Como sobreviver a um semestre
13 Dica número 6: Ajude suas amigas!
Notas iniciais
—Aff, esqueci de ir no banheiro!
Mariane corria pelo corredor do shopping quando quase pisou em um objeto pequeno e preto.
—Uau, hoje é meu dia de sorte! -Pegou-o e caminhou em direção ao banheiro. — Vou vender no mercado livre e ganhar uns trocados para gastar com café e comida! -No entanto, ficou séria quando desbloqueou o celular e percebeu que o plano de fundo era a foto de uma garota cacheada que usava roupa de anime. -Céus, é o celular da Thati! Thati, você está aqui?! -Chamou, no entanto não obteve resposta.
Abriu a porta de todas as cabines do banheiro, mas elas estavam vazias. Com a bexiga cheia, finalmente usou o banheiro e sentiu o maior alívio de sua vida. Ainda sentada, percebeu que o celular não tinha senha e resolveu procurar por pistas. De repente, recebeu a mensagem mais estranha possível, direto do aplicativo oficial do guaraná Dolly:
Mari, me ajuda!
Eu estou presa no aplicativo do Dollynho!
Faz alguma coisa?
—Meu Deus... eu devo ter ficado muito tempo sem comer para estar enxergando uma coisa dessas! -As mensagens continuaram:
Isso não é brincadeira!
Me ajuda, Mari!
Eu fui #sequestrada!!!!!!
Sem entender o que estava acontecendo, Mari saiu da cabine e procurou o contato das meninas do grupo do rolê, que, por sorte, ainda não haviam saído do shopping. Alguns minutos depois, todas estavam reunidas no banheiro feminino.
—Quer dizer que estamos reunidas aqui para discutir um possível caso de sequestro virtual de uma das integrantes do grupo?
—Isso mesmo, Noemi. -Mari mostrou o aplicativo.
—Que perda de tempo. -Letícia reclamou enquanto tirava selfies no espelho.
—De alguma maneira, a Thati foi sequestrada pelo... Dollynho.
—Oh, fuck. -Nath entendeu o que estava acontecendo. -Ele deve ter pensando que era eu!
—Essa foi a coisa mais sem sentido que eu já vi na minha vida. -Noemi acabava de sair de uma das cabines.
—E agora? -Questionou Ju, que flutuava próxima ao teto. -Como fazemos para entrar em um celular?
—Eis a questão. -Mari coçava o queixo, pensando.
—Eu consigo fazer isso. -Nathalia sentia-se segura e corajosa. -Sou eu que ele quer! -Pegou o celular de Mariane e enviou um áudio pelo bate-papo. -Dollynho! Sou eu, a Nathalia! Você quer tanto assim ser meu amiguinho? Então vem me pegar!!! -Virou para as garotas. -Me desejem sorte.
De repente, uma luz verde muito brilhante sugou Nathalia para o celular e Noemi o pegou antes que o mesmo pudesse cair no chão.
—Credo, esse brilho é pior que o meu! -Letícia ficou decepcionada quando viu que a luz estragou sua 56ª foto.
—Espero que elas saibam o caminho de volta. -Ju encarou o aplicativo, que não mostrou nenhuma nova notificação. Começou a imaginar que tipo de homenagem escreveria no Facebook caso suas amigas morressem.
Enquanto isso, Nathalia sentiu dor quando caiu no gramado de um lugar estranhamente bonito. Levantou-se, limpando a sujeira em seu corpo e observou o que parecia ser uma floresta de contos de fada, cheia de borboletas e arco-íris.
—Lugar bonito para um psicopata obcecado.
De repente, uma música muito alta fez o chão tremer e todos os pássaros voarem.
Dolly! Dolly Guaraná, Dolly! O melhor!!
—PARA COM ESSA PORRAAA -Nathalia tampava os ouvidos, mas nada funciona.
Dolly Guaraná, o sabor brasileiro…
O barulho era ensurdecedor. Mesmo assim, Nathalia caminhou até um penhasco onde viu que logo abaixo, em frente à uma cachoeira de refrigerante, Thati estava amarrada por cordas flutuantes. À sua frente, estava o próprio Dollynho, também flutuando. A música parou.
—Você não vai ser minha amiguinha? — Sua voz agora estava bem grave e assustadora.
—Tá me tirando, mano? -Gritou Thati. Mesmo após ter recebido danos ainda lutava para se livrar das cordas. -Não quero ser sua amiguinha nem aqui, nem na China! Não mexe comigo não!
Dollynho, irritado, fez a música soar novamente, ainda mais alto. O barulho parecia vir magicamente de todas as direções. Quando a música finalmente parou, Nathalia não perdeu tempo:
—Ei, Dollynho! Você quer uma amiguinha? ENTÃO OLHA EU AQUI!
Dollynho, ainda irritado, virou-se.
—Parece que você está livre. -Apenas com um movimento de mão, Thati foi jogada contra o chão e desapareceu. Em seguida, ele trouxe Nathalia flutuando até perto.
