Como eu era... Antes de morrer!

2 Capítulo 2 – O Começo de Tudo


Notas iniciais
O capítulo ficou um pouco grande, mas espero que gostem!

Meu nome é Mônica de Souza Lins, sou filha de Ricardo Oliveira Lins e Lúcia Marques de Souza Lins. Tenho um irmão mais velho chamado Felipe – ele é um ano mais velho que eu, apenas e também é um dos meus melhores amigos. Atualmente tenho 16 anos, mas quando tudo aconteceu, eu tinha somente 14.

Começarei pelo dia de volta às aulas daquele ano. Era meu primeiro dia de aula no primeiro ano do Ensino Médio, então estava ansiosa. Ansiosa tanto por começar uma nova fase da minha vida, quanto por reencontrar meus melhores amigos e também observar os novatos. Era por volta de 5:30h da manhã, quando eu acordei gritando assustada. Olhei em volta e exceto pela luz da lua que adentrava o meu quarto, em razão da janela aberta, estava tudo escuro. Minha respiração estava irregular e meu coração batia acelerado. Passei as mãos pelo meu rosto e respirei fundo numa tentativa falha de conseguir me acalmar. Eu tremia. Sem muita demora, a porta do meu quarto se abriu e meu irmão entrou. Ele me olhava preocupado como sempre. Então ele sussurrou:

— Ei, Mô. O mesmo pesadelo de sempre?

Como eu ainda não conseguia me mexer direito e muito menos falar, apenas acenei confirmando com a cabeça. Ele respirou fundo, balançando a cabeça em negativa e veio deitar comigo. Era praticamente a mesma coisa todas as noites. Desde criança eu tinha o mesmo pesadelo: Eu estava na minha casa, tranquila, assistindo televisão, quando de repente tudo a minha volta começa a mudar e criar vida. A televisão se transforma em um monstro peludo com garras, péssimo hálito e começa a se aproximar de mim, deixando atrás de si um rastro de um líquido escuro que não consigo ver direito. O sofá se transforma em um bicho esquisito que me prende com aquelas mãos enormes e soltam ácidos queimando a minha pele, e então a porta abre e o cheiro que antes era horroroso piora 3 mil vezes, meus olhos ardem mais ainda e começam a lacrimejar e em meio as lágrimas eu tento enxergar quem está chegando. Quanto mais isso se aproxima, mais altos se tornam os gritos que me deixam arrepiada. Não consigo discernir ao certo como ele era, apenas posso dizer que era alto, com um manto preto enorme que lhe cobria por inteiro e não sei explicar direito, mas parece que os gritos vinham dele. Ah, e aquele cheiro horrível também. Quando ele está próximo o suficiente de mim, estica o seu braço (ou o que eu acho que seria um braço) direito em minha direção e eu começo a ficar sem ar, minha cabeça gira e dá pontadas, eu sinto uma dor terrível como se minha alma estivesse sendo forçada a sair do meu corpo por aquele estranho e então os gritos que antes vinham do manto dele, passam a vir de mim e no instante seguinte eu acordo assustada, tremendo, dolorida, como se tudo que tivesse acontecido no pesadelo fosse real. O problema é que de uns tempos pra cá, ele está ficando cada vez mais frequente. É como se meu subconsciente estivesse fazendo questão de não me deixar dormir.

O Felipe me abraçou e ficou fazendo carinho em mim e ficamos assim até o despertador tocar e estar na hora de levantar. Assim, o desliguei e levantei correndo. Desde que esses sonhos ficaram mais e mais frequentes, a hora de dormir é a pior hora do dia.

Tomei um banho quente, lavei meus cabelos, vesti o uniforme (uma calça jeans azul e a blusa do colégio) e calcei um tênis preto com cadarços coloridos. Deixei o cabelo solto mesmo, coloquei meus enormes óculos de grau, um pouco de perfume, peguei a mochila e um moletom e desci pra cozinha.

Meus pais já estavam sentados à mesa tomando o café, enquanto meu irmão preparava um daqueles lanches nojentos que a pessoa coloca tudo que tem na geladeira dentro do pão e que só ele conseguia comer.

