Como parar um trem
1 PRÓLOGO - "Laura"
Notas iniciais
Eu estava andando pelas ruas em que ele costumava passar quando ele ainda existia, procurando por algum rosto parecido com o dele, alguém que tivesse a mesma altura e andasse com aquele jeito despreocupado, ou que pelo menos estivesse usando suas botas surradas. Aquilo era desprezível, mas era o que eu sempre fazia na data de vinte e nove de outubro, quando contabilizava mais um ano desde a última vez que o vira. Seus pais costumavam lamentar sua perda dez de novembro, mas para mim não fazia muito sentido. Eu o tinha perdido doze dias antes.
— Eu adoro esses cartazes que estão colando pela cidade — comentou Gabriela parando em frente a um poste onde tinha um deles grudado — São todos tão retrô e as mensagens são sempre tão autênticas, não é?
Ela estava comigo naquele dia porque sabia que eu queria estar sozinha. Para ela, meu desejo de solidão poderia ser suprido com uma boa companhia. A dela, é claro.
— Sim, são bem legais – concordei, olhando para os lados, sem dar atenção.
— Você é o trem que se chocou contra o meu coração. – disse ela.
— O que disse?
— “Você é o trem que se chocou contra o meu coração”. É o que diz o cartaz. Dá pra parar de fingir que ta prestando atenção em mim?
Ela queria atenção até naquele dia. ELA não podia prestar atenção naquela rua bem onde estava a droga do poste com a droga do cartaz colado, e desenterrar as velhas lembranças de nós duas e o garoto com quem andávamos a quatro anos atrás, passando por ali e rindo do que costumávamos rir, ignorando nossas diferenças.
— Desculpe. “Você é o trem que se chocou contra o meu coração”, certo? – Perguntei enquanto observava o cartaz, fingindo novamente — É o verso de uma música da Bat For Lashes. Nem tão autêntico assim.
— Mas é claro que é. – retrucou ela – Quem conhece essa banda?
Meus olhos se reviraram instantaneamente.
— É uma ótima CANTORA. Todos deveriam conhecer.
— A frase soa poética, apesar de dramática. E o verdadeiro amor não seria tão "desgovernado" para colidir.
— Nem sempre. – discordei.
— Quer ser do contra, não é, querida Sam? Então tomara que você encontre alguém para se chocar contra o seu coração – disse ela rindo.
“Eu encontrei”, pensei comigo.
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