Notas iniciais
Olá pessoas da Terra. Como estão?
Essa é uma história na qual venho me dedicando pacas, então, de coração, espero que curtam e tenham uma leitura agradável. :)

Era uma manhã de domingo, linda por sinal. O sol brilhava como nunca, preenchendo o quarto de Sophia com suas faixas reluzentes e acolhedoras. O que a fez acordar mais cedo do que o planejado e lembrar-se que, como sempre, esquecera de fechar a cortina de seu quarto. Na verdade, vez ou outra ela deixava aberta propositalmente, na esperança de que sua mãe aparecesse na madrugada para fechar e dar-lhe um beijo de boa noite. Um hábito costumeiro, já que Sophia raramente se lembrava de seu aviso todas as manhãs: “Bom dia, querida. Esqueceu-se de fechar as cortinas de seu quarto novamente. Lembre-se de fechá-las esta noite, está bem?” Nesse aspecto, nada mudou desde que ela partira, a não ser pelo fato de que isso a fazia acordar com um mal-estar todas as manhãs, devido à falta que sentia da presença materna.

Resistindo à vontade de permanecer na cama por mais alguns minutos, Sophia levantou-se e pôs-se a caminhar até a cozinha, para preparar o leite de suas irmãs. Depois de pronto, rumou em direção ao quarto ao lado do seu, onde as duas jaziam em um sono suave e profundo. Dois corpos pequenos e aparentemente frágeis deitados numa cama de casal. Lindas meninas de pele clara, cabelos loiros cacheados e olhos claros. Assim como a mãe. Já a irmã mais velha, possuía a pele mais morena, cabelos castanhos lisos e olhos verdes. Assemelhando-se ao pai. Sophia admirou a leveza da respiração das meninas por alguns instantes, rezando para que a vida fosse mais bondosa e acolhedora com as duas, do que foi consigo mesma. Nesses breves momentos de contemplação logo pela manhã, ela permitia-se curar a alma dia após dia, de todas as dores que a vida lhe tinha causado.

—Missy, Annie! – chamou-as apertando de leve suas bochechas rosadas – Hora de acordarem, minhas pequenas.

Aguardou-as pacientemente abrirem os olhos, e olhá-las sonolentas. Ofereceu-lhes um sorriso compreensivo, pegou-as no colo e depositou um beijo em suas testas. Fazia pouco mais de uma semana que Sophia se dispôs a acordá-las mais cedo. Iriam começar a frequentar uma creche, e a irmã achou melhor acostumá-las gradativamente com a rotina matinal. Começariam no dia seguinte.

—Bom dia, pequeninas. Vou preparar o banho das duas e logo as chamo. – colocou-as no chão, e lhes entregou o copo de leite. – Enquanto isso, terminem de tomar o leite, e podem escolher as roupas que querem vestir. Levarei as duas ao parquinho, faremos um piquenique e, se quiserem, podemos levar o Chocolate. – o cachorro de estimação que ganharam a pouco menos de um mês. – O que acham?

Assim como o esperado, Missy e Annie logo despertaram do transe sonolento, e começaram a pular e comemorar com abraços e beijos de felicidade. Sophia observou a cena com apreço por alguns instantes, sorrindo de lado a lado, imaginando como seria se sua mãe estivesse ali para ver como as meninas estavam lindas e haviam crescido. Para ela, ter as duas em sua vida para cuidar e amar era como uma terapia para seu espírito jovem e cansado. Nada no mundo poderia substituir o amor e devoção que tinha pelas gêmeas. Eram como o pilar que ela precisava para se manter forte e segura.

Logo após pegar as tolhas e encher a banheira das meninas com água morna, Sophia as chamou ao banheiro, ajudou-as a removerem suas roupas e as introduziu no banho. Depois de ajudá-las na limpeza do corpo, resolveu deixá-las brincando um pouco na água.

—Querem ficar um tempinho se divertindo na água? – elas assentiram – Tudo bem, então. Vou procurar o papai e avisá-lo que iremos ao parque. Quem sabe ele não vá conosco dessa vez? Volto já. Comportem-se! – e saiu.

