Complicated.
1 Único.
Notas iniciais
Complicated - Avril Lavigne - http://letras.mus.br/avril-lavigne/63236/traducao.html
- Complicated
Narcisa encarava aquele de quem pegara o sobrenome com orgulho e autoridade, mas naqueles olhos azuis do marido ela deixou de ver o garoto pelo qual se apaixonou. Lucius deixou de ser a mesma pessoa, disse uma vez à garota que não se tornaria um daqueles com quem andava, que não mataria, que não seria como os pais, que não seria um hipócrita.
Agora ali estava ele, o rosto vermelho, o peito ofegante, o olhar amedrontado, a pressa em falar, o olhar furtivo de quem esconde alguma coisa. Tinha deixado a mulher, grávida de um filho, na casa sozinha, com a promessa que não demoraria e não faria nenhuma besteira. – Eu matei. – ele disse com voz segura e ofegante de quem fugia – Eu matei aquele velho Longbottom.
O sorriso da mulher se encrespou, os lábios que antes ansiavam pelos do marido agora se contorciam em uma careta de reprovação. O loiro havia lhe prometido, não se tornaria um deles, não mataria, não agiria como um babaca.
_ Você o que? – ela questionou demonstrando toda sua raiva enrustida na voz, ela não havia levantado a voz, sabia que as convenções sociais não lhe permitiam tal abuso, seu peito arfou rápido como o do marido –
_ Eu cometi um erro, olha, eu só não sei o que aconteceu, eu não queria dizer aquelas palavras, mas elas saíram. E se quer saber, ele e aquela família mereciam, eram os maiores traidores de sangue.
_ Assim como minha irmã. – Narcisa disse em voz alta, confrontando o marido – Assim como pessoas da minha família.
_ Não diga bobagens, querida. Lembre que Andrômeda pediu para que nunca dissessem que ela é uma Black, ela rejeitou a todos, como todos a rejeitaram.
_ Ainda é minha irmã. – a loira expos e se dirigiu as largas poltronas onde se sentou. – Por que está tornando tudo tão complicado, Lucius?
Mas ele não a respondeu, e ela acreditava – ou preferia acreditar – que ele nem tinha a ouvido. Ciça odiou toda aquela bobagem de Lucius se tornar um comensal, mas quando a loira notou todos eles haviam se tornado, sua irmã, seu noivo, Severo Snape, e aqueles com quem andava na escola. Só restou ela – aquela que nunca quis participar desta bobagem, sempre soube que aquilo causaria problemas, e esperava por um problema em breve – e não pode nem ao menos persuadir o marido a sair daquela ‘seita ‘, nem por seu amor, nem pelo filho.
E Narcisa se questionou se não fora um erro persuadir a irmã, prometida em casamento à Lucius, a expor que na verdade preferia ser uma Lestrange. Bella era prometida de casamento ao loiro, mas Ciça, essa sempre foi apaixonada por quem ele era.
Lucius Malfoy desceu algum tempo depois de banho tomado, e de roupa trocada. Ela estranhou vê-lo apoiado a uma bengala preta com um entalho na ponta. Ela o encarou, e quase exclamou que ele havia errado a década, que essa era a moda da década de 20, mas se calou. Ciça sempre se calava perante o marido, sabia as implicações de dizer algo errado.
Encarou aquele homem, as vestes negras, a pele alva ressaltava, os olhos azuis eram como diamantes de extrema claridade, e o cabelo curto puxado para trás, e a posse que sempre possuiu. Ela se apaixonou por ele, por quem era antes de se tornar alguém que em frente aos outros era outra pessoa.
O loiro se aproximou, se curvando sobre ela para beijar aqueles lábios carnudos que queria com desejo insaciável. Ele também havia se apaixonado por ela, mas não foi questão de um olhar como ela, foi mais uma questão de anos de provações.
_ Eu estou indo para outra ‘reunião’. – ele disse calmamente e ela nem se deu ao luxo de responder, estava cansada daquilo, e apesar de ama-lo com a própria vida, ela se cansou das ‘reuniões’, dos dias que ele chegava sujo e exaltado por cometer algum crime – Ciça?
_ Pensei que já tivesse ido. – a loira disse sem tirar os olhos do jornal que lia –
_ Querida... – ele voltou a se aproximar cauteloso, a voz calma e arrastada – Você sabe que se deserdar Ele vai matar a todos nós, até mesmo o garoto.
_ Não estaríamos sofrendo por isso se não tivesse se aliado a ele. – ela disse o odiando por vários motivos – Minha vida está em perigo por sua causa, seu filho está em perigo e não é culpa dele, é sua. Você nunca se importa com nada além de você e seus amigos?
