Notas iniciais
Boa leitura ♥

Estava frio, e a calmaria da rua deserta junto a claridade da lua fazia daquela cena melancólica. Ou talvez fosse pelo fato de eu mesmo estar mergulhando em um mar de depressão, sem previsão de emersão. Eu sentia os dedos de minhas mãos desprotegidas encolhendo-se, e meus ombros tremendo devido à baixa temperatura. Mas eu não ousava mover um músculo, nem mesmo minhas pupilas moviam-se de um único ponto fixo no chão.

A noite, porém, estava clara. A lua brilhava através do sol, algumas árvores atrasadas ainda soltavam folhas ao vento, e o barulho destas arrastando-se no chão sem neve eram as únicas coisas que eu podia ouvir além de minha respiração sôfrega, formando nuvens abafadas no ar. Eu tinha quase certeza de que passaria a noite ali, meditando sobre algo que eu já havia esquecido, e apesar disso, não conseguia levantar daquele velho banco.

Meu coração estava em ritmo acelerado, e minha mente doía, meus olhos abertos por tempo demais. Achei que explodiria, até algo além do ruído das folhas secas invadir meus ouvidos. Passos arrastados, passos lentos de como quem caminha sem querer nada, sem pensar em nada, como quem observa o céu fechado e sorri. Minha cabeça se virou automaticamente em direção ao barulho perturbador, e observei pernas negras de botinas azuis aproximando-se.

O estranho continuou sua caminhada, e abaixei a cabeça na espera de sua ida; para que eu pudesse voltar a encarar as janelas das casas adormecidas, ao mesmo tempo em que sua silhueta desaparecia por dentre a névoa fina. Mas os passos pararam subitamente, tão abruptamente que meus olhos esbugalharam-se levemente encarando o chão de pedra, sem coragem para levantarem-se e encararem aquela figura, agora parada. Os passos continuaram, e desesperei-me internamente ao notar que estes se dirigiam a mim, e que um pouco mais, eu conseguiria enxergar o começo de seus pés revestidos em azul.

O pensamento pessimista de que o ser parado a minha frente fosse lá algum tipo de molestador, que vagava pelas noites frias de inverno a procura de vítimas especialmente frágeis e, no meu caso, atônitas demais para esboçar qualquer reação, me passou pela mente como um raio rasgando noites de tempestade. Levantei a cabeça por puro medo de ter a vida ceifada antes mesmo de poder perceber, e meus olhos captaram um castanho claro tão límpido que as pontas de meus dedos frios aqueceram-se.

Era um homem de aparentemente 25 anos, com uma cicatriz curiosa atravessando o canto de sua boca fina. Imaginei que ela então seria perfeita para a troca de um ósculo, seja ele casto ou selvagem. Dois segundos e arrependi-me pelo pensamento, porque ainda que o sujeito fosse deveras atraente, ele ainda era-me um estranho. Um estranho que sorria-me como se fôssemos amigos de longa data.

– Olá. – Ele disse, em uma tentativa que julguei no mínimo estranha de começar uma conversa.

Estranha porque eram 2h da manhã, e a rua estava deserta.

Senti que franzi o cenho sem querer, meus olhos cravados nos dele, e os lábios juntos como se entre eles houvesse cola. Ele sorriu mais uma vez e abruptamente, sem que eu pudesse sequer dizer não, sentou-se pesadamente ao meu lado. Seu peso fez a madeira do velho banco fazer um estalo alto, causando um eco indesejado naquele silêncio quase fúnebre. Continuei de cabeça baixa, sentindo os fios de meus cabelos negros fazendo cócegas atrás da orelha, e a ponta de meus dedos voltarem a tremer como nunca. Ele se moveu, depois de muito, porém tão de repente que levantei os ombros e pulei no banco devido ao susto.

– Você não me respondeu. – Sua voz cortou o ar mais uma vez.

De tão pressionado, decidi que para todos os efeitos, apenas correria. Tão desvairadamente quanto imaginava. Levantei a cabeça e a pendi para o lado, encarando-o, e só agora percebendo a cor peculiar cinzenta de seus cabelos.

– Olá. – Eu disse, quase em sussurro.

– O que faz aqui a essas horas? – Voltou a falar, aparentemente satisfeito com minha manifestação.

– Pergunto o mesmo. – Rebati, esperando que isso o calasse, mas então seria ter um otimismo que eu com certeza não tinha.

