Como dizer adeus em robô

2 Sinais de problema: alguma coisa com Love Love Love


Eu sabia que o Clube de Teatro era praticamente dominado pela Sonserina, porque era uma das atividades mais tradicionais de Hogwarts. E, além do mais, existe casa mais performática que a Sonserina?


Quando pisei na sala de teatro, tinha plena consciência de que encontraria muita serpente mas ainda precisei de um momento parada na soleira da porta, cogitando a possibilidade de sair correndo antes que fosse notada por alguém.


Mas Malfoy foi o primeiro que me viu e, da onde estava, apenas riu.


Estava bolando estratégias para me livrar daquele Clube e estava quase voltando para a Grifinória para pedir para Harry me ensinar Quadribol, mas o barulho da porta se rangendo fez o professor, que estava lá no palco, parar de falar e olhar pra mim, chamando atenção de todos, enquanto eu via o sorrido debochado de Draco Malfoy ficar cada vez maior.


Nem nos meus piores pesadelos.


— McGonagall avisou que teríamos uma aula nova, mas eu suspeitei que desistiria antes. Estou bastante admirado com a coragem – o professor disse.



Tudo bem, nessa parte eu me surpreendi.


O professor era meio hippie e estava descalço, com uma calça larga e com vários cachecóis no pescoço. Numa mão ele tinha luzes e enfeites de Natal e, na outra, uma caneca escrita "Ringo".


— Achou que uma Grifinória desistiria? — ouvi Pansy Parkinson dizer, rindo.


— Dado o histórico das casas, as chances eram altas — o professor respondeu. — Pode entrar, minha querida!


A sala toda ficou em silêncio esperando eu dizer alguma coisa.


— Ah… – comecei falando, belo começo – Sou Hermione, Hermione Granger. A Profª McGonagall me mandou aqui porque…


— Não seja boba, sabemos quem é. E McGonagall certamente te mandou aqui porque você precisa de alguma atividade extracurricular — o professor dissera — Ela diz isso pra todos. Lembro da minha época de Hogwarts quando comecei fazer teatro porque precisava de extracurricular, mas acabei reprovando – então ele se virou pra mim gesticulando:– Professor Ringo David Sutcliffe Bowie. Me chame como quiser. O que está fazendo aí ainda? Junte-se ao elenco!


Novamente eu pensei em recuar. Ouvi uma risada debochada e percebia alguns olhares irônicos pousando em mim, como quem diz “como ela ousa?”. Me sentei na primeira poltrona que vi antes que desistisse, empinando o nariz, lembrando todos eles — e talvez eu mesma — que eu era da casa dos corajosos.


— Sinto que esse ano vai ser muito interessante. Todos no palco! – o professor dissera, olhando toda a cena. Todos se levantaram rapidamente e subiram no palco de Sutcliffe, ficando espalhados. E eu, tentando entender como a dinâmica funcionava, fiz o mesmo. Ficamos espalhados no palco enquanto o professor andava de um lado para o outro – E o que temos para esse ano?


Uma garota da Corvinal levantou a mão, e o professor Sutcliffe acenou para ela falar.


— Cidade dos Anjos — ela disse, o que fez todos balançarem a cabeça, concordando com ela.


Cidade dos Anjos era um dos romances mais famosos e dramáticos do Mundo Mágico: conta a história de Arabella, princesa da Cidade dos Anjos, que se apaixona e vive um romance proibido com um príncipe demônio, Étienne.


Era trágico. E os bruxos adoram o que é trágico.


— Interessante — Sutcliffe balança a cabeça.


— E podemos fazer a adaptação de Cidade dos Anjos para um musical — ela adiciona. Alguns riram e outros protestaram, e o burburinho se instalou. Fiquei quieta. Sutcliffe tentava falar, mas não conseguia.


— Eu gostei da ideia – Sutcliffe disse alto calando todos.


— Um musical? Sério? – um garoto da Lufa-Lufa perguntou fazendo careta.


— É um momento bom para isso? — Blaise Zabini pergunta, nos lembrando do momento delicado que o Mundo Mágico viva.


