Como sobreviver a um semestre
9 Dica número 2: conheça o território
Enquanto conversavam entre si, as garotas encontraram muitas similaridades, como, por exemplo: todas eram pobres. Mariane e Nathalia moravam no Deserto de Sumahell, Thatiane e Juliana em Horrorlândia, a Cidade Fantasma e Noemi e Letícia em Pombinas: a famosa racista e catastrófica Cidade dos Pombos em que a POC se localizava.
—Seu bairro também é pós-apocalíptico? –Questionou Thati.
—Não. – Respondeu Ju. –Mas é cheio de indústrias. A emissão de gases destruiu os pulmões de todo mundo, algumas pessoas usam máscaras. –De repente, uma falta de ar atingiu a garota, que começo a tossir desesperadamente e procurou por algo em seus bolsos. Tudo voltou ao normal após utilizar a bombinha de asma.
Depois de aproximadamente 700 degraus subidos e descidos, as garotas chegaram o seu destino: o pátio universitário. Era tão pequeno que os alunos precisavam empurrar uns aos outros, de modo que frequentemente os seguranças apareciam para separar estudantes que tentavam matar o coleguinha por espaço.
—Onde estão os homens desse lugar? –Perguntou Thatiane, tentando passar por um enorme grupo de garotas de medicina que estavam ocupadas demais falando de academia e silicone para perceberem que alguém estava ali.
—Ah, não tem homens. –Esclareceu Letícia.
—Quê?! –Thati surpreendeu-se.
—Quase 100% dos alunos são mulheres, é muito raro ver um garoto por aqui. Dizem que se você encontrar um terá sorte nas provas finais do semestre.
—Não vejo nenhum problema. –Nathalia animou-se, sorrindo e mexendo o corpo como se estivesse prestes a dançar. –Isso aqui é o paraíso.
—Mas vocês não acham que tem uma coisa estranha nesse lugar? –Com sua altura de mini gigante, Juliana observava todas as pessoas do Campus.
—Sim... –Mari também observava. –Vejam! Todas elas são iguais!
E, de fato, estava certa. Todas as garotas eram extremamente parecidas: cabelos muito lisos e compridos em algum tom de loiro, corpo magro, altura média, olhos claros, pele muito clara, nariz fino, álcool em gel colorido com glitter e cheiro de frutas pendurado na mochila, roupas e acessórios iguais (exceto pelas cores), jaleco branco, unhas compridas e uma carteira cheia de dinheiro para comprar cappuccino na lanchonete minúscula. Todas com vozes finas e risonhas e sempre prontas para postarem selfies até do desenho de ursinho que pensaram ter visto em suas fezes nessa manhã. As chaves de seus carros faziam barulho nas mochilas enquanto elas desfilavam.
—Uma técnica de clones, talvez? –Noemi analisava cautelosamente.
—Desculpe a demora, amiga. –Disse uma delas. –Meu prato finalmente chegou. –Admirou a deliciosa refeição que estava com uma cara ótima; cheia de batatas, arroz, feijão, nuggets e salada. –Eu estou morrendo de fome! –Muito feliz, pegou a faca e, com ela, empurrou a comida até que seu garfo estivesse cheio e o levou até a boca. –Prontinho, vamos indo. –Ainda engolindo a comida, deixou a prato na mesa e pegou sua bolsa caríssima para ir embora ao lado da amiga que parecia mais uma irmã, exceto pela cor do cabelo: enquanto o de uma era loiro-cera-de-ouvido, o da outra era loiro-verão-de-queimar-o-cu.
—É isso mesmo que eu tô vendo? –Nathalia estava perplexa. –Ela deixou o prato inteiro ali? Quem em sã consciência deixa nuggets no prato?!
—Eu não sei, mas nós deveríamos ir. –Alertou Mari enquanto abria um minúsculo pacote de bolachas salgadas (a única coisa que comia). – A próxima aula está quase começando.