_ Amor, eu me importo muito com vocês dois. – Lucius disse abandonando a bengala de lado e se sentando próximo a ela, com a mão sobre a barriga enorme que gerava o fruto do seu amor – Mas eu quero um mundo melhor para Draco, assim como você também quer.
_ Já pensou que você pode não fazer parte da vida do seu próprio filho? E se você morrer? E se você for mandado à Azkaban?
_ Você sabe que Voldemort vencerá esta guerra, então eu nunca passarei por isso. Não deixarei os dois desamparados.
_ Se você diz. – ela disse dando fim ao assunto – Agora se não se importa, eu cuidarei do meu filho.
[...]
Os comensais estavam todos sentados na longa mesa onde Narcisa e Lucius tinham suas refeições. Draco agora estava prestes a completar seus seis meses, os cabelos loiros eram ralos, e os olhos metálicos parecidos com os do pai.
Lucius vestia roupas que Narcisa nunca havia visto antes, usava capa de linho, com bordados em esmeralda e prata por toda sua extensão, a bengala agora era sua fiel escudeira, sua varinha ficava ali todo o tempo. E a loira se perguntava como o garoto por quem se apaixonara, havia se tornado aquele homem, aquele covarde.
Às vezes, ela acordava durante a noite, e tateava a cama atrás do marido. Mas em várias dessas noites ela não o encontrava, e ao vê-lo distante, a olhar pela janela, perdido em pensamentos, Ciça o via como aquele garoto que um dia lhe jurou que nunca seria aquilo, que não mataria, que não mentiria. Lucius havia prometido que ela nunca o acharia falso. E por que ela o achava exatamente isso naquele momento?
Ele estava lá, pomposo, as roupas e os cabelos, agora mais compridos, perfeitamente ajeitados, a voz carregada de segurança e poder, mas seus olhos, ah aqueles olhos mostravam uma realidade que ninguém via, ninguém além de Ciça, ele estava assustado, ele não queria aquilo.
Mas Lucius nunca assumiria não ser aquilo. Por que ele tornava as coisas tão complicadas? Ela o encarava, sentada em um canto escuro, vendo aqueles que eram agora parceiros de crime com seu marido. Cansada daquela cena repleta de falsidade e mentira, pegou Draco, seu pequeno e loiro filho, e subiu até seu quarto.
Duas horas mais tarde, após uma serie de estampidos, a casa se calou. O som de sua respiração parecia alto como a de um touro. E então ela ouviu as passadas, longas e ritmadas pela bengala da qual o marido não se desfazia. A porta se abriu e um loiro de face contorcida se materializou ali.
_ Você tem noção do que fez com a minha moral? – ele perguntou raivosamente – Todos comentaram de como você deu as costas ao mestre sem ao menos dizer uma palavra. Todos comentaram como você foi rude. – a este ponto Lucius gritava, fazendo com Narcisa ficasse contra a parede –
_ Por que você está gritando, Malfoy? – ela gritou, pela primeira vez em anos levantou a voz para seu marido, levantando a voz para todos aqueles que a menosprezavam por ser mulher – Eu sou sua esposa, não um dos seus elfos, me respeite.
_ Eu te daria respeito se merecesse.
A gota d’agua. O último ponto final em uma sentença erronia. O momento que ele se arrependeria. – Você está falando de merecer respeito? Justamente você que não merece o mínimo respeito por ser falso, você me enganou, eu me apaixonei por você, e foi a pior coisa que fiz em toda a minha vida. Você acha que merece respeito por ser um comensal? Isso só te deixa mais desprezível. Eu cuspiria em sua cara falsa, mas nem isso você merece. – Narcisa se levantou pegando um par de travesseiros e uma coberta, e a jogando para o marido – E pode dormir com essas roupas de mauricinho que usa, elas só te deixam mais desprezível. Quando quiser falar sobre respeito, você me dirige a palavra, até lá, se contente em ter uma esposa muda, como gostaria. – a porta bateu forte –
[...]
Semanas de silencio na mansão Malfoy se passaram, Narcisa evitava encarar o marido, mas o olhar superior, e o queixo levantado, estavam sempre em seu semblante. Ela o amou, e como o amou, mas parecia algo tão superficial, tão efêmero, que havia acabado, destruído pela mentira que ele se tornara, uma aura negra de orgulho falso.
