Compatíveis
2 Nilo habita na intensidade.
Notas iniciais
— Necessariamente... — Mona começou depois de colocar uma mão cheia de amendoins na boca. Ela olhou para Nilo com os olhos castanhos cheios de compreensão. Não com ele, é claro — Diana é minha amiga há mais tempo que você. Então não posso quebrar minha promessa e te contar... coisas – sorriu, atiçando a curiosidade do amigo.
Ela estava certa. Nilo sabia. Como um agente da Hades o mínimo que ele deveria fazer é ter controle com suas emoções e não se perder tão facilmente numa garota como aconteceu com Diana – o mínimo, quero dizer. No entanto Nilo vivia com intensidade demais para seu pobre coração que se apegava tão facilmente e demorava a desapegar. O sofrimento não era passageiro para Nilo. Se perdeu seu celular durante a manhã, passa o resto do dia sentindo um vazio no peito. Se Mona não sorri, e ela pouco sorri, Nilo entra num estado de preocupação e revisão de seus atos até que encontre um momento em que ele foi rude demais ou chato demais, corre para se desculpar e faz MonaLisa rir. Rir na cara e da cara dele. A mesma garota parecia abafar o riso, se beliscando a cada segundo para não gargalhar da situação. Nilo era seu ponto de normalidade na loucura da Hades.
Na noite anterior estavam trocando tiros com membros da Deahabi. Para que não ficasse entediada, Nilo foi designado para cuidar dela já que Sam precisava passar o dia na Reabilitação. O coração se apertou ao pensar no amigo e na barra que ele estava enfrentando. Casanova devia estar aqui, não eu.
A culpa era uma droga.
Nilo estalou os dedos na frente dela, tirando mais um sorriso de seus lábios: — Dá um tempo, Branca de Neve.
— Presta atenção que eu dou, Da Vinci. — crispou os olhos com a vontade de rir. Nilo tirava o melhor dela e ela o odiava. — Não consigo parar de pensar nela. — confessou, passando a mão no cabelo branco que denunciava seu lado híbrido e inspirou o apelido. Nilo era russo, com o cabelo branco e os olhos azuis como o gelo – olhos azuis de um Vedev.
Era o híbrido de longe mais interessante de ser visto e Mona aceitaria sem reclamar o privilégio se não fosse a mania dele de abrir a boca. E não parar de falar...
— Estou tão cansado, Mona — Não me diga... — Tão cansado dessa merda de compatibilidade.
Opa!
Mona se recostou no sofá, subitamente interessada. — Achei que não acreditasse no gene.
Este tinha sido o discurso dele desde que os dois se conheceram, na Seleção da Hades. Só os melhores híbridos estudavam e trabalhavam para Hades, e Mona e Nilo eram os melhores. Foi surpreendente ver o filho adotivo do Hades agir sem nenhum privilegio, gentil e adorável com todas as pessoas, incentivando-as. Mona pensou que ele era o Alpha, o que foi contestado quando se encontraram no corredor do banheiro, com Nilo limpando o resto do vômito com a manga do casaco. Aquilo era muito humano até para ela e pela primeira vez Monalisa se compadeceu de um híbrido. Nilo estava lá fora, dando o seu melhor para aqueles híbridos que só queriam lembrá-lo de quão sortudo ele era. E ele estava ali, sendo simplesmente ele, nervoso pra caramba a ponto de vomitar.
Mona gostava dos quebrados. Dos imperfeitos. E Nilo estava na jogada.
Ela parou a sua frente, interrompendo sua passagem com o braço esquerdo estendido entre a parede e ele. O híbrido arqueou a sobrancelha e Mona jurou que o coração dela bateu mais forte. Não pela aparência do cara, mas pela dominância. Um Beta... era raro e incrível conhecer um Beta. — Nervoso, Branca de Neve? — ela se surpreendeu com sua criatividade tentando entender de onde tinha saído aquilo, ao mesmo tempo que Nilo sorria, adorando o apelido.
— Você é o meu príncipe? — retrucou, fazendo-a sorrir como uma loba.
— Você quer que eu seja? — ele sorriu, afetado. Olhou profundamente para os olhos da garota a sua frente e podia jurar que sentiu uma conexão. Uma sensação quentinha no peito.
Nilo se sentiu menos vazio e estranhou a sensação. Ela poderia ser...? Claro que não. Mas sempre me disseram que...
Nervoso pela hipótese, perguntou sem conseguir controlar o fluxo de pensamentos: — Você é a minha compatível?
