Conúbio
11 Ponte Infinda
Notas iniciais
''Deve haver um outro mundo por detrás de cada amante.
Uma ponte infinda, no assoalho, um berçário de estrelas, vazio, profundo.
Na densidade infinita dos Deuses.
Dentro a lente dos olhos, dos átomos, de todas as coisas indivisíveis
Realidades nascem sorrateiras...
Por que você sonha em fugir, Baby?''
Johnny Hooker
Jon Snow
○ ○ ○
— Parece cansada.
— Pareço? Não devo estar demonstrando nem metade do quanto realmente me sinto cansada, Jon Snow.
Estavam sentados lado a lado sobre um tapete branco de pele de arminho. Próximos o bastante para que Jon fosse capaz de notar, pela primeira vez, o cheiro floral e levemente cítrico que emanava da pele dela. Afastados o suficiente, para evitar que seus cotovelos se esbarrassem enquanto seguravam suas taças de vinho.
Fingindo observar o esvaecer ruidoso da lenha que queimava na lareira diante deles, o Nortenho na verdade tentava, livre de sucesso, compreender a singularidade daquela situação. Tão confortável quanto supunha que estaria, se fosse lançado no meio do oceano...dispondo unicamente de um barco sem remos.
E Daenerys ali. Tão linda, tão próxima.
Isso é loucura. Loucura. Um salto no vazio.
Fazia um noite fria, o inverno enfim, parecia tê-los alcançado. Daenerys esticara as pernas até seus pés, sem sapatos sem meias, estarem numa distância alarmante das chamas. Contudo, ela remexia os dedos pequenos com serenidade, parecendo apreciar o calor.
Jon por outro lado, apoiava os cotovelos entre almofadas de linho carmesim ás suas costas, as pernas encolhidas de maneira quase dolorosa, sem saber ao certo como se portar nem o que esperar daquela situação.
— Duvidei que viria. – Daenerys sorriu por entre os lábios ressecados — Parece sempre tão sério e contido.
Jon arqueou as grossas sobrancelhas.
— Eu? Contido? – indagou, sarcasticamente. Então, prosseguiu num tom grave – Devo ir embora?
A Targaryen atirou a cabeça para trás, deixando escapar uma risada meio afônica.
— Está vendo? Sério demais, Jon Snow!
Jon endireitou as costas.
— No Norte tendemos a ser reservados.
— Então deixe de reservas e também estique as pernas! Ou em breve estará tomado por caibras. – a postura dela soava tão leve, tão diferente do habitual, que mesmo sem pensar Jon recuou mais entre as almofadas, alongando as pernas no tapete.
— Mais vinho? – ofereceu ela, estendendo a jarra ao seu lado na direcao de Jon.
— Obrigado. – agradeceu, aceitando.
Beberam em silencio.
— Como é o Norte? – perguntou a Rainha, por fim.
— Vasto, frio e extenso. — descreveu, sem hesitar.
Num gesto despretensioso, Daenerys apoiou uma das mãos no maxilar delicado.
Ambos encaravam o fogo.
— Me conte a partir da sua perspectiva. Como é o Norte pra você, Rei do Norte?
Jon franziu o cenho, pensando.
— Selvagem. Embora familiar.— revelou, lembrando saudosamente das arvores coração — No Norte acreditamos nos Deuses Antigos. Creio que haja mais honra no Norte do que em qualquer outra parte dos Sete Reinos. Mas, talvez, eu seja suspeito em falar... Esta é a primeira vez que saio de seus limites.
Ela virou a cabeça na sua direção, encarando-o com nítida curiosidade.
— E o que tem achado?
— Do que?
— Do Sul.
— Não é a melhor época para viajar. – respondeu Snow com certo humor, após hesitar. Ela continuou a fita-lo de modo impassível, aguardando que ele prosseguisse.
Jon reformulou a resposta.
— Sob outras circunstâncias, esta parece ser uma ilha bastante agradável.
Foi a vez de Daenerys franzir o cenho.
— Sim. Deve ser. – assentiu, desviando os olhos.
— Você gosta daqui? – questionou Jon, após um instante.
Ela o encarou novamente, parecendo perplexa.
— Como disse?
— Majestade. – corrigiu-se ele, achando ter notadouma sombra obscurecer o semblante da Rainha. – Gosta da ilha?
