Notas iniciais
28 de janeiro. Segunda.
Treco balançou a cabeça negativamente por cerca de um minuto inteiro enquanto pensava. E a pior parte foi que eu acompanhei os movimentos. Toda aquela falação sobre o Solus deve tê-lo confundido. Tinha o olhar perdido na janela do quarto de Drew. O nome de Drew é André e não sei o porquê do apelido. Tem cabelos quase ruivos e olhos pretos. Ocupa o cargo oficial de "Secretário da Organização de Reuniões". Um cargo que ele julga importantíssimo e se vangloria para todos (exceto para aqueles que, como eu, ocupam cargos mais altos. Isso porque eu nunca esfrego minha patente de "general" por aí). Por isso as reuniões acabam sendo em se quarto.
Daniel terminou a merda de seu cigarro, que empestava o quarto, e o jogou no chão, para nosso alívio. Mal cabiam três pessoas morando naquele cubículo quanto mais os dez oficiais do Solus. Ocupávamos as camas, o chão e a superfície das escrivaninhas. O ar já era pouco e o calor, muito. O cheiro do cigarro piorava ainda mais as coisas.
Piorava o mal-humor geral da nossa pequena nação. Não sei o motivo da reunião, eu não conseguia prestar atenção. Mas os garotos discutiam, aos berros, algo como o avanço do Opus em detrimento do nosso. Pelo que eu entendi, aparentemente alguns monitores que tinham pacto conosco nos traíram e estão agora junto ao Opus. Alguma merda assim.
Guilherme, irmão gêmeo diferente de Daniel, cabelo preto, óculos, mais intelectual, discutia em âmbitos políticos (isto é, citando as mais famosas clichês frases de Rousseau — como se ele soubesse algo sobre ele. Como se nós crianças soubéssemos algo de algo).
– Eu não quero saber!! — Chefe não queria saber. Chefe é um garoto de dezesseis anos que ainda brinca conosco. Tem 1,80m pra cima, é super musculoso, tem cabelos loiros e poderia conseguir uma namorada (eu tenho esperanças que exista uma louca por aí para aguentá-lo), não precisava ficar nos enchendo o saco. Ele se sentava em cima da escrivaninha por deixá-lo mais alto que nós — megalomaníaco doente. Socou a mesa o mais forte que pode só para nos perturbar com o barulho.
– Conseguiremos nosso poder de volta! — gritou, infantil, como aquelas crianças que acham que através dos gritos os pais cederão doces.
Não sei se sou o único, mas nunca vi utilidade nas reuniões do Solus. Os meninos apenas gritam sobre como esmagarão uns aos outros. Pra que essas merdinhas de grupos? Não entendo. Muitos também se perguntam o motivo. Mas é assim desde sempre.
Afinal Greg fazia algo inteligente. Lia um livro, sentado ao lado de Marra e encostado à cabeceira da cama. Abaixou seu volume de "Hobbit" e olhou com desprezo para a cena selvagem. Daniel, no chão, fumava mais e cuspia palavras acenando para Treco, que ia e voltava de seus devaneios silenciosos, sentado à cama do meio, já de pijamas, pois já passara o jantar e ele dificilmente voltaria a sair do seu quarto. Ao seu lado, Rafael e Drew discutiam sobre como o chefe do Simil, Lobato, estava em um caso com Nina, gata maravilhosa, chefa do Gold. Chefe gritava de cima da escrivaninha para ninguém, pois nós, seus súditos, não o ouvíamos. Exceto o pirralho do Marra, que assentia cada palavra. Tem doze anos, é o mais novinho dos oficiais. É um bebê chorão.
Eu me sentava ao lado de Guilherme, na beirada da cama. Não conseguia dizer nada. Não me dou bem com calor descomunal, como aquele. Juro que sentia a gota de suor brotar do meu cabelo curto, escorrer ao lado de minha orelha e cair. Era desconfortável. Eu passava a mão, as costas da mão, para limpar as gotas, mas não funcionava. Eles brotavam de novo e escorriam, gerando cócegas horripilantes. Por fim, decidi que prestar atenção no meu suor poderia ser ainda pior do que prestar atenção ali. Parei de lamuriar e passei a ouvir um pedacinho da conversa.
