Como sobreviver a um semestre
1 Reunião de carrascos
Notas iniciais
Em uma calma e bela manhã primaveril, o conselho de uma das universidades mais desejadas, aclamadas pelo público e concorridas do país decidiu reunir seus funcionários para que, juntos, pudessem decidir quais seriam as estratégias de aulas e acolhimento de alunos no próximo ano, além de outros assuntos pertinentes ao campus e seu funcionamento.
Os professores da POC – Priorizamos O Capital — estavam reunidos ao redor de uma enorme mesa oval. A única janela ficava atrás da poltrona do representante da direção e espalhava luz apenas pela mesa de reunião. O resto do local era iluminado pelo brilho azul dos aparelhos altamente tecnológicos e modernos disponibilizados pela diretoria da universidade.
—Espero que saibam o porquê de eu ter reunido todos aqui hoje. –O vice-diretor, que falava de modo muito sério, estava virado de costas para os demais participantes que, por sua vez, só enxergavam o dorso de uma enorme poltrona. Após a frase misteriosa, girou a cadeira para observar todos.
—Louvado seja Deus. –Uma senhora mantinha seus olhos fechados enquanto erguia as mãos.
—Epa, espera aí. –Indagou-se um senhor. –Estamos no culto? Eu achei que esse era o churrasco que tentamos marcar a quatro meses. Por acaso eu trouxe essa caixa de bebidas à toa?!
—O senhor está louco? –A mulher sentada à sua frente não economizava no volume da voz. –O que está pensando que esse lugar é? Uma festa? Ora, faça-me o favor. Fiquei acordada até às duas da manhã terminando os documentos para essa maldita reunião.
—Ahn... –Um homem mais novo, a duas pessoas de distância do velho, cutucava pedaços de carne em uma churrasqueira portátil ligada à tomada mais próxima. Usava chinelos e uma camisa havaiana desleixada. Timidamente, perguntou –... Não era o churrasco que havíamos combinado?
—Isso explica o cheiro de carne. –Uma jovem ergueu o olhar da revista de ciência que lia até o momento.
—Silêncio! –Gritou o representante, enquanto batia com ferocidade na mesa, assustando todos os seus convidados. Depois, sua voz mudou de uma coisa completamente assustadora para algo suave e meigo. –Por favor. –Limpou a garganta e sua voz natural retornou. – Não estamos aqui para realizar um culto ou um churrasco. Embora essa última ideia seja tentadora. –O velho e o mais novo sorriram em aprovação enquanto abriam duas latas de cerveja. –Estamos aqui para decidir o que faremos no ano que está por vir.
—Um churrasco, oras! Já que o de hoje não vai rolar. –O velho levantou a cerveja e recebeu gritos de apoio da maior parte dos convidados. A mulher que o enfrentara fechou o rosto. A mais jovem continuou a ler sua revista.
—Em relação ao ano letivo, meu senhor. –Prosseguiu o representante que liderava o grupo. –Temo que não poderemos fazer um churrasco com os estudantes.
—E por que não? –Questionou uma mulher que esteve em silêncio até o então. –Tenho certeza de que eles iriam adorar. Todos sabem que jovens são movidos pelo álcool.
—Talvez os jovens gostem, mas seus pais, não. E devo lembrar que essa universidade sobrevive graças ao dinheiro dos pais dos alunos.
—A gente convida eles também. –O velho ergueu sua quinta latinha de cerveja e, mais uma vez, recebeu os gritos e aplausos dos demais.
—Eu desisto... –Sussurrou a mulher irritada, pegando uma lata de cerveja para afogar as mágoas.
—Podemos pensar no caso. –Disse o líder apenas para que pudesse mudar de assunto. –Bem, indo direto ao ponto: estamos aqui para discutir sobre como será o ano letivo dos alunos do curso de Terapia Ocupacional. Por isso convoquei todos os professores que lecionarão no primeiro semestre.
—Eu ouvi... –Um homem cochichou para a mulher ao seu lado, que escutava atentamente à reunião. –... que um dos professores que deu aula para esse curso no ano passado ficou louco.
—Então, — O vice, já irritado, tentava ignorar os comentários aleatórios e esconder suas emoções. – alguém tem alguma sugestão?
—Cadeiras melhores para a sala dos professores. –Bufou alguém no meio dos convidados. –Só você e o vice-diretor têm uma poltrona confortável. Até quando vamos viver assim?
