Complicated (Smell of Sex)
2 C'mon, Broo. Restart.
Notas iniciais

A nova mansão dos Daniels se encontrava em total rebuliço. Caixas de papelão com fotos de família, objetos para enfeitar cada cômodo, além dos móveis. Eu vislumbrava o pessoal da mudança subir e descer as escadas, arrumar tudo em cada devido canto que o nosso decorador, Joseph Moreau, indicava. Os sofás de couro branco eram ajeitados na sala de estar em frente à uma grande lareira, a sala da Tevê comportava um trio de sofás também de couro branco, a tintura clara causava-me uma pequena irritação, aumentando a minha dor de cabeça. Todos pareciam tão entretidos em seus afazeres, enquanto eu permanecia silenciosa e sentada na escadaria da fachada de minha nova casa, cobrindo meus olhos com meus braços. "Novo", eu não se sentia mais confortável com essa palavra, gostaria de ter permanecido um pouco mais na antiga mansão Daniels e ter confiança total para seguir em frente. Ter confiança total para superar, nem que demorasse.
Meu pai faleceu há algumas semanas (em torno de três semanas e meia) e eu não conseguia aceitar seguir em frente. Papai sempre foi o meu protetor, meu rei, meu herói. Me ensinou tantas coisas, mostrou-me diversas curiosidades e coisas da vida, apurou meu gosto e respeito pelas coisas, deu-me os melhores conselhos, mas tão rápido quanto ensinou-me as coisas, ele partiu. Doía-me olhar no espelho e ver que eu era sua cópia perfeita, desde o sorriso com a língua entre os dentes até os cabelos negros, até mesmo meu jeito de ser tímida e sincera, além do sarcasmo e confiança.
Nas semanas que se antecederam o acidente, mamãe olhava-me e parecia querer chorar, mas permanecia sorrindo para nos passar confiança, para eu e meu irmão. Entretanto, enquanto eu era a cópia de papai, Jack era a cópia perfeita de mamãe. Extrovertido, conseguia fazer qualquer um rir, com um coração de ouro e nada tímido. Acredito que a aura brasileira de nossa geração foi toda para Jackie, eu era extrovertida também, mas não como ele. Meu irmão era completamente louco, e eu já puxei mais pro lado racional californiano.
Balancei meu corpo lentamente de um lado para o outro, enquanto observava a praia de Malibu Coast mais ao fundo, meus pensamentos me levavam e o sorriso de papai brilhava em mina mente, com seus conselhos. Eu me sentia um peixe fora d'água com tudo isso. Eu nunca pensei que chegaria a um estado tão degradante, maldita hora em que o chamaram para uma convenção no Japão. Era uma temporada de felicidade em nossa família, estávamos todos curtindo a presença um do outro num dia e no outro o maldito avião caiu no mar, levando consigo meu herói e trazendo-me pesadelos nas noites frias.
— Ei, tá viva? — olhei pra frente, Jack tinha um sorriso brincalhão nos lábios. Ele, por mais sorridente, também estava mal. Eu pude escutá-lo quebrando algumas coisas quando ainda morávamos em Morning View Dr., ele tentava soluçar baixo, mas era notável que ele estava querendo gritar para os quatro ventos o seu ódio e dor, e quando amanheceu o outro dia, mamãe o viu naquela situação e resolveu que seria melhor uma mudança o mais breve possível.
— Apenas pensando. — dei um sorriso fraco, ainda com metade do rosto coberto por meus braços. Eu olhava nos olhos de meu irmão e a dor era notável, enquanto seu sorriso permanecia nos lábios rosados. Jackie se preocupava mais comigo que consigo, dizia que era seu dever como irmão mais velho. — Você está melhor? — seu sorriso desapareceu um pouco dando lugar à um mais fingido.
— Levando. — ele encarou o mar, apoiando sua cabeça em meu joelho dobrado. Jack e eu, definitivamente, éramos aqueles irmãos de filme. Nunca brigamos tão sério, mas sempre que um precisava, o outro estava lá para enfrentar deuses e até a fúria do homem, se preciso. Ele levantou seu olhar novamente para mim, beijando minha mão. — E você, pino frouxo? — ergui meus ombros e os abaixei, dando um mínimo sorriso pelo apelido "carinhoso".
— Levando. — ajeitei meus pés arrastando-os mais para perto, eles já doíam por estarem suportando meu peso na ponta da escada. Todas aquelas pessoas que ocupavam nossa nova residência já estavam saindo e mamãe nos chamou, Jack segurou minha mão direita puxando-me para si e colocando seu braço em volta de meus ombros.
— Vamos lá, Broo. Recomeçar.