—Mas, Mari...
—Não me faça passar vergonha, Nathalia! Na volta a gente pega.
—Pára, Mari! –Choramingou.
—Vamos logo, suas lerdas! –Apressou Nonô, no entanto, ela também estava com preguiça de andar.
—Esse lugar é bizarro, tio... –Thati ainda observava os infinitos clones ao seu redor. –Onde está a Letícia?
—Já foi. –Esclareceu Ju. –Mas acho que a ouvi cair entre as estudantes de nutrição.
—Aquelas rodinhas ainda vão acabar com a vida dela, ouçam meu conselho. –Noemi arrumou seus óculos. –Vou falar que avisei e dar um chute em todas vocês.
—Dar? –Nathalia, que quase beijava o prato de comida, voltou sua atenção ao grupo.
O duplo sentindo fez Nonô corar. Com raiva pelo constrangimento, pulou, girando no ar, até esticar uma das pernas e bater com o calcanhar na cabeça da ruiva, que se encolheu de dor.
—Valeu a pena. –Fez um sinal de positivo, enquanto um fio de sangue escorria pela narina.
—Como eu ia dizendo, vamos para a sala. –Ainda corada, arrumou os óculos com os olhos fechados, evitando manter contato visual com qualquer pessoa.
Chegando lá, todas as alunas já estavam em seus devidos lugares esperando pela aula, menos o grupo das seis. A professora, que as aguardava, parecia muito simpática e bondosa; não tirava o sorriso meigo de seu rosto.
—Bom dia, meninas da turma de terapia ocupacional. Antes de mais nada, a direção me pediu para alertá-las sobre um assunto deveras importante. A cidade de Pombinas está em estado de alerta. –Sem o sorriso inicial, ela fez uma breve pausa, enquanto as alunas cochichavam assustadas; menos Nathalia, que gritou “é o quê?!” curiosa com o que estava por vir. –Sei que as pessoas da região já tem conhecimento sobre o assunto, mas é preciso alertar as que vieram de longe. Pois bem, todos os cidadãos daqui sabem que uma série de assassinatos tem assombrado a cidade há anos. A polícia procura o assassino desde o primeiro caso, mas sem sucesso. Por isso, procurem voltar para suas casas cedo. Fiquem de olho se não estão sendo seguidas, não demorem na rua, evitem locais desertos e ruas escuras, não falem com estranhos e deem um beijo na mamãe quando saírem de casa. Bem, é isso. –Sorriu. –Vamos começar a aula. É uma disciplina muito séria e quero que todas prestem atenção.
Todas as alunas ficaram muito sérias e focadas; retiraram seus cadernos/fichários/folhas para anotar as preciosas informações que seriam passadas. O ensino superior não era brincadeira, agora eram adultas responsáveis e teriam que aprender coisas muito complexas para se tornarem verdadeiras profissionais da área da saúde.
—Certo, para começarmos a aula, preciso que peguem seus lápis de cor, giz de cera e canetinhas. Se tiverem aquelas com cheirinho, melhor ainda!
—Ufa, eu tenho! –Letícia comemorou.
—Hoje faremos um desenho de como foram as férias. –Continuou a professora. – Se quiserem tenho pincéis e tinta na minha mesa. Mãos à obra!
—Desenho? –Thatiane olhava para as alunas que faziam seus desenhos tranquilamente sem conseguir acreditar, estava indignada. –E a aula? Não acredito que vim pra isso, deveria ter ficado assistindo anime.
—Ah, não é tão ruim assim. Eu adoro desenhar. –Juliana ergueu sua folha de papel onde havia uma pintura com traços renascentistas mostrando uma bela paisagem do local onde passara as férias de fim de ano.
—Fale por você! –Mari concentrava-se em uma bela adaptação do boneco palito. –Isso é mais difícil do que parece.
—Eu não tenho ideia do que colocar no meu.- Reclamou Thati. –O que você vai fazer, Letícia?