Apesar de já ter uma idéia de qual seria a resposta do pai ao convite para sair e se divertir com as crianças, Sophia insistia em tentar fazê-lo sair de casa e se distrair com algo que não fosse o trabalho. Markus White era juiz na Corte de Apelação em Denver, no Colorado. De certo modo, um homem muito atarefado que mal tinha tempo para se divertir ou cuidar de suas filhas e, de quando em quando, precisava fazer viagens de última hora. Mas, Sophia não se deixava enganar por essas desculpas fúteis de cansaço e falta de tempo por conta do trabalho. Sabia muito bem que o pai não lidava bem com as rasteiras que a vida lhe deu. Desde a morte de sua esposa, Annie, vinha agindo de forma diferente. Apegou-se a uma vida angustiada e melancólica, em que raramente permitia-se sorrir ou sentir qualquer resquício de felicidade os quais, anteriormente, eram tão frequentes em sua vivência. Tomou para si uma postura arisca e mórbida, e nada fazia além de trabalhar e ficar enfurnado em casa cuidando do jardim de sua esposa. Ainda assim, esforçava-se para demonstrar o mínimo de afeto e cuidado por suas filhas. Mesmo estando tão distante do dia-a-dia das garotas, Markus se fazia presente em pequenas atitudes de carinho. Às vezes um abraço ou um beijo aqui ou ali, uma história para as gêmeas, um café da manhã prontinho na mesa, um presente deixado ao lado da cama e um bilhete com os dizeres: “papai as ama um ‘tantão assim” e o desenho representando-o com os braços abertos. Entretanto, Sophia começara a perceber certo interesse das irmãs quanto a pouca presença paterna. Vez ou outra surgiam perguntas sobre o paradeiro do pai, o porquê de quase não se verem, ou até mesmo o motivo pelo qual ele raramente aceitava passear com elas. Estavam na fase dos questionamentos sobre a vida e, em certos momentos, a irmã mais velha simplesmente não sabia o que responder diante de certas indagações. Como no dia em que lhe perguntaram por que não tinham mãe. Fazia quase três semanas desde que lhe fizeram esse questionamento e, até então, ela não sabia de que forma poderia explicar-lhes o ocorrido. De qualquer modo, ela compreendia o amor que o pai lhes dava e, tentava ao máximo fazer com que as gêmeas se sentissem amadas pelo mesmo.

Sophia desceu as escadas entre o primeiro e segundo andar da casa, e caminhou em direção ao lugar em que certamente encontraria o pai: o jardim que dava acesso à entrada. Annie era botânica descritiva e costumava dedicar parte de sua vida cuidando de seu jardim. Um hobbie, desde a infância. Quando ela morreu, Markus se apegou a esse detalhe de sua vida, e agora tomava conta do jardim. Passava a maior parte do seu tempo livre regando, podando, ou apenas sentado em uma cadeira observando as plantas. Vez por outra era pego conversando com algumas, na maioria das vezes, bonsais. Para ele era como se pudesse sentir uma terna aura de sua falecida esposa. Assim como Sophia sentia-se ao deixar as cortinas abertas.

—Pai? – Markus virou-se para encarar a filha.

—Olá, princesa. – esboçou um meio sorriso. – Esqueceu de fechar as cortinas de novo?

—Pois é. Acho que mamãe me deixou mal acostumada. – Sophia respondeu retribuindo-lhe o sorriso – O jardim está maravilhoso, como sempre – ele apenas assentiu, e desviou o olhar para um beija-flor que acabara de pousar na grama. – Eu e as meninas vamos ao parque fazer um piquenique, quer ir conosco? – ouviu um longo suspiro do pai. – Elas reclamam sua ausência.

—Hoje não, princesa. Quem sabe da próxima, sim? – respondeu sem nem encará-la.

—Tem certeza? Acho que os bonsais já estão cansados de conversar com você. – indagou de forma descontraída. Markus apenas soltou um riso nasal. – Tudo bem, então. Não vamos demorar. – deu um beijo na bochecha do pai, e subiu para arrumar as gêmeas.

Tirou as duas da banheira, enrolou-as na toalha, e foram para o quarto.

—Então, essas são as roupas que escolheram para vestir? – perguntou analisando dois amontoados de peças em cima da cama. As gêmeas assentiram.

—Esse é o meu. – Missy mostrou o amontoado esquerdo.

—Esse, meu. – mostrou Annie, apontando ao direito.

— Bem, vamos tirar algumas coisas, ok? Hm, não precisarão dessa jaqueta, nem essa meia-calça, porque o tempo hoje está maravilhosamente ensolarado. – falou, separando o que iriam ou não usar. – E que tal trocar essas botas – guardou as botas no guarda-roupa, e pegou dois pares de sandálias. – Por essas sandálias da cor dos olhos do papai? – as duas concordaram sorrindo. – Então está bem. Foram ótimas escolhas. Ficarão lindas.

