Como fogo
1 Capítulo único
A bola de cristal rolou pelo chão sujo do lugar enquanto gritos de descontentamento vinham da boca da mulher que não aceitara o destino a qual fora consultar.
— Você só pode ser louca. Exatamente como todos dizem. Não sei por que vim a este lugar. Não sei por que me rebaixei a isto. – O leque já estava aberto em sua mão esquerda e agora seu tom de voz estava mais controlado. – Eu te pedi uma poção para que pudesse dar ao meu marido o filho que ele tanto deseja e você me vem com estes devaneios. Você pagará por isso bruxa maldita. Vai se arrepender quando estiver queimando na fogueira que farei questão de armar em praça publica.
— A senhora mesmo viu o que o destino lhe reserva madame Julieta. Não crio destinos, apenas os interpreto para ganhar a vida. – A jovem bruxa a encarou com desprezo. – De fato seu destino é bem confuso e as linhas ainda não foram completamente traçadas, mas algo é certo, a amante de seu marido está grávida e o filho nascera na próxima lua crescente. Repito, seu destino se resume a três opções. – A garota magra se levantou sem sair do lugar ficando assim com o olhar emparelhado a pomposa senhora que abanava o leque desajeitadamente. – Primeira, ser abandonada e viver à custa de seu marido como uma antiga amante, segunda, criar esta criança como sua, já que foi incapaz de gerar uma e aceitar aquela mulher dentro da sua casa ou terceira... – Mas antes que pudesse concluir o leque a acertou em cheio na bochecha esquerda e Julieta já estava novamente aos berros.
— Então se contente com seu destino bruxa cretina. – O peito subia e descia com rapidez. – Amanhã há esta hora, seu corpo estará desfigurado e exposto na praça central e eu estarei aplaudindo de pé sua morte. Não trace planos para esta noite, porque a guarda lhe fará uma visita e toda a cidade lhe esperará com belas chamas reluzentes. – Com essas palavras a mulher passou as mãos pelo pesado vestido e saiu da pequena cabana no meio da floresta gritando. – E não pense em fugir, todas as saídas da cidade estarão bloqueadas.
O que a jovem Joana ouvira tantas vezes de sua avó agora fazia completo sentido. Pessoas sem nenhum tipo de poder extraordinário realmente não usavam sua mente de forma apropriada. Em outras palavras, eram completos ignorantes.
Em pleno tempo de caça as bruxas e eles ainda não haviam aprendido que todo aquele show de fogos no meio da praça não surtia o mínimo efeito. Até mesmo uma bruxa inexperiente conseguiria se safar de uma fogueira sem qualquer tipo de dano. Seu poder a protegeria sem que ao menos precisasse se mover. Assim como em casos de afogamentos e enforcamentos. O que funcionaria se bem executado seria a decapitação, porem nenhuma bruxa em sã consciência esperaria isto acontecer, as coisas teriam de ser tramadas com cautela e para que dessem certo, teriam que surpreendê-la. Mas Joana havia escolhido aquele pequeno vilarejo justamente por isso, aquelas pessoas não ofereciam perigo, pelo contrario, o máximo que fariam era um show de fogos que ela faria questão de apreciar.
Arrumou a bagunça que aquela senhora pomposa havia feito em sua cabana e deixou separado a sombra de uma árvore tudo que precisaria levar para a nova cidade. Este era um pequeno acordo entre as bruxas daquele país, caso algo desse errado elas forjariam uma morte majestosa e se mudariam sem deixar rastros. Ao contrário das jovens meretrizes que eram acusadas injustamente de bruxaria e queimadas vivas por tentarem ganhar a vida da forma mais suja existente.
Em dezenove anos aquela era a sétima vez que Joana se mudava e estava cansada disto. A única coisa que passava por sua cabeça era incendiar aquela cidade e ver os corpos se balançando ao ritmo do fogo enquanto tudo era convertido em pó.
Joana vestiu a roupa que costumava usar quando era queimada e aguardou o cair da noite que como previa, trouxe vários policiais da guarda montados em seus cavalos bem escovados que traziam consigo uma pequena jaula sobre rodas.
Sorriu baixo ao notar o quão ridículo era pensar que aquilo conteria uma bruxa. Se quisesse teria matado madame Julieta antes mesmo da mulher pensar em denunciá-la e mesmo que a deixasse fazer isto, acabaria com aquela guarda mal preparada somente com um feitiço simples e aquela jaula improvisada com madeira e ferro não seria empecilho nem para um simples ladrão de leite.
Se não fosse aquele maldito acordo, ela poderia facilmente escravizar todo aquele pobre vilarejo e viver como bem quisesse, sem precisar se esconder e se submeter à vontade daqueles vermes inferiores.
Bufou baixo e não esboçou nenhuma reação enquanto era algemada e jogada por entre as grades.
O caminho sinuoso até a praça fez com que Joana quase perdesse a paciência, mas finalmente eles chegaram ao local antes que ela acabasse com todos ali.
A praça estava ocupada por quase toda a população do lugar e bem ao centro se encontrava um amontoado de madeira e capim com um enorme mastro ao centro onde Joana foi amarrada. Por entre a multidão pode ver madame Julieta se abanando freneticamente com outro de seus intermináveis leques e um sorriso sarcástico brincou em seus lábios quando percebeu que o olhar da jovem bruxa havia cruzado com o seu. Porem os lábios de Joana também se converteram em um sorriso zombeteiro quando percebeu o quão feliz aquela senhora estava ao lhe ver naquela situação. Quando madame Julieta percebeu aquele sorriso a confusão ficou clara em seu olhar e Joana reprimiu a vontade de gargalhar quando moveu os lábios lentamente sem emitir nenhum som para que somente a pomposa Julieta recebesse sua mensagem.
