Você encontra o amor da sua vida: Engraçado, fofo, carinhoso, romântico, açucarado e etc. Vive um lindo conto de fadas, tudo está perfeito, alegre e cor de rosa... Até que ele te descarta. Te dá um pé na bunda, troca por outra, se livra, toma doril; enfim whathever, você me entendeu.

Bem, isso aconteceu comigo há duas semanas. Logo, como é de se imaginar, passei esse tempo, matando aula, vivendo de Adele, sorvete, estoques de lencinhos de papel e filmes açucarados. Sim, estou na mais profunda fossa e sinceramente, poderia continuar assim até resolver me cortar, porém minhas amigas arrombaram a porta do quarto, me arrastaram do meu reino de melancolia, vulgo cama, e abriram a janela.

— Argh!- Resmunguei puxando o cobertor para me abrigar. — A luz... Queima meus olhos...

— Ah, porra Harley!!- Gritou Irina. Sim, meu nome é Harley. Sim, igual à marca de moto. E não, isso não é legal.- Já deu né?!

— Você pode entrar em depressão se continuar assim... — Disse Mei Lin fazendo beicinho.

Irina e Mei Lin eram minhas melhores amigas e também minhas colegas de quarto. Estudávamos no Saint Anna, um dos melhores internatos femininos e que se localiza a uns 30 km de Sydney. Irina Kombarov era russa. Tinha olhos azuis gélidos, cabelos loiros quase brancos, invejáveis 1,86 m de altura e uma língua ferina. Já Mei Lin era o oposto: Chinesa, 1,60 m de altura, cabelos negros, os quais iam até a metade da coxa, e era simplesmente a pessoa mais fofa e nerd da face da Terra.

— Eu to bem gente...- Disse me enrolando no cobertor. Irina arqueou a sobrancelha.

— Chega desse drama mal comido porra!!!- Gritou ela arrancando meu cobertor ferozmente. — Você tá matando aula faz duas semanas, já criou todas as doenças imagináveis e tá que nem uma monga defunta e gorda nesse ninho de rato, sofrendo por aquele imbecil, escroto e...

— Irina!- Repreendeu Mei me abraçando forte. — Você quer deixá-la pior?

— Eu quero que ela acorde pra vida e pare com essa frescura no...

— Tudo bem amiguinha... — Mei apertava meu rosto. — Não dê ouvidos para a Irinamônio. Você vai superar essa, encontrar seu príncipe encantado e viver feliz para sempre!- Ela sorriu ativando a fofura na potência máxima. — Só precisa esquecer aquele bobo!♥

— T-tem razão. — Disse me levantando. — Eu vou esquecer aquele idiota. Vou dar a volta por cima e pisar naquele queima rosca!!

Irina juntou as palmas da mão dando graças a Deus enquanto Mei sorrindo satisfeita disse:

— É isso aí! Agora eu vou pegar um copo d´agua pra você se acalmar e... — Então ela percebeu que eu estava chorando,

— Á-agua... — Eu disse soluçando. — Ele adora-va água...

— Vamos ter trabalho... — Disse Irina suspirando.

— Falando em trabalho... – Interveio Mei.- A diretora mandou avisar que Estalactite não é uma doença e...

— Você fez um atestado médico falso alegando que estava com uma formação rochosa?! – Perguntou Irina sarcástica.

— Termina com ite... — Respondi me encolhendo no chão. — Todas as doenças terminam com ite...

-Senhor... — Ela colocou a palma da mão no rosto. –Aonde foi que eu errei...

-Enfim... — Mei retomou. – Portanto, está de detenção.

Resmunguei. Realmente minha vida não poderia piorar:

— E qual é a detenção?

Ambas minhas amigas se entreolharam. Ok, calma... Não tem como piorar ainda mais minha vida...

— Então...

— Sabe aquele diretor do Saint August? Meio Drácula, satânico e que odeia garotas??

— Sei... — Não dá para piorar. Não dá para piorar. Calma, não dá pra piorar.

— Você vai ter que limpar a sala dele!!- Disse Mei dando um sorriso amarelo.

Ok. Dá para piorar. E muito.

— Eu vou me matar. — Disse me dirigindo à janela. As garotas rapidamente me seguraram e tentavam me acalmar.

O Saint August era um internato masculino “irmão” do Sant Anna. Seu diretor era Vladmir Natas, a principal causa deste internato não ser misto, o motivo? Bem, o diretor tem um ódio mortalmente mórbido das mulheres. Segundo ele, as mulheres são a principal causa de toda a desgraça mundial e reza a lenda que suas primeiras palavras foram: “morte às mulheres”. Não, ele não é gay. Pelo menos não assumido.