— Bom dia, princesinha do papai! — Ele falou sorrindo e abrindo os braços. Eu sorri também e o abracei.

— Bom dia, pai! Bom dia, mãe! — Dei um beijo em sua bochecha e me sentei. Enchi um copo com suco de laranja e peguei um pedaço de pizza que tinha sobrado da noite anterior. Quando ia colocá-la na boca, senti um tapão na cabeça.

— Aí! Ficou doido, Felipe? Quer mesmo caçar essa briga comigo? Vou mesmo ter que te mostrar quem é a rainha aqui? — Falei meio irritada, meio rindo.

— Bom dia pra você também, pirralha! E nem vem com esse negócio de rainha, porque já te falei: você é no máximo a princesa da casa que, por sinal, por ser mulher e mais nova não vai assumir o trono. — Falou isso piscando pra mim e dando um dos seus sorrisos tortos.

— Vocês dois parem já com isso! Daqui a pouco começa aquela baixaria de ontem! — Minha mãe falou fechando a cara pra gente. O que apenas fez com que ríssemos. Na noite anterior, Felipe e eu começamos brincar de lutinha. Resumindo a estória, no fim das contas acabamos os dois engalfinhados no chão, eu com a unha cravada no braço dele, dando cabeçadas pra trás e ele me dando uma chave de braço. Quando minha mãe nos viu naquela situação, ficou como louca e xingou demais a gente, obrigando-nos a usar a blusa da reconciliação. Sim, é aquela enorme que tem dois buracos para passarem as cabeças e que de fato cabem duas pessoas.

Terminamos o café da manhã, despedimos dos nossos pais e fomos terminar de nos ajeitar pra sairmos. Felipe ficou meia hora só pra arrumar o cabelo, o que obviamente fez com que nos atrasássemos e tivéssemos que sair correndo pra chegar a tempo na escola.

— Anda logo, Ken!! Vamos chegar atrasados e o porteiro não vai nos deixar entrar!

— Relaxa, menina! O Diego vai dar carona pra gente.

— E por que o senhor não me avisou antes? — Olhei pra ele fechando a cara.

— Porque você não perguntou, uai. — Falou rindo em seguida.

Balancei a cabeça em negativa. O Felipe as vezes conseguia ser completamente irritante. Andamos mais um pouco e chegamos na casa do Diego, que já estava dentro do carro com seu pai. O Diego morava na mesma rua que a gente, só que algumas casas mais a frente.

— Bom dia, tio Dedé! Bom dia, Di! — falei entrando no carro e sorrindo.

— Colé, tio! E ai, brother! — Falou o Felipe, ao mesmo tempo que eu e também entrando no carro.

— Bom dia, meninos! Tudo bem com vocês? E com a família? — Disse o pai do Diego, enquanto nos olhava pelo retrovisor.

— Bom dia, Mô! — e piscou pra mim – Fala, fí! E ai. — Fez um cumprimento com o Felipe.

— Estamos todos bem, tio! Ah, e obrigada pela carona! — Respondi sorrindo. Ele acenou com a cabeça. O Diego e o Felipe começaram a conversar sobre como tinham sido as férias dos dois e eu acabei cochilando enquanto os ouvia.

Acordei de sobressalto, caindo pra fora do carro porque o Felipe fez o favor de abrir a porta do lado que eu estava encostada. Ele e o Diego começaram a rir alto, enquanto eu, de reflexo, batia a mochila no Felipe.

— AI! Sua louca! O que eu fiz agora? — ele reclamou, passando a mão em cima de onde eu o tinha acertado.

Eu o ignorei, fechei a porta do carro, dando um tchauzinho pro tio Dé e me virei ajeitando a mochila nas costas, pronta pra entrar no colégio. Nesse momento, o Diego passou o braço em volta dos meus ombros, aproximou a boca do meu ouvido e perguntou:

— O que você tem, hein?! Está mais sem paciência do que o normal. — E me deu um beijo na têmpora.

— Não sei, Di. Não dormi direito essa noite. Deve ser o sono. — Falei dando de ombros e ele não retrucou. Ele sabia como eu ficava quando não dormia direito.

