Conúbio

3 Prolongando o inevitável


Notas iniciais
Gostaria de agradecer especialmente a Paloma Malfoy pela lindíssima recomendação! Adorei de ♥ Escrevi o capitulo ao som do Hino: https://www.youtube.com/watch?v=vU8eL2CjzHw



Tyrion Lannister
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Há dias, mal se via o sol.
O céu permanecia nublado e incomumente escuro, carregando a promessa de noites tempestuosas e tormentas terríveis que assolariam a terra por dias sem fim. Ou simplesmente, haveria de estar tambem refletindo o sombrio estado de espirito da Mão da Rainha.
Até desembarcarem em Pedra do Dragão, Tyrion nunca havia conhecido uma fortaleza cuja construção tivesse sido tão intensamente inspirada na história de seus fundadores. E, apesar de já ter estado em castelos maiores e mais luxuosos, era obrigado a reconhecer que nem mesmo a própria Fortaleza Vermelha, também construída pelos Targaryen, se assemelhava ao requinte único do Castelo da ilha.
Tudo ali possuía uma aura naturalmente antiga e poderosa. O que costumava causar em Tyrion, a forte sensação de despertar de um sonho apenas para se dar conta de que a própria realidade que o cercava, havia se tornado muito mais condizente aos seus anseios mais íntimos do que qualquer devaneio poderia ser.
Afinal, Tyrion sempre fora secretamente aficionado por Dragões, plenos e inalcançáveis, e tudo o mais relacionado a eles.
Consequentemente crescera lendo e ouvindo histórias sobre os Targaryen,. Sobre suas conquistas, tradições e também, sobre o seu quase completo extermínio. Sendo assim, até há algum tempo atrás, ainda lamentava não ter nascido numa época do mundo em que existisse verdadeira magia.

Bem, não lamentava mais.

Mas, agora, talvez fosse o momento de começar a lamentar por coisas diferentes. Pensou ele, de modo soturno, enquanto atravessava a alta ponte de pedra, um grande arco sob o vazio, que conectava Tambor de Pedra até a torre da masmorra onde seu irmão estava trancafiado. Como prisioneiro.
Tyrion suspirou pesadamente.
Durante toda a sua vida havia amado e invejado Jaime em igual medida.
Quando garotinho, ao longo de todos aqueles anos de humilhação e rejeição, fora Jaime, e somente Jaime, quem esteve la. Defendendo-o nas vezes em que tão frequentemente o tratavam como se fosse um monstro, uma aberração.
Apesar de tudo, se considerava um anão bastante sortudo.
Não havia apenas nascido um anão, mas, um Lannister do Rochedo, e certamente tal fato o tornava um privilegiado em comparação a maioria das pessoas nascidas com a sua condição. Pois, não fosse sua posição hierárquica, Tyrion sabia, teria sido imediatamente arrancado dos braços da sua Mãe moribunda e ido, sem preâmbulos, parar no fundo de um rio.
A vida é bastante dura. Mas sempre pode ser pior.
Sem o seu irmão, a única pessoa que durante seu crescimento realmente o aceitara e o considerava um igual, Tyron também nunca teria conhecido a mais remota demonstração de afeto ou amor.
E por isso, seria grato a vida inteira.
Pois, talvez, diante de tal privação pudesse mesmo, no decorrer de seu desenvolvimento, ter se transformado no monstro que costumavam acusa-lo de ser.

Ele devia a Jaime sua própria lucidez.
E agora carregava o peso da sua sentença.

Ao se aproximar dos dois Dothraki que guardavam a entrada da masmorra, Tyrion sorriu com escárnio.
Quando fora nomeado Mão de Daenerys, o momento mais jubiloso e o mais importante de sua vida, havia imaginado um belo futuro repleto de conquistas, reconhecimento e justiça estendendo-se diante de si. Parecia agora a Tyrion que o lado obscuro de seus próprios sonhos havia, finalmente, se voltado contra ele.
Julgou que construiriam um futuro diferente a base de flores e harmonia?
Tolo.
A verdadeira Paz não seria conquistada tão facilmente. Nem poderia.
Mas que Paz é essa, que transforma um irmão num inimigo?

