Comuna 74
1 Dezesseis Velas (Parte 1)
Notas iniciais
05:45. O sol ainda nem saíra e eu já podia claramente sentir o peso da minha testa franzida sobre as minhas pálpebras e olhos. Os músculos da minha face pareciam estar tão rígidos quanto o couro de um crocodilo ressecado, formando uma carranca perfeita envolta em linhas expressivas e ranger de dentes, tudo como resposta a um domingo nublado e azedo como aquele que acabara de começar.
Revirei bruscamente na cama pensando que por mais que todas as santas vezes meus pais dissessem que não, sempre havia uma razão para as minhas crises latentes de mau humor. E diferentemente das outras vezes, agora com peso 100 numa escala de 0 à 10, a razão para o meu despertar já irritada era estritamente séria e digna de se levar em conta por pelo menos essa vez: dezoito de março de dois mil e treze, o meu aniversário de dezesseis anos e por assim dizer, o dia do meu noivado com o Príncipe de Gales, Bernard II.
Aposto minha coleção de discos da Billie Holiday que primeira coisa que todos vão pensar é “Essa garota está reclamando por ter de se casar obrigada com o príncipe Bernard? Aquele príncipe Bernard? Quem diabos ela pensa que é?!” E na verdade para mim o que menos importa agora é a impressão alheia sobre esse tipo de ostentação sócio-cultural vinculada ao produto “Príncipe de Gales” que a mídia e toda a realeza andou vendendo por aí desde sempre. O que mais interessa é que eu não posso de maneira alguma deixar passar em branco o fato de eu estar fazendo parte — contra a minha vontade — de uma cerimônia forjada em jantares espalhafatosos e tratados de boca-a-boca pelos meus familiares, que diretamente jogam com a vida de seus filhos e netos como se fosse um maldito tabuleiro de xadrez. Tudo bem que o discurso parece ser esquisito demais para uma pirralha que tem mais de três títulos de nobreza nas costas e um amor pelo seu sobrenome de família maior do que pelo seu time de futebol, mas ser a favor dessas tramas matrimoniais nunca foi a minha onda, e se existe algo dentro de mim que é verdadeiramente genuíno é a minha indignação quando tentam moldar a minha liberdade.
Eu me chamo Lucille Cavendish, mas costumo atender por Lucy. Nem mais nem menos do que isso. (ok, exceto pelo meu avô Thomas que insiste em me chamar de Loulou desde quando colocou os olhos em mim pela primeira vez, quando eu ainda era um bebê rosado e chorão). Minha pele é branca e fina, tenho os cabelos ondulados e castanhos na altura do meio das costas, meus olhos são azuis enevoados e levemente acinzentados, como nuvens carregadas que se aproximam da parte mais clara do céu, misturando a condensação com o brilho. Agora oficialmente com 16 anos completos, as minhas maiores e possivelmente únicas paixões continuam sendo o jazz e o meu cão pointer Artie.
Aprendi a gostar realmente de música com a minha primeira professora. Na época eu tinha 8 anos e meus pais preferiram o ensino particular em casa do que a escolinha. O seu nome era Albany e ela sempre me questionava sobre as coisas que eu gostava de fazer no meu tempo livre entre uma lição e outra. Foi aí então que uma vez, depois de muito relutar, acabei dizendo que gostava das minhas lições de piano, mas as canções que meu professor ensinava não eram divertidas. Então ela, imaginando que me faria um grande favor, trouxe-me o The Ginius Hits The Road de 1960, um dos primeiros álbuns de Ray Charles a atingir um sucesso notável fora dos Estados Unidos. E foi com Georgia on my Mind que eu obviamente me apaixonei. O jazz veio primeiro, depois o blues, o soul e o r&b chegaram com a maré. Até os meus 15 anos, John Coltrane, Billie Holiday, Ray Charles, Ella Fitzgerald e Art Tatum eram os meus únicos amigos que me acompanharam durante uma infância solitária dentro dos perímetros da Mansão Cavendish. O pointer Artie (nomeado por uma homenagem descarada ao maior pianista de todos os tempos(!), Art Tatum) veio logo em seguida, tomando uma parte importante da minha vida, bagunçando as minhas coisas, roendo meus sapatos, pulando em cima de mim em todas as minhas chegadas e me acompanhando em minhas visitas à Escócia, na temporada de caça.
