A chuva torrencial caia sobre o asfalto, deixando a cidade cinza mais cinza naquele outono. As pessoas passavam segurando um guarda-chuva e não cumprimentavam o outro, pois suas atenções eram voltadas para os pés pulando as poças d’água. Cintia saía da escola com um guarda-chuva também, mas não fitava o chão.

Um pouco à frente da rua em que passava, havia outro guarda-chuva com um casal dessa vez. E era exatamente isso que prendia seus olhos amendoados e desiludidos. A maneira como conversavam felizes sem se importar com a chuva, fazia-a se lembrar dos velhos tempos.

Os tempos que Duda passava somente consigo, até mesmo em dias chuvosos como esse. Cintia sempre esquecia o guarda-chuva e Duda, tão precavida, trazia o seu e oferecia uma carona. Mas Duda agora dividia com o namorado, o rapaz ao lado dela sob a sobrinha.

E por conta disso, Cintia teve que começar a trazer o seu para não se molhar como havia acontecido uma vez. Não acreditava que Duda, sempre tão precavida e atenciosa, deixara-lhe tomar chuva.

Com os olhos amendoados se marejando, pensava que não podia ser mais a avoada de sempre. Duda sempre lhe chamava a atenção e talvez estaria certa.

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