— É o momento perfeito para isso! Não há nada melhor do que uma trágica história de amor para nos lembrar da finitude das coisas — Sutcliffe diz, dramático. Ninguém discute. Era uma péssima ideia, mas fico quieta a maior parte do tempo. — Certo, precisamos de um roterista. Voluntários?


Rapidamente, todos dão um passo para trás e eu sobro no palco. Sutcliffe me olha se aproximando de mim, num misto de pena e diversão. Escuto as risadas baixinhas atrás de mim. Eu acho que estava pagando um pecado.


— Obrigado por se voluntariar, Srta. Granger.


Eu suspiro.


— Isso não é justo — eu digo depois de tomar coragem de falar no meio daquelas cobras.


Volto a escutar as risadas, e parecia que eles estavam super atentos com qualquer coisa que eu falava ou fazia. Atrás de Sutcliffe, Malfoy nem se deu ao trabalho de disfarçar e riu alto.


Sutcliffe continuou andando pelo palco.


— E você e o Sr. Malfoy com certeza farão um ótimo trabalho juntos e vão entregar um roteiro de excelência — ele dissera deixando todos boquiabertos. Inclusive eu. — E eu também acho que vai ser muito divertido, veremos no final da peça. Boa sorte para os dois!


A minha cara, na verdade, estava no chão.


Malfoy tentou discutir, mas foi ignorado por Sutcliffe que continuou andando de um lado para o outro no palco organizando toda a produção.


Depois disso, me enfiei na biblioteca, onde amaldiçoei Malfoy mentalmente umas três vezes procurando sobre Cidade dos Anjos e musicais do Mundo Mágico.


Acho que dessa vez minha vontade era de me amaldiçoar por não saber nem montar numa vassoura.


— Por que quando eu te chamava para as aulas de teatro você não ia? – Lilá, indignada, se sentou na minha frente. Tirei a atenção do livro que estava lendo para olhá-la de sobrancelha arqueada. Ela bufou e cruzou os braços – Não me olhe assim. Saí do Clube de Teatro esse ano para poder prestar Estudos Trouxas e Herbologia II.


— Oh, sinto muito – falei sarcástica – Eu prestaria Herbologia II numa boa.


— Eu adoro as aulas de teatro, e você vai estar gostando também.


— Lilá, só têm sonserinos. É praticamente uma reunião de sonserinos.


— No começo é estranho, mas você acostuma. Sonserinos podem ser boas pessoas também — ela diz como quem fala com uma criança — Já sabe o seu papel? O que você vai fazer?


— Roteiro.


Os ombros dela caem: — Isso é tão chato.


— Draco Malfoy vai me ajudar.


— Hmm, isso é interessante — ela sorriu maliciosa.


— Argh – balancei a cabeça. Não era ruim, era horrível. Era como um pesadelo.


— Qual o problema? – Lilá riu – Ele é um gato. Várias garotas desse castelo adorariam estar no seu lugar. E garotos também.


— Esqueceu que ele me odeia?


— Ele supera — ela diz, revirando os olhos.


Queria lembrar Lilá que Malfoy aniquilaria nascidos-trouxas como eu sem pensar duas vezes. Queria lembrar que se ele tivesse três pedidos com o gênio, um deles com certeza seria a extinção da raça, mas Lilá prestava atenção na porta e não tinha ideia do que eu estava falando. Me inclinei na mesa da biblioteca para poder ver o que raios chamava a atenção dela e vi Malfoy entrando na biblioteca com Blaise Zabini e Alec Foster logo atrás.


Revirei os olhos e Lilá sorriu marota quando vimos o Malfoy se aproximar da nossa mesa. Alec Foster se sentou numa cadeira livre e Blaise Zabini se sentou na outra. Malfoy ficou em pé. Forcei um sorriso.


— Malfoy.


— Granger.


— Por que perturba minha paz?


— Porque, infelizmente, agora você faz parte do Clube de Teatro. Olá, Brown, sentimos sua salta — ele dissera se virando para Lilá, que sorriu tímida. Tinha vontade de esmagar ele.


— Oi, Malfoy – Lilá respondeu tentando parecer séria. Tenho quase certeza de que os olhos dela brilhavam.