Fomos andando em direção a porta principal do colégio, quando escutamos um:

— SEUS PUTINHOS!!! QUE SAUDADES, CARA! — E quando nos viramos, ela já estava em cima da gente, pulando e se jogando, de forma que foi inevitável a nossa queda. Ela em cima do Diego e ele em cima de mim. Todos a nossa volta começaram a rir e eu a rir e a ficar sem ar ao mesmo tempo, porque, nossa senhora, como eram pesados aqueles dois. Comecei a empurrar e pedir pra saírem de cima, mas quanto mais tentavam, mais se embolavam e caiam de novo, já que também não paravam de rir.

— Segura minha mão, menina! — Escutei a voz do Felipe e pude notar que ele estava rindo. Graças aos céus, não demorou muito e todos estavam de pé, menos eu que tentava parar de rir e respirar devagar.

Quando finalmente consegui parar de rir, me levantei e comecei a me recompor.

— Muito obrigada, Mel! Realmente estava precisando disso pra tornar o primeiro dia de aula ainda mais especial. Estava aqui preocupada com o que eu iria ter que fazer pra não passar despercebida! — Falei fingindo estar brava, mas, na verdade, estava morrendo de saudades dessa vaquinha.

— De nada, amiga! Não precisa agradecer. Sabe que como sou uma ótima amiga, né, até passo vergonha pra te ajudar, fofa! — Ela falou rindo.

— Aham. Claro, falsa.

— Own, bonitinha! Vem cá, vem! Que saudades que eu tava desse mal humor logo cedo! — Falou andando na minha direção, na intenção de me abraçar. Tentei desviar e acabei esbarrando em alguém e novamente la estava Mônica no chão.

— Fala sério! Vocês combinaram de me derrubar hoje, só pode! — Enquanto tentava sair de cima da criatura.

— Ei, você quem me derrubou! — E nesse momento eu travei. Parei por completo. Não sei explicar exatamente o que aconteceu, só sei que meu corpo inteiro se arrepiou e eu simplesmente soube que eu estava completamente ferrada. E então eu tive a brilhante ideia de simplesmente fingir de morta. Isso mesmo. Eu permaneci com os olhos fechados – uma vez que toda vez que eu caia, eu tinha a mania de fechar os olhos –, amoleci o corpo e fiquei la, inerte, com a cabeça tombada para o lado.

Então, começou a confusão de verdade. Alguém me pegou no colo e me colocou deitada no banco com a Melissa, e em seguida pude escutar o Felipe e o Diego chamando o menino pra briga e questionando-o a respeito do que ele tinha feito comigo. Ouvi o resto da nossa turma chegar e tentar separar a briga ou melhor tentar impedir que meu irmão e o Di avançassem pra cima do menino.

— Pssss, pssssss. — Fiz, tentando chamar a atenção da Melissa que estava totalmente focada na briga.

— Mônica! Você está bem!! — Eu confirmei com a cabeça.

— Então, que diabos você pretendia com…

— Mel, vamos sair daqui, por favor. Depois eu te explico. Só me tira daqui, por favor. — Ela pensou por um momento, balançou a cabeça negativamente, mas acabou concordando.

Saímos despistadamente do local e fomos correndo pra sala de aula. Não tinha ninguém la ainda – provavelmente estavam todos observando a confusão la fora –, nos sentamos no local de sempre (primeira e segunda carteira da fila da parede), e a Mel ficou me olhando com a cara fechada esperando uma explicação.

Quando eu ia começar a falar, graças aos céus, o sinal tocou e as pessoas começaram a entrar na sala. Ela me lançou um olhar que significava “Essa conversa não terminou. Você ainda me deve uma explicação e eu vou cobrá-la” e se virou pra observar quem chegava. Passei a observar também e chegamos a conclusão de que fora uns 2 ou 3 novatos, o resto era apenas mais do mesmo.

— Bom dia pras mais gatas do colégio! — O Rafael falou e já foi nos abraçando e sentando perto da gente.

— Que do colégio, o que?! Da cidade. Melhor, do mundo!! — Continuou o Guilherme seguindo os mesmos passos do Rafael.

