — Ela retrucou já nada satisfeita e apertando as têmporas. A vontade que tinha, era de entrar no carro e ir embora dali, deixando Grissom sozinho com suas explicações desnecessárias. Porém podia apostar que seu chefe era bem capaz de ir atrás dela só para continuar aquela conversa. E tê-lo em sua casa não era algo que ela apreciava. — Fala de uma vez, Grissom. — Exigiu alto diante do silêncio dele.
Ele respirou bem fundo na tentativa de acalmar a si mesmo e organizar sua mente, para contar da melhor forma o que precisava ser dito. Estava uma pilha de nervos dez vezes maior que a de momentos atrás quando chegou ao restaurante, mas conseguiu a façanha de em poucos segundos retomar as rédeas de seus sentimentos e ficar no controle de suas emoções para falar. Era isso ou não seria possível abrir a boca para dar um A.
Então ele começou a contar!
Escolhendo muito bem as palavras e com toda cautela possível, ele iniciou sua narrativa revelando o fato de ela a princípio estar falando com outro homem que não era ele, mas que por uma coincidência do destino ou brincadeira sem graça do acaso, era um amigo pessoal dele, que morava realmente no Alabama, era reitor da universidade local e possuía o mesmo nome do meio que ele: Arthur; na sequência contou sobre a chocante descoberta na festa de encerramento do simpósio que foi participar a pedido deste mesmo amigo na Universidade do Alabama, de que ela era a mulher a quem Arthur conheceu na internet e vinha trocando mensagens direto; por fim, revelou sobre o plano de assumir o lugar de seu velho amigo no bate-papo com Sara.
Fez questão de eximir Arthur da culpa do plano e assumiu para si somente toda a responsabilidade daquela história. E confessou com sinceridade que cada mensagem que trocavam, era especial para ele e que adorou cada instante compartilhado nas conversas que tiveram.
Calada e estarrecida, Sara ia ouvindo ao relato detalhista de seu chefe e só conseguia se sentir mais enganada, traída e decepcionada com tudo.
Ele não tinha o direito de fazer o que fez!
Por isso não lhe mandava foto alguma quando pedia. Inventou que não gostava de tirar foto, mas agora ela via que era apenas uma desculpa furada para não 'se entregar'. Mudou por completo a voz quando se falavam e nem seu número de telefone era o mesmo. Ele mentiu e fez tudo tão bem que ela jamais ia sonhar que fosse ele.
E ela tola todo esse tempo criando ilusões, adquirindo sentimentos e terminando por se apaixonar por um alguém que, na verdade, se tratava da mesma pessoa que lhe renegou por dolorosos quatro anos.
— Você é a pessoa mais importante pra mim, Sara.
A frase entrou pelos ouvidos dela e Sara que por segundos havia momentaneamente parado de prestar atenção no que saía da boca de Grissom, voltou a realidade do momento e do que havia acontecido.
— Eu te...
— Basta pra mim! — ela o interrompeu, ciente de que para ela tinha dado a conversa. — Não quero ouvir mais nada de você, Gilbert!
Sufocada com tanta informação e decepcionada com aquela história toda, a qual nem em mil anos esperaria ser possível. Ela necessitava sair dali, organizar tanto seu raciocínio quanto seus sentimentos abalados. Grissom havia despejado muita coisa de uma vez só em cima ela.
— Por favor, me perdoe. — Ele implorou quando ela lhe deu as costas. — E não me odeie, porque nunca... nunca... nunca... foi minha intenção magoar você como sei que magoei.
Ela se virou de volta para Grissom e seus olhares se encontraram. O dele suplicante e desesperado. O dela ferido e ressentido.
Em outros tempos, talvez, Sara olhasse para àquela história toda com outros olhos e até chegasse a perdoar seu chefe se não houvesse adquirido sentimentos especiais por um Arthur, que nem em seus mais loucos devaneios seria seu chefe.
Contudo, o fato de ter se apaixonado de verdade por seu amigo virtual, tornava a situação mais delicada e difícil de aceitar. O sentimento de traição era maior e pesava mais, a ponto de tornar imperdoável a mentira.
— Você me enganou, Grissom. Todo esse tempo me fez de tola. Eu não consigo perdoar isso. Sinto muito.
— Sara!
Ela ignorou seu chamado e se encaminhou com pressa em direção a porta de seu carro. Se pudesse apagar da mente o dia de hoje, ou melhor, os últimos três meses, o faria sem hesitar.
Bem que Greg lhe avisou que toda essa história de amigo virtual poderia ser uma roubada. Não quis lhe dar ouvidos e quebrou a cara feio, como não imaginou que quebraria.
Em uma tentativa desesperada de evitar que aquilo fosse o fim definitivo, Grissom declarou em alto e bom som o sentimento verdadeiro que por anos afinco tentou ignorar e fugir por puro medo.
— Eu te amo!
A declaração de amor teve o poder instantâneo de fazer a perita paralisar bem no momento em que já abria a porta do carro.
— Me apaixonei por você naquela palestra. E desde então, eu sigo te amando.
Sem que o ex-supervisor visse, Sara deixou um sorriso melancólico escapar dos lábios enquanto seus olhos se embaçaram novamente com lágrimas que segundos depois já desciam por seu rosto.
Se ela fosse contar as tantas vezes que ao longo desses anos todos almejou escutar tal declaração de amor saindo da boca de seu chefe, perderia facilmente as contas.
Sempre foi seu maior desejo (até poucos meses atrás), ouvir que Grissom lhe amava. Saber que o forte sentimento que nutria por ele, era recíproco e não unilateral como passou a achar diante de sucessivas rejeições sofrida, seria o céu para Sara.
