Como se Esquecer do Câncer
1 Capítulo Único
Nichollas Rousseau Conway era um dos doutores do Hospital St. Connell, na cidade de Fair Haven, no estado de Nova Jersey. Ele era um dos melhores do hospital, sem dúvida. Todos os pacientes adoravam-no. Raramente faltava e também Nichollas fora premiado dezessete meses seguidos “O Médico do Mês”. Toda que vez que havia uma consulta em seu escritório, era possível ler Dr. Nichollas ou Dr. Nick nos contatos dos celulares dos pacientes. Nada o impedia de trabalhar, absolutamente nada. Sempre que descobria que estava doente, apenas caminhava até uma farmácia e comprava os remédios, e ele não precisava de receita
médica — obviamente — porque ele era um médico. Quinzenalmente, um de seus melhores pacientes fingia doença para ir visitar o Dr. Nichollas.
— Boa tarde, Sr. Madison. Não faz muito tempo que você veio visitar novamente meu consultório.
— Bem, Dr. Nick... — hesitou Madison — minha filha está de férias da faculdade, ela veio me visitar e me passou uma doença. É, passou uma doença.
— Espero que não seja nada grave, vamos ver. Deite-se na maca para eu tirar os raios-X do seu corpo.
Não era surpresa que sempre que o Dr. Nichollas examinava o Sr. Madison, ele não encontrava nada. Tudo funcionava perfeitamente, normalmente. Era certo dizer que o Sr. Madison tinha um xodó pelo Dr. Nichollas, pois era mais do que fanatismo visitar o doutor preferido quinzenalmente.
— Parece que não há nada de errado com você de novo, Sr. Madison. Ultimamente, toda vez que o senhor me visita não há nada de errado.
— Hã... Eu acho que... O vírus pode ter saído do meu corpo no momento em que o doutor tira impressão. É uma mera coincidência, não?
— De certa forma, Sr. Madison, já acabamos. Pode ir pra sua casa, e não precisa pagar já que houve nada de errado.
O Dr. Nichollas caminhou rapidamente até a sua casa, bateu a porta, e sua esposa Emmaline o recebeu com beijos e abraços curtos. Eles não tinham filhos, Emmaline tinha um problema no útero que o fazia sangrar durante a relação sexual, e isso a entristecia muito porque seu maior sonho era ter um lindo filho. Ela não podia adotar, pois não sabia como cuidar de uma criança. Uma criança em suas mãos iria sofrer muito.
— Oi, querida, tudo bem? — perguntou e sorriu Dr. Nichollas — Madison voltou ao consultório outra vez.
— Estou bem, sim. De novo?! Eu acho que ele finge estar doente só para ir vê-lo, Nick.
— Também penso isso, Emmaline. Mas fazer o quê, não eu posso acabar com a credibilidade dele, eu sou o mais adorado naquele hospital, qualquer problema ou perco a fama. E eu deixaria de ser especial, não concorda? — sorriu Nichollas para Emmaline.
— Concordo sim, meu doutorzinho corado! — sorriu Emmaline e carregou a maleta dele para o quarto — O jantar hoje é espaguete com tofu, e comprei alguns champagnes, sem álcool, o seu preferido.
— Você sabe muito bem do que eu gosto Emma. Mereceria um estetoscópio como prêmio.
O dia de hoje para eles foi cansativo. Amanhã seria quarta, dia de folga do Dr. Nichollas. O dia para eles que era para ser perfeito, não foi, realmente não. O Dr. Nichollas acordou passando mal. Ao tossir, pôs a mão na boca, ao tirá-la viu muito sangue em sua mão. Algum momento depois, o Dr. Nichollas sentiu vontade de urinar, começou a urinar um líquido vermelho — estava urinando sangue — e ficou bastante preocupado. Nenhum remédio que ele tinha em seu estoque ajudou de forma alguma. O Dr. Nichollas perguntou à Emmaline se ela reconhecia esses sintomas de doença.
— Não, mas eu já os vi em algum lugar. Minha mãe Elisabeth pegou câncer e começou a se sentir como você.
— De qualquer forma não acho que seja câncer. Vou ir ao Hospital St. Connell e ver o que isso significa.
Nichollas vestiu seu terno social, caminhou até o Hospital St. Connell e esperou até ser atendido. Disse seus sintomas à recepcionista, e esperou para que o oncologista o chamasse para sua sala. O oncologista Dr. Newton era um de seus melhores amigos no hospital, tratava-o com gentileza e sempre era disposto a ajudar.
— O que você tem Nick? — perguntou Newton — Você nunca fica doente!