Depois de prontas, Sophia as ajudou a alimentarem Chocolate, e foi se arrumar. Tomou um banho rápido, vestiu suas roupas e foi preparar algumas guloseimas para o café da manhã no parque, enquanto observava as duas brincando com o cachorro. Nada muito especial, apenas o que costumavam comer no dia a dia. Guardou tudo dentro de uma bolsa, adicionando copos, talheres, guardanapos e uma toalha para forrar o gramado.

—Tudo pronto. Podemos ir. – anunciou. – Antes de sairmos, cumprimentem o papai. Ele está no jardim.

As gêmeas se levantaram, pegaram Chocolate pela coleira, e foram cumprimentar o pai, que as recebeu com um largo sorriso amarelo.

Depois de brincarem muito pelo parque e explorarem todos os brinquedos, Missy e Annie sentiram fome e se juntaram à irmã, que terminava de arrumar os alimentos sobre a toalha.

—Estão com fome? – Sophia perguntou ao vê-las se aproximando.

—Sim. – responderam em uníssono.

Sentaram-se as três nas bordas da toalha, e começaram a comer enquanto conversavam sobre coisas como: as nuvens que pareciam formas de animais, a nova amiga que fizeram enquanto brincavam, a companheira que Chocolate encontrou, a moça triste que passou do outro lado da calçada...

—Mas então, estão animadas pro primeiro dia na creche?

—Sim. – novamente em uníssono.

—A gente vai ter que acordar cedo todo dia? – Annie perguntou fazendo bico, enquanto alternava entre dar uma mordida em sua pêra e acariciar os pelos de Chocolate.

— Domingo também? – Missy quis saber.

Sophia olhou sorrindo para as irmãs. Um de seus passatempos favoritos era conversar com as duas. Apreciava a forma graciosa e sincera com que dialogavam. Além do mais, nada mais fofo do que duas crianças conversando engolindo algumas letras.

—Não, minhas pequenas. Poderão dormir o quanto quiserem aos sábados e domingos.

—Sophia? – Missy a chamou. A irmã a encarou já pressentindo uma pergunta incômoda – Por que papai não quer sair com a gente?

—Ele não gosta da gente? – Annie questionou.

—Ah, minhas pequenas. – Sophia suspirou tentando formular uma resposta que as satisfizessem. – Papai ama muito vocês.

—Do tamanho do céu?

—Sim, Annie. Acho até que maior do que o céu. Muito mesmo. – as meninas arregalaram os olhos sorrindo. – Ele só está muito cansado e às vezes fica triste. Como no dia em que o Chocolate ficou doente e vocês choraram, lembram? – as duas assentiram.

—Por que ele fica triste?

—É por causa da mamãe? – Missy supôs, atrapalhando-se ao passar um pouco de geléia em sua torrada.

—Também. Papai sente muita falta da mamãe. Ela era uma mulher incrível. – Sophia ofereceu-lhes um sorriso amarelo.

—Você também sente falta dela?

—Sinto, sim, Missy. Mas são coisas as quais não podemos evitar. Às vezes a vida nos tira algo ou alguém que amamos, mas da mesma forma, nos oferece inúmeros motivos de alegria e consolo. É só questão de saber olhar de forma positiva e verdadeira para essas coisas, e saber aplicá-las de maneira correta. – uma afirmação para si própria — Ah, minhas princesas, vocês têm muito que aprender ainda.

—A mamãe morreu por nossa causa?

—Oh, claro que não, Missy! O que a faz pensar dessa forma? – Sophia se sobressaltou um pouco só de imaginar as gêmeas carregando um fardo como esse nas costas. Observou as duas se entreolharem apreensivas.

—Um dia, nós ouvimos papai chorar baixinho no escritório dele, e ele falou que se não fosse por mim e Annie, mamãe nunca teria morrido.

Sophia se espantou e sentiu um aperto no coração de imediato. Um nó na garganta se formou e ela desejou ter super poderes para fazer com que as irmãs esquecessem o que tinham ouvido. Ela sabia que o pai não as culpava por nada. Talvez em um momento de angústia e solidão, absorto em seus próprios pensamentos ele deixara escapar murmúrios levianos sem plena consciência de tamanha incoerência. Mas nunca intencionou transferir culpa a alguém. Sophia permaneceu estática por alguns segundos, sem saber a maneira com que deveria lidar com essa ideia absurda já incutida na psique das meninas.

—O que a gente fez, então?

—Vocês não fizeram absolutamente nada, minhas meninas. Papai estava triste e acabou falando bobagem. Tenho plena certeza de que ele não pensa assim. Às vezes uma besteirinha escapa de nossas bocas. Acontece com todo mundo.

