Notas iniciais
É um capítulo pequeno com a intenção de introduzir Ago na história.

Foi como se a força da colisão entre dois aviões tivesse a atingido, ouvir, respirar, falar e se mover eram ações impossíveis, seu sangue gelou, sentiu todos os seus membros de encolhendo, corou. Se sentiu submersa, as vozes que antes estavam perto, se distanciaram pouco a pouco e em segundos, não ouviu mais ninguém, só o som de seu coração batendo, sentiu o sangue passando por suas veias, seu rosto ficar ainda mais e mais quente, pensou no seu físico, deveria ter se arrumado mais, passado mais maquiagem, prendido o cabelo num coque, trança, rabo de cavalo, pra cima, pro lado, com uma meia trança ou solto com um arco. Sua boca tinha gosto de sangue, percebeu que estava mordendo a língua, e com um único nome, a puxaram de volta à terra firme.

Ambos os casais estavam a conversar sobre a avó de um que quebrou o pé e afins, bem daquelas "fofocas" que quando os pais se encontram conversam, mas o menino só tinha olhos pra uma coisa...O celular. Coral ficou tão cabisbaixa que apenas pediu licença, agradeceu pela visita e se retirou. A cabeça de Coral estava, mais uma vez, um turbilhão imaginando com quem e o que ele estava falando no celular, Coral nunca tivera, não via necessidade, quando parou de pensar, já estava no jardim nos fundos da casa jogando pedrinhas no lago artificial da casa. Lembrou-se de Dazi e de como ela jogava pedrinhas no mar e sentiu saudades, consequentemente, ficou triste e chorosa. Estava tão imersa em pensamentos bons sobre Dazi que nem percebeu que Tot estava do seu lado a observando, quando virou a cabeça, tomou um susto com seu pai.

–Eu vi seu olhar para Ago –Disse Tot com um olhar compreensivo.

–Oi? Eu? Que olhar? Que isso, pai. –Coral começou a rir desesperadamente.

–Olha, eu sei que ele é bonito, chamativo e elegante, mas ele não é uma boa companhia, dói falar isso porque eu vi esse menino nascer e crescer ao meu lado, e, infelizmente, vi ele se tronar essa pessoa que hoje ele é. Por favor, Coral, não se meta com esse menino.

Coral nada entendeu, o menino parecia ser um ano mais velho que ela, no que isso poderia resultar? Ele não demonstrava risco nenhuma à ninguém, apenas um menino de 13 anos que, aparentemente, passa a vida mexendo no celular enquanto seus pais o sustentam. Quando voltou à sala de estar, entendeu o que Tot dissera, Ago estava bêbado, ou aparentava estar, seus pais tentaram tirar uma garrafa da mão dele, mas o mesmo bateu na cara de sua mãe e se retirou bufando. Infelizmente, aquele menino bonito, era alcoólatra e fizera o banquete inteiro acabar por conta de seu mal comportamento e do desrespeito. Os convidados de seus pais foram embora de um em um, ninguém mais tinha ânimo para festejar, o que Ago fez foi horrível, todos se envergonharam com a atitude do mesmo mas não julgaram seus pais, já que sabiam de todo o problema de Ago e o que desencadeou esse comportamento nele.

Ago tinha uma irmã, Dora. Por volta de 1 ano, Dora descobrira um câncer no estômago, se submeteu à cirurgia de retirada da parte infectada do estômago, mas por imprudência médica, o seu cólon transverso foi perfurado, causando uma grande hemorragia em Dora, que saíra da mesa de cirurgia para o cemitério. A família entrou em choque, Ago se revoltou, queria espancar o médico responsável pela cirurgia de sua irmã, queria matá-lo. No dia do enterro de sua irmã, Ago começou a beber,e beber muito para tentar esquecer a dor que sentia por perder a irmã, mas infelizmente, nunca era o suficiente, Ago sempre precisava de mais, e acabou entrando nas drogas que seus “amigos” da escola vendiam, e a cada dia que se passava, Ago tentava superar a morte de Dora, mas a cada vez que tentava mais se afundava.

Coral foi dormir com esse pensamento, na história de Dora e Ago, e quanto mais ela pensava, mais ela chegava a conclusão que tinha que ajudá-lo.