Como sobreviver ao coração partido
4 Queimamos um Masserati
Notas iniciais
Simplesmente e exatamente assim: vamos queimar o carro importado, cujo preço equivale à soma de nossas almas multiplicada por setecentos e cinquenta.
–O que ela falou?- Sussurrou Irina.
Passei o bilhete insano a ela. A loira tornou a olhar para mim dizendo com o olhar:
“Que?!”
“Como assim que?”- Respondi do mesmo modo.
“Que o que?”
“Que? Como assim que o que?”
–Estou atrapalhando alguma coisa?
–Na verdade está s...- E antes que Irina pudesse terminar a frase, percebemos que era a voz da professora.
–Desculpa professora...- Disse rapidamente.
–Sem problemas!- Ela disse sorrindo.
–Serio??- Dissemos Irina e eu.
–Claro que não. –E então seu sorriso se apagou.- As duas pra fora.
Saímos, fingindo trsiteza, então olhei para Mei, a qual dizia em Morse:
“Planejamos depois da aula.”
Como sei código Morse? É uma longa historia... Mas basicamente foi o meio que achamos para passar cola durante as provas. Por isso que nunca repeti de ano. Aconselho este método a você, caro leitor, é simples e eficaz. A única desvantagem é...
– Porque ela disse vamos roubar um pastel de flango?- Perguntou Irina.
–Ela disse planejamos depois da aula!!
As vezes confundem-se os sinais.
Andamos mais um pouco pelos corredores em silencio, quando minha amiga o rompeu:
–Mudando de assunto... Como você esta... Daquilo?
–Ah...- Sabia exatamente ao o que ela se referia.- Sei lá...
–Ele não deu mais noticias?
–Nem... -Suspirei alto.-Ele... Vai voltar né?
– Harley...
– Sabe o que é uma bosta?
Ela tomou fôlego para falar, mas a interrompi:
–Não no sentido literal...
– Mals, não resisti...
E quando percebi, estávamos rindo juntas.
–Sabe Harley, corações partidos são tipo hematomas.
Limitei-me a olhá-la com um ponto de interrogação no olhar.
–Tipo, quando você bate em algum lugar, fica vermelho e ai vai ficando cada vez mais roxo, ai vai ficando preto e...
–Já entendi o lance do roxo...
– E dói pra caralho. Mas então, um dia, o preto vai clareando... A dor vai sumindo... E quando você perceber, o hematoma já não esta mais lá.
–Uma coisa é levar um fora de alguém que nunca te correspondeu... Outra é de alguém já te amou... As lembranças ficam... E machucam... –Senti meus olhos lacrimejarem.
Irina me abraçou forte. Às vezes, até mesmo o mais louco pode ter seus momentos de sabedoria...
Eram nove da noite quando Mei entrou no quarto.
–Então gente, o plano é o seguinte...
–Mei... Você não estava falando sério né?- Perguntei.
–Claro que estava.
–Mei...
–Se vocês não forem fazer isso, eu vou sozinha.
Entreolhamos-nos e por fim, concordamos em ir junto para colocar algum juízo na cabeça dela.
–Parece que o jogo virou, não é mesmo?- Disse Irina convencida.
Do mesmo modo que às vezes o mais louco pode ter seus momentos de sabedoria; o mais sensato também pode ter seus momentos de loucura. Esperamos até meia noite para agirmos. Estávamos vestidas de preto, como ninjas. Eu estava com uma calça legging preta e um moletom preto; Mei estava praticamente com a mesma coisa e netao Irina apareceu um um corset preto, casaco de couro, mini saia preta, meias arrastão , salto (preto) de 15 cm, olhos esfumados e batom vinho.
– Mas que porra é essa?- Perguntei.
–É que eu sou uma ninja sexy.
–Vamos.- Disse Mei.
Fizemos uma corda com nossos lençóis e descemos pela janela. Corremos por todo aquele caminho até o Saint August na calada da noite quando enfim, chegamos na garagem. Lá estava: O maravilhoso Masserati preto do jeito que deixamos.
–Temos mesmo que fazer isso?- Perguntei.
– Sim.
– Mas ele é tão lindo...- Insistiu Irina.
–Tão caro...
–É a única maneira de não deixar provas.
–Não tem outro jeito??-Já estava entrando em desespero.
Mei Lin acendeu o isqueiro e então Irina entrou na frente dela.
–Mei, como sua melhor amiga, eu não vou deixar você fazer isso!! Você não é assim!! A Mei que eu conheço é fofa e nerd, não aspirante à Cosa Nostra!!
–Volta pra gente Mei... –Disse para dramatizar a cena.- Volte para luz...
Os pequenos olhos asiáticos de Mei (opa, pleonasmo) começaram a marejar como um personagem de anime e ela balbuciou:
– Eu sou um monstro...- Então ao sair cataratas de seus olhos, ela jogou o isqueiro pro alto. O problema é que ele estava aceso. Foi então que observamos, em câmera lenta com direito a ópera dramática de fundo, o isqueiro cair sobre o belo Masserati; e este se incinerar em dois segundos. Perdemos o fôlego. O alarme de incêndio tocou e o tempo voltou à velocidade normal.
–E agora?- Perguntou Mei com a cara molhada.
–Agora corremos por nossas vidas. — Disse.
Partimos em disparada. Durante a alucinante corrida, digna do filme Maze Runner, sabe-se lá como, comecei a filosofar: Todo mundo se envergonha de alguma coisa do passado. Todo mundo fez algo a qual se arrepende amargamente e tenta queimar isso. No caso, foi literalmente. Enfim... O carro não vai voltar a ser o que era antes. E... Viajando um pouco mais, meu relacionamento também não. Foi queimado, destruído, apagado. Por mais lindo que tanto o carro quanto meu namoro tinham sido... Queimou-se. Agora eu finalmente entendi. Ele não vai voltar. Talvez, ele nunca tenha chegado a mim; mas uma coisa é certa. O fogo consumiu tudo. Tudo que me restava agora eram as memórias em formato de cinzas.
Naquela corrida alucinante, chorei por ele. Pela última vez.
Fale com o autor