E surpreendendo ele, outra vez, Mona riu. Não, ela gargalhou. A voz se espalhando pelo corredor, lembrando a eles que ainda estavam parados e que provavelmente o teste físico estava perto de começar. Teriam de lutar com agentes veteranos e os que vencessem, entravam. Orgulhoso como só ele, Nilo tinha selecionado o agente mais durão da Hades, decidindo mostrar a todos quem ele era. Não o filho do dono, um Vedev. E poucos sabiam a história de Nilo mas ele não nasceu um Smith como Hades, ele nasceu um Vedev. Um russo. E a base russa da Hades era o seu lar. Ele teria de entrar a qualquer custo.
Se sentiu nervoso, ansioso e irritado com o vômito que não esvaziou suas sensações – como pensou que aconteceria. Ele se sentia ridículo, mas costumava vomitar em situações de muito perigo. Não, ele forçava o vômito. Enfiava os dedos longos na garganta e forçava o corpo a colocar tudo para fora. Este era quem Nilo era e tinha medo de que fosse descoberto, por isso passava tempo bajulando e conhecendo as pessoas. Descobriu neste método a melhor máscara para suas próprias emoções. O pior era a reputação de coitadinho que o precedia.
O agente Carter era sua porta de entrada e ele estava perdido. Era muito mais inteligente que forte. Mas era um híbrido urso-polar e os ursos eram bons predadores. Ele se esforçaria para se sentir 100% um como o Alpha.
E refletiu isso em seus olhos para Mona que foi aos poucos perdendo o senso de humor e se aventurando em encara-ló.
Ele ainda não tinha uma resposta.
— Sim ou não?
Mona cruzou os braços, negando com um gesto, e Nilo não evitou se sentir decepcionado. A garota parecia incrível.
Ela pareceu ter lido os pensamentos dele, pois assegurou: — Eu ia ser péssima compatível, acredite.
— Tudo bem... — Nilo deu de ombros, voltando a andar, ansioso pelo teste e para se afastar do momento vergonhoso. Parecia que eu estava desesperado... — Meu nome é Monalisa— interrompeu o passo, impactado pela voz e pela brincadeira que a híbrida estava fazendo para que ele se sentisse melhor. Foi só quando olhou por detrás do seu ombro e não farejou nenhuma mentira no ar, que abriu a boca, chocado. Sua irmã sempre dizia que ele ficava igualzinho a um peixe.
— MonaLisa... — repetiu, ainda chocado.— É, tipo a pintura do Da Vinci. — explicou e não parecia feliz. Nilo gostava do nome dele apesar de as pessoas terem dificuldade de pronunciar corretamente e não se viam por vencidas até perguntarem se alguma vez já tinha viajado ao Egito? E sabia que o Nilo é sagrado? — Coisas que a gente aprende na aula de história. — completou e Mona piscou, sorrindo.
— Me chame de Mona e eu não mato você. — ameaçou e Nilo sorriu, provocativo.
Demorou alguns minutos para pensar no apelido perfeito que fizesse jus ao de Mona, mas conseguiu: — Tá bom, Da Vinci.
— E o Oscar de criatividade vai para... — Mona imitou um locutor e ele riu, não resistindo a chegar mais perto da garota e empurrar seu ombro como um amigo. Amigo... tudo bem para mim. — N-Nilo Smith. — ele buscou o motivo da hesitação de Mona e percebeu que a afetava.
Isso sim é engraçado.
— Tudo bem, Da Vinci? Está sentindo alguma coisa? — sorriu com uma queimação espalhando por todo o seu rosto. Maldito gene. Espero que você se supere e muito com a minha compatível ou já era. — Você é fofa. — ele elogiou e voltou a andar, sendo interrompido pela mão de Mona em seu pulso.
Se aproximando lentamente, provocando, agindo como se ele fosse a presa. Quero ser a presa! No instante que ela falou, no entanto, Nilo sentiu a animação se esvair. — Tente manter a mesma opinião quando eu estiver perfurando seus órgãos com as minhas unhas... — piscou em choque, seu corpo arrepiando quando ela passou as unhas em seu braço e não era de prazer. Os olhos dela estavam totalmente pretos como os de um demônio.— Vou usar seu sangue como esmalte.
