Conúbio
2 O antigo inimigo
Jon Snow
○○○
Ao redor de Jon, sob o monte do dragão, a caverna inóspita há tanto tempo ganhava vida ao som retumbante do atrito simultâneo de picaretas martelando a rocha.
Minerar obsidiana não era a coisa mais fácil de se fazer, nem a mais rápida.
Mas a cada Vidro de Dragão extraído, Jon respirava um tanto mais aliviado, pois significava que estavam mais próximos de ter uma chance. Uma forma eficaz de defesa e talvez, até mesmo de sobrevivência, para quando a Longa Noite chegasse.
E não demoraria a acontecer. Aquela era uma certeza que Jon Snow carregava, a maior de todas. Um fardo, do qual jamais poderia se livrar.
E ali estava ele. Havia posto todos os homens que trouxera consigo de Winterfell para trabalhar na mineração de Vidro de Dragão. Como não eram muitos, sob as ordens de Daenerys, eles agora contavam com a companhia nada animada de alguns Dothraki também. Não que seus homens, repentinamente, tivessem se transformado na personificação do entusiasmo. Afinal, eram Nortenhos. Entretanto, eles não o questionavam. Embora alguns, certamente, ainda fossem um pouco descrentes quanto a causa e as motivações de tudo aquilo.
Jon não poderia culpa-los.
Um dia há menos tempo do que realmente parecia, ele também já fora um tolo e um incrédulo. No entanto, do mesmo modo que aprendera sobre como o tempo podia ser relativo, também havia aprendido a não questionar as inúmeras possibilidades de existência de praticamente coisa alguma. Jon optara por permanecer preparado. Ou o mais preparado que pudesse diante de alguma ameaça.
E, era por isso que ali estava. Tão mais distante do Norte do que poderia imaginar. Naquela ilha estranha, rodeado por um grande exército que em outra ocasião podia ser de inimigos ou que mesmo agora, por conta de uma palavra errada ou atitude impensada, poderia vir a ser. Sob a jurisdição de uma Rainha, descendente de uma Casa, à qual Jon, desde que se entendia por gente, era tencionado a odiar.
No entanto, mesmo tendo a duras penas aprendido a manter determinados assuntos longe de sua mente e do seu coração, duvidava que um dia pudesse nutrir por Daenerys Targaryen qualquer coisa parecida com ódio ou aversão. Ela não era nada do que Jon havia suposto. E tal percepção, havia se revelado uma das poucas coisas que já o espantara na vida.
Mesmo assim, ela compartilhava daquela mesma loucura que tomava, alem de Winterffel, o restante de Westeros. E Daenerys fazia mais do que participar, era o epicentro dela e, por vezes, Jon se questionava sobre por quê, pelos sete infernos, continuava ali no meio daquela confusão sem sentido, quando ao Norte que era onde deveria estar, a morte se aproximava mais a cada dia.
Todavia, precisava do vidro de Dragão.
E por isso...
— Perdido em pensamentos, Jon? Ou devo chama-lo por Rei Jon ou simplesmente Rei do Norte? Ainda não consegui me decidir quanto a isso. – Sor Davos sorriu, exibindo a falta de alguns dentes.
— Como eu lhe disse há pouco tempo atrás, Sor Davos — Jon encarou a ex Mão de Stannis Baratheon tentando imbutir a quantidade exata de seriedade na voz — Não importa.
O homem lhe retornou com um olhar risonho, parecendo satisfeito.
— Como vai o Minério hoje? Perdoe-me o atraso, há tempos não dormia tão bem e tão confortavelmente. Há quem possa pensar que eu pudesse jà estar acostumado á pequena fortaleza de Pedra do Dragão, dado ao fato de outrora, ter sido habitada por Stannis. Portanto, o lugar não me é estranho. De todo modo, é formidável como a presença de alguns dragões podem mudar a perspectiva das coisas. Estando agora retomada pelos Targaryen, a própria ilha pareceu florescer.
— Meio improvável Sor Davos, estamos no inverno.
— Penso que compreendeu o que pretendi dizer, meu Rei. – Davos sorriu, passando a analisar as ricas paredes de obsidiana sob a luz tremeluzente da tocha que segurava firme entre os dedos.
