Conchas
6 Inclinação
Notas iniciais
Água, muita água, milhões de litros dela, eu estava imersa, sentindo a água entrar por entre meus dedos, meus cabelos flutuarem conforme o fluxo do líquido que me banhava, as bolhas de ar que eu produzia ao liberá-lo do meu corpo passaram pelo meu rosto, fizeram cócegas, minhas pernas, meus braços, meu tronco e minha cabeça não pertenciam à mim, pertenciam à água, um sentimento de saudade, queria sempre estar nessas águas, me sentia um feto no útero da mãe, nadando em seu líquido amniótico, respirando-o. Quisera eu que essas águas fossem tratadas com oxigênio, assim poderia respirar de baixo d'água, poderia viver como sempre quis, nadar por aí sem rumo, sem preocupações, sem provas, sem ninguém morrendo, apenas vivendo eternamente nessas águas tão tranquilas. Como se alguém brincasse de muito mal gosto comigo, a água começou a ficar quente, borbulhas começaram a surgir de algum lugar desconhecido, a água evaporou com o calor, lava emergia do chão agora visível, eu estava exasperada, quem ousou acabar com meu paraíso? A medida que tudo mudava, mais quente ficava, fogo brotava para todos os lados, eu corria, corria de medo, de pavor, de ódio mas não achava saída, quanto mais corria, mais o fogo se alastrava às minhas costas, mais a lava corria em minha direção, o inferno havia começado, tudo estava acabado, senti uma chama queimar-me no pescoço, como se tentasse me alcançar e me puxar para o redemoinho de chamas que ficava cada vez maior, puxava-me ao centro, queria me queimar, e então desisti de tentar correr, não havia saída, não havia chance, tropecei, caí, por lá mesmo fiquei, qualquer esforço era nulo, eu nada podia fazer em relação à isso. Deitei-me e senti um ar fresco, vento? Sim, vento, o vento afastava as chamas de mim e tentava secar a lava, vi nele uma esperança, levantei-me e parti para a origem da minha salvação, andei, andei, me afastei do inferno, mas nada achei, andei mais um pouco com o vento ainda mais forte contra o meu rosto, eu andava para encontro de sua origem, mas agora, meu salvador me empurrava, empurrava ferozmente, como se eu fosse uma ameaça para ele, eu lutava contra ele e eu contra mim. Pensei em desistir outra vez, mas meu instinto me disse para continuar, e continuei, minhas pernas tremiam de tanta força que eu fazia para me proteger dos ataques do vento contra mim, e por fim, pisei em algo. Olhei para o chão e vi grama, mas não um grama desconhecida, pelo contrário, uma grama muito conhecida, era Dazi, tinha certeza, arranjei forças de onde não tinha mais e corri pelo gramado, senti o cheiro de maresia, o que me deu mais força, avistei de longe uma casa com quatro pessoas na varanda, as pessoas que eu mais queria ver em todo o mundo, meus pais e meus avós, um sentimento tão bom bateu em mim, corri na direção deles, mas, como se eu fosse uma boneca, me arrancaram desse mundo.
– Coral?- chamava uma voz familiar distante- Coral, acorde — pediu a voz e eu obedeci.
Era Tot com uma ridícula listra de protetor solar no osso do nariz, não resisti e ri, pessoas da cidade realmente não sabem passar um protetor solar, lá em Dazi tinha competição de quem passava mais rápido, mas, acho que na cidade eles não curtem muito essas brincadeiras.
– Adivinhe — me disse com felicidade
– Você não sabe passar um protetor solar? — respondi limpando a grande listra vertical, a tentativa de se proteger do sol.
– Olhe só, isso protege mais — riu e me deixou espalhar o resto de protetor por suas bochechas — Não, os Heallying nos chamaram para a casa de praia dele.
– Tá... Quem são esses?
– Ora, os pais de Ago, mas claro que você não prestou muita atenção quando eu os apresentei, Ago era mais interessante do que eu digo à você — Tot fingiu um ciúme.
– Isso é mentira, mentira, mentira, mentira — o abracei e ele me mandou fazer as malas, íamos passar 4 dias na praia.