—Shhhhhh, fica quieta! –Letícia estava muito concentrada em sua obra prima e não gostava de interrupções.
—É só pensar em algo que fez nas férias e passar para o papel, não precisa ser bonito, amiga. –Noemi arrumou os óculos. – O que importa é ganhar nota.
—Mas só tem uma mancha de tinta vermelha do seu. –Observou Nathalia.
—Derramei muito sangue dos meus adversários nas férias. –Deu de ombros. –É um bom exercício. Mas o seu também tem sangue!
Quando Nathalia olhou para baixo, viu que diversas manchas vermelhas caíram em seu papel, onde já havia um desenho de coração. No entanto, o sangue era verdadeiro. A garota se desesperou para limpar o nariz, que sangrava novamente pela quantidade absurda de pensamentos indecentes que invadiam sua mente quando estava perto de Noemi.
—Tudo mundo terminou? –Questionou a professora, algum tempo mais tarde, ainda sorrindo gentilmente. –Se não tiverem terminado, o problema é de vocês. Formem um círculo, quero que contem o significado de cada desenho.
—Círculos não são coisa boa. –Mari comentou.
—Não mesmo. –Concordou Ju. -Só fazemos para rituais.
—Vamos logo, lerdas! –Letícia já estava no meio da sala, toda orgulhosa de sua arte.
—O que isso traz de significativo para você, minha jovem?
—As flores representam eu, que estava linda e maravilhosa, como sempre nas férias. E o glitter é porque eu sou brilhante.
—Entendi... –Analisava por detrás dos óculos que acabara de colocar. –E estão na água representando sua piscina?
—Ah, não. Essa é a caixa d´agua que a gente usa lá em casa no calor. Coloquei uma boia em formato de pizza porque comi muito nas férias, mas mantive esse corpinho esbelto que Deus me deu. Morram de inveja!
—Muito bem. E o seu? –Dirigiu-se para Mariane.
—Essa sou eu... Dentro, ahn... D-Dentro do gelo. –Mari não gostava de falar em público, principalmente quando o assunto era si mesma.
—Férias introspectivas e dentro de casa... –Analisou a professora. –Estou adorando os trabalhos de vocês, muito simbólicos. Quem é próxima?
—Eu, professora! –Chamou Nathalia, com as mãos erguidas, enquanto Mari suspirava de alívio por ter passado sua vez. –Eu! Euzinha! Eu aqui, caralho! Por favor, me escolhe! Meescolhelogosuavadiameubraçotádoendodeficartantotempoerguido -Falou entredentes.
—Nathalia! -Apontou para a garota. -Desenhos bonitos. O que trouxe para nós, querida?
—Ok, vamos lá. Essa sou eu assistindo série e comendo. E tem essas comidas por quê? –Perguntou a si mesma, em tom educativo, com o intuito de explicar depois. -Porque eu não sabia quais comidas colocar, então escolhi apenas as minhas favoritas. E as manchas de sangue foram um acidente... –Olhou para o chão com o sorrisinho de uma criança que acabou de aprontar, lançando breves olhares para Nonô.
—Você comeu tudo isso nas férias?
—Algumas eu só imaginei que comi mesmo, enquanto assistia Master Chef. Tava tão bom... –Seus olhos brilhavam.
—Muito interessante! –Dirigiu-se a Noemi. –E o que seria isso, querida?
—É uma arte abstrata e subjetiva que retrata o meu eu interior. –Esclareceu com voz muito suave. –Os significados são pessoais. –Pensou que essa seria uma boa desculpa para não gastar tempo explicando. E estava certa.
—Excelente! Parabéns. – Continuou seu passeio pelo círculo. –Oh! Que imagem deslumbrante! O que seria isso?
