Como estragar um casamento
7 Sexto passo
Notas iniciais
6° Faça o máximo de coisas possíveis para fazer o dia ser um fiasco.
Eu me sentei no banco de passageiro do Audi de Dean. Ele, porém, não começa a dirigir para casa, como pensei que faria. Ao invés, fica parado, com as mãos no volante e um olhar perdido. Fito a parede na nossa frente, me perguntando se tem algo de interessante nela, porém, não vejo nada.
— Teve... Uns ex de Liz que vieram. – Falou, em fim, após um suspiro. – E eles disseram tantas coisas horríveis sobre ela, Sarah. E, agora, pensando bem...
— Você está desistindo de se casar? – Perguntei, não contendo a minha própria língua. Sinto meu rosto queimar, tendo certeza de que agora ele irá associar tudo o que deu errado desde que cheguei, comigo.
— O quê? Não. Eles apenas comprovaram que a Elizabeth realmente mudou. – Falou Dean. E nesse momento eu odiei o quinto passo. Fala sério, eu aqui, querendo acabar com essa merda de casamento, e tudo o que faço é fortalecer ainda mais a relação dos dois? Santas divindades que os humanos acreditam, me acudam! – Quer dizer, ela nem ligou quando eu não dei nada pra ela no seu aniversário, porque estava sem dinheiro.
Com isso, ele dá partida no carro, e o resto do caminho é puro silêncio. E é isso. Eu fiz tudo o que podia, mas pelo jeito, não tem como acabar com esse casamento. Quando Dean para na garagem, saio do carro rapidamente. Dean vem atrás de mim enquanto subo as escadas até o meu quarto. Antes que eu pudesse abrir a porta, Dean me alcança, me segurando pelo pulso.
— Tá tudo bem? – Pergunta ele. E quero dizer que não, não estou bem, porque o cara que eu amei desde que tinha doze anos estava prestes a se casar com a garota que fez de toda a minha adolescência um lixo.
— Sim, só quero dormir. Não quero ter que sair do casamento por estar com sono. – Dou um sorriso. Dean me encara por um segundo, antes de me soltar e simplesmente sair para o seu quarto.
Entro no meu, visto meu pijama do Mikey Mouse que estava jogado no chão, e me deito na cama. Estou olhando para o teto a quase duas horas, quando Natalie entra em nosso quarto, e se troca, colocando o seu pijama.
— Ainda está acordada? – Natalie sussurra, se deita em sua cama, se cobrindo até o pescoço. Murmuro um “uhum”. – Então, o que houve com Dean? Eu fiquei naquele lugar chato apenas para vocês poderem, sabe, ficar sozinhos. Aconteceu algo?
— Não. Ele não desistiu do casamento. Estou pensando em desistir, sabe? Nada o convence de mudar de ideia. – Respondo, me virando na cama e ficando de frente para ela.
— Nem pense nisso, Sarah McCann. Eu vim aqui para ver um casamento sendo arruinado, e não aceito nada menos do que isso, ouviu? – Ela me repreende. – Eu não suportei aquela neurótica, com o cérebro do tamanho de uma tampa de garrafa, para nada. Pode ir tirando essa ideia da cabeça, OK?
Fecho os olhos, e durmo, pensando em pegar a minha agenda e adicionar o sexto passo a lista.
— Sexto passo. – Disse Natalie, assim que abro os olhos. Ela está sentada no puff de frente a minha cama, com a minha agenda na mão (eu não deixei) e uma caneta. – Faça o máximo de coisas possíveis para fazer o dia ser um fiasco. Parte um, vai ser uma grande clichê adolescente, vamos colocar pó de mico no vestido da neurótica.
— Eu fazia isso quando estava no quarto ano, Natalie. – Falo, revirando os olhos. – E, sério, ela pode simplesmente desistir... Ah, entendi.
Me levanto na mesma hora, e coloco um short florido e uma regata preta, e arrumo o meu cabelo. Natalie me espera pacientemente, batucando a caneta na capa da minha agenda, repetidas vezes. Quando termino, vamos tomar o café da manhã.
— Colin comprou já, sabe? Ele pediu para mim ir encontrar com ele às onze, e como o casamento vai ser as sete, acho que vai dar tempo. – Falava ela, enquanto desciamos a escada e dou uma cotovelada nela, a fazendo ficar quieta. – Calma, estou falando em códigos. Bem, será dividida em três partes, e...
— Isso não é falar em código, Natalie. – Resmungo, olhando irritada para ela. – É falar exatamente o que vamos fazer, omitindo algumas palavras.
Às onze, Natalie saí para ir se encontrar com Colin, e eu fico simplesmente analisando a lista até ela chegar. Segundo Natalie, há três passos para a gente completar o sexto passo, e o pó de mico é apenas o primeiro. Natalie volta perto da uma hora da tarde, e me mostra um pequeno recipiente. Pego na mão, e ela vai até o fim do corredor, ficando de vigia.
Sinto meu coração sair pela boca (não literalmente), enquanto vou até o quarto que Elizabeth divide com Dean. O vestido dela está escondido no closet, em um manequim grande. Suspiro, me aproximando. Abro o vestido, e jogo o pó de mico em lugares estratégicos, como onde ficará sua bunda, e axilas. E então observo o vestido. É bem bonito, as mangas são longas e rendadas, e ele é bufante, mas não muito. Coloco o frasco de volta no meu bolso e coloco a mão na maçaneta, no mesmo instante em que ouço Natalie falar.