—O que houve com a mamãe, então?

Sophia devaneou por alguns instantes, ponderando sobre a melhor maneira de contá-las. Percebeu que a curiosidade das garotas não cessaria até que obtivessem respostas. Ela costumava desviar desses assuntos, pois, não queria que as gêmeas interpretassem de forma errada e sofressem por conta de algo que nem presenciaram. Mas uma hora ou outra elas descobririam. Resolveu, então, que melhor seria para elas se, cautelosamente, contasse o que aconteceu, e ajudasse-as a receber aquelas informações de forma passiva.

—Certo. Vejo que estão realmente muito curiosas sobre esse assunto. Venham, sentem-se aqui. – Missy e Annie sentaram cada uma em uma perna de Sophia. – Essa história, é sobre dois presentes maravilhosos que um pai e uma filha receberam depois de perderem alguém muito importante da família. Era uma vez... – fez uma pausa e observou o semblante atento das irmãs – Uma família que vivia numa bela casa, na Rua Aurora, número 737. Um pai, uma mãe e uma filha. Certo dia, a mãe ficou grávida novamente, de gêmeas, e todos ficaram muito felizes com a notícia. O papai comemorou a chegada de mais filhas, e a filha se alegrou em ter irmãs para brincar. Mas, a mãe começou a passar mal. No dia do parto, ela já estava muito fraca e acabou não resistindo. O pai e a filha ficaram muito tristes por perderem a mamãe. Porém, quando as gêmeas chegaram, eles ficaram felizes de novo. Elas eram lindas e muito pequenas. O papai e a filha amaram e cuidaram muito bem das duas garotinhas, e, hoje, formam uma bela família. Fim. – depositou um beijo na bochecha de cada uma.

—Eu queria ter conhecido a m-mamãe. – Missy falou com a voz chorosa e, de repente, começou a soluçar e chorar baixinho. Sophia a abraçou por um período, esperando que se acalmasse. – C-como e-ela se chamava?

—O nome dela era Annie.

—Igual ao meu? – Annie arregalou os olhos, sorridente.

—Sim, minha querida. Quando vocês nasceram, papai deixou que eu escolhesse o nome de uma das duas. Escolhi Annie, para homenagear a mamãe, e papai escolheu Missy, para homenagear a vovó.

—Como quando a gente escolheu o nome do Chocolate porque gostamos muito de chocolate. – Missy lembrou sorrindo.

—Lembram quando eu falei que a vida nos tira coisas ou pessoas importantes, mas no dá outras para que possamos nos recompor e sermos felizes? – elas assentiram. Olhou-as no fundo dos olhos e completou – A vida tirou a mamãe de mim, do papai e até mesmo de vocês. Mas em troca, eu e papai recebemos duas meninas lindas que nos trouxeram muita felicidade, e nos ajudaram muito a recuperarmos nossas forças. E vocês têm a mim e ao pai. Vocês nunca foram motivos de tristeza para nós, pelo contrário, as duas são a maior fonte de alegria que temos hoje. Nunca se esqueçam disso, ok? – as três se abraçaram por um tempo, e curtiram o resto da manhã no parque.

De certo modo, Sophia sentiu-se aliviada ao conversar sobre a morte da mãe com as irmãs. Era uma dúvida que carregava consigo há tempos e, ficou feliz que elas tenham reagido tão bem os fatos. Mas, ainda assim, tinha certo receio no que isso poderia acarretar no decorrer do tempo.

Sophia tinha acabado de colocar as gêmeas para dormir, e encontrava-se em seu quarto arrumando a cama para, também, dormir. Ouviu passos vindos do corredor e, quando se virou para olhar, encontrou o pai encostado nas laterais da porta.

—Como foi o passeio com as meninas?

—Esclarecedor. – ele franziu o cenho – Elas me fizeram algumas perguntas sobre você e a mamãe. As mesmas de sempre. Resolvi respondê-las. Há um tempo que insistiam em saber e achei que fosse uma boa oportunidade. Mas, ainda acho que o senhor deveria tentar conversar com elas sobre isso.

—Sobre isso... é... bom, será que eu e você podemos ter uma conversa hoje?

Sophia estreitou os olhos.

—Espero que não seja aquela conversa de pai e filha sobre garotos, namoro e sexo. Por favor, não faça isso comigo. – observou o pai rir divertido.

—Não, querida. Não teremos essa conversa. Ainda. – ela revirou os olhos – Quando terminar de se arrumar desça para o jardim. Estarei lhe aguardando. – e saiu, deixando a menina terminar de se aprontar.