— Ora, deixe-me passar. Sabem bastante bem quem eu sou. – disse, procurando conter a irritação, juntamente com o fluxo de seus pensamentos.

Os dois Dothraki, apesar de já tê-lo visto diante deles, continuavam a bloquear a entrada da Masmorra. Pareciam bastante ameaçadores, segurando foices afiadas nas mãos enormes e ostentando sua típica expressão fechada. Tyron não se deixou intimidar.

— Deverei eu incomodar Daenerys, trazendo-a até aqui para provar a vocês, seus dois brutamontes, que de fato, tenho permissão para entrar?

Ambos, quase em sincronia, deram de ombros e desviaram os olhos com indiferença, optando por continuar a ignora-lo.
Tyrion suspirou, pois estava claro que aqueles dois Dothaki ainda eram completamente incapazes de compreender uma única palavra do Idioma Comum. Então, contendo o impulso ridiculo de simplesmente passar por debaixo das pernas de um deles (pois não ansiava ser atingido nas costas por uma foiçada) começou a gesticular.

— A Mãe dos Dragões! – Exclamou, entrondosamente, imitando num ritmo frenetico o movimento de asas batendo. – Eu sou a Mão! A mão da rainha. Da Mãe dos Dragões! – declarara, alternando entreapontar para o castelo e de volta para si, no espaço ausente do broche em seu peito.

Finalmente, após alguns instantes de um silencio estarrecido, eles resmungaram entre si qualquer coisa naquele idioma bárbaro, e se afastaram permitindo sua passagem.

— Agradeço! Seja lá quais forem os seus nomes. – murmurou, enquanto adentrava o espaço cavernoso.

As masmorras sob a cidadela de Pedra do dragão eram mais quentes do que celas comuns costumavam ser. Úmidas e sombrias, tendo somente como fonte de luz uma pequena sequência de tochas tremeluzentes cujas bases eram fundidas em bronze, na forma exata das garras de um Dragão.
No final do estreito corredor, por de trás das grades enferrujadas da última cela mais apertada do recinto, encontrava-se Jaime. Parecendo mais sujo e mais magro desde a última vez que Tyrion o vira, apesar de já ter garantido que nada de básico lhe faltasse. A não ser, é claro, a própria liberdade do irmão.
Algo além do meu controle. Pensou, com melancolia, aguardando que Jaime expressasse qualquer sinal de que notara sua presença. No entanto, após alguns instantes de fria apatia, também não se espantou quando ele não o fez.
Se prostando diante da forma encurvada e obscurecida do irmão, do outro lado das grades que os separavam, Tyron começou a dizer:

— Vou ter que conversar com Daenerys, sobre o rodizio de Dothraki montando guarda na entrada da sua cela. Se eu tiver que gesticular para conseguir entrar todas as vezes que..

E a seguir, o Lannister entregou-se a tagarelice incessante que havia se tornado, no decurso de todas aquelas longas semanas, sua companhia constante durante as visitas que fazia a Jaime. Permitindo-se levar também, pelo fluxo irreprimível de pensamentos que o afligiam desde aquele fatídico dia. Que parecia, de modo incontestável, ter posto os dois tipos de lealdade existentes dentro de si, uma contra a outra.