—O que você fez com ela?! -Nath sentia uma pressão muito alta vindo daquele poder esquisito, mal podia respirar direito.
—Fique tranquila, eu a mandei embora. Agora você será minha nova amiguinha.
Dollynho a amarrou e fez Nathalia flutuar até o chão. Ele estava preparado para pegar uma fruta guaraná e obrigá-la a comer.
—Ah, muito obrigada. Eu tava com fome mesmo.
Dollynho achou muito estranha a reação da garota. Todos que estiveram com ele nunca agradeceram por nada que ele fez.
—E aí, o que a gente faz agora? Joga xadrez?
—Ahn? -Estranhou ainda mais. -Jogar xadrez?
—É. Jogar xadrez, comer uma pizza, falar dos podres da nossa vida... Pensei que se a gente fosse amigo iríamos fazer alguma coisa.
Dollynho, que estava em choque, logo em seguida foi tomado por uma grande emoção. Ninguém nunca havia de fato pensado nele como um amigo de verdade. Seu corpo ficou mole e com um gesto mínimo fez as cordas se desamarrarem e sumirem. Nathalia se impressionou ao ver seus braços livres. Então, Dollynho, triste e pensativo, sentou no chão em frente a ela e abraçou suas pernas.
—Sabe, a minha vida foi muito difícil…
Nathalia observou-o atentamente enquanto contava sua história e fez comentários. Também falou sobre a sua própria vida e logo os dois começaram a rir, enquanto os passarinhos voltavam às árvores.
Certo tempo depois, as meninas ainda estavam preocupadas.
—Ai, eu não aguento mais esperar. -Letícia estava exausta, jogada sob a pia do banheiro, enquanto as outras estavam sentadas no chão.
—Calma amiga, eu sei que ela vai dar um jeito. -Aconselhou Noemi.
—É… espero. -Disse Mari pensativa, fitando o chão.
—Mesmo em pouco tempo, foi muito bom ter conhecido você… -Juliana sussurrava enquanto anotava suas ideias em um caderno preto.
—Mano… Eu nunca mais vou instalar um aplicativo na minha vida.
—Tem certeza de que você está bem, Thati? -Mari questionou.
—Tô, foi só um susto. -Esclareceu. -No Amanda tem coisa pior. Eu só tô preocupada com a Nath.
Depois de ficarem em silêncio, uma luz muito forte chamou a atenção de todos.
—Nath! -Gritaram, levantando.
Todas começaram a falar ao mesmo tempo até que Thati gritou pedindo para que ficassem em silêncio.
—Deixa a menina falar, gente! Conta, Nath, o que aconteceu.
—Ah… -Nath estava com uma cara muito triste e sem energias. -Ai gente, a verdade é que… o Dollynho é uma pessoa melhor do que vocês imaginavam.
—O quê?! -Mari exclamou.
—É verdade. -Suspirou. -Ele teve um passado tão triste, tadinho. Tudo que estava fazendo era para achar um amigo. De uma forma estranha, mas quem não erra, não é mesmo? No fim deu que nós temos muitas coisas em comum, ele até me mostrou as músicas favoritas dele, o álbum de fotos da família, a carreiras artística, erros de gravação dos comerciais… Tão dedicado ao trabalho, coitado, as vezes nem tem tempo para fazer outras coisas.
—Amiga… -Noemi falou, enquanto as outras meninas a observavam de boca aberta. -Não me diga que… Você se apaixonou pelo Dollynho?
Ao dizer isso, Nathalia caiu em prantos.
—Ele era um cara legal, tá?! Vocês não entendem!
—Oh my God… Letícia ajudou a amiga que estava de joelhos a se levantar, de uma maneira um pouco bruta.
—Nós seríamos incríveis juntos, tá legal?!
—Miga… -Letícia estava desacreditada.
—Só que aí eu tive que confessar uma coisa… mesmo doendo muito.
—O quê? -Questionou Ju.
—Que eu… -Seus olhos se encheram de lágrimas novamente. -Eu prefiro coca-cola! -Caiu em prantos novamente, e Letícia não aguentou segurá-la.
—Deve ter sido muito difícil para ele… -Ju tentou imaginar a estranha situação, enquanto Mari fazia uma careta do tipo “what the fuck?!”.
—Achamos que seria melhor nos afastarmos, esse relacionamento nunca daria certo. Mas ainda guardo ele com muito carinho no coração. Obrigada por tudo, amiguinho Dollynho!
—Vamos amiga, já está tarde… -Noemi ergueu Nath e colocou um dos braços dela em seus ombros.
—Finalmente! -Letícia saiu do banheiro.
Seguiram em silêncio, ainda tentando entender a situação, enquanto Nath chorava. Thati desinstalou o aplicativo de seu celular; enquanto isso, viu uma última mensagem deixada por Dollynho em que ele aparecia em um vídeo, como se houvesse sido feito para ela. De lá, saiu um sussurro muito baixo completamente diferente, como se fosse uma voz normal e suave, que dizia apenas: obrigado por tudo, amiguinha Nathalia.
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