— Entendi, entendi. — se afastou assustado, ainda com a imagem das unhas dela meladas com o sangue dele e de seu corpo estirado no chão. Me-do — Bem-vindo a Hades, Monalisa. Você é doente e seu lugar é aqui. — ele brincou, sorrindo devagarinho e intercalando os passos com o dela. Um, dois, um, dois... fingindo que não estava morrendo de medo e de que nunca, nunca mais se atreveria a pensar que Monalisa era frágil outra vez.
— Eu acreditava no gene... — Nilo corrigiu, quando ela viajou de novo, enchendo a mão de doces com formato de ursos. O tipo favorito dele e que ela sempre tinha um estoque debaixo da beliche, num baú de pirata que ele deu de presente de aniversário. Dois anos antes.— Quando te conheci, acreditei que você poderia ser minha compatível. Mas não aconteceu e eu me frustrei.— confessou envergonhado e Mona assentiu, no limiar entre lisonjeio e preocupação com os sentimentos platônicos de Nilo por ela. Sou difícil de superar, eu sei...
O híbrido olhou para a Íris castanha dela, relaxando na cama dela e deitando. Fechou os olhos enquanto continuou falando, se sentindo bobo a cada palavra que escapava de seus lábios: — Eu superei, eu juro. Só que a Diana... — corrigiu: — Com a Diana foi diferente. Achava que seria, pelo menos. Ela é a garota mais legal da Hades — Mona raspou a garganta, obviamente ofendida e Nilo se corrigiu, outra vez: — Depois de você. E eu gostei dela, achei que o gene finalmente tinha sido ativado. Até tentei beija-lá para provar meu ponto mas não deu certo. Ela não queria. — Nilo revelou, arrependido. Entendeu que tinha passado dos limites ao forçar um beijo em Diana e ela o fez jurar que não cometeria esse erro outra vez.
Nilo só queria se sentir desejável visto que na maioria das vezes sua fama de Smith era tudo que ele tinha. Era tudo que ele era. Mais do que o filho de Hades, Nilo era idealizado como intenso para todas as híbridas que conhecia. Híbridos não podiam se relacionar sexualmente exceto com seus compatíveis, e beijos era o máximo permitido por Zeus. Nilo não acreditava muito em seu corpo para escolher sua compatível já que Diana e Mona, as mulheres mais atraentes e incríveis que ele tinha a honra de conhecer não eram as garotas. Então era conhecido por apressar as coisas. Essa história de compatível pode ser um assunto natural entre os híbridos; mas assusta e muito quando. O erro de Nilo era querer envolver o gene. Era acreditar nele. Poucos acreditavam, mas ele não. Ele não.
Como se não bastasse, Nilo tinha interrompido uma cena muito íntima de Diana e Sam, o Casanova, o híbrido do pega e não se apega. O apelido fazia jus às bocas e camas que Sam tinha visitado com sua beleza, sua posição na Hades e sua pretensão a desacreditar no gene. Sam era tudo que Nilo não era. A única coisa que Nilo não invejava em Sam era os olhos que perfuraram cada ação cometida por ele, o Grande Irmão: Sam, o afilhado de Zeus. Um Saintté. Seu rival e alvo de toda a sua raiva e ódio. Por isso, quando Sam o cumprimentou com um privet russo (oi),
Nilo fechou a cara e controlou seu punho de urso que tinha intenções claras de socar Sam. No final, Nilo foi o dicado. Por Diana depois de ouvi-la dizer que o rejeitava e ter se imposto com sua força e dominância encima da Capa. Diana não tinha contado a ninguém o mesquinho que o herdeiro da Hades era, e Nilo se sentia ainda mais culpado pela híbrida ter um coração mole.
Ele preferia outro soco a ter benevolência dela. Era muito orgulhoso para isso.
MonaLisa, como sempre, verbalizou sua consciência. — Diana não é uma posse, Nilo. Isso que você fez foi muito muito errado e eu só não bato em você porque conhecendo Diana ela não deixou barato. — frisou e Nilo ficou em dúvida se contava ou não do soco. Sua reputação já estava um lixo mesmo...
— Ela me socou — ele resmungou com a lembrança. A loira batia bem. — Doeu pra caramba. — massageou o maxilar no lugar exato que tinha sido acertado. O primeiro soco que recebeu. Carter, o durão, não tinha conseguido acerta-lo em seu teste e por isso Nilo se tornou invencível nas lutas.
Bem, eu não tentei beijar Carter...
