Complexidades
2 I.
Nada que não sua macia cama seria mais almejada no momento em que teve a graça de destrancar a única porta de entrada do tríplex no qual residia solitariamente por pura opção. A animação da de orbes acastanhadas em nada superaria a quando em seu carro de grande porte, tendo suas músicas favoritas soando em uma altura não permitida e danosa à audição, quando finalmente um descanso considerável era obtido; podendo até imaginar sua vida menos tumultuada. Impossível, tinha por instinto repudiar a repetitividade.
Sua primeira atitude para expulsar a escuridão de seu apartamento fora tatear a parede alva à procura do interruptor próximo ao impedimento de madeira nobre, – odiado por si, pelo simples fato do ato de acabar com um habitat e a destruição acelerada do que viria a amenizar o problema dos buracos da camada de ozônio ser discrepante aos conceitos pregados – cerrando as pálpebras em um curto momento pela iluminação repentina, logo passando a ter o vislumbre do espaço desarrumado necessitado de uma faxina. Mesmo que contra a bagunça, mantinha-a em seu apartamento preguiçosamente, exceto os dias em que a gentil adolescente moradora do prédio vizinho cuidava desse por uma quantia mais que razoável; em sua opinião.
Fez o caminho para o sofá de tonalidade neutra e estofado confortável, tendo os próprios saltos altos ecoando contra o assoalho polido, acompanhados do barulho do molho de chaves girando em seu dedo indicador direito; um ato mais que comum para a Psicóloga de estatura desfavorável, cuja possuía certo apresso pelo som. Talvez por ter metade dos genes provindos de um Engenheiro Metalúrgico.
O braço esquerdo, em contraste ao direito, sofria da pressão exercida pelos materiais carregados típicos de uma quinta-feira – quando, antecipadamente, tratava de recolher os pertences mais importantes abrigados por seu consultório; a sexta sempre seria mais corrida, e com tal o esquecimento de alguns materiais –. A que levava um sobrenome de todo sarcástico não fora capaz de acompanhar despejando todo o conteúdo de qualquer modo no móvel nude, o qual não ousara retrucar a brutalidade.
Qualquer pessoa normal teria se estatelado no chão ou corrido direto para debaixo de suas cobertas, entretanto a senhorita não poderia ser tida como “normal” absorvendo o contingente de problemas que ao menos lhe pertenciam, não que reclamasse. Era até divertido zombar mentalmente da desgraça alheia, mesmo que completamente antiprofissional e estúpido. Também tinha seus momentos de descontração, e em nada isentaria a diversão proporcionada por cada “falha humana” em sua posse. Como se, de repente, seus problemas fossem de todo bobos e capazes de ser resolvidos em um piscar de olhos; mesmo que a verdade fosse outra.
Tornou-se extremamente rotineiro o hábito de levar, junto à bolsa negra de couro falso, papéis sem pauta manchados de preto em uma caligrafia apressada; a qual, mesmo com anos de curso de caligrafia, nunca fora concertada. Tais continham suas anotações durante estressantes – porém prazerosas – oito horas de trabalho. Fazia questão de anotar cada progresso e fracasso no tratamento de seus pacientes, muitas vezes tendo de recorrer aos lenços de papel do toalete do primeiro andar do prédio em uma altura respeitável mantido por partilha de aluguel com mais dois profissionais de diferentes áreas.
Enquanto inclinava-se à procura de suas anotações, – forçando o calçado por um impulso satisfatório, desvantagem em ser odiosamente baixa – não pôde evitar um suspiro aliviado por outro dia bem sucedido. E pelo analisado cuidadosamente: amanhã seria melhor, sempre seria. Cada vez mais casos aparentemente sem solução viriam à Ariana, que após uma hora ouvindo baboseiras sem pé e cabeça que mais tarde levariam ao veredicto, teria mais outra mente perturbada em um grau aceitável de insanidade. Muitos entrariam em um estado mais que controlado, orgulhando-a em seus esforços por meio de noites mal aproveitadas e manhãs gastas em buscas nervosas pelos livros numerosos sem localização específica.
A desorganização, direta ou indiretamente, perseguia-a doentiamente; e Butera não era capaz de executar alguma manobra fugitiva . Irônico que alguém que tanto cuidasse da confusão alheia não conseguisse deter a sua, porém como dizia algum imbecil: “Casa de ferreiro, espeto de pau”.
Mesmo com as dificuldades e pouco tempo para seus próprios dilemas, em quase dois outonos de carreira, a moça de fios em um castanho cobreado nunca havia lamentado de sua escolha. A mente humana era fascinante, e mesmo gastando incessantes tempos a frente da tela de seu computador portátil para a entender, nunca fora capaz de desvendar o que desejava. Estranhamente, quanto mais artigos sobre comportamentos e transtornos, menos conseguia compreender; a maioria já teria desistido, – como boa parte de seus colegas de matéria, os quais abandonaram a cadeira sem pensar duas vezes – porém era de Ariana Grande que estava sendo falado, aquela que em setenta e cinco porcento do tempo médio de curso já havia alcançado a média para obter o diploma de Análises Psicológicas e meses depois o de História da Arte –.
A careta desgostosa por seus próprios escritos fez-se presente assim que vislumbrou os pedaços de matéria celulósica rabiscados por todos os lados e unidos por um clipe de papel colorido em roxo. Teria de enfrentar muitos minutos desvendando aqueles para, finalmente, obter alguma informação descente. Maldita fosse a falta de uma régua, para ao menos manter as letras no mínimo de organização, necessitava parar de enrolação e, em uma oportunidade; fazer a compra de um bloquinho de lembranças. Talvez dois: um para seus “problemáticos”, e outro para si. Seu próprio aniversário não merecia ser lembrado por uma mensagem da empresa de telefonia celular adotada.
Os impacientes tecidos de seu estômago reviraram-se, reclamando pelo alimento que somente viria após um repassar extremamente exigente dos escritos, e mesmo que um bocejo em cansaço acumulado irrompesse por seus lábios grossos, cruzando o ar infantilmente; a mulher não daria atenção digna enquanto até a aflição deixar seu ser. A única coisa capaz de a impedir de saciar a fome que a consumia desde três horas da tarde e tirar uma pestana por horas era sua dedicação ao trabalho. Obstinada, tratou de puxar o saco com seus pertences estritamente pessoais para ter a caneta negra utilizada mais cedo. Conseguindo tal, tratou de correr pela extensão do que tinha como lar à procura de algo capaz de riscar.
O soar tão conhecido do toque sem graça de seu telemóvel nos confins da bolsa fez-se presente, desmanchando sua concentração.
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