Por fim, Mei disse que deveria estar lá ás sete. Olhei no relógio: 18:54. Ah merda. Levantei-me com um pulo e me pus a correr até o Saint August. Os internatos eram separados por uma distancia de 110 metros. Estava na metade do caminho, porém já sentia meu pulmão queimar. Então finalmente avistei os portões, adentrei o colégio e logo depois de um labirinto de corredores, avistei uma porta a qual emitia uma aura sombria e mórbida. Finalmente parei extremamente ofegante, recuperei um pouco o fôlego e abri a porta.

A sala era... Como posso dizer... Uma amostra grátis do inferno anti feminino. O chão era de mármore negro, adornado com alguns tapetes de pele (provavelmente das garotas que limparam essa sala...) havia uma mesa no centro cujos pés dela eram... Torsos masculinos nus feitos em mármore igualmente preto. Havia também duas fontes cujo eram adornadas com a escultura de uma mulher ajoelhada segurando um cubo do dobro do seu tamanho e olhando mais atentamente, a água era jorrada pelos olhos, como se ela estivesse sofrendo, aliás, a expressão da estatua confirmava seu sofrimento. Tinha uma única janela a qual era adornada com uma pesada cortina de veludo roxo escuro e não deixando nenhum raio de sol passar. Havia vários castiçais dourados com velas acessas e... Aquela cabeça empalhada ali é um filhote de panda?!?!

— Está três minutos e meio atrasada. — Ralhou o diretor satânico.

— Me desculpe...

— Que seja. Sua raça só me traz decepções. — Raça?!- Termine o quanto antes e evite respirar muito para não corromper o ar sagrado dessa sala. E trate de polir muito bem os objetos.

— C-certo...- Respondi encarando um vaso cujo o formato era... Bem... A parte da frente e a parte de trás masculina. Aonde raios eu fui me meter? Subitamente ouvi um grasnar e dei um pulo.

— Hum?- Disse o aprendiz de Satã acariciando o corvo. Sim, ele tinha um corvo de estimação. Típico. — Sim Lúcifer, ela é uma vadia. Isso repita comigo: va-di-a.

O corvo se chama Lúcifer. Porque não estou impressionada?

— E se não estiver tudo limpinho quando chegar... — Ele se dirigiu a mim. — Seu braço vai servir de ração para meu Lúciferzinho aqui...- O corvo grasnou em aprovação.

Respirei fundo rezando todas as orações que conhecia e comecei a limpeza. Logo o diretor foi embora alegando não suportar o meu cheiro. Finalmente um pouco de paz... Enquanto varria o chão me peguei lembrando daquele idiota. De quando nos conhecemos... Do nosso primeiro beijo... Do modo de como ele me abraçava... Quando me chamava pelo apelido... Ele não estudava na Saint August, graças a Deus, estava bem longe de mim. Ele foi um completo idiota comigo. Quando me deu o pé na bunda todos falaram que eu era muita areia para seu caminhãozinho, mas não ajudava em nada. Ele se foi. E agora me sinto vazia, honestamente não sei nem como recomeçar. Mas ele foi um idiota. Idiota. Idiota. Idiota. Estou com raiva dele, mas ainda o amo. Amo, amo demais. Como é possível ainda gostar de alguém que te fez tanto mal? Eu devo ser sadomasoquista.

Voltei à realidade com meu celular tocando. Era a Irina:

— Oi?- Atendi.

— Harley?- A voz de Irina soava cuidadosa.

— Aconteceu alguma coisa? Eu estou limpando a sala do diretor...

— Olha, eu vou falar de uma vez... Abra o face.

— Irina o que aconteceu??

— Abra logo a porra do face pra me dar permissão de estrangular esse broxa.

Com o coração na boca abri o face. A primeira coisa a qual encontrei foi uma foto do meu ex com umas três garotas no colo e alguns amigos em volta. Provavelmente estavam na Exchange em Los Angeles. Senti meu rosto molhado e subi os olhos para a legenda: “Pra que perder tempo com uma se pode ter três?”.

— Viu a foto?- Perguntou Irina.

— Vi...

— Como teve coragem de sofrer por um idiota desses?!

— Ele disse que me amava...

— Cara eu vou dar uma surra nele, não, melhor, passa o número desse escroto que... — Ouvi alguns murmúrios ao fundo, provavelmente de Mei Lin.

Pra mim, aquilo foi uma facada. Quando percebi estava no chão.

— Tive uma ideia. — Retomou Irina. – Vamos dar o troco.

— Troco?- Perguntou a voz de Mei.