— Eu não tenho que gostar, pertenceu aos meus Ancestrais. – respondeu Daenerys, com frieza.
Jon limpou a garganta, preparando-se para levantar.
— Bem, por mais imprevisível que tenha sido o seu convite.. Foi uma honra, Majestade. – enunciou, sinceramente.
Detestava ter de pensar para se expressar e, desde que chegara, sentira que estava pisando em ovos com a Mãe dos Dragões.
— Mas já vai? — indagou ao virar-se, surpresa, para ele.
— Temo que o seu conselho não vá achar muito prudente, ou aceitável, minha presença aqui tão tardiamente. – esquivou-se Jon, evitando ser rude.
Um lampejo de arrogância tomou a face da Targaryen.
— Eles não tem que achar nada, Jon Snow. Minha vida particular é apenas minha.
Diante disto, Jon não objetou. Pois concordava com ela.
— Então devo ficar? — deixou escapar, falhando em reprimir o misto de ansiedade e curiosidade que sentia.
— Deseja ficar? — indagou ela, em retorno.
E resta outra opção?
Jon não sabia se o que pensava poderia ser dito com a devida polidez, ainda, para a sua própria frustração, temia ser inconveniente e acabar ofendendo-a de alguma maneira.
Dessa forma, impulsionado pelo próprio embaraço desviou os olhos e, imediatamente, acabou sendo tomado por um grande sobressalto que o fez atirar-se, sem hesitar, em direção às pernas da Targaryen.
— Seus pés! — rugiu, achando te-los visto sendo tocados pelas labaredas da lareira.
Mas, para a sua perplexidade, Daenerys riu, dispensando-o, de tentar afasta-la do fogo, com um aceno descontraído.
— Está tudo bem, Jon Snow. As chamas não me ferem como fariam a você.
Jon fixou-lhe um olhar sério, sem compreender. Então, notou que a graça de um instante atrás, se esvaíra por completo do semblante da Rainha.
— Acho que não nos encaixamos muito bem no que as pessoas tendem a considerar como comum, não é? — Daenerys sustentou seu olhar, farta de uma repentina intensidade — Não acha, Ex Comandante?
Foi como se um alerta estridente houvesse disparado dentro de sua cabeça.
Seria impressão ou Daenerys fazia menção ao que se passara na Patrulha da Noite? Como ela poderia saber qualquer coisa sobre isso? Ele havia feito questão de abafar o caso, ainda era-lhe um assunto bastante delicado. E nem queria pensar nas consequências desastrosas que poderiam se gerar, caso alguém descobrisse sobre os detalhes do seu “Renascimento”.
Definitivamente, esse não era o tipo de atenção que Jon almejava para si.
— Por que me chamou aqui, Daenerys? — exigiu saber num tom grave, repleto de suspeitas.
Ela o encarou de volta, um escudo de gelo formando-se nas profundezas azul-violentas de suas orbes. Mas, em seguida, piscou. E qualquer hostilidade ou fria apatia que se formara ali, pareceu ruir com o movimento.
— Simplesmente porque... por algum motivo estranho, não há mais ninguém neste castelo cuja presença hoje eu poderia desejar mais do que a sua. – confessou a Targaryen, com sinceridade.
Jon engoliu em seco, tentando não reparar na maneira adorável, quase magica, com que o reflexo das chamas iluminava a face pálida dela. Era como sentir o calor do sol sob a pele quando se estava Para Lá da Muralha, congelando até os ossos. Parecia uma ilusão.
Ele bebeu mais do seu vinho, sem saber bem o que dizer.
— Fico me perguntando a razão disso — continuou Daenerys, tocando uma longa mecha dos cabelos soltos entre seus dedos pálidos — Quero dizer, o que você significa pra mim, Nortenho? Nos conhecemos a tão pouco tempo. Eu nem mesmo sei com toda a certeza quem você é. — Por um instante, seus olhos se encontraram. Em seguida, tornaram a se desviar.
Jon reprimiu um suspiro.
— Acho que podemos concordar nisso. — replicou, com a voz rouca.
— Por isso achei que devíamos nos conhecer. Não sob a constância de olhares curiosos, nem sob qualquer fachada ilusória. Mas como somos, devida e cruamente. — ela bebeu outro longo gole de vinho — Vivemos tempos difíceis. Não quero perder o Norte.