A companhia tagarela do Cavaleiro das cebolas agradava a Jon. O homem era astucioso, o que na sua opinião, dados os tempos em que viviam, era algo útil de se ser.
— Os homens mais arranham a superfície do que extraem, pelo que posso ver. – observou ele.
Franzindo o cenho, Jon Snow suspirou.
A verdade, é que lidar com os Dothraki se provara uma tarefa árdua e infinitamente mais complicafa do que tratar com o próprio Povo Livre. Os Dothraki possuíam o costume desgastante de, frequentemente, contrariar instruções diretas unicamente com o intuito de não se curvarem a vontade de mais ninguém. Até mesmo, Missandei, havia desistido de tentar manter um diálogo razoável entre eles.
Era cansativo. E perigoso.
A tensão entre seus homens e os de Daenerys, era palpável. Por vezes, Jon sentia como se estivesse segurando a ponta de um estopim.
Todavia, nada disso importava. Contanto que continuassem a seguir em direção aos seus objetivos. E o objetivo, era sobreviver.
Nada poderia ser maior do que a ameaça gelada que os espreitava.
— É conturbado, sim. Mas estamos conseguindo, Sor Davos. Não temos tempo a perder.
Os outros estavam chegando.
Mais parecia a Jon que, detestavelmente, muitas poucas pessoas percebiam com exatidão toda a seriedade da situação.
O fato, é que estavam todos loucos.
Tão obcecados com sua guerra de reis, que tornaram-se incapazes de reconhecer até o mais óbvio dos sinais. Prenúncios da longa noite. Do horror que os aguardava e que a todos, indiferentemente de suas Casas ou estirpe social, estavam sujeitos a enfrentar.
Entretanto, Jon Snow sabia. E sabia bem.
Pois havia olhado dentro dos olhos do mal, o único rei que importava, e não havia vida ali. Nada podia ser pior do que isso.
Sendo assim, não lhe restava fazer outra coisa além de se preparar, e preparar o maior número de pessoas possível para o que estava por vir. E aguardar.
E aguardar.
E então, lutar.
Diante de tal expectativa, Jon mexeu os lábios numa pequena sugestão de sorriso.
Afinal, Jon Snow nascera para lutar. O que também era a sua graça e o seu tormento.
Era nas batalhas que se sentia vivo. Independente dos títulos que carregasse, ou da ausência deles. Ali, podia ser quem de fato, realmente era.
Adentrando ainda mais por entre os tuneis sinuosos da caverna, Jon prosseguiu, tendo Sor Davos em seu encalço. Mesmo naquele espaço cavernoso o ar estava quente, como tudo o mais naquela ilha. Após tanto tempo passado no Norte, toda a sua vida, era de se esperar que Jon estranhasse o calor. No entanto, acolhia-o de bom grado, mais confortável do que julgaria ser possível estar.
Estavam indo bem, sim. Constatou Jon, enquanto analisava as ricas pilhas de obsidiana mantidas para o recolhimento diante da parede leste da caverna. Sor Davos pareceu concordar, abaixando-se junto a pilha maior e pondo-se a examinar uma das pedras de vidro vulcânico.
Deixando o Cavaleiro das Cebolas para trás com seus próprios pensamentos, Jon seguiu por um dos tuneis estreitos, um labirinto natural, enquanto as chamas das tochas tremulavam e se refletiam nas paredes negras como ônix e todo o som que ouvia vinha do martelar incansável nas paredes.
Então, de repente, ali estava. Bem diante dele: Um momento que não tinha nada de efêmero. E cujo significado, podia representar muitas coisas. Mudar muitas coisas.
Jon parou, sentindo certa dose espontânea de orgulho, e passou os minutos seguintes a observar o trabalho dos homens, todos eles, seus movimentos rítmicos e a forma como, enfim, trabalhavam juntos. Em uníssono apesar das diferenças e, se permitiu acreditar. Aquele era o começo.
Pois no fim, de nada importava as toneladas de Vidro de Dragão que pudessem conseguir, se não houvesse também um grande exército, o maior exército, disposto a brandi-las como espadas contra os Outros.
Povos unidos.
Sem isso, Jon sabia,
Não existia esperança.
O inverno havia chegado.
''Demônios feitos de neve, gelo e frio (...) O antigo inimigo. O único inimigo que importa '' Stannis Baratheon
Fale com o autor