Como sobreviver ao coração partido
5 Falando no Diabo...
Notas iniciais
Passaram-se duas semanas desde o “acidente”. Não sabemos exatamente o que aconteceu depois daquela noite, mas há boatos de que o Diretor Natas chorou sobre as cinzas, comprou uma katana feita por um tal de Hattori Hanzo e jurou vingança pela morte de seu amado/amada (não sei como ele vê o carro).
Daquele determinado assunto, depois daquela noite; comecei a finalmente aceitar. O mundo agora parecia menos dramático e trágico. Basicamente passei da primeira fase (mimimi) e entrei na segunda (fazer o que?). Não estou ótima a ponto de ouvir David Guetta; mas também não tenho mais tanta vontade de ouvir Adele.
–Mas o que raios é isso?- Perguntou meu professor de matemática ao pegar um bilhete meu para Irina.
Uma coisa que me ajuda a lidar com a dor é ocupar a cabeça. No caso, estava me ocupando ao aprender taquigrafia.
–Rabiscos abstratos, professor...
Ele me deu um olhar confuso e voltou para a aula. Meus dias se resumiam basicamente em taquigrafia, Dr.House e exercícios físicos. Hahahaha, ok ok, a última parte é zuera; continuo mais sedentária do que nunca; se bem que maratona de séries podem ser considerados exercícios físicos... De certa forma.
“Atenção alunas...”- Disse a caixa de som. — “Quero todo mundo no anfiteatro daqui dez minutos!”.
Graças à Chessus! Não aguentava mais aula de álgebra.
–Tomara que seja alguma excursão!!- Exclamou Irina ao aparecer do meu lado.
–Segundo ano não tem excursão... — Respondeu Mei Lin.
Sentamos no fundo do anfiteatro. Logo as luzes se apagaram e a diretora surgiu no palco.
–Bom dia alunas... — A Diretora Mcgonnal era uma mulher da minha altura (ou seja, anã) de cabelos brancos, sempre presos a um coque, rosto bondoso como o de uma vovó (na verdade, ela era uma vovó) e voz rouca. Se a vida fosse um conto de fadas, ela seria aquela velhinha da casa de doces do “João e Maria”. – Chamei vocês aqui para comunicar que abriremos um curso de biologia marinha com o Saint August. Será nos dias trinta e um, um e dois. Vamos ficar na pousada...
–Vamos? Vamos? Vamos? –Perguntei abanando meu rabinho imaginário e com os olhinhos brilhando.
–Vai ser um tédio... — Reclamou Irina.
–Vamos perder aula...
–Por favooooooor?- Então elevei minha fofura para mais de oito mil.
–Tá bom então!♥- Disse Mei me abraçando.
– Se vocês forem... — Suspirou Irina.
Assim que a Diretora nos dispensou; já majavámos dos esquema: corremos na velocidade da luz até a tesouraria. O problema, era que mais gente manjava dos esquema... Então na frente da tesouraria havia uma guerra nuclear brutalmente sanguinolenta. Garotas se apunhalavam, traiam suas amigas, faziam pacto, gritavam, viravam sayajins, degolavam-se umas as outras, pagavam propina... Braços, pernas, couros cabeludos e cabeças pulavam como pipoca naquela multidão.
–Vocês querem mesmo ir né? –Perguntou Irina.
–Siiiiim- Dissemos.
Irina nos pegou em seus braços como se fossemos sacos de farinha e se posicionou. Naquele momento, juro que escutava “Thunderstruck” do AC/DC. Ela correu e entramos na guerra. Irina chutava, dava cotoveladas, mordia, arrancava orelhas, levava um soco e revidava com uns tiros de fuzil, escalpava algumas, arrancava a cabeça juntamente com a coluna vertebral de outras...
–THIS IS SPARTAAAAA!!- E assim chutava mais uma para o abismo.
E então lá estávamos nós cara a cara com a mocinha da tesouraria. Irina havia sacado uma Winchester 22 de sabe-se lá onde e atirava nas garotas que chegavam perto. Estávamos descabeladas, alguns hematomas e cortes aqui e ali... Umas machas de sangue, mas estávamos vivas.