Essa coisa de não ir à escola quando criança também não foi uma das ideias mais brilhantes que os meus pais tiveram. Sejamos francos. Tanto é que a primeira vez que eu botei os pés em um colégio foi no ano passado, no meu primeiro ano do ensino médio, e claro, tudo o que eu sabia sobre colégios era o que eu aprendi vendo os filmes do John Hughes, e claramente que a minha capacidade de socialização e de fazer amigos naquele instante era tão significativa quanto uma fileira infinita de zeros à esquerda. Mas Goldentorn High não era tão diferente do cenário oitentista burguês dos filmes do Hughes, porque basicamente todas as personagens estavam por lá. Só que ao invés de americanos eram ingleses, e ao invés de ser engraçado na maioria do tempo, era um pesadelo.
E antes de qualquer coisa, eu não sofri nenhum tipo de bullying violento ou humilhante. O que eu sofri foi ter presenciado um certo esforço excessivo da parte das pessoas para ter a minha figura como “amiga”. Eles tentavam me traduzir e me interpretar a todo o tempo, tentavam me agradar de diferentes formas todos os dias. O meu primeiro contato com esse tipo de recepção foi logo nos primeiros dias, quando um grupo de garotas me chamou para fazer companhia à elas na mesa do refeitório, e claro, eu achei o máximo por já estar fazendo amizades tão rapidamente, mas logo percebi que não era nada daquilo. Passado alguns dias, as mesmas garotas imitavam o meu corte de cabelo e as minhas roupas, e isso era tão estranho que eu quase também não tive a chance de ser eu mesma desde o primeiro momento. Era assustador ter que lidar com tanta dissimulação e ter que me defender com a mesma cara de pau que me atingia ao mesmo tempo. Aquela admiração não era verdadeira, vinda de parte alguma. Eu tinha que, diariamente, conjurar uma simpatia que refletia diretamente na simpatia fingida de todos eles. É como uma bola de neve gigante de falsas intenções que sempre está vindo em direção a mim e eu não tenho lugar nenhum para onde correr. Eu nunca quis ser popular, muito longe disso. Existiam outras pessoas com mais grana, títulos, influência e muito mais interessantes do que eu naquela escola, mas parecia que algo especialmente em mim os atraía. E da forma mais egoísta o possível, algo que deixava claro que se talvez pudessem chegar um pouco mais perto, uma coisa muito boa aconteceria para eles. Para alguns garotos eu era o grande troféu a ser conquistado, e para umas as meninas eu era a pessoa certa para ser confidente das suas futilidades. Mas eles não me conheciam, de forma alguma. O que eles enxergavam era só aquela minha carcaça simpática e automática que vagava pelos corredores da escola acenando e retribuindo falsos sorrisos. Mas no fim das contas eu imagino que todos me odiavam e vice-versa. Tudo não passava de uma enorme partida de poker, onde no final quem fingisse da melhor forma seria o grande vencedor. E não era de se espantar que os únicos que me não tratavam de uma maneira diferenciada eram meus professores (até porque o que eles ganhariam com isso?), e a garota mais incrível da ilha da Grã-Bretanha, Mae Walsh.
Mae apareceu na escola no meio do ano passado, e justamente foi a primeira pessoa que eu tive a certeza de são ser um projeto de socialite esnobe ou uma patricinha sem cérebro. A sua aproximação foi um tanto... inusitada. Eu lembro como se fosse ontem, eu estava na aula de educação física treinando futebol, e sem querer quando estava de frente para a goleira almejando marcar um belo gol, tropecei no meu próprio pé e acabei chutando a bola para lá da arquibancada. Todos rimos embaraçados na hora, mas a garota novata que estava no banco de reservas não esboçou nenhuma reação positiva. Pelo contrário. A sardenta baixinha de ombros largos foi como um raio em minha direção em pleno jogo e me empurrou com toda a força para o chão, gritando coisas ofensivas do tipo “Você deveria ter completado a jogada! Se você quiser ser uma jogadora de verdade, não estaria rindo de uma tolice tão grande como essa! Você é uma vergonha pro futebol feminino! Desperdiça seu talento fazendo gracinhas para que todo mundo ria de você e te ache especial. Mas eu estou de olho em você!” E quando eu já estava a ponto de me debulhar em lágrimas, ela estendeu a mão para que eu levantasse, e disse com um sorriso acompanhado de covinhas profundas na bochecha só para eu ouvir: “Se quiser treinar pra valer, me encontre aqui no ginásio no fim da aula.”