— Hey, espera eu esqueci onde fica o banheiro. – Ouço ela gritar. Os passos, porém, não param. Pulo para debaixo da cama, e me encolho no mesmo instante em que Elizabeth abre a porta. Seguro a respiração. – Liz?
— Primeiro andar, quarta porta a direita. – Diz ela, bufando, e se sentando na cama, tirando os sapatos em seguida. A porta é fechada, e eu respiro fundo, sentindo minhas mãos tremerem. OK, preciso parar de respirar. Para.
Elizabeth se deita, e a cama abaixa um pouco. Merda. Eu não deveria ter escutado Natalie. Eu poderia estar lá na sala agora, com Dean, assistindo Bob Esponja. Ao invés, estou socada debaixo de uma cama, segurando a respiração, e com medo de ser pega. Isso não é ótimo?
— Liz? – A porta é aberta. – O que está fazendo dormindo? Se levanta, temos hora marcada no salão de beleza.
— Nossa, mãe, desculpa. Esqueci totalmente. – Disse ela, se levantando em seguida... Se abaixando. Me encolho ainda mais, como se isso pudesse fazer o momento de descoberta demorar mais. Vejo enquanto os joelhos de Elizabeth se dobram, e ela abaixa a cabeça, provavelmente a procura de seu sapato. Fecho os olhos.
— O que você está procurando, Elizabeth? Anda logo. – Resmunga sua mãe. – Coloca o sapato de vamos. Não precisa nem arrumar o cabelo.
Elizabeth volta a se levantar, e a caminhar. Me seguro para não dar um suspiro de alívio, enquanto a garota sai acompanhada da mãe. Sem perder tempo, me levanto e saio pela porta, olhando para o corredor antes. No mesmo instante que a fecho, porém, uma voz vem do final do corredor.
— Você estava no meu quarto? – Me viro, dando de cara com uma Elizabeth desconfiada.
— Não. O que eu iria querer no seu quarto? – Colocar pó mico no seu vestido de noiva, para acabar com o seu casamento? Não. É claro que não.
— Não sei. Me responda você, não era eu que estava lá dentro. – Retrucou ela. Arregalo os olhos. Merda.
— Eu não estava lá dentro. Estava procurando pelo Dean. Você o viu? Eu ia bater na porta, para ver se ele está por aqui. – Minto, gesticulando com as mãos. Elizabeth continua parecendo desconfiada, mas a sua mãe volta para me salvar.
— Elizabeth, vamos logo, pegue o seu celular. Dean está lá na sala, querida. – Disse a mulher, sorrindo para mim. Devolvo o sorriso, e vou para a sala, para disfarçar. Encontro Dean assistindo, e me sento do seu lado, não dizendo nada.
A segunda parte do plano era algo que Natalie iria fazer. Durante a tarde, algumas horas antes do casamento, Elizabeth foi tomar um banho de sol, alegando não querer estar pálida no próprio casamento. Observo pela janela da cozinha, que dá para a piscina, enquanto Natalie faz o que deve.
Ela caminha com uma bandeja de salada de frutas na mão, e Colin aparece, ajudando no plano. Ele está nadando, e Natalie “desvia” o olhar do caminho que está percorrendo, indo até o loiro. “Sem querer”, já que estava andando às cegas, ela acaba tropeçando e deixando toda a salada de frutas cair na cabeça recém feita no salão de Elizabeth. Corro para fora, verificando os resultados.
O creme de leite escorre pelo seu rosto e pescoço, e vejo frutas cortadas em cubinhos minúsculos e bem difíceis de serem tirados no seu cabelo, que está um horror. Evito dar risada, e olho para Dean, que está na mesma situação.
— Ai, meu Deus. Me desculpa, por favor. Foi sem querer. Colin, pare de nadar sem camisa! Liz, me desculpa. Eu te ajudo a arrumar de novo, se quiser. – Natalie fala, sem parar. Sinto o gosto metálico do sangue na boca, de tanto morder meu lábio inferior.
— Não. Eu dou um jeito nisso, obrigada. – Falou Elizabeth, pausadamente, saindo andando como um furacão. Natalie olha para algo atrás de mim, arregala os olhos, e então vem em minha direção, e me arrasta para dentro.
— Terceiro passo: Deixe ela sem carro. – Falou ela. Então, foi até a dispensa de Dean, pegou uma garrafa de vodka, e levou para o nosso quarto. Lá, ela ofereceu a garrafa para mim. – Você vai precisar.
Dou um gole rápido, e jogo o resto na pia do banheiro. Natalie volta a me arrastar até um quarto no último andar que, ao que tudo indica, está vazio. Então quebra a garrafa, e joga os cacos de vidro em cima do carro que Elizabeth vai usar para ir ao casamento, já que ficará até mais tarde aqui, se arrumando. Natalie me mostra um último pedaço, e volta a me arrastar para fora, colocando o pedaço em especial bem embaixo do pneu do carro.
Voltamos para dentro, e Natalie sorri.
— Você vai ficar com Dean. – Falou ela. A observo, confusa.
— O quê?
— Ele estava olhando para você. Sabe, quando você mordeu a boca, para não rir... E aquele olhar, Sarah, não era o de um amigo.
Fale com o autor