Como sobreviver a um semestre

5 A competição do amor


Notas iniciais
Sei que já está no finzinho do dia, mas feliz dia das mulheres para as leitoras mais lindas do mundo ♥ E lá vem mais uma personagem!

Nathalia estava cansada de ser solteira. Já havia passado por tantas decepções amorosas em sua vida que desistiu do amor. Ou ao menos era isso o que ela pensava, cerca de algumas horas atrás. Todavia, agora estava decidida a encontrar o amor de sua vida, nem que precisassem procurar de casa em casa até encontra-lo.

Depois de uma longa tarde refletindo enquanto jogava vídeo game e gritava coisas como “MORRE, FILHO DA PUTA” e “EU VOU TE MATAR SEU FODIDO DO CARALHO” ela estava pronta para dar um novo rumo à sua vida pacata e entediante.

—Okay, Nathalia. –Dizia para si mesma. –Você precisa de uma pessoa legal e fiel que possa te dar muito amor, carinho, lanches e doze horas de sexo selvagem seguidas. Não deve ser tão difícil assim. Mas como faço para encontrar essa pessoa?

Não estava disposta a sair para baladas, tendo em vista que queria um relacionamento sério, e não apenas uma ficada. A lista telefônica poderia ser uma boa opção para começar conversas, mas ninguém usava aquilo. Logo, pensou na opção mais plausível para o momento: redes sociais. Milhares de pessoas usavam a internet 24 horas por dia, muitas das quais estavam à procura de um amor. Seria uma boa opção para encontrar algum partido que prestasse.

Como se uma luz houvesse se acendido em sua mente, ela teve uma ideia. Correu para seu notebook e procurou pela rede social mais popular que encontrou. Arrumou os cabelos curtos e cor de sangue de cinco maneiras diferentes até encontrar um penteado que a satisfez. Depois, colocou um vestido bonito, passou seu melhor batom e admirou-se no espelho.

—Tô gata.

Usando a câmera do notebook, procurou pelo ângulo que mais lhe favorecia e tirou algumas fotos em várias poses diferentes. Por fim, resolveu utilizar a foto em que fazia sinais de positivo com as mãos, sorrindo tanto que seus olhos sumiram.

Depois de alguns minutos, uma publicação com direito a textão que acompanhava a imagem estava pronta, com os seguintes dizeres:

Oie, galera! Eu sou a Nath, eu sou muito legal! Tudo belê?

Estou aqui na humildade à procura de alguém interessante para passar os dias ao meu lado comendo, rindo e fazendo muito sexo. Estou solteiríssima e à disposição para nos conhecermos melhor no endereço indicado no meu perfil. Quem quiser conhecer a mulher mais incrível que esse mundinho já viu, é só comparecer às sete horas de hoje para a entrevista em que eu avaliarei seus níveis de compatibilidade com a minha pessoa e verei se vale a pena gastar meu tempo com você. Caso o resultado seja suficiente, poderemos ir a um encontro planejado por você (isso também será avaliado). E ainda faço um funk em sua homenagem se você passar! Boa sorte a todos ;)

Pré-requisitos para a entrevista:

* Ser bonito

* Ter senso de humor

* Ser rico(a)

* Ter mente aberta

* Gostar de sexo selvagem por horas prolongadas

* Ter mais de 21 anos de idade

* Não jogar League of Legends

* Só mulheres, mas se for homem pode também. Fazer o que, né? É o que tá tendo.

Assim que clicou em enviar, Nath ficou animada. Daqui a pouco diversos pretendentes estariam na porta de sua casa, loucos para disputarem o coração da jovem. E outras partes de seu corpo também.

Conforme o tempo foi passando, Nathalia se desanimava ao ver que nenhuma pessoa havia curtido a publicação. O único comentário feito havia sido uma corrente ameaçando que o leitor teria sete anos de azar caso não compartilhasse a história do fantasma de um macaco cozinheiro que foi obrigado a passar o resto de sua vida lavando a louça na cozinha por coçar suas partes íntimas enquanto preparava as refeições de um dos mais importantes restaurantes da Europa e lançou uma maldição horrenda na foto que registraram antes de sua morte.

Mais tarde, no horário marcado, a garota já estava desacreditada de que algo empolgante pudesse acontecer quando ouviu alguém chamar no portão de sua casa. Ao sair, radiante, deparou-se com um desconhecido e logo tratou de arrumar os cabelos. No entanto, reparou que o rapaz era bem jovem. Jovem até demais.

—Moço... –Falou com a voz muito baixa e cautelosa. –Me desculpe, mas eu não namoro crianças...