— Eu não sei Newt, eu acordei tossindo e urinando sangue. Minha esposa disse que provavelmente poderia ser câncer, e vim tirar isso a limpo.
— Você com câncer seria uma raridade, Nick. Vou examiná-lo.
O Dr. Newton ficou uma hora e meia tentando examinar o Dr. Nichollas, e alguns minutos passados de uma hora e meia, o Dr. Newton anunciou o resultado.
— Amigo... Lamento mas você... Não sei lhe dizer... Está com câncer. — O Dr. Newton ofegou — Desculpa, sério mesmo...
— Não acredito... — O Dr. Nichollas escapa uma lágrima, e seus olhos ficam molhados — De qualquer forma, obrigado pelo resultado, Newt.
O Dr. Nichollas foi embora muito triste para sua casa, chorou muito, culpou-se, disse ser uma aberração, que o mundo seria muito bem melhor sem ele.
Para se sentir um pouco mais feliz, o Dr. Nichollas foi à casa de seu melhor amigo, Dexter Collins. Era o amigo de quem ele precisava nas horas mais tristes e de desconforto.
— Estou com câncer, Dexter.
— O quê?! Como você sabe? Foi ver o oncologista?
— Exatamente, Dexter. Eu fiquei horrorizado quando soube. Acordei tossindo e urinando sangue. Você se estivesse no meu lugar, sentiria o que é ter câncer. É como se a felicidade jamais retornaria ao mundo de novo. — ofegou o Dr. Nichollas, passando a mão no nariz — Me sinto um completo idiota.
— Olha Nick... — hesitou Dexter — quando uma pessoa descobre que está com câncer, ela faz de tudo pra se sentir feliz antes de morrer. Como se fosse uma lista enumerada. Minha esposa fez isso quando descobriu que estava com câncer de mama. Morreu um mês atrás. O corpo dela foi enterrado no Cemitério Smallwaters.
— Como ela se chamava? — perguntou Dr. Nichollas
— Penny Rupert Grettel. Ela era ruiva, ruiva cor de fogo.
— Meus pêsames. Mas eu acho que não vai fazer se divertir antes de saber que estou prestes a morrer.
— E o que você vai fazer em primeiro de tudo? — sorriu Dexter.
— Acho que não faz mal beijar outras pessoas, não, Dexter? — o Dr. Nichollas levantou as sobrancelhas — Vou ligar para alguém.
Espere aí: O Dr. Nichollas ligou para o seu amigo Newton. Invadiu o seu escritório, derrubou-o na maca e deu beijo na boca de Newton. Newton parecia estar gostando agarrou, tirou sua roupa e o Dr. Nichollas fez o mesmo. Ou seja, o Dr. Nichollas tinha um fraco pelo seu amigo Newton. Era possível perceber isso, porque sempre que Newton chegava ao St. Connell, o Dr. Nichollas ofegava bem baixo.
— Sabia que eu sempre gostei de você, Newt? — gemeu o Dr. Nichollas — E muito!
— Nunca parei pra pensar nisso, Nick. Até imagino pra que esteja fazendo isso, você quer aproveitar sua vida antes da morte. — gemeu também Newton — Todos que têm câncer fazem o mesmo que você.
— Exatamente. Minha esposa não vai ficar sabendo disso... — Newton empurrou o Dr. Nichollas — Você já é casado? Seu idiota, pra quê trair sua esposa?
— É diversão, Newt! Vamos continuar!
— Já chega, sai logo da minha sala, Nichollas. — gritou Newton, passando a mão na boca, tentando remover qualquer vestígio de beijo — Vê se cria vergonha na cara, seu insolente!
O Dr. Nichollas saiu do Hospital St. Connell gargalhando, como se o que Newton tivesse dito lhe agradara. Depois, ligou para Dexter convidando-o para tomar cerveja no bar ali perto do Hospital St. Connell. Os dois compraram quatro garrafas de Devassa, duas para cada um.
— Ele não gostou, no momento em que disse que sou casado, ele me expulsou da sala dele. Ele não sabe o que estava perdendo.
— Mas é exagero você querer bancar o homossexual com o seu melhor amigo né, pelo menos uma mulher.
— Mas é tão bom! Experimente algum dia, Dexter.
— Você está fora de si, vou comprar ali uma garrafa de água pra você, ou melhor, umas cem. — exclamou Dexter e caminhou até a frigideira.
Enquanto Dexter fizera isso, uma mulher chegou à frente do Dr. Nichollas e começou a seduzi-lo.
— Olá, gato. Você é solteiro?
— Sou sim, gostosa! — mentiu o Dr. Nichollas — Quer uma Devassa?
