Completo Desastre - HIATUS

3 Capítulo II - Enfim, escola


Notas iniciais
Ooii! Demorei muito para postar mas foi por vários problemas que tive... Enfim agora prometo que as postagens serão mais regulares :D

Um passo após o outro, sobrancelhas levemente arqueadas e um quase sorriso nos lábios. Arrogante é a palavra com o qual sempre descrevem a minha postura. Ao meu ver, estava sendo apenas eu mesma. A maioria dos alunos já estavam em suas salas de aula e os que estavam do lado de fora pouco me importavam. Os olhares me incomodavam, mas ainda não eram a pior coisa a sobreviver naquele dia.

Parei ante a porta azul. 3° ano A, era a minha turma. Provavelmente os mesmo alunos do ano anterior, o que incluia Isabela e Henrique. O meu Henrique que a vadia ruiva roubou de mim. Meu amor que estava cego por uma idiota sonsa e boazinha com um corpo mais voluptuoso. Minha paixão que me traiu e deixou por uma qualquer...

Eu sempre soube que precisaria encarar aquela situação. Por mais difícil e doído que fosse ver tudo que perdi à minha frente, eu precisava. Mas não imaginei que doeria a ponto de quase me fazer fraquejar. Adentrei a sala e vários olhares se voltaram para mim. Olhares frios, cortantes, julgadores. E no da minha rival, uma pena que eu juraria sobre minha vida que era banhada em falsidade. Me encaminhei ao fundo da sala onde ainda havia algumas poucas cadeiras vazias. Passei por eles, o casal maravilhoso e por minhas duas ex amigas, Adele e Sara, que mal tiveram coragem de me olhar. Ainda lembro do olhar acusador quando ambas romperam a amizade afirmando que eu as tentava dominar, que eu não aceitava o verdadeiro eu delas e tentava muda-las para satisfazer meus caprichos. Argumentos que considerei ridículos. Eu tentei ajuda-las a serem melhores, dizia o que era bom e o que não era para o bem de ambas e elas simplesmente me retribuíam dizendo que isso era não aceita-las apenas porque uma garota disse isso para elas.

Não olhei no rosto de nenhum deles e me acomodei no que seria meu novo lugar. Uma carteira no fundo da sala, encostada na parede lateral. Agora eu pertencia à turma do fundão, ao rejeitados, desamparados, esquisi...

"Gata seu pai é pedreiro?"

Ah não! A voz vinha exatamente de trás de mim.

"Porque você é um sonho, sua linda!"

Diego: o babaca que canta as meninas das formas mais ridículas possíveis apenas para irritá-las e eu tinha sentado justamente a frente dele. Era ruim demais e trocar de lugar não parecia uma boa ideia. Não queria chamar mais a atenção enquanto não me acostumasse com a nova situação. Não olhei para trás e não respondi. A professora já estava entrando. Era loira, usava um rabo de cavalo e óculos de armação branca. Era muito nova e eu não a conhecia. Menos mal, pensei. Não seria obrigada a aguentar perguntas pessoais.

"Bom dia! Eu me chamo Carla e serei a nova professora de física de vocês."

Física? Isso explica a cara de nerd.

"O professor Jorge mudou-se de cidade e sou a substituta dele. É meu primeiro ano lecionando e..."

E agora o fato de não saber o que fazer com as mãos e de estar levemente tremula também estavam explicados.

"Com licença"

Uma voz interrompeu a professora e calou meus pensamentos. Um aluno entrava atrasado e era alguém que eu não conhecia. Aluno novo, com certeza. Ele era de estatura média, tinha traços que denunciavam uma ascendência japonesa e se vestia bem. Era bonito e pela cara de perdido dava para ver que não conhecia ninguém da turma. Parecia ser do tipo inteligente, mas não tinha jeito de nerd. Na verdade, os músculos sob a camiseta gritavam que ele não era do tipo que fica o dia inteiro enfiado em livros ou em um computador.

Droga! Quando dei por mim eu o tinha analisado demais e ele estava se dirigindo ao lugar vazio à minha frente. Eu devo ter parecido uma vadia que encarava qualquer pedaço de carne nova. Odeio isso!

"Bem, continuando," A professora voltara a falar. "Como não conheço ninguém peço perdão por talvez demorar a aprender o nome de todos. Sei que ninguém gosta muito disso mas gostaria que todos se apresentassem."

Perfeito! Estava feliz por não conhecer a professora e poder ficar na minha e ela vem com essa ideia. Que maravilhoso.

Começou pela fila do outro canto da sala. Um a um dizendo nome, sobrenome, idade e um pouco de si mesmo. Algo completamente chato. Eu conhecia a todos, já tinha escutado essa apresentação milhares de vezes.

Logo chegou a vez da fila em que eu estava, começando pela frente. Prestei mais atenção quando vi que ia chegar a vez do aluno novo, estava curiosa por saber.

"Meu nome é Felipe, tenho 17 anos e sou novo na cidade."

"Seja bem vindo à cidade Felipe! Espero que esteja gostando daqui! O que os trouxe para cá?"

"Minha família comprou o restaurante da minha tia para ajudá-la no tratamento do câncer e decidiram mudar para cá para minha mãe também cuidar da irmã"

"Sinto muito pela sua tia. Espero que tudo dê certo! E você, já tem planos para a faculdade? Decidiu o curso?"

