Notas iniciais
Esta é a história de Sal e Olívia e Eduardo.

Meu nome é Sal. Não sou humano e não existe palavra no vocabulário humano que possa me definir. É como fazer um surdo entender o som ou um daltônico ver todas as cores.

Ninguém me conhece, mas todos conseguem me sentir. Não sou um espírito, um fantasma, muito menos um demônio. Eu sou um ser, eu existo, caso contrário esse texto não existiria. Não tenho corpo, mas eu existo.

Às vezes, sopro brisas que ninguém entende de onde vêm, escondo objetos que ninguém sabe como sumiram e faço coisas que as pessoas dizem que foi o destino. Vago pelo mundo e assisto a história das pessoas. Gosto de tocar no rosto delas. Às vezes, elas sentem um arrepio, mas nunca sabem que sou eu.

Não sei exatamente como surgi. Talvez alguém tenha me criado, talvez não. Podem existir outros iguais a mim, mas não conheço. Apesar de poder tocar levemente as pessoas, é difícil me comunicar. O máximo que consigo é soprar pensamentos na cabeça das pessoas. Quando alguém morre, gosto de ser aquele que entrega a notícia. Talvez tenha sido eu te chamando quando você achou que ouviu a voz de um conhecido.

Sou completamente fascinado pela tristeza e pela alegria, pois não consigo senti-las como as pessoas sentem. Não consigo ficar feliz por visitar um parque de diversões, viajar, ter um filho ou arrumar um emprego. Não consigo ficar triste quando alguém morre, pois isso não é de todo mal. Estou nesse planeta há tanto tempo e já me cansei de existir sem saber quando partirei ou se partirei.

Ter raiva para mim é fácil. Se solitários são mestres em senti-la, imagine um solitário que já presenciou de tudo. Vivo a injustiça, a pobreza e o abandono. Já vi cenas de estupro e já provoquei a morte de um assaltante, fazendo-o perder a cabeça. Já enlouqueci e passei dias e dias assistindo o sol nascer e se pôr, até o tédio chegar.

O tédio é o maior monstro que existe. Se houver um criador, tenho quase certeza de que ele criou isso tudo para sair do tédio. É uma tortura viver na solidão sem escapatória.

Minha especialidade é farejar o amor. Como a maioria dos casais acabam com uma relação cansada, sem alegria ou tristeza, é difícil correr atrás do amor, mas de vez em quando encontro boas histórias. A mais fenomenal delas foi a de quando eu me apaixonei. Como um ser imaterial solitário pode se apaixonar? Nem eu sei. Mas há grandes vantagens em não saber de tudo, eu garanto.

Quando eu estava caminhando pelas margens do rio Danúbio em Budapeste, parei perto do memorial "Sapatos no Danúbio", em homenagem aos judeus que foram fuzilados pelas costas naquele rio. Jogaram os corpos na água e tiraram os sapatos porque eram valiosos na época. Sessenta sapatos descalços, tão tristes, ao lado do grande e maravilhoso parlamento húngaro. A vida é cheia dessas ironias trágicas.

Olívia estava desenhando aqueles sapatos num banquinho ali perto, mas ela também desenhou as pessoas que estavam nele e inventou nomes para cada um deles. Geralmente, seres humanos olham para grandes multidões e enxergam manadas, Olívia via a humanidade no vazio. Fiquei fascinado por ela.

Decidi acompanhá-la até onde desse. Passei semanas ao lado dela. O tédio só chegava nas horas em que ela dormia, mas era até bonito vê-la dormir.

Olívia estava viajando pelo mundo, pois era herdeira de uma grande fortuna e não precisava trabalhar. Seus pais eram os principais acionistas de uma grande empresa de cosméticos e quando eles faleceram, ela vendeu sua metade da empresa para o irmão por vários milhões. Mesmo assim, Olívia só se hospedava em hostels baratos para conhecer os mais diversos tipos de pessoas. Nunca comia em restaurantes caros e preferia andar a qualquer outro meio de transporte. Pensando bem, acho que me apaixonei por ela por identificação.

Conheci os ciúmes quando a vi tentar fazer sexo com um homem que ela tinha acabado de conhecer em Roma. O álcool foi o catalisador, mas italianos sabem como usar o charme. Já tinha visto cenas de sexo de todas as formas e nunca me importei, mas daquela vez eu senti como se eu tivesse um corpo físico que estava agonizando em algum lugar.

— Smettila — sussurrei.

Acho que o italiano escutou eu pedindo para que ele parasse, mas continuou desabotoando sua camiseta.

— Smettila adesso! — sussurrei mais forte.

Repeti umas três vezes até que ele perguntou a Olívia se ela havia escutado. Repeti mais duas vezes e soprei bem forte até as janelas se abrirem. Soprei nos ouvidos dele. Depois de tantas intromissões, Giovanni não conseguiu mais seguir adiante. Fiquei feliz, mas depois tive remorso quando percebi que Olívia cogitou que o problema estava com ela.