— Não, eu vim aqui pra levar você pra minha casa, e fazer amor com você. Eu sou a Cassandra Martel. Filha do homem mais rico de Fair Haven, Conan Martel. Eu divido com você metade de um trilhão, fofinho! — por um instante, o Dr. Nichollas piscou os olhos loucamente, como se estivesse voltando para si, mas sem memória do que ocorria.
— Oi, o que você tá fazendo em cima de mim?
— Você acabou de me chamar de gostosa, me ofereceu uma Devassa agora quer pagar de amnésico? Alô-ô! Cassandra Martel, filha de Conan Martel!
— Nunca ouvi falar nos Martel... Agora sai de cima de mim porque eu sou casado.
— Você me disse que era solteiro! — gritou Cassandra, esbofeteando-o — Ainda ousa mentir pra Cassandra Martel, dá licença! — Cassandra pulou de cima do Dr. Nichollas e saiu do bar. Seu amigo, Dexter, estava vindo em sua direção.
— Pegando de novo, Nick? — levantou as sobrancelhas para o Dr. Nichollas.
— Não peguei ninguém, e essa Cassandra é maluca.
— Cara, você não se lembra de que beijou o Newton hoje mais cedo? — Dexter estalou os dedos no rosto do Dr. Nichollas.
— O quê?! Cara, você é maluco igual àquela Cassandra Martel. Eu nunca faria isso com o meu melhor amigo. — O Dr. Nichollas levantou os olhos e começou a ler a revista que estava num banco do seu lado — Além do mais, a Emmaline é a única pessoa com quem quero ter amor eterno.
— Tá bom, se você diz...
Passarem-se algumas horas. Anoiteceu e o Dr. Nichollas e o Dexter foram para suas casas. Quando o Dr. Nichollas chegou a sua casa, bateu a porta, e foi recebido com um abraço por Emmaline, que, sorridente anunciou:
— Amor, eu consegui uma viagem para Jersey City!
— Não acredito Emma! Sempre foi o nosso sonho ter uma lua de mel lá!
— Agora vamos ter Nick! Reservei uma vaga no The Plaza Hotel, um dos melhores hotéis de Jersey City! Vamos ficar lá por cerca de um mês! Tempo suficiente para visitar o Sapthagiri! Nós partiremos amanhã, pode levar um dos seus amigos se quiser.
— Certo, amanhã eu ligo pro Dexter.
Mais tarde, o Dr. Nichollas ligou para o Hospital St. Connell pedindo licença, pois estava com câncer e porque iria viajar no dia seguinte. No dia seguinte, logo ao acordar, o Dr. Nichollas ligou para Dexter.
— Alô? — falou Dexter.
— Dexter? Bem, hoje eu vou viajar com a Emmaline e ela me deixou convidar um amigo, aí eu pensei em você. Pode vir aqui de malas feitas? Vamos ficar um mês lá.
— Sério? Ok, eu estarei aí em quinze minutos. Falou Nick! — e Dexter desligou o celular.
Dezessete minutos depois, chegou Dexter, com duas malas e uma gaiola. Emmaline e Nichollas olharam um para o outro, assustados.
— Que foi? Eu tinha que trazer o Barão comigo na viagem! — Barão era o hamster de Dexter. Era gordo, branco e tinha olhos azuis. Em toda viagem que fazia com o Dr. Nichollas, ele tinha que levar esse hamster.
— De forma alguma, está bem. Emmaline, já pôs suas malas no carro?
— Sim, todas.
— Vamos ver se vão caber duas malas gordas no porta-malas. Se não couber, o dono leva na mão, o que acha Emma?
— Acho que é uma atitude certa, sem dúvida.
Tudo ficou direito, normal, no lugar certo, encaixado. Eles viajaram de carro. Sabiam que a viagem iria ser longa, portanto, teriam de adormecer ao anoitecer. Conversaram bastante no carro, eles riram, um guarda chegou a multá-los pela alta velocidade — o Dr. Nichollas dirigia em 80 km por hora, e a placa dizia 50 km por hora — e a multa não foi nada barata. Anoiteceu e o Dr. Nichollas parou o carro, estacionou-o num estacionamento ali por perto e os três dormiram dentro do carro. O primeiro a acordar — obviamente — foi o Dexter, que ligou o rádio em um volume altíssimo para acordar Emmaline e o Dr. Nichollas. Eles acordaram dando um pulo, e quando começaram a dirigir se deram conta de que estavam quase chegando à Jersey City. Era possível ver o movimento dos carros e das pessoas exatamente de onde estavam. Quando viram tudo de perto, ficaram maravilhados, exceto pelo bandido que assaltava um banco ali por perto.