– Neste ano nós arrebentaremos a cara do Opus. Ninguém ganhará nosso território... — Chefe ainda insistia.
– Quem liga? Desde que consigamos méritos para nós mesmos. — Rafael falou, sem pensar. Ele tem a minha altura e cabelos pretos.
– Como você conseguirá méritos se o território for de outro grupo, idiota? — Chefe se exaltou, já ficando vermelho.
– Só quero as garotas. Ah, Lara Bernardes.... – Treco confessou, com uma cara excitada, enquanto tamborilava os dedos, hiperativo. Nós rimos.
– Quero passar de ano... – Marra murmurou, olhando para baixo. Gris, um garoto negro de quinze anos, brincava com uma caneta, desenhando no chão, mas soltou-a e, em um salto, exclamou:
– Você só quer a mamãezinha. Lembra-se do ano passado, fracote?
O pessoal disparou a rir e uivar. Marra ficou vermelho como uma pimenta e se encolheu. Ele tem apenas doze anos e começou a dormir aqui só no meio do ano passado. Falaram-nos que o motivo foi seus pais precisarem se mudar para Mato Grosso e ficou difícil levar o filho tão repentinamente. Ele passava a noite em claro, na sala comunal, com as luzes acessas. Pobre garoto. Não conseguimos ajudá-lo, então Felipe falou pra Trevor, que ligou pros pais do menino. A mãe dele veio para cá e dormiu com ele por uma semana.
Nós fomos ameaçados, não podíamos zombar de Marra, mas não adiantou. Assustá-lo à noite, chamá-lo de “covarde, menina, marica, frangote, gay, filhinho da mamãe” era o mínimo. Ele só está vivo ainda por fazer parte do Solus. E ele só faz parte do Solus porque a mãe consegue qualquer coisa que ele pedir.
Passamos todos a falar ao mesmo tempo, em pé, seja caçoando do garoto, ou só aumentando a anarquia. Eu estava adorando, porque finalmente consegui despertar daquele transe monótono da reunião.
– Tá legal, chega – Chefe falou e nos mandou sentar. Nós lhe obedecemos. – Avisos finais: Amanhã teremos um jogo de futebol.
– Amanhã estaremos muito cansados, teremos o primeiro dia de aula e as horas de estudo obrigatórias. — Guilherme protestou. Daniel zombou-o, expressão desdenhosa. Aquele revirou os olhos.
– Não apareça então, viado — Daniel disse, mas o irmão nem se importou. Levantou-se em direção à saída do quarto. Em uma reação em cadeia, nós passamos a nos levantar e segui-lo, mas não sem antes apertarmos as mãos uns dos outros, formalmente.
20:30
Estou rascunhando meu plano e está ficando genial. Minha teoria, sobre viver para morrer, está cada vez mais completa. Meu objetivo é conseguir recriar a utopia, que é o Paraíso, aqui no Brasil, através de minhas ações. Ou seja, não desperdiçar minha vida. É algo mais complexo que apenas Carpe Diem. Eu quero construir um modo de euforia em que possa sempre estar. Igual acontece quando estou na Alemanha. Uma felicidade permanente. (por que quero perder meu tempo em algo que sei ser impossível eu não sei, mas essa é a vida, uma perda de tempo insaciável até a morte).
Meu plano consiste em minimizar todas as responsabilidades que eu tiver. Este mundo material, tocável, de aceitar responsabilidades, correr atrás de objetivos infinitos, por toda sua vida, este mundo é o que nos impede de entrar mesmo neste estado de felicidade que procuro. Por isso, meu primeiro passo é me livrar do máximo de responsabilidades que eu puder.
O segundo passo é tentar destruir a hierarquia ao meu redor. Hierarquia é outro aspecto que acaba com a sociedade. Damos um poder imaginário a quem tem o mesmo corpo, o mesmo cérebro, o mesmo cabelo, os mesmos sonhos que nós. Somos exatamente iguais, então, por que alguém deveria ter mais poder do que eu? Por isso, necessito não aceitar a hierarquia.
Terceiro, preciso fazer ações que me deixem feliz. Ou seja, não me limitar a coisas que eu odeio, como estudar, trabalhar. Depois que conseguir isso, pensarei nos próximos passos.
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