— Nossa, o que vocês estão querendo, hein?! Pra que essa falsidade toda? Aposto que o favor deve ser bem grande porque falar que essas barangas são as mais bonitas do colégio? Mal, mal podem vir a ser da nossa rua, mas nem tenho tanta certeza porque ainda tem a gata da Gabi, a gostosa da Beca, a delícia da Juju, enfim… São tantas.. — Falou o João Pedro também imitando os meninos e completando o nosso grupo.

Pra não ficar confuso, vou explicar algumas coisas. O meu grupo de melhores amigos é formado por basicamente 10 pessoas, eles são: Guilherme, Rafael, João Pedro e Melissa, que estudam na mesma sala que eu; e, Felipe, Diego, Leonardo, Rebeca, Gabriela e Júlia, que estudam na sala do Felipe. Sim, somos uma turma enorme, mas acredite em mim nós realmente podemos nos considerar melhores amigos.

Outra informação importante: nós 11 nos conhecemos desde sempre. Moramos na mesma rua a vida inteira e a rua é nossa. Além disso, sempre estudamos no mesmo colégio desde pequenos, o que faz também com que o colégio seja apenas mais uma extensão da nossa casa. Nossos pais também são amigos de infância e moram naquela rua desde que eles se entendiam por gente. Então é como se fôssemos uma grande família.

— Ih, JP. Ainda não superou o fato da gente não te dar moral? Sério?! Achei que isso era trauma de infância, mas que já tinha passado. — Falei piscando pra ele, que como resposta, sorriu pra mim.

— Êh, vocês dois, hein?! O ano nem começou direito e já estão ai nessa implicânciazinha. Já falei o que eu acho, né?! Vocês vão definitivamente casar!

— HÁ HÁ HÁ HÁ, como se a senhorita fosse referência pra algo, né fia?! Vive soltando teorias mirabolantes e da conspiração por ai! — Falei fazendo com que os meninos rissem.

— EI, o que eu vi sobre as pirâmides do Egito serem na verdade grande Usinas Hidrelétricas não é teoria da conspiração e tenho certeza de que é verdade. — Ela completou em um tom ofendido que só fez com que ríssemos mais ainda.

Eu estava preparando uma resposta quando o professor de Física mais gato da história entrou na sala e obviamente todas as meninas se ajeitaram nas carteiras e ficaram em silêncio. O nome dele de verdade era Victor Espinoza Blanco, mas para os mais íntimos – ou pras meninas que se achavam mais íntimas – era só Apolo mesmo.

— Shhhhh, que o deus grego chegou! — fez a Mel, se ouriçando toda. Os meninos, por conseguinte, reviraram os olhos e eu não pude deixar de sorrir. Tanto pela reação costumeira deles, quanto pela beldade que estava assumindo a frente da sala e sorrindo pra mim.

— Bom dia, alunos! Tudo bem com vocês? Como foram de férias? Aposto que sentiram muita falta das aulas, não?! Sei que estão doidos pra aprender coisas novas! — Ele falou meio irônico, com um sorriso de lado que fez muitas das garotas suspirarem.

Um coral basicamente feminino se formou ao todas responderem juntas: “Bom dia, querido professor!!” e então começou aquele burburinho de sempre com todos contando ao mesmo tempo como tinha sido as suas férias.

De repente, todos pararam de conversar e aconteceu aquela cena típica de Chaves em que todos param de uma vez e uma voz se sobressai. E pra variar, a voz era a minha.

— […] COMERIA AQUELE BOMBONzinho todinho!

Todos na sala começaram a rir e brincadeiras como: “Ah, pode me comer todinho, Mônica! Por você até termino o meu namoro!” ou “Uhhh, esse ano ninguém segura essa Môniquinha!” ou até mesmo “Opa, pode vir quente que eu tô fervendo, gata!”, puderam ser escutadas em meio a toda aquela balburdia. Até mesmo o professor fez questão de participar:

— Nossa, Mônica! Nunca imaginei você ser uma pessoa assim, sempre te achei mais na sua, tímida. Quem diria, hein?! Mas bem que eu sabia que essa sua amizade com a Melissa ia acabar te deixando assim… Ela sempre foi uma má influência. — Ao terminar, ele deu uma risadinha marota fazendo com que todos rissem mais ainda.