Na verdade eu não sei o porque de eu ter ido me encontrar com ela, sendo o mais provável que levasse uma surra da garota quando eu desse as caras. Mas o que eu descobri é que Mae tinha provavelmente o espírito mais competitivo da história da humanidade, e além disso era fã de futebol como eu, mas levava aquilo mais à sério. Muito mais à sério. A primeira coisa que fez foi desculpar-se por ter sido tão estupidamente assustadora da primeira vez, mas disse que era a única forma de me chamar atenção sem que eu pensasse que ela era só mais uma novata a ser ignorada. Mae era engraçada e rabugenta ao mesmo tempo, tinha surtos incríveis de hiperatividade e crises de riso que duravam horas e que sempre me arrastavam junto consigo. Ela nunca se queixava de cansaço ou demonstrava preguiça. Era como uma criança a todo o tempo, mas tinha a disciplina de um monge taoista e era tão inteligente quanto um. E o melhor de tudo é que ela não ligava para quem eu era, ou o quão influente eu poderia ser. Ela só queria que eu me tornasse melhor em uma coisa que eu parecia ter uma ponta de potencial. Treinávamos passes, cruzamentos, jogadas ensaiadas, cobranças de falta e chutes a gol três vezes por semana no campo do Goldentorn High e depois sempre acabávamos em alguma lanchonete do bairro para conversar sobre coisas aleatórias que nos interessavam. E foi assim que nos tornamos amigas, de uma forma tão natural que eu nunca imaginei que pudesse acontecer comigo. Além de tudo, nós também eramos tão diferentes como areia e óleo. Pra começar, ela não via problema nenhum no meu noivado.
“O cara é bonito, rico e parece não cheirar mal. E não esquecendo de que ele pode ser o rei um dia.” ela comentava como sempre, observando tudo primeiramente pelo lado simplista e positivo das coisas. “Casamentos reais são grandes acontecimentos para o país, mas ele vai durar apenas um dia. Depois de acenar para algumas pessoas e câmeras, tudo vai voltar à basicamente sua rotina normal. E aí sim, será um grande adeus à reuniões chatas de família. Se não quiser comparecer em mais nenhuma dessas reuniões estúpidas é só alegar que não está se sentindo bem. Eles provavelmente vão adorar imaginando a chegada de um filho. Você pode usar essa desculpa por anos a fio, Lucy.” Só restava pra mim negar com a cabeça, mesmo tentando não rir ao imaginar o cenário.
Mas digamos que por mais bem planejada que essa ideia toda de casamento fosse — já que meus pais tem tudo sobre controle desde os meus seis anos quando fui oficialmente prometida para o então príncipe de Gales — eu ainda tinha uma pontinha de esperança de que tudo desse errado. Sinceramente? Eu esperava que as coisas ocorressem como em um filme de ação hollywoodiano, mais precisamente que um helicóptero descesse no meu jardim bem no momento em que trocaríamos as alianças, e eu apenas proferisse um raso “Desculpe pessoal, mas hoje não vai dar.” e que simplesmente corresse em direção ao helicóptero e deixasse todo mundo para trás, rumo a América do Sul.
Viagens mentais a parte, a verdade é que eu era nova demais para assumir um compromisso daquele porte, e consequentemente nova demais para poder reclamar e ser propriamente ouvida. Por isso, como toda boa jovem da realeza britânica, a duquesa Lucy de Iorque engoliria o seu orgulho e sorriria para quem estivesse ao seu alcance. Ótimo. Mas pra isso aquela cara assustadora tinha de se desgrudar dali.
Olhei no relógio, 6:00. Corri para o espelho da penteadeira e apenas com a ajuda da luz que provinha do abajur ao lado da cama, pude reconhecer que a minha cara definitivamente não era das mais amistosas, tão pouco das mais simpáticas. Massageei as minhas bochechas e minhas pálpebras com a ponta dos dedos, belisquei minha testa com vontade, dei tapinhas estratégicos em toda a região do maxilar, estralei o pescoço duas vezes e tentei o meu melhor sorriso. “Melhor do que nada, Duchess Lucy.”, pensei ao observar as duas fileiras dentes se mostrando timidamente por entre meus lábios.
Depois de uma ducha morna de quase meia hora, vesti uma camisa branca de malha, meus jeans escuros e rasgados nas coxas e meu velvet cap toe vermelho favorito do Giuseppe Zanotti. Sequei os meus cabelos e colori os lábios levemente com um batom cor-de-rosa.