"Medicina"

"Muito bem! E você?"

Demorou para eu perceber que a professora falava comigo. Estava vasculhando minha mente tentando lembrar de algum restaurante recentemente vendido ou fechado. Minha curiosidade sempre foi excessiva. Mas no momento que vi ser a minha vez percebi que estava totalmente despreparada para falar. Sempre fui boa discursos, argumentos e persuasão, mas naquele dia eu me sentia como uma expectadora, não parecia estar vivendo aquele dia, não parecia ser eu ali.

Levantei com um sorriso nos lábios. "Bom dia professora! Em primeiro lugar seja bem vinda."

Regra número 1 do discurso bem sucedido: ser simpática com a autoridade mas sem exageros, até conhecer bem o terreno onde está pisando. Existem os que gostam de puxa sacos e os que gostam de respeito. Nada de riscos até poder diferenciar.

"Me chamo Samantha Mayer, estudo aqui no Santa Clara desde os 5 anos e tenho 16 anos."

Regra número 2: falar em tom audível mas sem exageros. Ser claro e objetivo.

"Muito obrigada Samantha, é um prazer te conhecer."

"Engraçado esse ano ela não ter mencionado o nome dos pais ou a sua posição social. Parece que a rainha perdeu a coroa..."

"Coroa, reinado, dinheiro..." Vozes finas e um comentário estúpido. Quem ensinou Sara e Adele a serem tão maléficas? Oh, certo, fui eu. Mas eu não deveria ser a vítima e aquele trio de garotas a minha frente não deveria estar debochando de mim e arrancando risinhos na sala. Como tudo estava fora do lugar!

"Por favor não interrompam!" A professora estava séria! Ponto pra mim, estava a conquistando!

"Continuando Samantha, já tem uma faculdade em mente?".

"Sinceramente, estou em dúvidas professora." Não tinha percebido até então que não estava com um curso decidido. Andei tão preocupada com meus problemas pessoais que nem andei pensando nisso. Eu precisava decidir urgentemente o que queria, afinal já era meu último ano.

"Logo você vai consegui decidir"

Ela sorriu para mim e passou para as últimas apresentações. Não prestei atenção em mais ninguém. Fui rabiscando meu caderno para me manter sob controle.

"Deixa eu adivinhar uma coisa?"

Era o rapaz novo, que tinha virado-se para falar comigo.

"Aquelas três são o grupo de patricinhas que se julgam alvo de inveja e intocáveis, com, provavelmente, a ruiva sendo a líder delas?" Que ótima definição... Seria exatamente isso que ele diria de mim no ano anterior.

"Justamente..."

"E o cara loiro é o bonitão que é namorado da líder mas que tem uma queda por você?"

"Por que você acha isso?"

"Por que ele olha para cá de minuto em minuto."

"Interessante"

"Seria clichê se não fosse pelo fato de que você não parece ser o tipo nerd excluída. Você pode ser odiada, mas é mais do que isso."

"Bem impertinente você, não?" Levantei apenas uma sobrancelha, ele estava sendo curioso e prestativo demais.

"Apenas curioso. Essa história parece tão familiar."

"Se te interessa tanto, você errou. As duas capachos da vermelhinha ali eram minhas melhores amigas. Ela era a nerd linda, simpática, mal vestida e rejeitada e o bonitão era meu namorado. O resto da história é dedutível e os olhares dele são apenas uma tentativa de me humilhar. Satisfeito?"

"Apenas por enquanto. " Ele sorriu revelando dentes perfeitamente alinhados. Não retribuí o sorriso. "Você parece legal"

"Ainda não sei se posso dizer o mesmo de você."

Dessa vez eu dei um meio sorriso . Ele virou- se para a frente para anotar a matéria que a professora estava começando a passar. Mesmo sendo invasiva a forma como ele puxou conversa, achei-o interessante. Não de forma romântica, mas ele parecia ser diferente das pessoas que me rodeavam, o que já era algo positivo.

As aulas até o intervalo passaram lentamente e sem mais interações com ninguém. A professora de física estava empolgada e o professor seguinte era maníaco por silêncio. Quando vi que estava quase na hora de sair, senti o medo me rodear. Aqueles minutos eu passaria sozinha, pela primeira vez em muitos anos. Não sabia o que ia fazer e isso era fora da minha zona de segurança. Olhei para a frente e vi Isabela me olhando como se soubesse o que passava na minha mente. Aquilo me fez subir o sangue. Ainda não engolido a ofensa da primeira aula e precisava dar uma resposta a altura.

Esperei o sinal indicando o intervalo, levantei- me e me dirigi para onde as três estavam. Parei frente à elas, olhei bem nos olhos de Isabela e sorri.

"Sabe, reis e rainhas podem até perder o trono e suas riquezas, mas o sangue nobre sempre vai correr em suas veias. Agora uma alma pobre pode até usurpar o lugar deles mas no fundo sempre vai ter sangue e espírito de plebeu"

Não esperei resposta, nem reação. Virei as costas e saí da sala. Podia ter perdido tudo, mas jamais eu iria deixar uma ofensa sair barato.

Notas finais
Espero que tenham gostado ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.