Como tudo deve ser
7 Por Gedda
Notas iniciais
Sara considerou os poucos dias da visita de Grissom como as pequenas férias de que precisava. Quando estava com o noivo, caminhando pelas ruas de São Francisco ou no hotel, ela nem se lembrava do motivo que a trouxera até ali. Era como se eles tivessem voltado no tempo, até o ano de 1998, quando eles se conheceram em São Francisco e sua história de amor começou.
Apesar de aquela visita ter atrasado um pouco os seus planos, Sara teve de admitir: foi a melhor coisa que Gil poderia fazer por ela. Além de dar a ela um tempo para respirar, a presença constante e serena de Gil trouxe consigo o impulso necessário para que ela retomasse as rédeas da vida dela. Sara admirava muito o jeito do supervisor de encarar os problemas da vida. Gil era por vezes a fortaleza de que tanto precisavam para trabalhar como peritos criminais. Então ela resolveu pegar emprestado um pouco da força de Gil para poder seguir em frente.
Deixar Gil partir de volta para casa sem ela fora uma experiência dolorosa. O noivo, imaginando isso, implorou para que ela não fosse ao aeroporto com ele. A despedida deles ocorreu no quarto de hotel, com direito a muitas lágrimas de Sara. O beijo de despedida foi longo e cheio de emoção. Mas tinha que acabar. E com a partida dele, precisou encarar a realidade novamente.
Após alguns minutos para se recompor, a morena foi atrás de sua mãe. Não saberia se a encontraria em casa, mas tinha de seguir em frente, do contrário talvez perdesse o ímpeto.
—Sara! — Laura atendeu a porta de casa, a surpresa estampada em sua cara- Mas... eu achei que... você tivesse ido embora com ele! Vamos, entre!
Laura puxou a filha para dentro de casa e, após ter oferecido uma bebida e ter tido uma recusa, trouxe a filha para sentar-se perto dela no sofá da pequena sala de estar.
— Eu realmente achei que não te veria mais...- Laura comentou, impressionada com a presença da filha ali.
—Gil queria me levar para casa- Sara se pegou referindo a Las Vegas como casa e também se surpreendeu- mas eu não podia... eu vim aqui sem saber o que esperar..., mas agora, depois de te ver... eu só queria saber como? Como você consegue viver sua vida normalmente? Depois de tudo que fez? Eu não o matei, mas eu luto todos os dias da minha vida para esquecer disso e... eu não consigo!
—Talvez esse seja o problema, Sara... você acha que eu me esqueci disso? Que eu me esqueci de ter tirado uma vida? Impossível...
—E então? Como você convive com isso?
—Eu aprendi a aceitar... aceitar que eu matei o meu marido. Não há muito o que fazer... eu somente entendi que a pessoa que eu era antes não teve condições de fazer o certo... eu errei, minha filha, e perante a sociedade, a lei, eu paguei por isso. Mas para ele, para mim e você, não há reparação. E se eu me permitir, toda vez que me olho no espelho eu me vejo como uma assassina..., mas eu sou muito mais que isso. Depois de muito tempo, diga-se de passagem, eu pude perceber que eu não posso mudar o que passou, mas eu não preciso viver no passado. Quem eu sou, Sara, está sempre mudando.
Sara ouviu tudo o que a mãe tinha a dizer. E apesar de tudo aquilo fazer sentido, ela sentia como se não fosse o suficiente para ela. Como alguém superava algo assim? E foi isso que ela comentou novamente com a mãe.
—Não se supera, não é? O que eu faço é... olhar sempre o dia de hoje. O passado me ajuda a não cometer os mesmos erros, e só isso. E o futuro, a Deus pertence. Eu tento sempre ser o melhor hoje, Sara.
— Isso... é muito zen da sua parte- a morena debochou, mas a mãe não tomou conhecimento.
— Bom, foi o que me ajudou... além de terapia, e também o trabalho voluntário que faço, em uma organização que dá assistência a mulheres e crianças vítimas de violência. Eu uso a minha experiência para tentar ajudar as pessoas...
— Eu achava que o meu trabalho era para isso também- finalmente algo que ela podia compartilhar com a mãe- Mas... por mais que a gente faça... parece tão impossível ajudar...