Eu costumava levantar mais cedo do que todos de casa, juntamente com os empregados, apenas para tomar o meu café da manhã sem ser incomodada por ninguém, além das eufóricas demonstrações de afeto do meu cachorro Artie. Mas hoje os sons que vinham do andar de baixo da casa demonstravam que todos já estavam de pé e ocupados. E como que por instinto, desci as escadas de um jeito que mais parecia estar indo de encontro à uma piscina de lava fervente, ainda assim tentando de todas as maneiras não deixar a carranca voltar a ficar encrustada na minha face.
— Lucy querida, finalmente! — ouvi a voz da minha mãe em um tom que exalava entusiasmo e alívio.
— Bom dia, mãe. — acenei sorridente para ela, que estava com um vaso de flores amarelas nas mãos que de tão grandes, quase não podia ver o seu rosto.
A senhora Cavendish, detentora do título de Arquiduquesa de Iorque, estava reluzente e chamativa como uma árvore natalina em um beco escuro. Seu vestido violeta de pregas e seus brilhantes cabelos loiros presos em um belo penteado davam um toque de vida àquele domingo morto, como um desfibrilador de grife funcionando a todo vapor. Mamãe era uma pessoa que quando tinha motivos para tal, era uma fonte inesgotável de energia e força de vontade. E aparentemente, as últimas semanas têm sido todas voltadas ao evento do almoço de noivado e ela queria que tudo estivesse perfeito. E para isso não pouparia esforços.
— O café está na mesa. A senhora Baltmore preparou tudo exclusivamente ao seu gosto. — ela comentou, enquanto depositava o vaso na mesinha próxima a escada.
A senhora Baltmore era a governanta mais eficiente que provavelmente já existira. Ela era a única pessoa que ao mesmo tempo em que comandava uma orla de dezenas de empregados, administrava e literalmente fazia aquela casa funcionar. Além de ter criado a mim e aos meus dois irmãos mais novos, que digamos, não era uma tarefa das mais fáceis. Em suma, a senhora Baltmore era a alma daquela casa, e já com os seus mais de sessenta anos, ainda tinha tudo sob o maior e total controle.
A Mansão Cavendish fora o meu lar desde que eu tenho a minha primeira memória, e mesmo sendo um lugar espaçoso e as vezes um tanto solitário, era de certo modo aconchegante e por assim dizer, eu me sentia bem enquanto estava lá dentro. O primeiro andar era composto por duas grandes salas, a cozinha, um escritório e a biblioteca. No andar de cima ficavam todos os oito quartos e banheiros. Nos fundos havia um jardim de quase 500 metros quadrados, um piscina e uma quadra de tênis. A garagem servia como o santuário do meu pai, onde ele podia mexer em suas antiguidades sem que ninguém o importunasse. Todos os cômodos eram decorados a partir de influências da arquitetura contemporânea, ornamentadas com peças em vidros transparentes e minimalismos em tons frios, mas ainda muito tendenciada a possuir alguns componentes do século XIX, período de sua construção, onde grandes peças em madeira e vitrais neogóticos compunham o restante da casa, criando assim uma harmônica amálgama entre os tempos. Era uma bela casa, eu diria, e ainda mais naquele momento que ela parecia mais viva do que nunca, com todas aquelas pessoas se movimentando em prol de um único objetivo.
Mas espere... havia alguma coisa que não se encaixava...
Ok. Dessa vez minha mãe havia se superado.
— Nat King Cole, sério mesmo? — reconheci o som harmônico das cordas de longe, que embalavam a composição de Mona Lisa juntamente da voz fascinante do cantor, que para mim era um dos grandes nomes da música americana de todos os tempos. Eu amava aquela música mais do que eu poderia demonstrar, e não era de hoje que meus pais sabiam da minha paixão por aquelas canções americanas. Mas usar isso a favor deles era quase inédito. O Arquiduque de Iorque, o senhor Albert Cavendish achava que eu tinha um bom gosto, mas ainda preferia seu bom e velho hard rock britânico que o lembrava dos tempos quando ainda era adolescente. Minha mãe dizia que era uma bobagem eu ser tão fissurada em apenas um gênero musical, quando existiam tantas coisas que eu poderia estar experimentando e descalejando os meus ouvidos, o que obviamente me provocava revolta e que me fazia rebater com os meus clássicos discursos tendenciosos do tipo “Jazz é a própria diversidade, mãe! Quem precisa ouvir outra coisa quando a única coisa que você escuta não possui só uma alma, mas todas as almas juntas num lugar só?”.