— EI, eu estou aqui, sabia?! E pra constar, a Mônica é tipo aqueles memes do facebook em que a mãe da criança fala com ela pra não andar com fulano porque fulano é má influência, mal sabendo ela que é a própria Mônica quem comanda as influências.

Apolo se divertiu mais um pouco com a situação: eu completamente vermelha e a Mel fazendo bico. Logo depois, chamou a atenção dos alunos e disse:

— Bom, bom. Alunos, brincadeiras a parte, vamos começar a aula finalmente. Hoje nós veremos…

Nesse momento, eu estava pegando meus materiais na mochila, esperando o professor terminar a sua frase, quando de repente eu escuto:

— Licença, professor! Eu sou o aluno novo, Eduardo Campos Cavalcante. Desculpe o atraso, eu estava na diretoria resolvendo algumas coisas. — E quando ele terminou de falar isso, pude sentir seus olhos sobre mim. E se antes eu já estava vermelha, em razão das brincadeiras, agora eu deveria estar roxeando. Quando eu o conheci, na entrada do colégio, eu só havia escutado a voz, eu não tinha visto aquele corpo malhado, definido, perfeito. Nem aqueles olhos verdes esmeraldas. Nem aquele sorriso charmoso de lado com os dentes tão brancos que ele poderia ser o próprio Chip Skylark de Padrinhos Mágicos. Nem aquele cabelo liso preto, jogado pra trás e completamente desgrenhado. Nem aquelas covinhas fofas. Resumindo, eu não o tinha visto porque estava fingindo de morta, mas devo dizer que agora que o vi tenho a certeza de que o mundo é definitivamente injusto. Sério! O cara tem que ter aquela voz grossa e ainda ser gato desse jeito? Sério mesmo? Do jeito que é, aposto que dança, canta, cozinha, fala 30 línguas, sabe construir um robô, pilotar avião e é rico. Fui tirada do desvaneio quando escutei o Gui dizendo:

— Ou, esse não é aquele moleque que o Bro F e o Mano D estavam brigando hoje mais cedo, não?

— Ah, é ele sim! Como é mesmo o nome dele? E por que é que eles estavam brigando mesmo?

— Não lembro o nome, mas acho que era porque ele tinha feito alguma coisa com a Mônica. — Assim que o Rafa terminou de responder o JP, todos olharam para mim. E a Mel, em vez de ajudar, começou:

— E aí, miga. Vai fingir de morta de novo?

E a única coisa que me ocorreu fazer foi jogar o meu estojo no chão e enfiar debaixo da carteira, fingindo que iria pegá-lo. A Mel começou a rir enquanto os meninos começaram a perguntar o que tinha acontecido. Como eu não queria responder, tive a brilhante ideia de tirar tudo da minha mochila. Depois, colocá-la na minha cabeça e ainda fechar o zíper. E a única coisa que eu pensava era: Por favor, congele todo mundo, menos a mim! Pare o tempo e deixe que eu saia da sala despercebida! Por favor, por favor, por favor!

Bom, obviamente isso não aconteceu. Mas, o Gui se compadeceu com a minha situação e enfiou debaixo da mesa comigo. Ele calmamente foi abrindo o zíper e falando pra eu relaxar que ia dar tudo certo e tudo ficaria bem. Após alguns minutos, finalmente ele conseguiu tirar a mochila da minha cabeça. Nesse instante, ele me olhou com aqueles olhos incrivelmente verdes, se aproximou ainda mais e disse bem baixinho:

— Pequena, o que está acontecendo com você? Estou começando a ficar preocupado…

— Eu não sei. Não sei. Eu só preciso sair daqui! Por favor, Gui, me tira daqui! — Eu falei no ouvido dele, já começando a de fato ficar com falta de ar.

— Não se preocupe. Calma ai, que vou te ajudar! — olhei agradecida pra ele e o abracei apertado. Em seguida, ele se levantou e exclamou pra todos ouvirem:

— Professor, professor, a Mônica está passando mal! Ela está com… com… com.. DOR DE BARRIGA! Isso, dor de barriga. Daquelas bem pesadas que a pessoa não aguenta nem ficar em pé direito. — E apontou pra mim, encolhida no chão.