4 dias, 4 dias de água, 4 dias de mar, 4 dias de alegria, 4 dias de areia e 4 dias de... Ago! Isso se ele não estragar tudo. Fiz minhas malas, coloquei nela além de roupa íntima, uns vestidos soltinhos, uns shorts, umas regatas, 2 biquinís e uma sapatilha, caso saíssemos para algum lugar. Desci e Augusto estava servindo o café da manhã, ele é um homem muito carinhoso, sempre feliz, mas ao mesmo tempo, um homem sério que nunca perde a sua postura. Augusto recebeu-me com um abraço e um bom dia, deu-me um prato e puxou a cadeira pra mim, meu pai era um cavaleiro. Tot estava ansioso, tagarelava enquanto comia e bebia seu suco de goiaba, falava e falava horrores, eu o adoro, é a melhor pessoa do mundo, divertida, atrapalhada, de vez em quando faz umas loucuras como subir na mesa enquanto limpa a casa ouvindo uma música dançante, sim, ele fez isso.
– Ai Coral, você vai amar, aquela casa é magnífica, né Augusto? De madeira mas toda de vidro, vidro, vidro, vidro, vários espelhos, sofás confortáveis COM DETALHES EM MADEIRA, CORAL, DETALHES!!! — Tot enquanto animado com algo, acaba subindo o tom de voz e gritando — Vários lustres, orquídeas, várias orquídeas, eu amo orquídeas e... — desviei o olhar e vi Augusto segurando o riso, me senti tão bem essa hora, finalmente uma família harmoniosa.
A viagem inteira eu dormi, mas não sonhei, o sonho desta noite me deixou cansada e sem criatividade. Chegamos à casa e Tot estava radiante, o flagrei pulando pelo jardim enquanto ninguém estava vendo, ou ele achava que ninguém estava vendo. Ele nasceu pra ser rico, um dia ele chega lá.
– Desculpa — disse uma voz por trás de mim, me virei e era Ago.
– Pelo o quê?
– Pelo vexame que eu fiz na sua casa outro dia.
– Sem problemas, sei que não foi por querer.
– Pois é... — disse desviando o olhar.
– Quer conversar sobre? — e ele olhou fixadamente pros meus olhos tentando ver se a minha pergunta era verdadeira, fiz questão de transparecer que sim, e ele desarmou.
– Creio que mais tarde... Não estou em um bom momento, com licença. -e se retirou, me doeu vê-lo desse jeito, e com essa última imagem, não o vi mais durante o dia inteiro.
Tivemos uma ótima tarde com os Heallying, Jade é uma mulher maravilhosa, fina, rica, glamurosa, com um corpo esplêndido, sorriso perfeito, cabelo hidratado, unhas tão lindas que pareciam ter acabado de ser feitas, era uma mulher de classe. Marx era um homem centrado, simpático, mas centrado, não parecia amolecer por nada, a não ser pela sua esposa e seu filho, era dono de grandes empresas, tinha milhões na conta, isso explicava todas as casas de praia, campo, cobertura da prédios em várias cidades, mas isso sinceramente não me impressionava. Dinheiro não dizia nada, só status, Ago estava aí para provar tudo isso.
O jantar foi divino, um tal de Carpaccio de entrada, um Fricasssê como prato principal, dispensei a sopa, era uma feita de peixe, e segundo os meus costumes, não comemos peixes, são nossa família. Mas a sobremesa, eu sinceramente jamais dispensaria, depois de tantas coisas chiques, uma coisa muito modesta nos foi servida, sorvete. Acho que comi um quilo de sorvete, variei de todos os sabores, todas as caldas, todos os acompanhamentos, mas senti falta de Ago, seria bom ter alguém da minha idade naquela mesa, pelo menos ele não passou fome, vi a empregada levando para ele todos os pratos que comíamos, e não resisti.
– Desculpe se for falta de educação, mas porque Ago não come conosco?
Todos se entreolharam e eu senti que fiz uma burrada gigantesca, um silêncio reinou, e por fim, Marx me respondeu:
– Ele sente falta da irmã e as vezes prefere ficar quieto no canto dele.
E então eu deixei o assunto baixo, me despedi de todos e me retirei a um dos inúmeros quartos de hóspedes da casa, tentando achar o meu, passei pelo o de Ago, e incrivelmente, ele falou comigo.
– Já vai dormir?
– Acho que sim, estou meio cansada...
– Ah sim, então, tenha uma boa noite Coral.
– Boa noite, Ago — me retirei sorrindo ao ver que ele também sorriu na despedida, ele não era uma pessoa má ou ruim, só precisa de alguém que o ajude, e esse alguém definitivamente serei eu.
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