Limpei as lágrimas. Irina sempre tinha ideias um tanto perigosas quando o assunto era “troco”. Quando ela tinha cinco anos, empurrou o irmão dez anos mais velho na escada, pois este tinha comido seu chocolate. Teve outra vez que aos doze anos; uma garota havia ido numa festa com um vestido idêntico ao dela (segundo Irina, era de propósito) então, minha amiga, para “dar o troco” embebedou a garota e raspou metade de seu cabelo com gilete. Sim, minha melhor amiga é a Nêmeses na versão russa.

— Se apronte a gente vai buscar você aí.

-C-como?!- Perguntei ainda em choque.- Esqueceu do diretor e...

— Que se foda o diretor babaca, não vou deixar minha melhor amiga ficar por baixo.

E dito isso ela desligou o celular. Senti uma onda de arrepios passando pelo meu corpo quando me lembrei daquela foto. Eu queria me vingar e honestamente não sei que tipo de plano Irina tem na cabeça, mas deve ser melhor do que ficar varrendo esse lugar horroroso e chorando as pitangas. Ajeitei meu cabelo num espelho e logo ouvi o som de uma buzina. O escritório do diretor havia uma janela que dava para a entrada do internato; afastei as cortinas e logo avistei Irina e Mei num impressionante Maserati conversível preto de quatro lugares. Ambas acenaram e eu liguei para Irina.

— Como vocês querem que eu vá até aí??

— Faz uma corda. — Respondeu Irina como se fosse algo simples. — Não tem nenhuma espécie de tecido por aí?

— É claro que não. –Olhei em volta. — Mas acho que dá para escalar.

— Vocês duas são loucas!!- Ralhou Mei. — A gente vai se dar muito mal depois e esse carro nem é nosso pra começo de conversa!!

— É de quem?- Perguntei.

— Do diretor Drácula. ♥ — Respondeu Irina de forma divertida.

Eu juro que naquele momento meu coração parou de funcionar. De todos os carros existentes na face da terra, Irina Kombarov foi roubar justamente o carro do maior possível serial killer de mulheres.

— Eu não vou nesse carro. — Respondi firme.

— Harley.- A voz de Irina agora era fria.- Você está se martirizando há exatas duas semanas. Só saiu do quarto porque tinha uma detenção pra cumprir. A sua vida acabou por causa daquele idiota, tudo bem você o amava e eu entendo isso, mas ele tá curtindo a vida. Te deu um fora de forma miserável e agora nem sequer se lembra que vocês namoravam. Eu estou aqui de braços abertos como sua amiga te dando uma chance de esquecer aquele escroto, mas se você e a Mei não quiserem estão que se foda; eu vou para Sydney sozinha sem problemas e você se enfurna no quarto e começa a chorar por aquele broxa enquanto ele dá risada da seu sofrimento e com o passar do tempo vai virar uma velha amargurada e solteirona aos 69 anos. A escolha é sua.

E esse foi mais um banho de sinceridade de Irina Kombarov. Por mais que ela seja grossa, fria e tudo mais; tudo o que ela fala é mais pura verdade. Às vezes verdade até demais. Mas realmente, eu não posso sofrer para sempre. Ele se foi, me magoou de todas as formas possíveis e provavelmente deve ter dado risada disso. Eu tenho que agir. Me levantar. E é exatamente isso que eu vou fazer.

— Eu vou. — Disse por fim.

Irina sorriu triunfante e Mei também concordou em ir para colocar algum “juízo” em nossas cabeças. Agora vem a parte mais difícil. Como escalar uma construção de mais de três andares? Eu estava no segundo andar, do chão até a janela era uns bons 20 ou 30 metros. Se eu caísse, estava fudida. Respirei fundo e coloquei o pé esquerdo para fora. Ok, beleza. Coloquei o outro pé e prossegui nesse ritmo. Não daria pra descer tudo aquilo na escalada, então encontrei uma janela aberta e entrei. Iria ter que descer por dentro, não tinha jeito.

Por sorte era uma sala de aula vazia. Pousei no chão e então me pus a correr como se tivesse uma prova de matemática assassina atrás de mim. O único problema é que apesar da minha habilidade de correr na velocidade da luz; eu não tinha bússola. Em outras palavras eu simplesmente não tenho o menor senso de direção.

Quando percebi, estava em um corredor aleatório localizado numa dimensão paralela qualquer. Olhei para a janela tentando me localizar e então meu celular tocou:

— Onde diabos você está?!- Era a Irina.- Vem logo!!

Foi quando ouvi vozes vindas em minha direção: Por alguma razão idiota; fui me esconder embaixo de uma mesinha. É nessas horas que ter 1,51m é útil pra alguma coisa. Surgiram dois garotos: o primeiro era alto, esguio, cabelo preto ondulado, barba mal feita e óculos estilo hipster. Não era feio; mas também não era um top model. O segundo era um pouco mais baixo, pele bronzeada, cabelo preto e olhos esverdeados. Muito provavelmente italiano. Eles conversavam sobre alguma coisa do mundo masculino, quando meu celular começou a tocar novamente. Ambos se viraram e cravaram os olhares exatamente para onde eu estava.

