Como se fosse a primeira vez

10 Verdades reveladas (1)


Era dia, Rick estava ansioso para chegar no trabalho. E essa semana prometia e muito, pois se tratava dos seus últimos dias trabalhando ao lado de Tina. Ele não tinha se dado conta disso, estava tão focado e entretido que pensou que esse dia não chegaria.

O lançamento do novo produto da Lúmina cosméticos estava próximo e isso significava que seu tempo estava acabando. Ambos seguirão suas vidas normalmente quando tudo isso acabar. Rick voltará para casa e continuará sua carreira de artista, enquanto Tina terá sua rotina normal de volta e ficará mais tempo com a família. A questão é que havia muita coisa para ser dita e esclarecida por ambas as partes. Ele precisava ser urgente se quisesse saber mais sobre isso, e precisaria ser hoje esse dia.

— Animado para o evento de lançamento?— disse Tina. — Eu estou.

— Já? — disse Rick, surpreso. — Pensei que ainda tinha um tempinho.

— Sim bobo, será na próxima semana.

— Nossa, passa rápido.

— É… passa rápido.

Por um momento, Tina percebeu Rick meio tristonho.

— O que foi? aconteceu alguma coisa? Não gostou da notícia?

— Nada, não. Não é isso.

— Nada mesmo? Está estranho. Não quer ir embora para sua cidade? Eu preciso de descanso. Estou farta da sua cara. — Tina ri.

— Oxi, foi tão ruim assim trabalhar comigo?

— Não foi ruim. Você é um bom menino. — ela ri novamente.

— Isso é bom. Pena que passamos um bom tempo juntos e não conversamos muito sobre coisas sem ser o trabalho.

— Verdade. Mas o que tínhamos de conversar?

— Sei lá, sobre nossas vidas.

— Sei. — Tina ri.

— Realmente, foi muito bom te reencontrar. Eu pensei que nunca mais te veria.

— Ainda tinha esperança de me ver?

— Eu achava que não. Depois que você terminou a faculdade, nunca mais te vi.

— É... faz muito sentido. Sei que não tivemos muito tempo por causa da correria do trabalho, mas o que quer tanto conversar comigo? essa é a hora.

Rick puxa a cadeira para sentar e fica frente a frente na mesa dela.

— Nossa, tava só esperando não é?

— Eu estava.— disse atrevido.

Rick ri por um instante e completa.

— Quando iria me contar?

— Contar o quê? Pode ser mais específico?

Os olhos dela encontraram os dele de novo. Mas voltou ao computador logo em seguida, porque tinha certeza de que era alguma bobagem e isso não merecia atenção.

— É desse seu casamento arranjado. Eu tinha minhas dúvidas. Mas não imaginava que fosse verdade. Tudo se encaixa agora.

Ele realmente conseguiu a atenção dela de volta. Parou de teclar e o encarou. Certeza de que vinha coisa por aí.

— De onde você tirou isso? ou melhor, quem te disse isso. Não me lembro de ter te contado.

— Justamente, você nunca contaria uma coisa dessa, saber o motivo disso é o que penso agora. Mas e aí Tina, porque escondeu isso de mim?

— Rick, você está me deixando desconfortável com essas perguntas pessoais demais.

— Tina, mas não é nada demais se for algo que você estiver bem com isso. Faz parte da sua vida, não pode negar. Eu até pensei que você tinha conhecido seu atual marido porque uma colega apresentou e tal, como é comum, mas... mas isso eu nunca imaginaria. Só preciso que me conte.

— Rick, onde quer chegar. — disse já um pouco nervosa.

— Sua tia… me encontrou ontem naquela fes...

— Tia Ana…— disse Tina.

— É, essa mulher.... ela me contou isso e eu não acreditei.

Tina já não estava mais ali na sala, o corpo estava, mas ela não. Imaginava o que aquela mulher poderia ter falado, além de trazer detalhes íntimos de sua vida para um estranho. Teria sido dramática quem sabe, transformando tudo em uma boa história trágica que colocasse Tina em uma situação deplorável de vítima dos negócios da família.

Haviam sérios motivos para se preocupar. Tia Ana é uma daquelas pessoas que tem uma habilidade incrível de pesar o clima e deixar tudo mais melodramático. Foi assim naquele jantar em família e mais agora. Era o que faltava para Tina surtar por dentro.

Entender o porque isso virou tópico de uma conversa aleatória numa festa era algo a se pensar. Tina respirou, por um momento se deu conta que estava mais que na hora de enfrentar esse fantasma da sua vida e contar a Rick que de fato aconteceu com ela.

— Okay, Rick. — respira. — Eu não sei o que ela deve ter te dito além disso. Mas sim, eu me casei de forma arranjada.

— E está tudo bem pra você?— diz Rick, em choque pela naturalidade dela.— Se casar dessa forma?