Pelo menos voltamos aos costumes de sempre em que éramos só nós caminhando pelo mundo. No Japão, derrubei um prato no chão para avisá-la que tinha camarão, pois ela era alérgica pelo que eu tinha lido no papel escrito em sua carteira. Em Londres, fiz Olívia se perder em Brick Lane para se maravilhar com o grafite daquelas paredes. Caminhamos juntos pela China. Conhecemos muitos lugares e eu sussurrava palavras estrangeiras para ela não se perder de vez em quando, mas Olívia já sabia falar vários idiomas.

Quando ela conhecia alguém num desses hostels pelo mundo, era quando nos distanciávamos. Quando a chamavam para uma festa ou clube noturno, era a minha tristeza. Para alguém que nunca tinha experimentado o amor daquela maneira, foi brutal. Depois de oito meses sendo a sombra de Olívia, era difícil deixá-la beijar outra pessoa. Afastei pessoas dela mais de uma vez. Soprei pessoas para longe no intuito de tê-la só para mim.

Eu estava feliz, mas Olívia estava cada vez mais sozinha. Ela estava se tornando cada vez mais como eu. Pouco a pouco, Olívia foi saindo de casa cada vez menos. Em vez de desbravar o mundo, ela dormia e assistia televisão durante o dia inteiro. Com o tempo, já não era mais a Olívia que preenchia os sapatos vazios em Budapeste. Mas eu a amava demais e nunca tinha sentido o amor daquele jeito.

Soprei e abri a porta para ela sair, mas Olívia foi até lá e fechou. Estávamos no sul dá França e ela não tinha visto o mar. Em Portugal, nem pisou fora do quarto e já estava pensando em ligar para o irmão para abandonar aquela vida nômade.

Sem aguentar vê-la daquela maneira, decidi sair do quarto. Caminhei até o aquário de Lisboa e fiquei junto dos tubarões​. De dentro do aquário, avistei um homem escrevendo do outro lado. Cheguei perto dele e vi a poesia que ele estava escrevendo.

Por Eduardo Barbosa

O mundo é um aquário

Em que posso respirar

Mas em vez de vidros

Colocaram fronteiras

De alguma forma, era como eu me sentia. O mundo sempre foi um aquário para mim. Mesmo conseguindo ver tudo, não vivia nada.

Segui Eduardo pelo resto do dia. Sentei-me perto dele no metrô e no restaurante. Ao final do dia, ele resolveu descansar perto do Castelo de São Jorge. Subi o mais alto que pude e vi que o hostel em que Olívia estava ficava ali perto.

Não sei a que velocidade me desloco, mas nunca fui tão rápido. Rezando para que Eduardo não fosse embora, sussurei no ouvido dela.

— Castelo de São Jorge.

Acho que nunca sussurrei tanto, até fiquei cansado. Já estava triste, mas meia hora depois, Olívia se levantou e foi tomar banho. Saímos para caminhar e em cada esquina eu sussurrava a direção certa, fazendo parecer que era tudo ideia dela.

— Acho que a esquerda é mais segura — sussurei.

Dez minutos depois, chegamos ao local onde Eduardo estava. Por sorte, ele estava escrevendo​ no mesmo local. Fui até ele.

— Olha que mulher incrível — soprei.

Eduardo levantou a cabeça e a viu do outro lado. Ele enrugou a testa e voltou a escrever.

— Ela pode ser a mulher da sua vida — sussurrei mais uma vez.

Ele sorriu, como se o pensamento tivesse sido dele, mas deu de ombros e voltou ao seu caderno, como se fosse uma ideia impossível. Retornei até Olívia e resolvi tentar mais uma vez:

— Tem espaço naquele banco para desenhar.

Ela escutou e foi até lá. Quando vi os dois juntos, lembrei que sentir o amor era a minha especialidade. Vi que os fios dele ficaram arrepiados, e eu não tinha feito mais nada.

— Falas português? — ele arriscou.

— Um pouco.

— Seus desenhos são lindos.

— Obrigada. Também está desenhando?

— Não, sou jornalista. Estou a escrever poesias.

— Que interessante...

Eles conversaram por horas. Quando ela leu aquela poesia, sei que também se identificou. Eduardo a acompanhou até o hostel e a convidou para comer pastel de Belém no dia seguinte. Quando Olívia dormiu, vi que a vida estava voltando para aquele lindo rosto cheio de sardas. Ao mesmo tempo, senti que minha presença perto dela estava se acabando.

No dia seguinte, acompanhei os dois até a Torre de Belém. Como esperado, já não me encaixava mais lá, eu estava sobrando.

Não os acompanhei pelo caminho de volta. Subi até o topo da Torre e assisti o mundo de lá. Nem olhei para trás, mas sussurei adeus no ouvido dela quando me afastei. Fiz isso porque eu a amava.

Assisti o sol nascer e se pôr durante dias naquela torre. Era maravilhoso, mas o tédio acabou chegando.

Nunca mais os procurei, mas soube que tiveram filhos uns dez anos depois. Culparam o destino por estar no exato lugar em que deveriam estar, é claro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.