— Oi gente...- Disse sorrindo amarelo e desligando o celular.

— O que ta fazendo ai embaixo?- Perguntou o mais alto.

— Então... É uma historia linda e... Enfim, sabem onde fica a saída desse lugar?

Eles se entreolharam desconfiados. Mas por fim concordaram em me ajudar.

— Mas como uma aluna do Saint Anna veio parar aqui?- Perguntou o italiano.

— Detenção... Vim limpar a sala do diretor Drácula...

Os garotos riram.

— Que otária...- Disse o de óculos.

Tive a sutil impressão de que ele não tinha ido com a minha cara, mas, mesmo assim continuamos a andar. Em meio á minha fuga, descobri que o cara de óculos se chamava Luke e era britânico. Já o italiano se chamava Stefan e era da Toscana. Quando lhes disse meu nome, eles naturalmente estranharam e acabamos rindo os três juntos. Por alguns segundos tinha até esquecido aquele idiota! Ah, pera... Merda, lembrei de novo... Tudo ia bem até que escutamos a musica tema do Darth Veader, então sentimos tudo ficar frio: O diretor estava por perto.

— Merda...- Resmungou Luke.- Fica atrás daquela coluna.

Corri para a coluna à nossa frente e me escondi. Os dois encostaram-se à parede como se não tivesse acontecido nada e então eis que passa a reencarnação de Hitler.

-Boa noite, alunos. — Ele cumprimentou.

-Boa noite, diretor. — Eles disseram.

Quando ele estava quase indo embora, parou bruscamente:

-Sinto cheiro de mulher neste corredor...

Os garotos se empalideceram. Stefan tentou desconversar:

— Mulher, diretor? Que mulher? Por que estaríamos escondendo uma mulher do se...- Então Luke lhe deu uma cotovelada. O diretor virou a cabeça lentamente para os rapazes.

-Estão escondendo alguma coisa?- Ele perguntou de forma ameaçadora. Dava até pra ver uma aura sombria em volta.

-Claro que não, diretor. — Respondeu Luke.

— Vocês não me enganam. — Sibilou Belzebu.- Sinto o fedor delas de longe...

Fedor o caralho, ok? É CH da Carolina Herrera, mais respeito, por favor, querido.

— Er...- Disse Stefan.

-Stefan foi atacado, diretor.- Respondeu Luke dramático.

-Perdão?- O príncipe do inferno arqueou as sobrancelhas.

— Nós não queríamos te contar... — Continuou Luke sem perder o drama. – Estávamos andando pelo pátio...

-Imaginando a maravilha de um mundo sem mulheres... — Completou Stefan.

-Quando então apareceu uma garota...

-Oitenta garotas...

-Sim... E elas nos atacaram com seus perfumes horrendos... Eu consegui escapar daquele reino de terror... Mas Stefan, não...

— Elas estavam em cima de mim borrifando seu veneno e eu disse para Luke: “Vá! Salve sua vida...”

— Tive que honrar o sacrifício do meu amigo... Então eu corri para longe... E quando voltei, lá estava Stefan... Inconsciente.

-Em coma na verdade.

— Mas então eu borrifei uma colônia masculina... E ele acordou.

Stefan fingiu que limpava uma lagrima do rosto.

-Obrigado por me salvar, cara...- Disse Luke com uma mão no ombro de Stefan e fazendo cara de choro.

— Nós somos Bro´s, cara...- Respondeu Stefan exageradamente dramático. –Me dá um abraço...

Ok... Essa foi a historia mais ridícula que já ouvi... Duvido que o Príncipe das Trevas vá acreditar em alguma... Espera, ele está chorando?!

— Voces são guerreiros... -Ele disse emocionado. Sério isso produção!?- Me desculpe por desconfiar de vocês...

Então os três se abraçaram e em meio à choradeira, Luke me deu um sinal pra virar a esquerda no corredor e estaria livre. Sai apressada daquele rio de lágrimas e finalmente cheguei à saída.

-Caralho Harley!!- Gritou Irina no volante do Maserati.- É pra hoje viu??

— Mals gente...

— Não devíamos estar fazendo isso!!- Ralhou Mei nervosa.

-Relaxa... — Irina tranquilizou-a enquanto entrava no banco de trás.

Mei Bufou irritada e Irina acelerou o Maserati dando risada. Até que não vai ser tão ruim sair um pouco e esvaziar a cabeça...