— Tudo para o seu dia, querida. — minha mãe respondeu cínica, rindo da cara engraçada que eu provavelmente fizera sem querer.
Engraçado. Mona Lisa era a música que, certo dia, há milhares de anos, quando eu ainda achava um máximo se casar com um príncipe encantado, eu dissera por ventura que gostaria que o meu possível e imaginário noivo tocasse-a para mim quando nos casássemos. Que bobagem, ela não poderia lembrar daquilo.
Ou poderia..?
— Você é um monstro sabia? — terminei de descer as escadas depressa, apenas para pular em seu pescoço e beija-la no rosto como se tivesse realmente entusiasmada com o que se seguiria durante o dia todo e aceitando a venda da minha alma em troca de uma música que eu nunca imaginei que minha mãe usaria para comprá-la de mim.
— Eu sei. — cantarolou alegre, retribuindo o beijo com um abraço que fizera meus ossos das costas se espremerem. — Feliz aniversário, Loulou.
Afastei dela fingindo estar ofendida, mas logo voltei para seus braços carinhosos rindo, talvez, da minha própria e fatídica desgraça.
Eu juro que tentava ser dura e ficar brava com ela e tudo o mais, mas quando a arquiduquesa queria ser uma pessoa atenciosa ela conseguia ir contra todas as leis universais que determinavam o seu Eu natural. E pior ainda, por mais chantagista que aquela música que ressoava como um gás sereno pela casa fosse, eu estava adorando o meu dia até ali. Pelo menos a parte do aniversário ainda era boa, afinal era uma idade importante. O que me incomodava de verdade era o noivado e todas as responsabilidades que eu teria de tomar em relação a festa de casamento e tudo o que se seguiria depois na minha vida de casada, que por acaso eu havia sido incumbida de fazer parte contra a minha própria vontade. Quem em sã consciência nesse mundo assumia um compromisso matrimonial aos dezesseis anos de idade?
— Com licença, senhorita Cavendish. — a voz da governanta pareceu quebrar os meus pensamentos angustiantes como um machado em uma melancia, trazendo-me para a realidade novamente. — Seu pai está a sua procura, na biblioteca.
— Obrigada, senhora Baltmore.
Enquanto eu caminhava até a biblioteca, pude observar melhor o trabalho dos empregados. Tudo estava assustadoramente perfeito. Cada pedaço de mobília e parede parecia ter saído do forno naquele momento, cada peça de vidro refletia o meu rosto admirado de uma forma tão límpida quanto a água de uma nascente. A cozinha parecia uma estação de trem, com a quantidade de entra e sai de pessoas que fluía de lá. Pela porta aberta pude observar de longe que o jardim estava sendo cuidado e recuidado por uma enxurrada de gente.
Se o almoço de noivado estava assim, era complicado de imaginar o dia do casamento. Eu esperava não viver tanto para ter que passar por esse dia, mas se tivesse uma coisa para a qual eu realmente queria estar presente, era para contemplar o estado de harmonia plena que a minha casa parecia ficar. Até os meus irmãos pareciam estar estranhamente quietos. Aquilo sim era uma verdadeira dádiva.
Bati na porta e ao receber a permissão, adentrei na biblioteca que desde sempre fora um dos meus lugares favoritos na casa. O silêncio daquele enorme cômodo era tão convidativo como qualquer canção que saía dos dedos de um pianista à minha admiração. Eu ainda não havia lido nem sequer um terço da enorme quantidade de livros que ali ficavam, e provavelmente teria que viver mais de cem anos para conseguir chegar perto de ler todo o seu vasto conteúdo, que variava desde a História da Arte até a medicina tradicional chinesa. De filosofia contemporânea à manuscritos literários do século XII. Pude notar que Artie estava deitado em baixo da mesa, balançando o rabo preguiçosamente aos pés do meu pai — este último que não tirara os olhos do Daily Mail da manhã desde o momento em que eu apareci.