{♡}
Mamãe já tinha nos apresentado todos os cômodos e por sorte fiquei com o quarto que tinha vista para a piscina e praia. Só que, para meu infortúnio e total falta de senso, eu havia esquecido onde era o banheiro principal, já que o meu ainda estava em reforma para alguns ajustes. Iniciei uma busca pelo banheiro naqueles enormes corredores, era ridículo o absurdo de portas que tinham naquela casa, procurar um mísero banheiro era como decifrar o Enigma da Esfinge.
— Jack? — meu grito ecoou pela falta de móveis naquele corredor, nada. — Jack Daniels? — ao fundo, pude escutar um "o que é?" meio abafado e algumas coisas caindo, o que diabos ele está fazendo? — Você tá bem, garoto? — sem resposta novamente. — Mas que porra, garoto. — o corredor de tintura creme tinha alguns quadros com fotografias e, mais ao fundo, uma pintura enorme do casal Daniels, Lúcia e Jacob, sentados em cadeiras de estilo medieval, enquanto, logo atrás, Jack e eu estávamos em pé, todos estavámos com roupas sociais e uma expressão natural. Eu recordo-me daquele dia, foi um dos melhores, Jack não parava de fazer caretas, fazendo-nos rir e atrapalhando o pintor. — Jackie, se você quer pregar uma peça, saiba que essa não é a melhor hora. — virei-me dando de cara com um Jack de olhos arregalados, suas íris azuis esverdeadas vidradas nas minhas castanhas, e, instantaneamente, acabei estapeando-o no rosto e caindo de bunda no chão, mas é claro que ele nem se importou com o tapa e sim com o meu susto.
— A sua cara foi hilária, Broo, você tinha que ver. — ele já massageava a barriga, dando a entender que não iria parar de rir tão cedo. Rolei os olhos e bufei, tirando alguns fios de cabelo do meu rosto.
— Hahaha, devia ir pro circo por ter essa cara de palhaço. — ele desfez o sorriso e eu ri de sua cara incrédula.
— O que você quer, pino frouxo? — Jackie estendeu-me sua mão e, com um impulso, eu me levantei.
— O banheiro, o meu ainda está em reforma. — Jack deu sorriso sarcástico, puxando-me por alguns corredores até pararmos em frente a uma porta de mogno, com alguns detalhes engraçados, mas que tinha lá seu charme. — Obrigada, Jack. — ele continuou me encarando, encostado no parapeito da porta de braços cruzados, olhei para ele com a mão apoiada na maçaneta. — O que foi?
— Uma hora em sua nova casa, e ainda não sabe onde fica o banheiro *tsc tsc*. Você é uma péssima exploradora, Brooke Daniels. — ele riu. Arqueei minha sobrancelha, cruzando meus braços. Então ele quer jogar?
— Se você está tão preocupado para que eu aprenda a explorar o novo habitat, chame o Zoboomafoo e vá fazer um mapa para mim, Chris Kratt. — ele me deu o dedo e saiu correndo e gritando "Zoboomafoo, com os irmãos Kratt", enquanto seu novo Adidas fazia um barulho irritante. Retardado.
Fiz o que precisava fazer no toalete e sai observando o corredor, era uma casa tão grande que, uma hora ou outra, eu iria ter que fazer uma pequena tour para memorizar tudo. Desci as escadas e andei por mais alguns corredores encontrando a sala da Tevê, com uma mesa de vidro central e os sofás de couro branco postos há poucas horas atrás, passei por entre os móveis e observei cada detalhe daquela sala. Parti, encontrando a sala de jantar, onde havia um armário ao fundo com a prataria francesa e porcelana portuguesa de mamãe (ela sempre admirou esse tipo de coisa, mas só usa em ocasiões especiais), passei meu dedo pela mesa de madeira lapidada com imagens e andei mais rápido, passando por mais outros cômodos e, logo após tudo isso, encontrei uma pequena varanda que ficava de frente para o mar e a piscina, um lugar mais isolado, por assim se dizer. Era, simplesmente perfeito, perto da calha tinha um filtro dos sonhos em tons fortes, era muito lindo e uma espreguiçadeira feita de couro preto ao lado de uma mesinha. Certamente, mamãe pensou em mim quando viu esse lugar. Sorri abertamente e voltei para dentro de casa, já se passava das 06hrs00min p.m. e eu necessitava de um banho quente e relaxante.
As pessoas costumam dizer que banhos servem para espairecer, levar sentimentos ruins ralo à baixo, colocar tudo em ordem e finalmente relaxar. Acho que posso começar a acreditar nessa hipótese após tudo isso.
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