— Está tudo bem pra mim. No início era novo, mas como pode ver, estou bem e feliz. Tenho dois filhos, uma bela casa, um marido amoroso que se importa comigo.

Rick tinha se posto a pensar o motivo pelo qual Tina viria achar isso normal. Talvez ela tenha se acostumado e por isso não vê problema nisso.

— Mas você o ama? — disse Rick, sentindo muito inteligente ao ponto de cogitar que arrancaria a verdade que ele queria ouvir.

— Sim, eu o amo. — Tina falou sem hesitar, coisa que surpreendeu a ele.

— Sério?— disse Rick, na tentativa de fazê-la repensar sobre a profundidade do que aquelas palavras significavam.

— Sim.— diz Tina já um pouco irritada. — O que quer dizer com isso?

— Sei lá, só estou meio surpreso.

— Surpreso porquê? Acha que sou uma mulher amarga, triste que vendeu a alma por causa dos negócios da família? Não está assistindo muita novela?

— Talvez eu esteja mesmo. Mas porque está tão reativa?

— Reativa? Eu não estou reativa?— Tina tenta disfarçar.

— Sim, está. Parece que eu não sou o primeiro a perguntar isso não é?

— Não é o primeiro. Lido com gente que acha que sou uma mulher vítima de um casamento trágico.

— Mas não foi o que eu quis dizer.

— Vou acreditar.

— Tina, eu juro… me desculpa! Não fiz por mal. Só estou um pouco curioso.

Rick percebeu que o clima não estava ficando os dos melhores. Tina percebeu que se alterou um pouco e resolveu deixar ainda mais claro que não queria continuar nesse assunto.

— Entendo sua curiosidade. Mas acho que talvez agora não seja o momento para conversarmos e ainda mais ser sobre isso.

O silêncio tomou a sala, Rick não podia comentar mais nada e nem fazer perguntas sobre. Por um momento ela refletiu que estava na defensiva e tinha seus motivos, as pessoas sempre se referiam a ela como uma peça de tabuleiro envolvida em jogos de negócios. Ele por vez, percebeu que estava sendo invasivo demais. Entendeu que aquele assunto era delicado para a amiga.

— Desculpe Tina, eu não queria estragar o seu dia.

— Tudo bem Rick, você não fez por mal. Pelo menos você veio perguntar pra mim ao invés de ficar com a versão que os outros contam. A versão em que eu, geralmente, não passo de um peão nesse jogo de interesses. Mas quer saber... vou pra você já que quer tanto saber.

— Quer tomar um café enquanto conversamos?

— Eu quero.

Ambos saíram do trabalho e foram em direção a uma cafeteria ali perto. Rick fez questão de trazer a mesa alguns doces e quitutes para acompanhar a conversa. Sentindo que era sua vez, Tina respirou profundamente por um momento para se preparar para uma longa conversa.

Não era uma coisa que ela conversava com todo mundo, mas seria interessante contar a versão dela da história trágica que os outros insistem em divulgar. Ele parece disposto a compreendê-la e isso é excelente.

— Vamos lá.

Tina respirou bem fundo. Era uma das melhores formas de começar uma conversa delicada que colocaria a mesa parte de sua vida para apreciação de alguém, ou melhor, de um amigo.

— Quando saí da faculdade, minha mãe estava meio adoentada. Voltei para casa, mas não era minha intenção no momento. Como já deu para presumir, meus pais estavam passando por um momento complicado e eu fiz por bem estar lá para dar apoio.

— Sua mãe ficou doente?

— Sim. Ela teve sérios problemas de coração e eu não queria estar longe e correr o risco de perdê-la.

— Nossa, eu sinto muito mesmo Tina. Não sabia! Porque nunca me contou?— disse Rick.

Nesse momento, Tina hesitou. Sabia que naquela época em que tudo aconteceu todos estavam ocupados demais fazendo planos para o futuro. Rick já tinha os seus e falava com muita empolgação e não seria legal da parte dela estragar o clima que estava.

—Não me considerava “amigo” suficiente para compartilhar algo delicado assim?— completou.

— Era um problema familiar meu, não queria preocupar ninguém. Além disso, você estava super empolgado com a ideia de sua banda, então eu não queria estragar seu momento com uma notícia ruim. — disse Tina.

— Tina! Não fala isso. Significaria muito você falar pra mim. Eu era seu amigo. Então quer dizer que tudo isso mudou os seus planos não é? Me lembro de você comentar que ficaria por aquelas bandas e seguir a vida. É isso?

— É… sim, essa era a minha intenção: ficar e me estabelecer na cidade onde me formei. E nisso se foram longos anos da minha vida, arranjei um bom emprego perto da família, fiz algumas amizades e….

— Encontrou o Edu. Onde entra o Edu em tudo isso?