— A que devo a honra? — falei, sarcástica. Do meu lado, Zabini riu e Malfoy jogou vários pergaminhos e um livro velho na mesa, sentando-se por fim.


— Temos muito trabalho para fazer — ele disse, apenas, rabiscando um dos pergaminhos.


Fiquei olhando para os três sentados na minha mesa, esperando o tempo deles perceberem que nós não éramos o tipo de alunos que interagem entre si e também porque por um momento eu queria paz, mas, por motivos que eu desconheço, Merlin ultimamente tem atuado contra mim.


E porque, por motivos que vão além da cabeça loira do Malfoy, eu tive vontade de jogar um livro em Lilá Brown que assistia a cena toda com um sorriso bobo no rosto. Desde quando Lilá era tão traidora?


— Malfoy – chamei pausadamente. Ele respondeu um "hm" sem me olhar. Eu respirara fundo antes de falar — Você está me incomodando. Por que não podemos fazer isso separados? Sabe, você lá da sua Sala Comunal e eu da minha.


Ele se acomodou mais na cadeira, e eu sentia vontade de chorar.


— Não — ele disse mostrando os dentes. Idiota. E me olhou sério, mas totalmente debochado: — Somos uma dupla, Granger. Somos uma equipe, um time.


Eu me inclinei, falando, seca: — Eu prefiro passar uma noite inteira na Floresta Proibida a ter que fazer alguma coisa com você.


Draco ri, chamando a atenção das pessoas a nossa volta. Eu conseguia ouvir os burburinhos e conseguia pensar nas fofocas que rondariam Hogwarts por causa daquilo, e queria apenas me trancar na Sala Comunal da Grifinória.


Malfoy e Granger na biblioteca juntos? Aquilo acabaria com a minha reputação.


— Mas não me parece que você tem escolha, não é mesmo? — ele apenas disse. — E, não seja boba, não é como se eu quisesse fazer isso com você também, mas Sutcliffe nos deu a ordem.


Que se dane Sutcliffe! Eu queria me afogar no Lago Negro.


Ao meu lado, Lilá estava adorando tudo, nos assistindo como quem vê uma partida clássica de Quadribrol de dois times rivais. Malfoy então me ignorara, voltando sua atenção para o pergaminho na sua frente, e foi quando eu me dei por vencida e entendi que quanto mais rápido eu terminasse aquele roteiro, mais rápido eu me livraria da companhia da serpente, e recolhi os pergaminhos jogados na mesa, começando escrever.


— Você está fazendo drama – Lilá me dissera naquela noite, no dormitório feminino do sexto ano – Draco não é um bicho de sete cabeças.


Novamente, queria lembrar que se tratava de um Malfoy, o que me parecia que às vezes ela esquecia de tudo que aquele sonserino era, mas não parecia que faria diferença. Lilá já tinha sido corrompida por anos de Clube de Teatro. Talvez fosse a única Grifinória que eles aceitavam.


— Ele é um verme, Lilá – respondi colocando meu pijama.


— Você não conhece ele — ela discutiu.


— E eu preciso?


— Devia dar uma chance — Lilá dissera.


— Dar uma chance para quem? — Parvati perguntou entrando no quarto.


— Draco Malfoy — respondi, o que me causou calafrios.


— Sabe o que eu acho? – Lilá continuou dizendo. E, de pé na sua cama, ela apontou o dedo para mim como se eu fosse uma criminosa – Que você gosta dele e todo esse ódio aí é amor reprimido, mas acho que, por ser um robô, é o que você faz.


Eu queria rir. Muito. Na verdade, essa foi minha reação achando que aquilo era um tipo de piada e que Lilá estava alucinando. Onde aquela loira esteve todos esses anos? Não estudamos na mesma escola, não é possível. Mas enquanto ela ficou olhando para mim sem dizer mais nada, eu parei e retruquei, seríssima:


— Tudo isso porque eu não fico babando por ele nos corredores?


— Tudo isso porque você tem medo de deixar ele se aproximar e não resistir e acabar com a imagem de intocável que você criou esses anos todos — ela respondeu, sentando-se na cama.