Ok, naquele momento eu quis matá-lo. Sério. A minha vontade era de dar uma voadora nele! Mas como eu não podia deixá-lo como mentiroso e ele estava estranhamente tentando me ajudar, eu acabei entrando na estória. Me levantei, coloquei a mão na barriga e a outra na bunda, fiz aquela cara de “Socorro! Saí da frente que eu estou cagando!” e comecei a falar:

— É verdade, Apol… quer dizer, Victor! Sério. Não aguento mais segurar. — então dei aquele grito básico do tipo “Aí, que dor!”. Ele me olhou meio desconfiado, meio assustado e falou:

— Quem sou eu pra ficar entre a senhorita e o banheiro! Pode ir, menina! E rápido, por favor. Não queremos uma tragédia aqui na sala. — Sorri em agradecimento.

— Muito obrigada, professor!

O Gui e eu começamos a caminhar em direção a porta, quando o professor o chama:

— Guilherme, aonde o senhor pensa que vai?

— Vou ajudar a Mônica! Ela não consegue andar sozinha.

— Há há há, muito engraçadinho o senhor. Senhorita Melissa, acompanhe a tua colega, por favor. Se necessário, leve-a a enfermaria.

Instantaneamente a Mel se levantou, soltou um “Sim senhor, senhor”, me pegou pelo braço e saiu correndo comigo da sala, provavelmente tentando acabar com aquela vergonha alheia.

Nós fomos em direção ao banheiro e ao entrar já comecei:

— Céus! O que eu faço com o Guilherme? Como assim “a Mônica está com dor de barriga”. Sério isso?

A Mel gargalhava alto dentro do banheiro, mal conseguia respirar. Quando finalmente conseguiu, disse:

— Ele só estava tentando te ajudar amiga.

— Eu sei, eu sei. Mas por que não uma dor de cabeça? Uma cólica? Tinha mesmo que ser dor de barriga?

— Fía, se não fosse isso, não seria você. De verdade! — Ela falou rindo e veio me abraçar. Eu acabei rindo com ela. O que eu poderia fazer? Minha vida era assim. Um mico atrás do outro. Já estava até acostumada.

Ficamos no banheiro até bater o sinal indicando o fim daquela aula. Íamos saindo do banheiro quando sem querer eu “esbarro” no Gui. Esbarro entre aspas porque ele já me conhece, sabia que íamos trombar então simplesmente desvio e me abraçou de lado.

— E então, pequena. Vai me contar o que diabos está acontecendo? — Ele perguntou baixo, só pra mim.

Junto com ele estavam o Rafa e o JP que acabaram por entreter a Mel. Quando eu abri a boca para responder, escutei um:

— Cadê a cagona mais meiga de todo o colégio? — Olhei em direção aquela voz e vi o Leonardo andando se aproximando jundo com o resto da turma. Com ele estavam Felipe, Diego, Gabriela, Rebeca e Júlia. Todos riam, debochando de mim.

Naquele momento, eu queria só arrumar um buraco pra enfiar minha cabeça e esconder eternamente. Depois, decidi fazer o que eu sempre fazia, ignorava a vergonha aguda e entrava na brincadeira.

— Eu mesma! — falei e comecei a apontar pra mim mesma, além de fazer caras e bocas e mandar beijinhos. Eles riram e eu também.

— Léo, larga de ser chato e para de implicar com a nossa Môniquinha! Vai que ela resolve imitar a Peppa Pig ai de novo?! — A Gabi falou fazendo com que todos rissem novamente.

— Nossa, vocês estão competindo pra ver quem é o mais engraçado e não me avisaram? Só pode! — Falei fazendo bico e todos reagiram soltando um “Ownnnn, tadinha!” coletivo, além de virem na minha direção pra apertarem as minhas bochechas e me abraçarem.

— Não liga não, Mô! Você sabe bem como são esses sagitarianos: perdem o amigo, mas não perdem a piada. — A Beca disse olhando de cara feia pro Léo. Ele devolveu a careta pra ela e voltou a conversar com os meninos.

— Ihh, já acostumei. Pra esse dai, eu nem ligo mais não. — Sorri sinceramente e ela devolveu o sorriso.