— Pelo menos você não a socou de volta. — Mona disse amargamente, sendo consumida pela raiva. Lembranças dela quando criança, uma Capa sendo subjugada por famílias híbridas indianas que a queriam como noivas de humanos sujos e velhos. A pequena Mona exposta a toda dor e abuso por aguentar mais. Odiar qualquer demonstração de autoritarismo era eufemismo. Mona odiava homens assim. Bagual Kelie!, Nilo era um homem assim. Como não percebeu... como se afeiçoou a ele? Ele faria mesma coisa, ele a usaria.
Nilo se assustou com as palavras de Mona, se contorcendo no colchão macio. Parecia o único conforto que ele receberia dentro daquele quarto e vinha de um objeto inanimado.
— Eu nunca seria capaz disso. — replicou, ofendido como a amiga reagiu. Ele sabia que ela ficaria com raiva mas acreditou que Monalisa ficaria do seu lado, mesmo tão próxima de Diana, mesmo próxima de Sam... — Eu nunca seria capaz disso. — repetiu, levantando e desejando mais do que nunca sair do quarto de MonaLisa e deixar a amiga sozinha. Eu me protejo sozinho, нахер (foda-se).
Nilo agarrou a jaqueta com raiva, fechando o zíper e se virando para ver Mona separada por centímetros do seu rosto, os olhos indianos como os de um lobo. — Não banque o ofendido, Nilo. — ela cuspiu e ele segurou a vontade de chorar. Tão sensível, sua mãe dizia. Tão intenso...
— Cala a boca. — pediu, se controlando para não arrasta-lá a força da sua frente e forçando a se lembrar de quem era e de quem Monalisa era. Segurou suavemente o cotovelo dela e a puxou para o lado. Se ela me atacar, usarei a hierarquia de Beta. Se ela me atacar, eu não revido.
— O que você fez foi errado! — Mona gritou, afastando as mãos dele como se estivesse com nojo e que ainda a seguravam. Nilo ergueu o queixo e repetiu lentamente: — Cala a boca.
— Só sabe falar isso, garotinho? — retrucou e Nilo se sentiu encolher. Justamente o que não era. Justamente aquilo que o amedrontava. Mona ainda olhava para ele, cerrando os punhos quando continuou, atropelando tudo:
— Você não sabe, Nilo... não sabe o quão horrível é isso que você fez — ela soluçou, se afastando dele, repelindo o amigo. Amigo... ele é como os outros. Todos eles são. — Abusando da autoridade do Hades para errar, para machucar... — murmurou perdida em suas lembranças. Na dor de suas lembranças.
A parte racional de Nilo notou que Mona se distanciava dele, da história dele e ia para a dela. Para os demônios dela. Tinha lido a ficha de Mona e abusos e agressões eram fichinha para o que a garota tinha passado nas ruas antes de encontrar a Hades. Uma pobre garota indiana vendida. Machucada. Nilo sentiu a raiva indo embora, passando, mas não podia deixar que ela o machucasse pelos erros dele. Ele jamais faria isso.
— Mona — chamou suavemente, confundido a garota. — Erros acontecem. E eu sinto muito pelo que fiz com a Diana e jamais — ele se aproximou dela, puxando sua mão direita tatuada com uma insígnia indiana e apertando. Um cisne símbolo de beleza e espiritualidade. E também por causa do conto do patinho feio, que foi a primeira história infantil que contaram para ela. — vou voltar a fazer isso. Não forçarei mais ninguém pelos meus medos. Tentarei não machucar mais ninguém por causa dos meus medos. — duas lágrimas se desprenderam de seus olhos, o fazendo assumir uma voz emocionada e quebrada ao concluir:
— E você também não deveria. Sei que te machuca, sei mesmo — acenou levemente com a cabeça, acariciando a testa dela, fazendo um sinal que ele amava justamente por simbolizar perdão e amor. Uma cruz — e por isso vou te deixar sozinha hoje.
Mona não sabia o que dizer ao olhar para Nilo, sentindo a raiva do próprio passado invadir suas entranhas e seu coração. Deixou que Nilo se afastasse por quê ainda era o seu amigo ali, na sua frente, e observou silenciosamente ele juntar as coisas e sair do quarto, fechando a porta num baque mudo. MonaLisa deitou na beliche, pensando em tudo que o garoto lhe dissera e nas lembranças que a atormentavam. Um patinho feio esperando para se tornar um cisne. Olhou para a tatuagem em sua mão – um esboço da henna do seu casamento. Foi a única coisa que permitiram que ela escolhesse. A única coisa que pode escolher antes de ser jogada no covil dos lobos.
MonaLisa tinha seus demônios e eles não a abandonariam.
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