''Não quero perder o Norte'' Ele sentiu uma fisgada repentina de fúria. Como se já fosse dela para perder.
— Costumamos nos orgulhar de poder dizer que o Norte é uma terra quase indomável, Majestade. Não pertence a ninguém para poder ser conquistada. — disse em meio a um trincar raivoso de dentes.
Foi como se o aposento ao redor deles tivesse esfriado uns 10 graus. Ou seria apenas ela, e sua petulância, que o irritavam além do que seria capaz de descrever?
— Apesar disso, parece ser uma terra que responde a Reis. Já que elegeu você. — retorquiu Daenerys, num tom que também refletia irritação.
— Responder é bem diferente de temer ou servir, Daenerys. Na maior parte das vezes, pouco importou qual seria a bunda que decidisse se sentar num trono ao Sul. Contanto que, seu suposto poder, não infligisse nossos limites. – enfatizou Jon, tentando manter a calma.
Ela sorriu, mas não sem escárnio.
— Mas, parece-me, que para o seu povo isso agora importa.
— Importa, por conta de uma sucessão de erros, ofensivas e ataques que jamais poderiam ser tolerados. Pois se houve realmente uma harmonia entre os reinos, o que sempre achei difícil de acreditar, deixou de existir. E em consequência disso, um maior posicionamento do Norte, apesar de nao premeditado, acabou por se tornar necessário.
Um silencio incomodo se seguiu, enquanto ela o analisava por entre cílios espessos e bochechas coradas devido ao excesso de vinho.
— E aqui está você. – disse ela, por fim.
— Sim, e aqui está você. — Jon conteve um novo suspiro de frustação — De qualquer modo, não pelos motivos que você pensa. O inverno chegou, e junto com ele, uma ameaça maior e mais terrível do que qualquer guerra entre Casas poderia ser. Em breve, estaremos todos mortos caso não nos unamos por um bem maior.
— E que bem julga ser este, Jon Snow? – indagou a Rainha, com seriedade.
— A sobrevivência. — ele se posicionou melhor no tapete, virando-se de frente a Targaryen agora que percebia ter desperto sua completa atenção para o assunto. — É de máxima importância que nos aliemos para combater esse mal, Daenerys. Que relevância teria um trono, diante do que está por vir? De que importa qual Casa sairá ganhando, nesta sua guerra? Não haverá vitoriosos no final. Pelo menos, não, entre os vivos.
Era vital que ela entendesse. Se pelo menos um dos lados dessa guerra inútil fosse capaz de ouvir a voz da razão, talvez.. talvez ainda restasse-lhes tempo de se organizar contra os Caminhantes.
— Você não compreende, Rei do Norte. Não se trata apenas de vencer mas de..
— Não, não compreendo. – cortou ele, subitamente indignado que tal questão absurda ainda tivesse que ser debatida — Eu olho para essa situação e a vejo exatamente da forma que ela é, e é uma loucura. – Jon fechou os olhos por um instante, sua respiração pesando como um suspiro. — Enquanto vocês consomem uns aos outros nessa guerra por um trono, os mortos avançam ao Norte. E todas essas vidas que estamos perdendo, são as vidas dos nossos aliados. Estamos matando uns aos outros por nada, e isso é um erro injustificável, um caminho direto para o verdadeiro extermínio!
— Como é possível que você possa pensar desta maneira? – Daenerys parecia espantada – Não estamos numa guerra despropositada! O que sugere que eu faça? Permita que uma Lannister, uma usurpadora, continue a se auto decretar como Rainha dos 7 reinos? Até mesmo você, Rei do Norte, já teve sua família diretamente afetada pelo mal que aquelas pessoas disseminaram por toda Westeros. Ou devo pensar que esqueceu? Onde está sua completa devoção pelo Norte agora? Não anseia por justiça, em nome de seu povo? E vingança pela execução de Ned Stark, seu próprio Pai?
Ambos gritavam agora, e deram-se por si, em pé e inclinados um para o outro nos extremos do tapete em que, até minutos atrás, estavam sentados.