Fico boquiaberta, e Lilá não diz mais nada, colocando um fim na discussão.


— Você é uma péssima amiga — eu digo digerindo toda a informação. Não achei que robô iria ficar mais que dois dias na boca de Lilá. — E nada disso quer dizer que gosto do Malfoy. O que você estava fazendo nos últimos anos em Hogwarts?


— Quer dizer que gosta sim — ela ainda discute.


— Parvati, me ajuda aqui — chamei.


— Lilá, Isso isso quer dizer que ela gosta do Malfoy – Parvati, que já estava de pijama, sentada na sua cama e apreciando o espetáculo, concordou.


— Obrigada – agradeci.


Lilá abriu a boca para responder, mas Parv completou: — Mas sim, Hermione, você gosta dele.


Lilá dá uma risada alta e eu jogo uma almofada em Parvati, que também estava rindo.


Eu divido o quarto com duas traidoras.


— Eu vou te provar. Por que nenhuma das suas relações duram? — Lilá começou.


— Isso é um complô contra mim!


— Porque você é emocionalmente indisponível. É fechada e bloqueada, e reprime seus sentimentos pelo Malfoy. Porque ele te deixa confusa, mas você gosta dessa inimizade. Não funcionaria sem ela — Lilá explica, e Parvati concorda, como se fosse óbvio, e as duas me olham.


Eu arregalo os olhos. Não acredito que estava ouvindo aquilo.


— Eu não sou emocionalmente indisponível e isso foi a coisa mais ridícula que já ouvi de você! — discuto. Tudo era tão absurdo que eu não conseguia nem reunir argumentos sólidos para aquela discussão.


— Você não vai sobreviver ao Clube de Teatro! Em uma semana, vai conhecer uma versão do Draco que vai te deixar caidinha — Parv responde.


— E vai entrar em pane porque seus sentimentos de robô não estavam programados para isso — Lilá completou, rindo.


— Vocês são péssimas amigas, e você Lilá Brown tem que esquecer isso de robô.


— Me prove o contrário — ela cruza os braços, provocativa.


Eu reviro os olhos, me levantando da cama.


— Eu vou! — adicionei saindo do quarto.


— Cuidado para não se apaixonar pelo Malfoy no processo!


E bati a porta.


[…]


Encontrei Rony e Harry sentados no chão da Sala Comunal, jogando xadrez bruxo. Me sentei na poltrona perto da lareira, tentando prestar atenção no jogo porque na verdade estava pensando em vários nomes para xingar Lilá Brown.


Ela que queria um namorado, não eu.


— E aí? – Rony, com os olhos no jogo, murmurou.


— E aí o quê? – perguntei.


— Você está inquieta — ele respondeu.


— Lilá é insuportável — respondi sem pensar.


Rony deu risada. Os dois provavelmente estavam enrolados naquele ano, mas eu ainda não queria perguntar nada.


Rony e Harry, como meus amigos de longa data, se entreolharam, olharam pra mim, e Harry perguntou:


— O que te aflige? Aqui é um espaço seguro.


Contei para eles sobre o Clube de Teatro, sem mencionar minha briga com Lilá, o que fez os dois rirem, e eu estava já sentindo que ninguém entendia a minha dor.


— É por isso que está nervosa? — Harry perguntou retoricamente, rindo.


— Eu sinto que todo mundo esqueceu como aquela cobra é de verdade. Estar respirando o mesmo ar que ele me deixa nervosa. Muito nervosa — falei, fechando a cara.


— Não é difícil, Mione, só faça o que tem que fazer e aí não vai ter mais nada para fazer com o Malfoy — Rony respondeu olhando suas peças. — Xeque, Potter.


— Olha, se precisar lançar algum feitiço no Malfoy, tem total meu apoio — Harry dissera.


— Eu não estressaria o Malfoy esse ano, para ser sincero. Tenho certeza que ele voltou das férias com a Marca — Rony respondeu.


— Não fale bobagens, Ronald — falei.


— Depois não diga que não avisei — Ron retruca enquanto perde seu cavalo para Harry.


— E também você não precisa fazer as coisas com ele, você pode fazer sozinha e entregar para Sutcliffe — Harry lembrou.