O senhor Cavendish era um homem que já estava para lá de seus cinquenta anos e que aparentava ter todos os anos certinhos em suas feições. Nem um ano a mais nem um a menos. Os cabelos já haviam se acinzentado há tempos e as entradas na testa demonstravam um ar de superioridade. Seu nariz pontiagudo e fino e seus olhos fundos eram coisas que podiam ser vistas em mim em todos os meus irmãos. Os cabelos escuros e os olhos claros também foram uma herança de sua genética, mas em questão de personalidade, eu era tão diferente dele como também da minha mãe. (Os dois diziam que eu havia puxado minha avó materna, que recusara mais de vinte pretendentes até chegar no meu avô, apenas porque ele tinha o bigode mais bonito dentre todos. Ela também participava de tantas manifestações estudantis no pós guerra, que em sua maioria ela não fazia ideia dos motivos do protesto, mas era sempre a mais ativa e animada da linha de frente). Papai era sério na maioria do tempo, mas o seu senso de humor era desconcertante. Ele também sempre estava concentrado em alguma coisa, sempre atento a tudo a seu redor e nunca deixava nem um detalhe escapar perante seus olhos. O seu tempo nunca era desperdiçado. Gostava de sair para cavalgar, pescar no inverno, visitar cidades no Sul e colecionar peças de maquinários e carros antigos. Em sua coleção havia automóveis de um nível raro de sofisticação e que atraíam os olhares de todos sempre que ele os expunha. O seu preferido era um Chrysler Imperial preto da década de trinta, que era polido e lustrado todos os santos dias, como um ritual sagrado de um muçulmano que faz suas orações diárias em direção à Meca. Eu sinceramente admirava a sua disposição e a sua dedicação à tudo o que ele fazia. Mas se existia um grande problema que pairava como uma fumaça negra entre nós dois, eram as nossas diferenças em relação ao meu próprio futuro.
Ele gostaria que eu me tornasse uma pessoa como a minha mãe; perfeita dona de casa, competente, boa esposa, carinhosa e rígida na medida certa com os filhos. Mas eu? Eu queria ser como o jazz. Imprevisível e improvisado. Livre de qualquer tipo de compromisso com uma família, com uma vida arranjada, com os estandartes reais de Iorque e da coroa. Eu me sentia quase que como uma militante lutando silenciosamente por seus ideais, sem poder ter com quem se unir para brandar uma revolução. Tudo por que eu não podia ir contra o que aparentemente era um problema apenas para mim. Eu era nova demais para me meter em uma aventura contra tudo o que fora estabelecido desde os tempos da Rainha Victoria, e por mais que eu tentasse, era inútil. Era como se eu já tivesse esgotado todos os meus argumentos víaveis e inviáveis. A cada vez que eu escutava as palavras “Princesa de Gales” o meu cérebro parecia querer entrar em estado de autodestruição. Até então, as minhas únicas opções ainda estavam embasadas no helicóptero hollywoodiano de fuga, ou se, por uma benção divina, o príncipe Bernard II desistisse.
Nós dois, o príncipe e eu, nos encontramos em apenas duas ocasiões. A primeira foi no seu aniversário de dez anos. Eu tinha apenas seis na época e havia acabado de descobrir que teria de me casar com ele um dia. Naquela tempo, a ideia era nada mais nada menos do que a mais incrível já pensada. Ser uma princesa? Maravilha. Era como me tornar a Cinderela e a Branca de Neve, só que sem ter de passar pelas partes ruins e assustadoras. Eu iria direto para o “... E viveram felizes para sempre.” e não via a hora de conhecer o meu futuro noivo. E quando finalmente fomos apresentados, para o meu pesar, ele não era exatamente aquele modelo dos contos de fada. Bernard, ou Bertie, era só um pirralho mal encarado e com as maiores bochechas que eu já havia colocado os olhos. Ele tentou sorrir para mim, mas parecia ser a coisa mais difícil que ele tentara fazer em toda a sua vida. O seu mau humor pareceu me contagiar pelo resto da minha tarde e toda aquela festa se tornou uma grande bobagem para mim. Voltei para casa me perguntando se não teria mesmo como me livrar da parte assustadora.
A segunda vez que nos encontramos, foi em um jantar em sua casa de campo aqui em Iorque, jantar esse que minha mãe havia preparado eu e meus irmãos durante todo o maldito ano. E foi lá que ele publicamente me pediu em casamento. A primeira coisa que pude notar é que Bertie não era mais o gordinho esquisito das bochechas gigantes. Mesmo tendo acompanhado a sua jornada através da televisão (que parecia seguir todo passo que o pobre coitado dava, enquanto percorria países e continentes em suas missões filantrópicas), eu ainda tinha aquela imagem encrustada na minha memória, a qual eu não conseguia me desvincular de jeito nenhum. Mas quando colocaram-me frente a frente com Vossa Alteza, pude finalmente apreciar a imagem de um homem bonito, educado e elegante, assim como todo príncipe deveria ser.