—O quê? Do que cê tá falando?

—Ahn? Você não está aqui pelo anúncio de namoro na internet?

—Anúncio? Que anúncio? Eu vim por causa da pipa que caiu no seu quintal. Pega aí pra mim, na moralzinha, fazendo o favor.

—Ah, claro... –Envergonhada, ela foi até o objeto que de fato estava em seu quintal e entregou ao garoto.

—Mas, cá entre nós... até que eu não me importaria de ficar com você. Cê é maior gatinha. Onde estuda? Posso andar com você no recreio?

Nathalia sentiu uma pontinha de constrangimento, raiva e indignação percorrer suas veias. Primeiro não havia encontrado um pretendente e agora havia sido confundida com uma criança por realmente aparentar ser muito jovem. Seu tamanho também era um bom disfarce.

—Eu já tenho 25 anos, porra! –Gritou.

—Sujou! -Quase caindo com o susto, o garoto pegou sua pipa e correu o mais rápido que pode para longe dali.

Nathalia suspirou e, infeliz ao ver que não havia mais ninguém por perto, andou vagarosamente em direção a sua casa. Quando estava quase fechando a porta, ouviu um novo bater de palmas. Preparou-se para xingar o menino, quando notou que havia um amontoado de pessoas em seu portão.

—Oi! –Cumprimentou o rapaz que estava mais próximo. –Você é a garota do anúncio?

Fervendo de felicidade, Nathalia foi correndo e abriu as portas de sua casa para o público – embora quisesse abrir outras regiões. As entrevistas iriam começar.

—Então, o que você faz da vida? –Perguntou Nathalia segurando uma prancheta.

—Eu louvo. –Disse o candidato sentado no sofá de sua casa.

—Legal e o que mais?

—Vou para a igreja.

—Sim. –Aguardava. –E o que mais...

—Adoro ao Senhor Jesus. –Sorriu. -Oro todos os dias quando acordo, antes de dormir e no tempo entre essas duas coisas. Espero encontrar uma namorada que seja tão fiel quanto eu e esteja disposta e seguir essa rotina comigo.

—Vejo que é muito religioso... Estaria disposto a parar e dar uns beijinhos de vez em quando?

—Mas é claro! Desde que pensemos em Jesus enquanto fazemos isso.

—...Acho que isso não vai funcionar. –Com estranheza, Nathalia riscou o nome do candidato de sua lista.

—Próximo! –Gritou tão alto que o homem precisou sair imediatamente, com a mão cobrindo os ouvidos.

Quem entrou foi um homem de roupa preta e bota com espinhos. Ele tinha cabelos compridos e usava uma bandana. Nath se animou, ele parecia bem mais próximo do que ela queria.

—Então, o que procura em um relacionamento?

—Sexo.

—Gosto. E o que mais?

—Transar.

—Certo... mais alguma coisa?

—Foder, meter, trepar, copular, ralar o tchan, molhar a vara, passar o pincel, trocar o óleo, amassar o kibe...

—Ok, eu já entendi! Mas e o romance? As cartas com cheiro de perfume, as flores, os jantares românticos e passeios ao luar...? –Suspirou.

—Ninguém tem um orgasmo com pétalas e a luz do luar. Achei que você gostasse de transar.

—Bem, sim, mas...

—Então! Estou aqui para isso. Poderíamos fazer agora mesmo. –Percebendo o que falou, notou que havia sido uma boa ideia. –Quer saber, não vamos perder tempo.

Levantando-se e indo para a direção de Nath enquanto tirava o cinto de sua calça jeans larga, foi interrompido pela garota, que levantou-se e se afastou, erguendo os braços para se proteger e impedir a visão do que estava prestes a aparecer.

—Não! –Gritou. Antes que ele pudesse ver o que estava acontecendo, Nathalia segurou um de seus braços e com um golpe o lançou diretamente pela janela, quebrando todo o vidro e ouvindo apenas um grito enquanto algo pesado caía no chão. Aquilo com certeza machucou. –Ops... acho que exagerei de novo... não queria comprar uma janela nova. Ah, foda-se.

Nath, apesar de pequena, possuía incríveis poderes de super força que surpreenderiam qualquer bombado de academia.

—Está tudo bem? –Perguntou a próxima pessoa que adentrou a sala. O ocorrido havia assustado os próximos candidatos.

—Está sim, obrigada por perguntar. Por favor, sente-se.

—Obrigada. Nunca pode-se confiar nesses homens de hoje em dia. –Sorriu.