–COLOCAM LOGO OS NOMES NESSA PORRA!!- Gritava Irina nos dando cobertura.
Assinamos nossos nomes e demos o sinal para ela. Irina atirou para cima e então a música de fundo mudou para “Bad Blood” da Taylor Swift. A multidão se dividiu como o Mar Vermelho e passamos no meio fazendo pose de bad ass. Agora só nos restava esperar.
Finalmente chegou o grande dia. Estava acabando de arrumar minhas malas e as meninas nem tinham acordado.
–Harley?- Chamou Mei.
–Oi?
–Ainda não arrumou a mala?
–Já to acabando...
Mei já havia arrumado suas malas há uma semana. Já Irina...
–Irina...- Chamei- a cutucando com um cabo de vassoura.- Irina...
–Vou abrir a janela. — Sussurrou Mei.
–Acorda Irina!!
Então ela puxou o cabo e o jogou pela janela.
–Me deixa desgraça...
Demos de ombros. Pelo menos tentamos.
–Pegou tudo?- Perguntou Mei.
–Não me esqueci de nada.
–Então vamos.
Tomamos café e partimos para o ponto de encontro. Nada de Irina.
–Ela acorda né?
–O ônibus não vai sair daqui sem ela. — Afirmei.
A turma começou a entrar no ônibus e demos gritinhos de empolgação.
–Harley?
Virei confusa e encontrei nada mais do que menos do que Stefan e Luke. Sorri sentindo meus olhos brilharem. Eles arregalam os olhos e então Luke apontou para a minha cabeça como se...
–Seu cabelo tá azul!!
É... Tinha me esquecido deste detalhe...
–Ficou muito ruim?- Perguntei
– Deu uma melhora nessa coisa que chama de cara...
– Você não é nenhum modelo pra julgar.
Então percebi que Mei estava boiando. Tratei de apresentá-los:
–Mei, o simpático bronzeado é o Stefan e o retardado de óculos é o Luke. Gente essa é a Mei Lin.
–Você fala flango?? –Perguntou Stefan.
–Não... — Ela respondeu confusa.
–Como que deixou essa anã pintar o cabelo de azul piscina??-Perguntou Luke.
–Também queria saber... — Ela respondeu me olhando de soslaio.
Quando menos esperávamos, o ônibus deu a partida. Foi quando senti que levava um tapa na cara.
–Ai meu Deus!! A Irina!!
Mei e eu grudamos na janela traseira do ônibus deixando os garotos confusos. Logo avistamos uma loira correndo mais que o Flash na rua.
–Motorista!!- Gritou Stefan.- Pare o ônibus!!
Mas o bendito do motorista estava com fones de ouvidos. Nem se Deus tocasse um solo com a guitarra ele escutaria. Luke correu para o volante e abriu a porta. Mei e eu corremos para ajudar Irina a subir.
–Pula!!
Assim que ela pulou, Stefan nos ajudou a puxá-la e Luke fechou a porta. O restante do ônibus nos encarava assustados.
–Tão olhando o que?- Ralhou Irina.- Nunca viram alguém atrasado?
Gritamos com ela, dizendo que havíamos a chamado milhões de vezes e então ela notou os garotos logo atrás.
– Quem são esses ai?-Ela perguntou.
–Stefan. — Disse ele beijando a mão de Irina.
–O outro é o Luke.- Completei.
Depois de meia hora conversando, parecia que éramos todos amigos de longa data. A viagem prosseguiu tranquilamente enquanto a conversa e as risadas rolavam soltas. Então finalmente chegamos. Levantamos ainda conversando e quando fui descer, acabei tropeçando e cai em cima de alguém.
–Meu Deus! Nossa, desculpa...- Exclamava envergonhada.
E quando olhei para o rosto do garoto, dei um grito digno de filme de terror: MAS QUE PORRA MEU EX ESTÁ FAZENDO AQUI?
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