Ela o encarava, o ódio e o amor brigando em seu interior, não acreditava que um ser como ele pudesse ser capaz de amar, Lucius não a amava, não completamente, ele amava em partes, seus olhos, seus cabelos, mas nunca sua astúcia, ou sua inteligência, amou o corpo da mulher, ou o seu sangue puro, mas não amava a forma como ela o olhava, ou como ela o abraçava. Ciça havia cansado de um amor fragmentado, e ela havia tomado sua decisão, em um fio de lucidez, ela quis descomplicar um relacionamento complicado.
Após engolir o orgulho entalado na garganta, com tamanha força que quase perdeu os sentidos, ela seguiu até o escritório onde o marido se sentava para pensar. Abriu a porta com tamanha delicadeza quanto o bater de asas de uma borboleta, e se pôs contra a iluminação de inúmeras lamparinas que cercavam a casa. Lucius levantou o olhar, encarando aquela bela visão turva de sua mulher.
A luz embebedada pelo calor raro da época do ano, formava ondas em toda a extensão. – Narcisa. – ele disse secamente –
_ Lucius. – ela respondeu em tom de acalanto – Meu querido.
_ Ciça. – ele levantou a voz, a fazendo recuar dois passos – Você não sabe como me humilhou esses dias. – ele gritava –
_ Ei, ei, não grite meu querido. – Narcisa sorriu de voz calma, se aproximando dele – Tudo isso foi feito antes, e será feito depois, relacionamentos são assim. – as mãos delicadas da mulher pousaram sobre os ombros largos do loiro, os cabelos longos dele caiam até a altura dos ombros nesse momento –
_ O que eu lhe fiz, minha esposa? – a voz dele saiu baixa e quase imperceptível – Não ouse responder, não quero que meus pensamentos estejam corretos. Eu não deveria tê-la posto nessa situação. – e então ele levantou os olhos do jornal que lia, seus olhos estavam profundos e pesados, ele parecia ser mais velho do que realmente era – E tudo para acabarmos assim.
_ Não acabamos, meu querido.
_ Mas eu tenho quase certeza que ao saber das noticias você irá querer que eu suma de sua vista.
_ Que noticias? – ela perguntou aguardando uma resposta – Que noticias, Lucius Malfoy? – ela perguntou irritada –
_ Bella foi presa. Assim como parte dos comensais. E eu temo ir preso também, eu temo em deixar você e Draco, tão pequeno, sozinhos no mundo.
Narcisa se calou, não havia o que falar, nada expressaria o choque que tomou, ela temeu por aquele momento desde o começo daquela guerra, desde que o marido começou a armar planos, e matar pessoas. A loira despencou em uma das cadeiras de couro pomposo do escritório, os lábios vermelhos estavam crespados, os olhos azuis estavam focados em um ponto além da visão. – Bella. – ela sussurrou – Como? Por quê?
_ Ela torturou os Longbottoms, e foram pegos na cena do crime. – ele a respondeu, e se aproximou rapidamente, abraçando a mulher, e lhe beijando a testa –
_ Temos que fugir daqui. – Ciça fincou os olhos azuis nos olhos azuis do marido – Eu não vou suportar ter os dois presos. Draco precisa de um pai, e eu preciso de um marido.
_ Não iremos fugir, minha querida, vocês não irão pagar por meus erros. – Lucius disse tentando acalmar a esposa. – Narcisa, eu sei que pouco digo isso, mas eu preciso dizer, eu te amo. Te amo cada vez mais, mesmo que não o demonstre. Mesmo que eu seja como meu pai era, grosso como tal, racista como tal, eu não serei como ele era com minha mãe. Eu te amo, e não vou passar o resto da minha vida vendo esses olhos maravilhosos sabendo que você não conhece meus sentimentos. – quando ele terminou sua sentença, ela simplesmente se jogou nos braços dele -
Pela primeira vez em um relacionamento longo, Narcisa se sentiu amada, e soube que todo seu esforço para continuar com aquele relacionamento de fachada, fora recompensado. Tudo que lhe preocupava até o então momento, sumiu de estalo da mente. E simplesmente o momento foi terminado por um beijo. Todo o relacionamento de complicações fora descomplicado.
Não tem porque complicar um relacionamento, todos os relacionamentos têm seus espinhos, ninguém é perfeito, não adianta tentarmos ser. Se Ciça descobriu isso, todos podem descobrir. O amor verdadeiro nem sempre está estampado em tinta perfeitamente regular na cara de quem se ama, e de quem ama, o amor pode por vezes ser escondido, recluso, mas nem por isso perde toda a sua força. Não torne tudo complicado.
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