— Aqui é tudo lindo! Ah, e olha ali o The Plaza Hotel onde eu reservei os nossos quartos, Nick!
— Posso ver que é mesmo muito bonito! Vamos direto pra lá, pegar a chave dos nossos quartos e depois vamos àquele restaurante que você me disse, o Sapthagiri.
— Ele só abre à noite, Nick. Vamos ter ficar um bom tempo no hotel.
— Será que algum de vocês se lembrou que Dexter Collins está aqui?! — Dexter levantou os olhos para Emmaline e o Dr. Nichollas — Não pensem somente por vocês.
— Foi mal aí, Dexter. Emma, você incluiu três vagas ou duas?
— Bem... — hesitou Emmaline — Não achei que traria o Dexter conosco, então eu só reservei duas vagas. Mas o Dexter pode arranjar uma vaga. Nesses tempos, o The Plaza Hotel fica meio que vazio, então é provável que ele consiga um quarto.
O Dr. Nichollas, Emmaline e Dexter pararam o carro no estacionamento do The Plaza Hotel, foram até a recepcionista e pediram sua vaga, exceto Dexter, que tinha que registrar sua vaga. Os quartos do hotel eram todos iguais, exceto pelas camas, algumas eram de casal, outras de solteiros, outras com esses dois tipos de cama. Mesma tintura de parede, mesmos móveis — exceto pela madeira, algumas eram claras e outras negras — mesmos lençóis, coxas e afins.
Ao anoitecer, o Dr. Nichollas, Emmaline e Dexter foram de carro até o Sapthagiri, um restaurante poliglota, servia comida francesa, italiana, inglesa e brasileira. Ao chegarem lá, arrumaram uma mesa vazia e se sentaram. O gerente, para a surpresa do Dr. Nichollas era Conan Martel, o pai de Cassandra Martel. Veio à direção do Dr. Nichollas, deu-lhe uma tapa nas costas e puxou papo.
— Olhe só, senão é o Dr. Nichollas Conway! Minha filha falou-me muito de você. Você trabalha no St. Connell, não é?
— Sim, Sr. Martel. Esta é Emmaline Lancaster e esse é Dexter Collins.
— Prazer, Srta. Lancaster e prazer, Sr. Collins. Nichollas, eu tenho uma proposta para lhe oferecer! Pode me dizer, Sr. Martel.
— A sós, por favor, vamos ao meu escritório. — disse Conan, e levou o Dr. Nichollas até seu escritório por trás das cozinhas do restaurante.
— A proposta é a seguinte: você provavelmente deve se sentir muito cheio por ter se casado com essa loira magricela. Então, peça a mão da Cassandra em casamento, e, você seria bilionário! Você iria gostar da Cassandra, todos os homens se fissuram nos peitos dela.
— Me desculpe Sr. Martel. Mas eu não estou cheio por ter me casado com a Emmaline. Ela é o amor da minha vida. Eu nunca a trocaria por ninguém. Nem pela sua filha Cassandra, sinceramente, ela é maluca.
— Pensei que aceitaria a proposta, Sr. Conway. De qualquer forma, você não me deixa escolha. Cassandra! — chamou Conan, e Cassandra saiu da porta segurando uma arma e uma faca. Esta agarrou o pescoço do Dr. Nichollas e apontou a faca para seu pescoço. — Seu amigo Newton me contou sobre seu câncer. Se você não morrer de câncer, vai morrer esfaqueado. Ou talvez, esquartejado.
— O senhor não pode me ameaçar assim! — gritou o Dr. Nichollas.
— Posso sim. Eu tenho poder, esquecer? Dinheiro, fama, mulheres, tudo ao meu alcance.
No próximo segundo, o Dr. Nichollas atirou a mão sobre o rosto de Cassandra, apoderando-se da faca que esta segurava. Atirou a arma contra a janela, e apontou a faca para Conan.
— Você está certo, eu tenho câncer. Mas isso não altera o fato de que eu posso estraçalhar a sua cara e enterrar aonde ninguém nunca te ache. Que tal?
— Saia já do meu restaurante, e leve sua família imunda com você! — gritou Conan e logo após, o Dr. Nichollas saiu do restaurante junto com sua família sem pagar a conta e eles foram para outro restaurante, Jersey Kit Chen.
— Por que saímos do Sapthagiri, amor?
— O Conan Martel pediu-me para eu pedir a mão da filha dele, Cassandra Martel, porque ele disse que eu me sentia cheio por me casar com você, referindo-se como loira magricela.