Desde que Jaime fora capturado, e os exércitos Tarly e Lannister duramente devastados após o ataque de Daenerys, as únicas conversas que Tyrion conseguia ter com ele se resumiam a um solilóquio.
Pois Jaime se recusava terminantemente a proferir qualquer palavra.
Tyirion já havia superado a frustação que se seguia após cada tentativa falha de interação. Na verdade, o que mais lhe atormentava, além do tempo que parecia escorrer por entre seus dedos, era o tão obvio desprezo que Jaime passara a sentir por ele. Tyrion simplesmente não sabia como reagir a isso.
Por tal motivo, e sem sentir que dispunha de outra escolha, dedicava parte dos seus dias ali pronunciando palavras a esmo, por vezes até desabafando, enquanto encarava os olhos que o irmão mantinha intencionalmente sempre desviados dele.
E essencialmente,
Prolongando o inevitável.

— Se abster de palavras, Jaime, não vai tira-lo daqui. – garantiu, de modo consternado, pela milésima vez.

Quando Jaime fora encontrado nas margens do rio, desacordado, Tyrion que assistira a batalha a distância respirou aliviado. Na posição de Mão e por ordem direta de Daenerys, fora-lhe concedido somente uma única regalia, conquistada às custas de muito persuasão.
Muitos queimaram naquela tarde. E o som crepitante de suas piras ardendo e o cheiro rançoso que seus corpos expeliam, é algo que o Lannister demoraria um longo tempo para esquecer.
Todavia, Tyrion conseguira trazer seu irmão para as masmorras, como prisioneiro de guerra. O único prisioneiro que Pedra do Dragão recebeu naquele dia. E que segundo Daenerys, jamais receberia novamente.
Lembrou-se então das palavras duras da sua Rainha, responsáveis por todo o limbo que estava vivendo:

''Enquanto o silencio dele perdurar, você estará afastado do conselho, Tyrion. Minha confiança em você tem a medida exata da sua lealdade. Seu irmão tem um mês. É até onde se estende a minha clemencia perante um regicida.

— Isto é uma sentença de morte, minha Rainha? — indagara-lhe o ultimo dos filhos de Tynn Lannister, sentindo seu peito pesar tanto quanto uma tonelada de moedas de ouro.

— Se preferir considerar desta forma, então, sim. — dissera Daenerys, sondando-o com aqueles olhos tão claros, quase violetas, que Tyrion achava possuírem a capacidade de ver também, através dele.''

Á medida que o tempo corria, e não obtinha-se de Jaime qualquer avanço significativo, Tyrion foi ficando bastante desesperado. Acreditava que se conseguisse faze-lo falar, a pensar em conjunto, poderiam então encontrar alguma solução. Alguma solução que preferencialmente não envolvesse fogo, morte e desolação.
Porém, conforme o tempo passava, o silencio do irmão também só parecia endurecer.
Felizmente, por mais que Jaime se esforçasse para parecer indiferente, Tyrion conhecia-o suficientemente bem para identificar o que poderia despertar-lhe interesse e distinguir os efeitos que certos assuntos teriam sobre ele. Com sorte, em algum momento, seria capaz de obter uma reação..
Reação
Ele reprimiu o pensamento nocivo. Por mais que vasculhasse seu cérebro em busca de alguma outra solução, nada mais lhe ocorria. Além desta.
Tyrion suspirou novamente, apoiando a testa contra a ferrugem das grades geladas.
Uma vez, sob circunstâncias diferentes, também já estivera no lado errado das grades. E mesmo que pudesse, sabia que Jaime jamais teria feito uso de um método tão baixo como o que Tyrion, nas horas mais sombrias do seu desespero, chegara a cogitar para tira-lo de lá. No entanto, o desgaste psicológico pelo qual passara nas últimas semanas parecia estar corroendo também, a sua razão.
Sangue contra sangue
De qualquer modo, seria para sempre uma traição.
O único trunfo que possuía, era o único que desejaria jamais precisar usar.

Mas estava ficando sem tempo e sem opções.

"Sempre questione onde sua lealdade está. As pessoas que você confia irão esperar por isso, seus maiores inimigos vão desejar isso, e aqueles que você mais estima, vão, sem falhar, abusar disso.''
Revenge