Ele riu, tão levemente que me fez estremecer, e senti como se aquele ser não existisse. Como se sua presença ali fosse apenas um fruto da minha imaginação cansada da solidão. Realmente acreditei nessa possibilidade, e quase sorri um sorriso amargo que me faria começar a chorar; porém sem não antes sentir o toque de seus dedos sobre o casaco grosso que cobria meu corpo encurvado. Estremeci, ainda compartilhando dúvidas com a minha própria mente sobre sua existência.

– O que você quer de mim? – Soltei, de repente. – Por que apenas não seguiu seu caminho?

– Porque estava cansado de vagar por aí na companhia de minha sombra. – Falou, o tom sério e gutural. – Porque senti uma súbita vontade de dançar. – E olhou dentro de meus olhos, suas pupilas dilatando-se enquanto pequenas gotas de reflexo se misturavam ao castanho de seus orbes.

Senti-me genuinamente surpreso com tal afirmação, porque não sabia o que significava. Mas a entendia, a entendia tão bem que cheguei a assustar-me com a súbita parada da tremedeira e a aceleração do coração; que fizeram a extremidade de meus lábios levantarem-se em um movimento que para mim já não era tão conhecido.

Mas então as folhas secas voltaram a cair, bem como meus cabelos sobre os olhos, em uma mudança radical de planos. Levantei rápido, afoito, louco por sair correndo, por sentir-me distanciar daquele estranho. Uma vontade que dividia seu espaço com aquela que queria ficar, conversar, ter os lábios repuxados mais vezes; e não porque forçaram-se a isso. As folhas continuavam caindo despreocupadas, e a lua havia se escondido sob a cortina de nuvens negras. As estrelas brilhavam mais do que tudo, e meus olhos viram tudo girar ao mesmo tempo em que meu corpo era puxado brutal e sutilmente para perto de quem eu sabia ter uma existência, para mim, duvidosa.

Porque, de alguma forma, eu não queria perceber-me dançando sozinho.

Seus olhos estavam perto, sua boca ostentava um sorriso pequeno. A cicatriz no canto de seus lábios repuxava-se enquanto ele sorria, e as gotas de reflexo em seus olhos continuavam a fazer uma dança ao redor de suas pupilas. Esses detalhes fizeram a ponta dos meus dedos aquecerem-se ainda mais, e finalmente senti-me em companhia de alguém. Oh, nostalgia.

Fatos ali não faziam sentindo, bem como aquela situação que era no mínimo bizarra. E que por outro lado, me parecia tão certa. Dançar com um completo ninguém no meio de uma praça deserta, as duas horas da manhã, ao som de nada mais que as folhas secas pousando ao chão, nossas respirações afoitas e nossos passos arrastando-se no chão nunca me pareceu tão certo. A perfeita melodia, o perfeito cenário, o perfeitíssimo momento.

Não que eu estivesse “caindo”, embora essa narração esteja um pouco apaixonada. Extremista como sou, diria até que aquela pessoa, existindo ou não, acabara de salvar não só minha noite. Não só ela, mas muito mais. Muito mais do que meus sonhos refletindo nas janelas daquelas casas podiam ter feito. Nossos passos aos poucos estancaram, parando em um momento qualquer que não me lembrava. Ele sorriu mais uma vez, e seus cabelos cinzentos mexeram-se ao som da rajada fria de ventania que passou por nós.

Separamo-nos quase sincronizados, e ele voltou a colocar as mãos nos bolsos do casaco negro que usava. Eu olhei para cima, para além dos tijolos alaranjados do muro alto, e vi os primeiros resquícios de luz solar despontar do leste. Ouvi seus passos distanciarem-se cada vez mais, e não consegui mover um musculo de onde estava. Quando deixei aquele lugar, faltavam cinco minutos para as sete da manhã, e continuei andando pelas ruas da cidade, que a cada minuto enchiam-se mais de pessoas. Tomei o ônibus pouco depois, ainda sem um destino certo, uma vez que não lembrava o endereço de minha casa.

Assim que sentei em um dos muitos acentos vagos, a chuva ensolarada começou a cair devagar, maculando o vidro transparente da janela. Senti algo no bolso frontal de meu casaco, e do interior puxei um pedaço de papel amassado e sujo de terra, contendo nada mais que um número de telefone e uma carinha feliz desenhada em tinta preta borrada; meus lábios repuxaram-se para cima mais uma vez.


Ele existia, afinal.


Notas finais
Depois que escrevi isso fiquei me sentindo uma pateta por algo tão clichê ALÇSÇAÇLKSLÇASLK mas sei lá, sinto falta dessas coisas bobas. E fiquem felizes porque pensei em fazer chover enquanto eles dançavam e
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!