Nesse momento, o grupo se dividiu, como acontecia as vezes: os meninos se juntaram em um canto conversando sobre futebol e mulheres; e, as meninas conversando sobre como foram as férias e caras.

— E então, meninas, qual o saldo final, hein? Hein? Hein? — a Juju perguntou e a cada “hein”, ela levantava as sobrancelhas. Para constar, ela estava perguntando a respeito de quantos meninos cada uma tinha ficado nas férias.

— Ah, parei de contar no décimo. — Respondeu a Gabi, com um sorriso malicioso nos lábios.

Todas começaram a brincar com ela, soltando coisas como “Isso, não esperava menos de você, pequena gafanhota!”, “Nossa, Gabi! Como você consegue? Me ensina!”, “Quando eu crescer, quero ser igual a Gabi!” e “Menina, você é minha ídola!”. Ela entrou na brincadeira e começou a jogar o cabelo pra trás fazendo carões.

— Relaxem, meninas! Vou postar vídeo no youtube dizendo: “Gatas, no tutorial de hoje vou ensinar você a ser mais como eu!” — ela falou e gargalhou em seguida. Nós a acompanhamos. — Tá, tá, mas agora é a vez de quem? — Falou nos olhando e, por fim, escolheu a Melissa.

— Hum, é… OK. Vou dizer, mas não quero saber de zoações, viu?! — Todas concordamos. — Eu fiquei só com um.

Houve uma comoção geral e vários “O que?”s puderam ser ouvidos.

— Shhhhhhhh! Falem baixo, senão ele vai escutar! — ela falou olhando em direção aos meninos e isso só fez com que ficássemos ainda mais curiosas e boquiabertas. Na estória inteira de vida do nosso grupo, nenhum dos meninos tinham ficado com nenhuma das meninas.

Quando finalmente conseguimos nos controlar e fazer silêncio, ela disse baixinho:

— O Rafa e eu ficamos. Foi só uma vez, no ano novo e estávamos muito bêbados, nem sei se ele lembra, mas eu definitivamente lembro e não consigo tirar isso da minha cabeça.

Houve um “own” coletivo e uma sequência de beijinhos e abraços, além de felicitações. Ela estava começando a quebrar a barreira da friendzone e isso era demais.

— Ok, ok. Agora é a sua vez, Juju.

— Bom, eu também… Quero dizer, eu… O Diego… Nós… — E a medida que ela falava, ela ia ficando cada vez mais vermelha. E a Mel não aguentou se segurar:

— Ah, amiga!!! Você também! Que emoção! Nós duas conseguimos! — E abraçou a Juju e ficou pulando com ela. Acabamos nos juntando também e não demorou muito os meninos também estavam abraçados com a gente, pulando junto. Quando paramos, eles nos olharam e perguntaram em conjunto:

— O que foi isso?

Nós começamos a rir e o sinal bateu indicando a próxima aula. Então, fomos andando em direção a sala enquanto os meninos insistiam em saber o que estava acontecendo.

O resto do dia passou rápido e sem maiores acontecimentos. Na sala de aula, eu evitava ao máximo olhar na direção daquele menino, então realmente parecia que era a pessoa mais interessada na aula do mundo inteiro. Assim que as aulas acabaram, eu fui correndo em direção a porta para sair o mais rápido possível dali e, para variar, em vez de sair como uma pessoa normal, eu bate meu ombro com tudo no batente da porta. Meus olhos encheram de lágrimas e eu soltei um “Puta que pariu!”, o JP que chegou até mim primeiro perguntou como eu estava e fez uma massagem no meu ombro, me virando as costas em seguida, possibilitando a mim montar nelas.

Fui até a saída nas costas dele. Ficamos lá fora esperando o resto da turma e quando estávamos todos completos, fomos embora. O caminho até em casa foi divertido. Rimos e zoamos muito. Eu estava realmente feliz, sentia muita falta deles.

Quando chegamos na nossa rua, a medida que íamos passando pelas casas, o grupo ia diminuindo até que restarmos apenas o Fê e eu. Estávamos quase entrando em casa quando o Fê comentou:

— Ei, Mô! Parece que vamos ter novos vizinhos!