Passados uns 5 minutos, Sophia deu uma olhada nas irmãs certificando-se de que estivessem dormindo, e desceu. Encontrou o pai deitado de costas no gramado do jardim, observando o céu. A lua estava enorme aquela noite, seu brilho intenso ofuscava as poucas estrelas que, com certo acanhamento, insistiam em lhe acompanhar. Uma bela vista.

—A lua parece estar tão pertinho essa noite. Dá vontade de tentar apalpá-la. – ela sorriu com a ideia.

Markus ergueu o corpo, e se pôs sentado sobre o gramado. Com um meio sorriso indicou que a filha sentasse à sua frente. Ela obedeceu, observando-o batucar a coxa esquerda com certa inquietação e apreensão, fazendo com que a menina ficasse ainda mais tensa.

—Bom, te chamei aqui hoje para... lhe pedir perdão, querida. – ela o olhou, confusa – Quando sua mãe partiu, achei que não fosse aguentar tanto sofrimento em minha vida. Há seis anos perdemos Nicolas pouco depois de seu nascimento e, dois anos depois Annie nos deixou ao não resistir no parto de Missy e Annie. – seus olhos lacrimejaram e ele sentiu necessidade de fazer uma pausa. Segurou a mão de sua primogênita, e respirou fundo antes de continuar – Sophia, eu fiquei desnorteado e não soube lidar com tanta dor. Fui um fraco, um covarde e... a deixei sozinha cuidando das meninas e tendo que enfrentar a perda da mãe. Agi de forma negligente e joguei praticamente todas as minhas responsabilidades nas suas costas. Esqueci-me que você era só uma garotinha de 14 anos. Fui egoísta ao me isolar e ignorar completamente minhas obrigações como pai. – nesse momento Sophia já estava em prantos, sem saber o que falar ou como reagir e, Markus, tentava ao máximo reprimir o choro. Os dois nunca haviam conversado sobre a morte de Annie, pois, se tratava de um assunto extremamente delicado para Markus. – Lamento muito que eu tenha lhe privado dos prazeres e diversões adolescentes. Eu realmente... – nesse momento ele desabou em choro. As lágrimas jorravam em sua face e ele sentiu vergonha por demonstrar tamanha fragilidade frente à filha. A menina ficou perplexa e sem saber o que fazer.

—N-não, pai. – rebateu, mesmo com certa dificuldade por conta dos soluços e a voz embargada. – O-o senhor n-não m-me privou de nada. Eu amo minhas irmãs e n-nada m-me alegra mais do que estar ao lado delas e, poder fazer parte de sua educação. Prefiro mil vezes curtir meus momentos com elas, do que com pessoas que mal conheço e em lugares que não curto. Não se sinta culpado, não há razões para pensar dessa forma. – o pai se emocionou ainda mais com tais palavras.

Sophia estava sendo sincera. Para ela a diversão seria muito mais proveitosa ao lado das gêmeas. Era com elas que ela se distraía e se refazia dos problemas. Na verdade, a menina nunca teve muitos amigos. Quando ainda cursava o Ensino Médio interagia com alguns colegas, mas, raramente aceitava convites para festas, o que a privou de estabelecer laços de amizade duradouros.

—Mesmo assim, quero lhe agradecer por cuidar tão bem das duas. É quase uma mãe para elas. E peço que me perdoe, minha filha. Por não ter sido um bom pai para vocês, e as coisas que já falei. – Sophia abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompida – Por favor, só peço que me perdoe.

—E-e-u t-e perdôo, pai. – as palavras quase não saíram de sua boca. Eles se abraçaram e choraram no ombro um do outro por um tempo. Naquele momento, sentimentos de angústia e desolação de quatro anos atrás foram descarregados. No início o choro foi agudo e ambos sentiam um sufoco na alma, algum tempo depois o choro foi cessando e a sensação de alívio e libertação se fez presente. Foram se curando aos poucos. Até sentirem plena paz de espírito – Está tudo bem agora. Nós te amamos e estaremos sempre dispostas a lhe ajudar no que for necessário. – o pai a olhou sorrindo, sentindo certo orgulho ao ver como a filha havia crescido e amadurecido.

—O tempo lhe fez bem, minha querida. Está tão crescida e sábia. Sinto orgulho de sua firmeza e integridade.

Notas finais
Confesso que quase chorei escrevendo a última cena, hahaha. Então, o que acharam? Dêem-me suas opiniões e, caso alguém tenha alguma ideia ou crítica construtiva, estarei aberta para recebê-las.
Obrigado por lerem e, até a próxima :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.