De repente, ele conseguiu arrancar um sorriso dela e aquele clima tenso que a acompanhou desde até aqui se dissipava no ar.

— Calma, eu vou chegar lá. Eu não era muito de sair para conhecer pessoas no sentido romântico. Não tinha muito esse costume. Então, foi aí que meus pais me arrastaram para uma festa de uma outra família que, aliás, era uma família muito próxima da nossa em sentidos de negócio e também de amizade e vínculo. Eu tinha umas colegas por lá, então não foi tão ruim assim. Então eu o conheci.

— O Edu?— disse Rick, já inquieto.

— Isso, o Edu. Ainda era algo sem compromisso, formalidades apenas, primeiro contato, essas coisas. Ele era tímido, um pouco nervoso, mas muito gentil. E assim fomos apresentados formalmente. Mas sabe que foi estranho depois?

— O quê?— ele se toca que se intrometeu de novo.— Desculpa.

— Não, não precisa. Mas sabe, o resto do baile foi estranho, ele ficou o tempo todo me olhando e eu já estava um pouco incomodada. Eu pensei que ele tinha me achado estranha. Talvez isso confirmava minhas crenças de que ele era um garoto levado, cheio de si.

— Ah sim, entendi. As famílias já eram próximas. Então já conhecia Edu na época?

— Só de vista. Não tinha proximidade com ele assim. Nos falávamos normalmente, bom dia, boa tarde. Coisas do tipo. Levou um tempo até tudo acontecer. Meus pais eram muito próximos da família de Edu por causa dos negócios. Eles eram também amigos de longa data.

— Mas já achava ele interessante, assim, de vista?

— Olha, boa pergunta. Sim, ele era um rapaz de bons modos, educado. Era interessante.

— Interessante com bons modos... e bonito?

— Edu é bonito sim. Ele é.

— Nossa, pensei que você tinha um outro tipo de homem.

— Tipo o quê?

— Quem sabe um cara no meu estilo.

— No seu estilo?— Tina ri com um certo deboche. — Você é ótimo.

— Continua, vai.— disse Rick, empolgado.

— Certo, e por um acaso, o pai de Edu jogou uma ideia no ar — inofensiva. Ela não foi levada muito a sério por ser extremamente cômica e nova. Mas que ao decorrer do tempo foi começando a fazer sentido.

— Qual foi essa ideia?

— Calma Rick, vou chegar lá.

— Ai tina, quanto mistério. Você não tem pena de eu não?

Ela ri.

— Eles achavam que seria interessante juntar as famílias já que nós éramos tão próximos assim. Mas não foi dito com essas palavras, foi algo meio "Que felicidade seria se nossas famílias fossem mais próximas do que nunca". Edu era um solteiro e eu também. Nossas famílias se davam super bem, tinham relações comerciais excepcionais. Era uma questão de tempo para tudo acontecer. Mas a questão era que eu nunca tinha pensado nisso.

— Seus pais concordaram logo?

— Não, eles riram. E acredito até terem entendido de uma outra forma, no sentido comercial. Mas não fazia sentido já que já éramos próximos por isso. Acharam engraçada a ideia. Até que a mãe de Edu foi mais sucinta, e precisa quando se referiu a uma possibilidade das famílias se unirem ainda mais através do matrimônio dos filhos.

— Nossa, que coisa. Parece novela.

— E parece mesmo. — risos. — Mas cai entre nós, foi um pouco constrangedor.

— Imagino.

— O pai e a mãe de Edu gostavam muito de mim. O Edu ficou muito envergonhado quando o pai dele comentou e a mãe ainda reforçou a ideia. Eu até entendo, sabe aquela piada adolescente que você dia a alguém que tem uma pessoa gostando dela e...

— Sei. — Rick riu. — e ela diz: ai credo!

— Isso, exatamente. Não que eu gostava dele no momento, mas nós éramos de mundos diferentes e era o que me intrigava ainda mais.

— Como? Mundos diferentes?

— Sim, prometi a mim mesma que não me envolveria com nada daquele mundinho.

— Então era por isso queria viver na cidade em que se formou?

— Exatamente. Queria viver longe daquela correria e ter uma vida calma.

— Mas conseguiu?

— Acho que sim. Meus pais respeitavam muito as minhas escolhas. Eu sei que eles devem ter ficados um pouco preocupados por eu ter voltado para casa e abdicado disso. Mas eu pude escolher viver uma vida calma.

— Só uma dúvida! Edu era um playboyzinho, né?

— Longe disso. Ele era como eu e foi isso que me fez ficar ainda mais a vontade e segura. Meu medo era que ele fosse um playboyzinho, mas ao passo que fomos nos conhecendo ficava mais evidente que eu estava o julgando mal. Foi convivendo com ele que percebi que ele era um cara que apreciava uma vida calma e simples assim como eu. — ela diz isso com um certo brilho nos olhos.