E o mais engraçado de tudo foi que, quase dez anos sem nos ver, uma das primeiras coisas que ele me disse foi basicamente. “Lucille Cavendish, Duquesa de Iorque, Condessa de Cambridge e Baronesa de Devonshire, a Sua Graça aceita se casar comigo?”
E claro que eu diria não sem nem pensar duas vezes, caso não estivesse com um rifle real carregado simbolicamente mirando direto para a minha cabeça.
A verdade é que aquele seria um momento incrível na minha vida, se tudo aquilo não fosse um grandissíssimo teatro. Bertie era o melhor ator entre nós dois. Por um breve momento, me pareceu que ele se realmente estivesse encantado ao ver o “sim” sair de meus lábios parcialmente trêmulos. E mesmo assim, eu tinha certeza de que não era aquilo que ele queria. O que eu imaginava é que talvez para ele fosse mais fácil a ideia de casamento de fachada. Afinal, ele era o príncipe e quarto na linha de sucessão ao trono, e príncipes devem se casar, não importando as circunstâncias. Ele não era como eu, com a mente livre aprisionada em um corpo. Ele já estava todo moldado, enrijecido nas suas vestes e pompas reais.
Mas mesmo assim, existia algo em seu olhar que me dava calafrios. Era uma parte misteriosa que eu talvez nunca conheceria. Nem mesmo depois de dividir a mesma cama com ele. Nem mesmo depois de anos de convivência.
— Já fez o seu dejejum? — meu pai me questionara ainda sem tirar os olhos do jornal.
— Ainda não.
Um tempo depois, ele finalmente pareceu me notar e com isso, veio o riso debochado.
— Está pensando em vestir jeans rasgados para o almoço? — arqueou uma sobrancelha, apontando para a roupa que eu vestia. Se eu não o conhecesse bem, tomaria aquilo por uma crítica. Mas na verdade ele não dava á mínima para as roupas que eu vestiria na ocasião, contanto que eu apenas estivesse lá.
— Hm, acho que ainda é cedo para matar a mamãe do coração. Quem sabe um vestido vermelho e All Stars para o casamento? — sugeri brincando e ele riu, para depois me chamar para mais perto.
Ele se levantou e abriu os braços, me convidando para um abraço de aniversário. As suas demonstrações físicas de carinho não eram uma coisa tão recorrentes assim em meu dia-a-dia, então eu sempre as aproveitava pelo maior tempo possível. O leve aroma de tabaco em suas roupas era o que eu mais gostava em seus abraços aconchegantes.
— O seu presente se atrasou e pelo visto só chegará a noite. — ele comentou, ainda com seus braços protetores ao meu redor. — Não vai ficar chateada?
Revirei os olhos quase sonoramente.
— Claro que não, pai. Eu mesmo disse para não se incomodar com essas coisas.
Para mim, um disco empoeirado de um sebo me faria feliz durante um ano todo e seria o presente na medida. Para eles as coisas precisavam ser impactantes e acima de tudo, grandiosas. O presente de quinze anos que ganhei do meu pai fora um casal de Percherons cinzas (que eu prontamente os batizei de June e Johnny) e uma viagem de seis dias para Xangai na China. Minha mãe me dera um colar de pérolas negras que de tão grandes e pesadas, me deixaram com torcicolo na única oportunidade que tive de usá-lo. Mas eu de maneira alguma reclamava, pelo fato de eu achar que essa era uma das únicas maneiras que eles encontraram de dizer que realmente se importavam comigo e que eu era a sua filha querida, sem precisar propriamente dizer isso usando de palavras e discursos profundos, ou ainda mesmo melodramáticos. Eles eram carinhosos às suas próprias maneiras e querendo ou não, isso passou a ser uma característica adquirida por mim desde cedo. Eu jamais conseguiria demonstrar efusivamente ou calorosamente o meu afeto por alguém, por mais importante e especial que essa pessoa fosse. O jeito mesmo era ela ter de descobrir por si só, apenas colhendo as pequenas e significativas pistas que eu deixaria ao longo do nosso relacionamento. Era uma tarefa um tanto complicada, mas nem de longe impossível.