— Eu anseio pelo fim de tudo isso. Porque sei que há problemas maiores e mais importantes pela frente. Problemas que todos nós, juntos, devemos estar preparados para enfrentar! Há muito tempo, me dei conta de que as guerras do passado devem permanecer somente assim, como do passado. E não foi fácil – esclareceu ele, resignado – Não é fácil seguir contra o ímpeto, a forma como fomos ensinados a reagir. Mas do contrário, só continuaremos a prolongar um ciclo eterno de destruição! Um ciclo responsável por destruir também nossos pais, nossos avós..É preciso união para seguir em frente, os Primeiros Homens sabiam disso. É preciso superar, Daenerys. Ou todos morreremos.
— VOCE ESTA ME PEDINDO PARA PARAR DE LUTAR! — vocifrou ela, indignada.
— NAO! Eu estou pedindo que COMECE A LUTAR pelo que é realmente IMPORTANTE! — rebateu ele, furioso.
Deixando a compostura de lado, ambos se encararam, absolutamente encolerizados. E no decorrer interminável de vários segundos, continuaram a se encarar, irredutíveis.
Por fim, afastaram-se, com Daenerys lhe dando as costas como fazem os adolescentes durante uma discussão.
— E não ouse partir ainda...– alertou ela, quando Jon tencionou de se retirar a caminho da porta.
Ela é impossível. Impossível.
Entretanto, após mais alguns minutos de um silencio tenso, percebeu como discussão acalorada o deixara sedento. Virou-se, relutantemente, de volta para a Targaryen.
— Onde guarda o vin..
— No armário atrás de você! – cortou ela, parecendo ainda muitíssimo irritada.
Jon arqueou as sobrancelhas, tornando a encher sua taça. E, mesmo irritado, serviu a dela também.
A seguir, dirigiu-se com passos largos até uma pequena mesa de mogno ao canto leste da Sala. Sentou-se e, com um baque seco, depositou a taça de Daenerys no lugar de frente a ele, uma oferta de paz, aguardando que ela o acompanhasse.
Era a primeira vez desde que chegara, que se sentia suficientemente à vontade para reparar na estrutura do ambiente que o cercava ou, mais precisamente, no modo como aquele vestido parecia se ajustar perfeitamente ás curvas de Daenerys. Era necessário admitir que, se não existiam estandartes Targeryan naquela torre, ao menos as cores da casa estavam muito bem representadas no tecido aveludado que ela usava.
Como era bela, mesmo furiosa.
Seus longos cabelos platinados, hoje soltos, desciam em leves ondulações por seu busto volumoso, encobrindo o decote do vestido e alongando-se também até a curva de seus quadris. Embora não fosse só isso que, de repente, fazia o ato de admira-la impossível de evitar.
Vê-la daquela maneira mais exposta do que o habitual, afastada da corte e do peso dos títulos que carregava, facilitava não apenas o dialogo entre eles, como também causava em Jon a forte sensação de que, apesar das discussões, eles, finalmente, estavam realmente se conhecendo. E não pode deixar de pensar no quanto já apreciava isso.
Deste modo, foi ao ser guiado por um impulso que, sem fazer ideia do que geraria, disse:
— Você é tão bela, tão... — o Rei do Norte se interrompeu, reorganizando os pensamentos — Será que não percebe o quanto tudo isso é absurdo? Tantas vidas perdidas... por uma insignificante cadeira de ferro!
Para o Nortenho se tratava de uma questão óbvia. Mas, o efeito que tais palavras simples surtiram na Targaryen foi imediato e imprevisível, e o fez se arrepender de dize-las logo quando as proferiu.
Lentamente, como se saísse de um estupor, Daenerys se voltou para ele. Os olhos em chamas, os lábios rosados comprimidos.
Pelos sete infernos..
— Você me lembra alguém. — suspirou ela, por fim.
Por um segundo ele encarou meio atordoado o súbito despencar de suas feições, e a forma chocante com que aquela Targaryen sempre arrogante, feroz e inalcançável parecia desolada.
— Majestade – Jon levantou-se num átimo – Majestade eu...
Mas, diante daquela inusitada vulnerabilidade, Jon perdeu o foco do que diria em seguida.
Na verdade, perdeu o foco de tudo o mais que não fosse ela, e a tempestade contida ali, naqueles seus olhos tão vividos, que o atraiam.. Cada vez mais.
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