—É uma pintura de um rio que visitei durante as férias. Mas também é simbólica, inspirada nas obras de Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni. A água representa a profundeza dos sentimentos humanos, que, por sua vez, são alma, mas também corpo, sendo representado pelo tronco de árvore da margem. Embora sobreviva com a energia da alma, ao retirar as águas do rio com suas raízes, as folhas caem, representando a instabilidade humana, como pregava Heráclito de Éfeso. O fundo está escuro representando o lado sombrio humano, porém o sol nasce demonstrando um fio de esperança e, em contradição com a lua desenhada aqui no canto, podemos pensar no ciclo do qual somos fadados a permanecer incondicionalmente de vida e morte.
Depois de algum segundo em que todas ficaram boquiabertas, uma salva de palmas fez com que a garota ficasse extremamente constrangida. Mesmo que já não houvesse sangue circulando por suas veias e artérias, as bochechas não deixaram de corar.
—Você quer andar comigo no recreio? –Perguntou Nathalia.
—Nada disso! –Protestou Mariane. -Ela vai andar comigo.
—Idiotas, vocês não são dignas. –Noemi encarava suas adversárias por cima dos óculos, de cabeça baixa. –Quem vai andar com essa deusa egípcia sou eu!
—Como conseguiu tantas referências, afinal? -Perguntou Thatiane.
—Ah, dá para aprender algumas coisas quando se anda com filósofos.
—Quer dizer que você já leu sobre todos eles?
—Ah, não! Eu literalmente andava com eles quando eram vivos e tive muito tempo livre para ler os livros depois, quando ganharam fama. Vantagens de ser imortal. -Deu de ombros. -Você não acreditaria se eu contasse o que Nietzsche escondia embaixo do bigode!
—Excelente! -Exclamou a professora. — Estou vendo obras maravilhosas nessa turma, vocês me enchem de orgulho. Vamos continuar, estou animadíssima! –Foi até Thatiane, que tentou esconder seu desenho antes que a professora o agarrasse. — O que temos aqui? Uma arte contemporânea? Seria essa uma mensagem pós-moderna sobre o tempo-espaço em relação à economia do expansionismo mundial perante os olhos da ordem tailandesa do século XXI?
—Não. –Thati, juntando as sobrancelhas, conferiu seu desenho. –Essa sou eu assistindo anime e ouvindo rock.
—Ah, tá... Bem, obrigada pela participação.
Thatiane se frustrou. Ela gostava de fazer pesquisas científicas cheias de tabelas e corrigir normas metodológicas de textos e artigos maçantes. Desenhar não era sua praia.
Quando a aula — que foi a última do dia — finalmente acabou, o grupo de novas amigas caminhou junto pelo corredor da morte com o objetivo de chegar à saída. No entanto, enquanto caminhavam pelo pátio, Juliana sentiu uma gota cair em seu rosto. Chuva? Não... o dia estava irritantemente claro. Precisou até mesmo passar seu protetor solar fator 2000 para que não se degradasse em frente aos colegas, coisa que seria desagradável de se ver. Ao enxugar a face, percebeu que era um líquido vermelho e com o odor inigualável que reconhecia muito bem. Todavia, não poderia estar sangrando, já não produzia sangue há muitos anos. Foi então que as meninas olharam para cima.
No segundo andar, lá estava a cena mais horrenda que as seis já presenciaram em suas vidas – ou morte. Uma garota, aparentemente estudante, estava pendurada na varanda por uma corda que prendia suas mãos juntas, deixando o corpo mutilado e sem vida balançando contra o vento em cima das cabeças dos estudantes que caminhavam tranquilamente pelo local. O sangue fresco escorria até o chão, deixando o corpo cheio de listras verticais vermelhas. As roupas da pobre garota estavam rasgadas e os cabelos compridos cobriam grande parte do rosto, embora ainda fosse possível enxergar a boca levemente aberta e os olhos azuis sem vida que encaravam a multidão que se aproximava daquele show de horror.
O famigerado assassino em série de Pombinas estava por perto.
Fale com o autor