—Não mesmo. –Sorriu de volta. – É bom conversar com alguém sensata, para variar.

—É, creio que sim. –Sorriu. Ela parecia bem simpática.

—Mas, e então, — Puxou assunto. -Você é lésbica?

—Agora eu sou. –Sorriu divertidamente, encarando Nath com um olhar sedutor.

—Como assim? –Achou estranho, mas não disse nada, embora fosse possível notar por sua expressão.

—Depois que terminei com meu namorado ele e meus pais se voltaram contra mim. Decidi que vou fazer tudo para irritá-los de agora em diante, começando por arrumar uma mulher como namorada. Já tive várias ideias para deixa-los bravos. Eu sei que aquele escroto do meu ex ainda me ama e já tenho planos que vão fazê-lo morrer de ciúmes. Escute, o que acha de bebermos escondidas no quintal dos meus pais e depois...

—Sai da minha casa agora! –Gritou. Não tinha paciência para pessoas mal resolvidas em sua vida e nem pra quem tá começando. — Próximo!

Zangada, a garota se retirou do local e um homem com sobretudo escuro, rabo de cavalo, óculos escuros e joias entrou silenciosamente na sala. Usava também botas de couro e uma bermuda com um cinto de cowboy que poderia ser visto de longe. Cruzou as pernas ao sentar e parecia muito confortável. Ele abriu seu sobretudo e de lá retirou uma prancheta.

—Bem... –Disse Nathalia após alguns minutos constrangedores de silêncio em que ela avaliava se seria uma boa ideia ficar com um sugar daddy exótico de aparentemente mais de 50 anos de idade e nariz empinado. –Quem é o senhor?

—Você é maior de idade? –Nem ao mesmo havia olhado diretamente para ela, apenas para os papeis na prancheta.

—Sou sim.

—Ah, isso foi uma surpresa... Bem, se depila?

—Eu... Ahn... O senhor precisa mesmo saber disso?

—Faz anal?

—Eu...

—Aceitaria quatro de uma vez? E brinquedos de choque? Tudo bem se for tímida, nem vai notar que estamos lá.

—Cara, quem você pensa que eu sou?

—Não estava se anunciando para ser atriz pornô?

—O quê?! Não! Eu só estou procurando um namorado!

—Ah... –Ele finalmente olhou em seus olhos, por cima dos pequenos óculos escuros. –Não tenho nada a fazer aqui então.

Durantes as próximas horas, diversos candidatos e candidatas passaram pela entrevista de Nathalia, embora nenhum deles tenha sido realmente interessante. Parecia que todos tinham algum problema que os impedia de serem aptos a namorarem aquela mulher. Entre eles, haviam crossfiteiros, hipsters, homens que passavam o dia inteiro assistindo desenhos e só queriam uma escrava sexual, outros que queriam apenas alguém para mudar o status das redes sociais ou que tinham um estranho fetiche por pés.

No fim da noite, Nathalia estava exausta. Sem perspectivas de arrumar uma pessoa especial, só queria sua cama e dormir por uma semana inteira. Será que nunca iria encontrar o amor da vida dela? Nesse momento, acreditava fielmente que não.

Ainda estava mergulhada em pensamentos tristes quando ouviu seu celular despertar, fazendo um barulho muito alto e estridente. Ao pegá-lo, viu o lembrete de que o resultado do vestibular havia saído naquele dia.

—Nada na minha vida dá certo mesmo...

Não tinha vontade de olhar a lista pela qual estivera tão ansiosa durante tanto tempo. No entanto, ao encarar o celular jogado na cama, decidiu que não faria mal algum espiar.

—Apenas para confirmar que a minha vida é uma bosta. -Sem esperanças, desbloqueou o aparelho que imediatamente começou a travar. –Viu? Uma bosta.

Jogou o celular na cama e ligou o notebook. Depois de alguns minutos navegando por gameplays e vídeos de esquartejamento de cadáveres estuprados — que não sabia ao certo como encontrara – decidiu finalmente olhar o resultado.

—E lá vamos nós...

Nathalia não acreditou no que viu. Estava completamente gélida e petrificada, exceto pelos olhos, que liam a mesma coisa repetidas vezes. Mesmo que já tivesse cursado alguns períodos de uma faculdade, a sensação era a mesma.

Quando Nathalia leu pela milésima vez seu nome na lista de aprovados, gritou tão alto que os todos os cachorros da rua começaram a latir, acordando e irritando seus vizinhos.

Notas finais
Seria o grande amor da vida da Nathalia um(a) estudante da POC?