— Ê, Nichollas. Só você não sabia que Conan Martel manipula as pessoas. Ele é rico, sim, tem poder, sim, mas nada o impede de manipular os outros. A filha dele é até uma belezinha com aqueles peitos grandes, siliconados.
— Para com isso, Dexter. Ele me ameaçou de morte, só por eu negar.
— Quando sairmos do restaurante, que tal a gente ir para o parque esfriar a cabeça? Olhe só, já é meio caminho andado, você estava quase se esquecendo do seu câncer. Mas provavelmente o Conan deve ter lembrado você.
— Aquele vagabundo me lembrou! Desgraçado, eu queria enfiar a faca naquele coração de pedra dele! — todos os clientes olharam para o Dr. Nichollas quando ele socou a mesa — Não sei o que há de errado no mundo. Não sei o que há de errado com o destino e comigo!
— Querido, não há nada de errado com você. É que você só está um pouco alterado. Está com câncer e está irritado porque um remédio não pode curá-lo.
— Não é nada disso, Emma. É que sempre que estou no auge, em sempre algum obstáculo. Percebe isso? Acontece com todos e tudo.
A viagem à Jersey City que parecia ser agradável tornou-se um horror. O Dr. Nichollas recebeu ameaças de morte, foi obrigada a expulsar sua mulher e seu amigo do restaurante mais refinado de toda Nova Jersey. Quando o Dr. Nichollas pareceu estar se esquecendo do seu câncer, seu novo inimigo Conan Martel o lembrou. E nada naquele mundo podia mudar a reação do Dr. Nichollas. Dexter tentou animá-lo, mas não conseguiu. Emmaline levou-o a praça, mas não deu jeito. Ele continuou a socar o banco, a árvore e tudo o que ele mais gostava em toda a sua vida.
Depois de alguns dias de estada no The Plaza Hotel, Emmaline decidiu voltar para Fair Haven. O carro ficou um silêncio inerte. Os barulhos vinham das pedras fazendo barulho na rua. Naquele carro só se ouvia o vento do ar condicionado. Dexter tentou animar Emmaline e o Dr. Nichollas.
— Ah, qual é! A gente veio aqui pra se divertir! Não pra ficar nesse silêncio fatal! — Dexter apertou o botão do rádio — Relaxem aí com essa música!
Era uma música agitada, como se fosse um rock daqueles de estourar os tímpanos. Para piorar ainda mais, o volume estava no máximo. Emmaline tapou os ouvidos, mas fez força embora fosse ela quem estava no volante. O Dr. Nichollas parecia curtir, mas disfarçou também tapando os ouvidos. Dexter apertou o botão no rádio, transferindo para um canal de músicas católicas, e diminuiu o volume para um mais agradável.
— Isso que é música de relaxar, Dexter. — exclamou o Dr. Nichollas — Pode destapar os ouvidos, Emma.
— Nossa! Adoro essa música! Eu adoro tudo que é música católica. — Emmaline aumentou o volume no máximo e começou a cantar conforme a cantora.
Foram alguns minutos de diversão, quando o Dr. Nichollas começou a sentir dores fortes. Eles ainda estavam perto de Jersey City. Emmaline deu meia-volta e em alta velocidade foi ao hospital mais próximo, o Hospital St. Madeline. Dexter e Emmaline ficaram na sala de espera esperando notícias do Dr. Nichollas. Algumas horas depois, a enfermeira, com tom de tristeza anunciou:
— Ele... — hesitou a enfermeira — Faleceu. — Emmaline chorou bastante, se jogou no chão e começou a dizer coisas horríveis sobre sua própria vida. O enterro do Dr. Nichollas foi realizado no Cemitério Iracebeth C. Hoffmeister.
Alguns dias após o enterro, Dexter voltou para Fair Haven. Apenas Dexter, Emmaline pediu para uma empresa de mudanças transferirem seus móveis de Fair Haven para Jersey City. Ela queria ficar no mesmo lugar da morte de seu marido.
Dias depois, Emmaline encontrou um bilhete embaixo da mesa escrito pelo Dr. Nichollas.
Querida Emmaline,
Quando estiver lendo isso, eu, provavelmente estarei morto.
Queria lhe agradecer por ser uma ótima esposa que sempre esteve disposta a me apoiar, que sempre esteve disposta a fazer as pessoas mais importantes para você felizes. Você nunca deixou de me apoiar, nem agora, que estou morto, deitado num caixão de olhos fechados. Se puder, avise ao Dexter que ele também foi o meu melhor amigo em toda a minha vida. E peça por mim desculpas ao Newton e ao Sr. Madison.
Atenciosamente,
Seu Doutorzinho Corado.
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