E em seus inúmeros fantasiosos devaneios sobre este momento mágico em que seu chefe enfim 'baixaria guarda' e admitiria seus sentimentos, ela se enxergava abrindo um sorriso enorme e feliz; com seus olhos cheios de lágrimas de emoção e felicidade diria que também o amava. Eles então se beijariam selando o momento e dali iniciariam uma vida juntos.
No entanto a realidade do momento e, principalmente, dos seus sentimentos atuais eram outra bem diferente.
— Eu também me apaixonei por você naquela palestra. — Ela revelou ao se virar para Grissom. Sem que Sara percebesse um sorriso discreto lhe escapou ao lembrar daquele tempo em que o homem a sua frente era bem diferente do sujeito que ela encontrou em Las Vegas e com quem vinha convivendo esses anos todos. — E continuei te amando todos esses anos que estou aqui trabalhando com você. Mas... esse sentimento ficou para trás, porque me apaixonei pelo Arthur.
— Mas EU sou o Arthur, Sara.
Ele deu um passo na direção dela.
— Não! Não chegue perto, por favor. — Ela ergueu a mão direita e Grissom parou, atendendo ao seu pedido na hora. Jamais ia forçar uma aproximação se ela não queria. — Eu preciso de tempo pra digerir tudo o que você me contou hoje. Principalmente, essa informação sobre ser o Arthur. — Ele assentiu, entendendo que ela precisava de tempo. Em seu lugar talvez pedisse o mesmo. — Eu... Desculpa... Preciso ir. Adeus, Grissom!
Ela entrou no carro rápido antes que caísse em prantos. Segundos depois já tinha partido dali, derramando novas lágrimas que não foram vistas por Grissom.
Estático e ainda com as flores em mãos, o ex-supervisor acompanhou com o olhar entristecido e de coração partido o carro de Sara se perder entre os outros veículos na avenida.
Ela agora o odiava. Ele tinha quase certeza disso. Viu em seus olhos algo semelhante a isto. Provavelmente, a tenha perdido e arruinado qualquer chance de se acertarem. Ela não ia querer nada com ele depois de hoje.
Era o preço a pagar por uma mentira. No entanto o preço seria alto demais para ele!
Cabisbaixo, Grissom se encaminhou até seu próprio carro. Dentro do veículo, ele se permitiu chorar pelo triste desfecho que toda aquela situação teve.
***
Parada no semáforo, mãos firmes agarradas ao volante, coração despedaçado, olhos turvos e uma Sara que não conseguia controlar as lágrimas e os soluços de seu choro.
Ainda lhe custava a crer no papel de idiota que fez todo esse tempo.
Isso que dá depositar muita confiança e expectativa em uma pessoa, o risco de se decepcionar é maior. E por duas vezes (com a mesma pessoa), ela cometeu o mesmo erro, e ambas quebrou a cara.
Tola!
Ingênua!
O sinal abriu e ela arrancou com o carro, 'cantando os pneus'. Com as costas de uma das mãos enxugou os olhos e rosto enquanto a outra mão segurava com força o volante. Daria tudo para sumir e esquecer o que aconteceu momentos atrás.
Que raiva de ter entrado naquele site de bate-papo àquela noite. Foi um erro grotesco que adoraria não ter cometido, porque do contrário não estaria arrasada deste jeito como estava agora.
O destino só podia estar querendo zombar de sua cara com aquela péssima coincidência em lhe fazer conversar, justamente com um amigo de Grissom.
E ela achando que havia superado enfim o amor platônico por seu chefe ao se apaixonar por outro alguém. Mas na verdade, o sentimento adquirido ao longo desses poucos meses de conversa com um "estranho", era exatamente pela mesma pessoa de sempre: Grissom.
Por meios tortos, lá estava seu chefe em seu caminho, sendo alvo outra vez de seus sentimentos amorosos!
Enquanto fazia a curva para pegar uma rua conhecida, Sara se questionar por quanto tempo mais seu chefe levaria aquela 'brincadeira sem graça' de ser seu amigo virtual adiante se ela não dissesse que pretendia ir ao Alabama para conhecê-lo?
Ainda bem que ela teve a ideia de não ir sem avisar, porque seria pior ainda descobrir aquela história toda sem ser através dele.
E, curiosamente, agora que sabia a verdade, ela enxergava com clareza as semelhanças entre Arthur e o Grissom que ela conheceu em certa palestra.
Céus! Como não percebeu antes?
Vai ver porque estivesse tão envolvida por seu amigo virtual que não notou a semelhança!
Sem querer pensou no tal Arthur com quem conversou na primeira semana e no fundo sentiu vontade de conhecê-lo. Segundo Grissom lhe disse, seu amigo era uma boa pessoa que havia apreciado muito 'conhecê-la', mas resolveu parar de conversar com Sara por amizade a Gil e respeito aos sentimentos que o ex-supervisor lhe compartilhou nutrir por ela.
Sentimentos estes que ela julgava nem existir. E que somente em cabeça sonhadora eram possíveis.
Todo esse tempo pensando que não havia reciprocidade, quando era o contrário. Ele a amava! Deus! E desde sempre segundo ele. E ainda assim, a rejeitou por diversas vezes. Por mais que tentasse entender as razões dadas por ele, não conseguia e ainda, por cima, sentia mais raiva dele por sua omissão, além é claro da mentira ao se passar por outra pessoa.
Ela ainda dirigiu por mais alguns minutos, só que não foi para sua casa. Precisava de um ombro amigo de verdade para chorar e desabafar sobre a decepção do encontro com Arthur. E só havia uma pessoa com quem poderia fazer isso, a única que sabia do amigo virtual com quem vinha conversando há várias semanas.
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