—Quanto a isso... eu... ahn... –Constrangido, não sabia como responder.
—Eu tenho! –Uma moça ergueu a mão, mudando de assunto. -As paredes dessa sala emanam uma energia tão negativa... poderíamos pintá-las de outra cor.
—Uma sugestão sobre mudanças para melhorar o ano letivo e atrair mais alunos, não sobre a sala da diretoria... –De volta ao normal, ele ficava impaciente.
—Certo. Então... Já sei! Como esse curso tem pouca procura, poderíamos aumentar as vagas de bolsistas.
Houve um murmúrio geral, todos gostaram do comentário.
—Essa é uma sugestão interessante. –Coçava o queixo, pensativo, enquanto analisava o comentário. –Realmente aumentará a procura pelo curso de Terapia Ocupacional.
—Desculpe, mas... O que é Terapia Ocupacional?
—Essa é fácil! –O velho já estava completamente bêbado. -É uma mistura de fisioterapia e psicologia, ué! –Soluçou.
Num piscar de olhos, todos os participantes estavam dando suas opiniões.
—Fisioterapia? Imaginei que tivesse mais a ver com crochê.
—Pintura também, não? Tipo aquelas do Picasso.
—Não é para arranjar empregos? Meu sobrinho estava precisando de um, vou mandar o currículo dele.
—Tem meditação também.
—Creio que é qualquer coisa que ocupe seu tempo. Tipo jogar League of Legends.
—Seria mais fácil perguntarmos a algum especialista nessa área. –O único homem que não havia falado até o momento, finalmente se pronunciou. Ele estava no canto oposto ao vice-diretor e tinha um ar sombrio. Sua fala era arrastada e assustadora, assim como seus olhos profundos e cheios de olheiras e marcas, embora ainda fosse jovem. Era o professor de anatomia. Sua cabeça se inclinou para a professora ao lado, e as palavras gélidas saíram novamente de seus lábios. –Uma professora específica de Terapia Ocupacional. Por que não nos explica o que é isso?
—Bem... –Limpou o suor da testa. –Nem nós, profissionais dessa área, sabemos exatamente o que é.
Enquanto todos olhavam curiosos para ela, que estava claramente nervosa, o vice decidiu encerrar e reunião.
—Parece que nosso horário acabou. –Levantou-se. Seus cabelos voavam com o vento e, pelo barulho que fazia do lado de fora, mal era possível ouvir o que dizia. -Recebi uma ótima sugestão para o ano que vem e vou tomar medidas para que seja realizada. Muito obrigado a todos pela presença e boas festas! – Colocou óculos de sol modernos e saiu rapidamente da sala. Seu helicóptero estava lhe esperando atrás da janela para leva-lo à praia. Havia prometido um passeio de lancha para sua esposa.
Enquanto os dois homens bêbados cantavam uma música conhecida –e completamente desafinada- e o restante se dirigia à saída, duas professoras conversavam.
—Você acha que será uma boa ideia disponibilizar tantas bolsas integrais? Essa universidade só possui estudantes da mais alta classe. Poderemos causar um enorme atrito.
—Realmente, isso é inédito na história da POC. Acho que só saberemos quando o primeiro dia de aula chegar.
Mais tarde, depois que todos já haviam ido embora, o vice-diretor enviou uma mensagem ao seu auxiliar — que realizara a ata da reunião em um canto isolado da sala – pedindo para que o mesmo informasse as novidades ao diretor. O rapaz passou seu crachá na última sala do andar mais alto do prédio e uma porta grossa se abriu, fazendo barulho e soltando fumaça.
—A reunião está feita, Excelentíssimo Diretor. –Curvou-se para uma enorme e chiquérrima cadeira que estava de costas para ele, virada para a enorme janela de vidro que iluminava a sala e possibilitava ver um enorme grupo de corvos sobrevoando o local. Depois de entregar a ata e contar brevemente as novidades, ele continuou. — Espero que esteja contente com as decisões, creio que sua universidade irá alcançar resultados satisfatórios. Poderá observar cada detalhe do ano letivo e seus estudantes.
—Bom. –Uma voz séria e sombria percorreu a sala, embora a cadeira parecesse vazia. –Vamos ver se são capazes de aguentar. –Sorriu internamente. –Que os jogos comecem.
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