— Romeu a tem em sua cama. – Cada silaba foi dita pausadamente e o sorriso se alargou no rosto dela enquanto via a confusão dar lugar ao desespero no rosto da rechonchuda mulher que saiu esbarrando nas pessoas a sua volta e nem se preocupou em presenciar o fatídico momento em que a primeira chama atingiu o emaranhado de madeira e capim fazendo com que a população ficasse extasiada.
Julieta chegou em casa respirando com dificuldade por ter andando tão rápido e sua situação piorou quando subiu a escada que dava acesso ao segundo andar onde se encontrava seu quarto. Abriu a porta com um baque ensurdecedor e arregalou os olhos quando se deu conta do que aconteceria a seguir.
Joana se divertia com o calor que subia gentilmente por seu corpo e apreciou por alguns instantes a cor única que o fogo ostentava; porem se concentrou no destino que havia traçado para aquela mulher que ousou lhe afrontar mais cedo.
Era inevitável que aquela pobre meretriz tivesse a criança. O destino dos dois já estava traçado e nada que ela fizesse mudaria isso, porém ao ser amaldiçoada, Joana não pôde deixar de amaldiçoar de volta. Com um pouco mais de concentração e o auxílio da erva que grudava nas vestes de qualquer pessoa que cruzasse a porta de sua cabana a pequena bruxa conseguia ver e sentir o que aquela impetuosa madame via.
Joana se deliciou ao ver o desespero de Julieta ao abrir a porta do quarto e encontrar o marido com a jovem meretriz que lhe foi apresentada mais cedo. Sorriu ainda mais ao ver a barriga já saliente que a mesma ostentava. E seu sorriso quase tomou conta de seu rosto quando o marido segurou madame Julieta firmemente pela cintura com o objetivo de ganhar tempo para que a grávida se vestisse de forma precária e saísse dali.
— Então tudo que aquela bruxa infeliz falou era verdade! – Julieta colocou toda sua raiva naquelas palavras. – Você realmente espera um filho com outra mulher.
— E o que você esperava que eu fizesse Julieta? – O homem precisava empregar mais força toda vez que a mulher sacudia o corpo em seus braços. – Você é seca por dentro, assim como é por fora. Eu preciso de um herdeiro e se você não é capaz de me dar, não vou continuar te aturando em minha casa.
— Minha casa. – Gritou. – Esta é a casa que meu pai deixou para mim.
— E eu como seu marido sou atualmente o dono deste lugar. – Romeu fez com que sua voz fosse mais alta. – Se você não concordar com isso, pode ir. De forma alguma vou me importar se você se for.
Julieta deixou com que o peso do corpo vencesse e quase levou Romeu ao chão quando se entregou.
Joana sorria abertamente por entre as chamas e embora ninguém ali conseguisse ver, se pudessem, a achariam louca.
— Então aquela bruxa maldita estava realmente certa. – Balbuciou. – Você realmente planeja me deixar.
— Você está doente Julieta. Ninguém te aguentaria tanto tempo quanto eu aguentei. – Cuspiu as palavras. – Você é louca e mais ainda por acreditar em bruxas. – Se esforçou para fazer com que Julieta ficasse firme no chão novamente. – Aquela garota esta queimando em praça publica neste momento por sua culpa. Aposto que ela é uma charlatã que simplesmente lhe disse o que as pessoas a sua volta não têm coragem de lhe dizer. – A jogou de encontro à cama e caminhou lentamente até a porta. – Que você é oca por dentro e continuará sendo até que a morte preencha este vazio quando vier lhe buscar. – Romeu bateu a porta atrás de si e o som da chave sendo girada pode ser ouvido.
Com o baque madame Julieta havia derrubado duas das três velas que estavam na mesinha próxima à cama e as chamas na colcha da cama já estavam consideravelmente altas quando a mulher percebeu o que estava acontecendo.
Correu rapidamente até a porta, mas todo seu esforço foi em vão, pois não tinha força suficiente para arrebentar a tranca. A janela era uma opção inviável, pois teria de passar pelas chamas e de qualquer forma a queda do segundo andar tiraria sua vida. Usou toda a força que tinha para pedir por socorro, mas toda a cidade estava contemplando outro acontecimento.
Joana sentiu uma paz reconfortante ao sentir o sofrimento da mulher traída que agora era consolada pelas chamas assim como ela. Porém as chamas eram amigas da bruxa, enquanto maltratavam madame Julieta que mais tarde seria lembrada apenas como a mulher oca que se matou ao descobrir a traição do marido insatisfeito.
Joana gargalhou com este pensamento e a platéia a sua volta se arrepiou com aquele som.
Se madame Julieta tivesse esperado a terceira opção, talvez seu destino pudesse ser tratado de forma diferente. Talvez aquela terceira opção que contemplava a morte poderia ter sido usada de uma forma diferente, mas tudo que ela fez foi praguejar e escrever as linhas de seu próprio destino com sangue.
Quando a população percebeu o pequeno incêndio na casa do casal mais importante da cidade já era tarde demais. Romeu já havia fugido com a mulher grávida e Julieta já estava praticamente consumida pelas chamas, mas antes que seus olhos se fechassem de vez, Joana se soltou daquele frágil mastro e a visitou em seu desespero pela ultima vez antes de partir para sempre daquele lugar.
Notas finais
Mas de qualquer forma espero que gostem.
saams
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