— Ah, Sara... esse seu enorme coração... desde pequena você é assim... mas já parou para pensar que, de algum modo, você já fez a diferença na vida de mutas pessoas? Que mesmo não parecendo, somente emprestar um ouvido para ouvir alguém falar do dia já é o suficiente para aquela pessoa? – De repente, o rosto de Laura se iluminou- Eu já sei, você vai comigo para lá! Vai te ajudar, tenho certeza!
Sara não tinha muita fé nisso, mas já estava desesperada por uma ajuda. Ela imaginou que mal não iria fazer.
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Las Vegas
O tempo corria na cidade do pecado enquanto Sara cuidava de si na ensolarada São Francisco.
O laboratório de criminalística continuava abarrotado de casos, desde os mais simples até os complexos assassinatos.
Ainda assim, Gil e Warrick não se esqueciam de Lou Gedda. Entretanto, o supervisor esperava que Warrick tivesse juízo o suficiente para não se meter nisso e deixasse com que Grissom cuidasse do caso. Não que o supervisor soubesse o que fazer. A última conversa que tivera com Jim a respeito disso o deixara bem desanimado.
— Não há o que fazer, Gil. O cara é mais escorregadio que sabonete em banheiro de presídio. A não ser que ocorra algo de muito grave para fazer com que ele tenha que se arriscar eu não vejo como vamos pegá-lo. Não entendo essa sua pressa... não vai te adiantar de nada.
O problema todo não era Grissom. O homem tinha receio de que Warrick voltasse novamente sua atenção ao caso.
Gil fizera questão de perguntar ao moreno como estava a vida dele durante aquele tempo. Até mesmo acabou por conhecer o pequeno Eli, quando foi assistir a primeira audiência de custódia da guarda do bebê. Até o momento, a situação com o filho parecia consumir o mundo de Warrick, mas Gil o conhecia bem, e sabia que o jovem não descansaria enquanto não vingasse a morte de Joana.
Foi por isso que, às costas de Grissom, Warrick contratou um detetive particular para tentar a sorte com Gedda. O que ele não contava era encontrar o detetive na mesa de autópsia do doutor Robins.
A investigação tomou outro rumo com a identidade da vítima. Além de detetive particular, Leonard Harper fora também um policial reformado. Brass puxou a ficha do sujeito e não gostou do que viu. Ainda mais quando McKeen apareceu, tecendo elogios atrás de elogios ao finado Lenny- como McKeen o chamava carinhosamente. O problema é que o tal de Lenny tinha uma danada de uma ficha suja. McKeen passou por cima de tudo o que Brass disse e ordenou que todos os homens trabalhassem no caso para fazer justiça ao antigo policial.
Brass observou o subdelegado partir, uma rusga de preocupação se formando em sua testa. Depois de um tempo considerável na corporação, era de se esperar que o detetive desenvolvesse um olhar apurado e um instinto certeiro. E naquele caso todo o seu instinto o mandava ligar o alerta para McKeen.
Desde que assumira o cargo, não era estranho para os policiais encontrarem o subdelegado na delegacia. Ainda mais quando se tratava de casos com pessoas importantes. O problema era que desde que Gedda entrara no radar deles, o subdelegado aparecia repentinamente e com grande interesse para que as coisas se resolvessem com rapidez. Ainda mais agora, com McKeen forçando tanto a barra para defender um policial que- no papel- era tão corrupto quanto o mafioso- aquilo cheirava cada vez pior.
Brass fechou o arquivo do caso, suspirou e decidiu. Pegou o celular de deixou um recado para Grissom, quando o supervisor não atendeu o telefone.
∞∞∞∞∞CSI∞∞∞∞∞
Grissom passara a tarde com Nick no escritório de Harper. Os dois tentavam fazer sentido de tudo o que envolvia aquele caso. Quando não havia mais pistas a serem encontradas ali, os peritos seguiram até o laboratório para fazer a parte interna da investigação.
Enquanto isso, Warrick esperava por Grissom na sala do supervisor. Ele precisava contar pessoalmente a Grissom a cagada em que se metera. Foi quando recebeu uma ligação que poderia pôr tudo a perder.
