Notas iniciais
Yeah yeah Alés fizeram tudo yeah yeah aplausos q

Estou disposto a salvar uma ou duas árvores, mas, não, não é tão ‘sentido’. Vou sentir falta da tua caligrafia, que me causa a impressão de que no mínimo três pessoas escreveram o mesmo texto, e de como os teus mm se inclinam docemente para a direita e de como os pingos dos ii estão sempre com pressa, mas devo admitir que prefiro assim menos em razão das árvores que da velocidade de entrega.

Faz calor e o sol escorre por entre as nuvens — exatamente como gostas — e não há motivo para te preocupares com a tua planta: está lá, estirada na varanda, refrescando-se do banho que lhe dei. Eu gostaria muito que estivesse frio e chuvoso — está demasiado quente para ler à beira da janela — mas hoje levei-me ao parque e descobri todas as memórias antigas e o teu reflexo nas cintilações celestes do lago. Só que agora são outros casais sob a sombra cheirosa da macieira e outros casais e os seus passeios lânguidos de barco e pedalinho sobre o alumínio lacustre.

Descobri, também, que os amo ao modo que amo nós dois. Talvez menos (definitivamente menos). De qualquer forma, obrigado, porque eu sempre acho novas crônicas e frases universais não nas cenas dos meus olhos, mas nas cenas que me descrevem as tuas palavras. Agora mesmo tive de ir pegar correndo o caderno para não me deixar esquecer da ideia. Mas a minha memória não é tão falha nem tão pouco apaixonada ao ponto de se esquecer da ponte e dos meus preconceitos — que em verdade eram conceitos. E eu tenho a certeza de que a pastelaria está aberta e que se vires o dono e se ele te vir há de perguntar, mais uma vez, a data de nosso casamento — só não lhe dê as esperanças de buffet.

Desista. Eu sempre te vou oferecer uma xícara de chá. Duas coisas que aprendi na Inglaterra foram como ser estupidamente educado e como ser assombrosamente irritante — e me disseste, uma vez, que as duas coisas são praticamente iguais. Voltarei à gloriosa Inglaterra. O Príncipe George espera a minha bênção, e ainda preciso levar-te, velha e rabugenta, para comer a fantástica tarte. Acabou de me ocorrer uma cena em que planejavas, com a simpática face de uma criança maligna, o sequestro do cozinheiro. Se puderes, sequestra-o. Ou ao menos traz-me uma das tartes.

Por que eu sabia que isso iria acontecer? Boa sorte na antiga Londres. Só peço não fiques preocupada por seres assim tão previsível. Eu ainda me espanto com a facilidade dos seus lábios entre os meus, o que agora, além de memória, é só vontade e também me assombro toda vez que vejo que do teu studio não ouço os golpes molhados do pincel e a suíte da tua respiração.

Amo-te como se fosses vinho tinto.