— Que? — Eu perguntei um tanto quanto indignada. A casa do lado da nossa era antiga e estava desocupada desde que me entendia por gente. Segundo meu pai, o dono dela era um velhinho muito bondoso, amigo do meu avô, que morreu anos atrás. O velhinho, não o meu avô.

— É, olha lá. Já estão até fazendo a mudança. — Ao terminar de dizer isso, o Fê acenou e gritou um “Não acredito que você é minha vizinha!”. Não sabia pra quem ele estava gritando, mas imaginei que fosse uma menina. Bem típico dele.

Cheguei mais para perto do Felipe e vi que uma menina andava na nossa direção. Ela era linda. Com certeza era modelo. E estranhamente aqueles olhos verdes me lembravam alguém. Eu não conseguia me lembrar quem, mas, com certeza, eu já os tinha visto.

— Oi, Fê! Tudo bom? Que coincidência, logo você ser meu vizinho! — A menina falou, estendendo a mão para o Felipe e me ignorando completamente.

— Ei! Tudo bem sim e você? Pois é! Quem diria, não é mesmo?! Além da mesma sala, ainda somos vizinhos! Ér, acho que vamos nos ver muito por esses dias. — Ele falou devolvendo o cumprimento e sorrindo.

— Parece mesmo! Mas ainda bem, porque assim pelo menos fica mais fácil de fazer amizade. Já estava preocupada em ficar aqui isolada e sozinha por não conhecer ninguém. — Ela falou sorrindo e mexendo no cabelo.

— Ah, pode ter certeza! Algo que me diz que seremos ótimos amigos. Ah, deixa eu te apresentar a fingida da minha irmã que causou todo aquele alvoroço quando nos conhecemos: essa é a Mônica!

Ele apontou para mim e eu dei um aceno.

— Ah, muito prazer em te conhecer! — Ela falou mais olhando para ele do que para mim. — Meu nome é Valentina! E eu também tenho um irmão, aquele que vocÊ derrubou hoje no colégio, sabe?! E antes que você me pergunte, não faço ideia de onde ele esteja. Talvez enfiado no quarto dele ou sumido pela rua, como sempre. — Como se eu de fato fosse perguntá-la por ele.

— Ah, eu sei bem como é isso. Tem dia que tenho que carregar essa dai a força pra rua, porque pelo que depender dela, ela não vê nem a luz do sol. — Ele falou apontando pra mim e dando corda pra garota.

— Ei, eu estou aqui, ok?! E o senhor está exagerando, pra variar! — Eu falei, mas a verdade é que eles não me escutaram. Estavam entretidos demais um com o outro para prestarem atenção em mim.

Então, apenas virei e sai entrando em casa. Mamis e papis não tinham chegado ainda e, por isso, o almoço não estava pronto ainda. Subi as escadas para ir pro meu quarto, fui ao banheiro, fiz minha higiene, coloquei uma roupa fresquinha e deitei na minha cama. Quando eu estava quase dormindo, ouvi um barulho esquisito vindo da árvore que separava a minha casa da casa vizinha. Levantei e num ímpeto de coragem me aproximei da janela para ver o que estava acontecendo.

A primeira coisa que eu reparei ao olhar pela janela foi a brisa fria que vinha; depois, a luz do sol reluzindo sobre algumas folhas de árvore e, por último, um garoto em cima da árvore. Mas não um garoto qualquer, era o garoto. Aquele que me fazia esquecer como respirar, que me fazia travar e fingir de morta, que fazia com quem todas as minhas terminações nervosas zumbissem, que me fazia ter frios na barriga que eu nem sabia que eram possíveis ter. O garoto que agora estava olhando pra mim com a testa franzida. E novamente eu reagi. Reagi da única forma que eu conseguia pensar, uma vez que meu cérebro parecia coberto por algum tipo de névoa que não me permitia formar meus pensamentos direito. Reagi fechando a janela e a cortinha, correndo pra minha cama e me enfiando debaixo das minhas cobertas. E fiquei lá, até ouvir o barulho das portas destrancando, das panelas mexendo e dos meus pais me chamando pra almoçar.

[...]

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.