— Como conseguiu esse número?.... É alguma piada?! O que você quer! Devo levar a minha pá?!
Era Gedda do outro lado da linha. Não o espantava ter conseguido o seu número. O que aquele inferno de gente não conseguia, afinal? Mas o que ele pedia a Warrick... ah, a cara de pau! Ligando para ele em seu número de trabalho... era porque tinha muita confiança de que não iria ser pego, mas Gedda não perdia por esperar... Warrick ia ferrá-lo, mesmo que fosse a última coisa que fizesse na vida. Ele já estava se levantando para ir ao encontro do destino quando seu celular tocou mais uma vez. Uma olhada rápida para ver do que se tratava e seu coração se aqueceu.
Tina lhe mandara uma foto de Eli, seu filho recém-nascido. O fato de ter recebido essa foto retirou um pouco o ímpeto de Warrick. Aquilo ali era prova de que coisas boas podiam sair de situações terríveis, se você soubesse manejar as coisas. O fato de ele e Tina finalmente conseguirem manter uma conversa civilizada fora algo que só aconteceu por conta de Grissom.
O supervisor acompanhara Warrick na primeira audiência de custódia uns meses antes. Depois do fiasco que fora aquele primeiro encontro, Grissom puxou o moreno para uma conversa séria. Ele fez com que Warrick percebesse que o mais importante no momento não era ele nem Tina. Eli era a parte que mais importava agora. Warrick não poderia dar o melhor para o filho se vivesse as turras com a mãe do menino. Se ele e Tina não conseguiram se entender pelo casamento, que o fizessem pelo filho.
Foi uma conversa inusitada a dos dois. Quando Warrick iria imaginar que Grissom fosse lhe dar conselhos tão bons sobre relacionamentos? No final, o moreno até fez uma brincadeira nesse sentido com o supervisor, dizendo que o relacionamento com Sara realmente fizera bem a ele, ao que o supervisor respondeu.
“Ela me faz acreditar nas pessoas, na bondade delas. Que cada um de nós vale a pena- nem que seja um simples gorila indefeso.” Warrick não teve palavras depois disso, mas pegou um pouco da fé de Grissom e Sara nas pessoas. Tina valia a pena, não só como a mãe de seu filho. Mesmo que não fossem para dar certo como um casal, ele baixaria a guarda, pelo filho deles. Desde então a situação com ela engrenou para a melhor.
Warrick guardou o celular e olhou em volta, pelo escritório do chefe. Grissom fizera tanto por ele. Warrick agora tinha motivos pelos quais lutar, e precisava da cabeça no lugar. Ir atrás de Gedda sem reforço não era a coisa mais inteligente a fazer. Ele precisava da ajuda de seus colegas, se quisesse terminar de vez com tudo aquilo.
— Warrick... o que está fazendo no escuro?
Grissom acabara de se materializar na sua frente.
—Griss... eu preciso te contar uma coisa.
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Enquanto isso, no Piggale, Gedda fora surpreendido por Daniel Pritchard, que esperava Warrick chegar para terminar o trabalho. O policial conseguira prender o dono da boate e fazê-lo apagar com ajuda de clorofórmio. Agora só faltava Warrick chegar com sua arma. Afinal, tudo precisava sair perfeito
Mas o tempo passava e nada do perito aparecer. Daniel já estava impaciente. Os capangas daquele gordo logo chegariam e aí tudo estaria perdido. Quanto mais tempo passava sem que Warrick aparecesse, maiores eram as chances de Pritchard se dar mal. O plano era o de matar o velho gordo, que estava dando muito mais trabalho do que o que era esperado e ainda por cima se livrar daquele estorvo do Brown, fazendo com que ele fosse para a cadeia. McKeen havia prometido a ele passagem direta para o México, e sua liberdade. Pritchard também já não aguentava mais ser pau mandado de McKeen. Não via a hora de tudo aquilo acabar.
Para seu horror, ele viu Gedda dar sinais de estar se recuperando. Quando Gedda começou a se agitar na cadeira, Pritchard não teve escolha se não lhe meter uma bala no meio da testa. Em seguida pegou o telefone e discou para seu comparsa.
—McKeen... nós temos um problema.
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