Complexos românticos.

1 Antes do início - Áquila


Áquila Fronkowiak,

8 anos

Pessoas, muitas pessoas ao meu redor, sendo que a maioria delas eu nunca vi, ou pelo menos não me lembro. "Não é um clima propício a ocasião" escutei uma das mulheres que me rodiavam, cheias de pena em seus olhos. Odeio isso, mas não posso ser mais um problema nas costas do meu pai, definitivamente.

Após alguns minutos de perguntas repetitivas e inúmeras tentativas de consolo, que só me faziam ficar com raiva, uma de nossas empregadas veio em minha direção.

— Srta? Você gostaria de... de vê-la uma última vez? — perguntou uma moça jovem para mim. Olhei para meu pai esperando a permissão. E com um leve e quase imperceptível movimento permitiu que eu fosse na direção que a jovem moça indicava.

Fui a caminho de uma ala mais clara que a maior parte do local. Haviam mais pessoas lá, todos de preto ou tons escuros de cinza, o que fazia o ambiente mais mórbido que o necessário.

Sobre um balcão de mármore branco, com o brasão de minha família esculpido no mesmo, estava uma caixa branca com detalhes de flores douradas onde, repousando entre um belo arranjo de flores azuis, vermelhas e amarelas, um corpo de uma mulher bela e de aparência calma, como se estivesse simplesmente dormindo em meio a tantos murmúrios, repousava.

Minha mãe.

Era a minha mãe ali. A única pessoa que me compreendia e amava, agora estava dormindo em um sono que nem eu poderia acorda-la. Eu não senti quando, mas as lágrimas rolaram pelos meus olhos, mesmo que meu pai me dissesse mil vezes para ser cética, eu não conseguia.

Ela era meu porto seguro. Quem eu mais confiava e amava no mundo inteiro. E agora ela foi tirada de mim. Mesmo sendo eu uma "criança", fui educada para herdar o império dos Fronkowiak. Aulas, classes de etiqueta, provas, mais aulas e inúmeras cobranças eram colocadas por sobre meus ombros, mesmo eu sendo apenas uma "criança", e eu não tinha escapatória, bem... não mais. No meio de um turbilhão de coisas que uma "garotinha" como eu fazia, minha mãe era a única quee ficava ao meu lado, e cuidava de mim.

Enquanto eu processava todas as coisas que meu cérebro acessava, fui levada ao encontro do meu pai. No mesmo instante que eu me virei para olhar o caixão, um pequeno carro apareceu para o levar a um buraco retangular, no meio de um gramado com diversas lápides no chão. Mas obviamente, como sendo uma Fronkowiak, a lapide de minha mãe era maior, cheia de detalhes. Porém, para mim, nada daquilo era o suficiente para ela. Nada.

Um homem que eu vira uma vez ou duas em nossa mansão foi a frente de todos e passou ao lado do buraco no chão.

Depois de várias palavras descritas pelo meu pai como "comoventes" o homem estranho se calou, e o caixão foi sendo colocado no fundo do buraco. Uma mulher simpática entregou-me uma rosa. Me aproximei do lugar onde o caixão fora colocado e joguei a simples flor sobre ele. Depois de mim todos os outros presentes jogaram suas rosas, falando palavras de conforto que eu nem sequer me importei em prestar atenção. Tinha minha atenção inteira para aquele caixão.

Quando todos retornaram aos lugares onde estavam, foi que começaram a jogar terra em cima do caixão.

A última coisa que eu me lembro e que me chamou mais a atenção do que tudo o que havia ao meu redor era um garoto que ao longe me olhava. Suas roupas eram sujas, suas mãos me pareciam calejados, mesmo ao longe. Fiquei avaliando o garoto, mas o que me chamou atenção não foi seu corpo, mas seus olhos. Eles não demonstravam pena, ou pesar, ou qualquer outra coisa que eu vira durante as horas anteriores, mas eu vi um tom de... compreensão? Ou era algo mais? Não entendi o porquê, mas só de olhar para aquele garoto eu me acalmei e senti um estranho aperto no peito. Realmente estranho. Desviei meu olhar do garoto e vi meu pai com uma mulher esbelta e logo após ela praticamente se jogou sobre ele. Talvez tentando "consola-lo" de alguma forma. Eu já estava acostumada com isso.

E aí, não me lembro de mais nada. Mas os olhos do garoto me observam até hoje, quando vou para minha cama e durmo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.