— Preciso me acostumar com a ideia de que você já não é mais uma criança. — o arquiduque me disse desvencilhando-se do abraço de aniversário.
Eu sabia que aos olhos de meu pai eu ainda era uma garotinha, que de uma hora para outra aprendeu a argumentar. As vezes eu sentia falta da minha mentalidade inocente, que ás cegas acreditava que tudo o que meus pais faziam por mim era para o meu bem. Eu já havia descartado essa hipótese há algum tempo, no entanto mesmo assim, no ápice de alguns de meus pensamentos mais egocêntricos e utópicos, eu ainda tentava encontrar uma lógica que pudesse me favorecer diante de tudo o que eu observava de errado em nossa relação. Aquilo que nos afastava de algum modo poderia algum dia nos aproximar? O que fazia o meu cenho franzir e até algumas lágrimas escorrerem, poderia um dia, me fazer entender que tudo aquilo era “para um bem maior”?
— Acho que eu também preciso. — confessei desgostosa, e em uma tentativa de mudar o rumo da conversa, estalei os dedos e assobiei em busca de Artie que ainda estava de baixo da mesa, mas que por tamanha preguiça se limitou a brandir latidos altos e fortes, mas não se moveu nenhum centímetro.
O Arquiduque esperou que Artie parasse de latir para continuar.
— Você vai ficar bem, não vai? — seus olhos voltaram a se encontrar com os meus e eu por descuido, suspirei cansada.
Aquela pergunta pareceu ter demorado uma vida toda para ter sido formulada e por conseguinte, dita. Albert, Arquiduque de Iorque não queria saber se eu ficaria bem depois do almoço de noivado, no dia seguinte, no mês seguinte, depois do casamento ou nas minhas bodas de prata. O que ele queria saber se era se eu ficaria bem ali, agora, sob o olhar passivo dele que aos poucos e muito discretamente, deixava transparecer uma certa dose de culpa sobre todos aqueles acontecimentos. Meu pai sabia das minhas escolhas, do que eu acreditava, do que eu havia planejado para mim e também sabia que tudo dependia de algo talvez pequeno, mas imprescindível para que tivesse dado certo. O apoio da minha família. Mas naquele momento tudo o que eu tinha era ter de aceitar o que eles propuseram e de alguma forma me manter forte. Por mais complicado que isso fosse, eu conseguiria me manter. Eu havia criado um escudo para mim, mas o meu pai era aquele que podia ver muito bem através dele, justamente porque ele se sentia responsável. Não o principal, mas apenas responsável. Como se minhas asas tivessem sido cortadas, mas no final seria ele, o Arquiduque de Iorque quem ficaria a encargo de recolhe-las do chão.
— Sempre fico. — respondi por fim, tentando tirar aquelas preocupações de sua mente, esboçando um sorriso confiante e um certo bom humor na minha voz. Era uma mentira, mas uma mentira disfarçada na dúvida. “Ficar bem” sempre fora relativo para mim. Eu estava bem quando ouvia Georgia on my mind, quando treinava futebol a exaustão com Mae Walsh, quando meus irmãos criavam histórias mirabolantes só para retirar algum sorriso que fosse de mim, quando esperava em silêncio por horas, com a respiração comedida e toda a atenção na mira da sniper, a espera de uma raposa vermelha que cruzasse a frente do meu cano, seguido de um Artie surgindo no horizonte saltando vitorioso com o nosso troféu em sua boca.
Mas eu também estava bem quando tudo estava, menos eu. Era algo difícil de explicar sem soar próximo a um falso altruísmo destrutivo — o que de fato não era. O que eu sentia era esse estar bem quando o curso das coisas corria bem. Quando tudo parecia harmônico mesmo dentro de um caos. Era quase como ler o seu horóscopo do dia do jornal e notar que a cor da camiseta que você está usando é da mesma cor que lhe traria sorte, mesmo você não acreditando em astrologia. Nada mais é do que ter a sensação de ver o curso fluir e, mesmo com você fora dele, isso ainda bastar.
Talvez o meu instinto observador e admirador havia deturpado todos os significados da terminologia “estar bem” mas para aquele momento, o meu pai só precisava saber de uma coisa: que eu ficaria bem. Ali e agora eu estava bem.
***
Fale com o autor