— Ou pode deixar ele fazer sozinho — Ron riu.


— A primeira opção me parece mais interessante — respondi analisando os prós e contras.


— De nada, Granger. Xeque. — Harry dissera.


— Até porque você é persona non grata no Clube de Teatro… por enquanto — Rony falou enquanto analisava suas peças.


Rony perdeu o Rei para Harry e aquela foi minha deixa.


Era tarde e não era dia da minha monitoria, mas eu ainda conseguia perambular pelo castelo sem ser descoberta, por isso, fui para a sala de teatro com todos os pergaminhos que tinha, totalmente disposta a fazer todo o roteiro sem o Malfoy.


Os fundadores de Hogwarts não economizaram para construir a sala de teatro em Hogwarts. Como o Salão Principal, havia um teto mágico encantado para refletir o céu lá fora, com velas flutuantes que se apagavam quando ninguém estava no palco. O salão todo era luxuoso, com mármores, cortinas, lustres, mosaicos que contavam a história de Hogwarts e pinturas clássicas nas paredes, com a plateia disposta em fileiras viradas para o palco. As coxias ficavam nas laterais do palco, escondidas do público.


Era mais bonito à noite.


Quando entrei, acendi as luzes e dei de cara com o piano de Sutcliffe no palco.


E foi onde eu passei quase a noite toda lendo sobre o romance e escrevendo em pergaminhos, mas aconteceu em um momento que eu estava totalmente sem inspiração e sem foco algum, e já tinha desistido quando comecei tocar no piano:


— Eu não sou um robô — cantei e frangi o cenho – Talvez eu seja mesmo um robô — Suspirei e tentei de novo – Talvez eu seja má por não sentir… algo? — frangi o cenho novamente, e tentei de novo, corrigindo minha postura porque o que saia de mim parecia uma pergunta – Ou talvez eu seja uma trapaceira — continuei — por roubar seu coração — sorri sentindo que estava tendo progresso – E talvez eu seja uma trapaceira para não me importar com isso… Ou talvez uma má pessoa — adicionei, desistindo.


Apoiei a cabeça no piano voltando meus pensamentos para a discussão com Lilá. Eu era emocionalmente indisponível? Eu conseguia ter alguma coisa com alguém?


Lilá é uma maldita, não é como se eu tivesse tempo e disposição para ficar buscado um romance em Hogwarts.


Tudo bem, eu não sou um robô e Lilá deveria ser internada no St. Mungus,


Voltei para a Grifinória porque já estava quase amanhecendo, mas ainda acordei com a minha música na cabeça.


Nas aulas, enquanto o professor explicava a matéria, eu cantarolava a música e teve vezes que escrevi o que cantei. O dia todo foi torturante até chegar a noite para eu conseguir voltar para a sala de teatro e, somente quando eu cheguei lá, me posicionei no piano, respirei fundo, eu sosseguei.


Oh, maybe I'm a crook


(Oh, talvez eu seja uma trapaceira)


For stealing your heart away

(por roubar seu coração)


And maybe I'm a crook


(e talvez eu seja uma trapaceira)


For not caring for it


(por não me importar com isso)


Yes, maybe I'm a bad, bad, bad, bad person


(Sim, talvez eu seja uma má, má, má, má pessoa)


But baby I know


(mas, baby, eu sei)


Cause you love, love, love


(Porque você ama, ama, ama)


When you know I can't love


(Quando você sabe que eu não posso amar)


You love, love, love


(você ama, ama, ama)


When you know I can't love


(quando você sabe que eu não posso amar)


You love, love, love


(você ama, ama, ama)


When you know I can't love you


(quando você sabe que eu não posso amar)


Não era grande coisa e eu estava feliz por conseguir ter alguma evolução, mas só aqueles versos bastaram para me causar problemas.


Sérios problemas.


Muitos problemas.


Problemas irreparáveis.


O primeiro sinal de problema foi quando escutei alguma coisa caindo e um palavrão. Para não ser pega na sala de teatro de madrugada, peguei minhas coisas rapidamente e corri de volta para a Grifinória, imaginado que, ou era Filch e sua gata, e se fosse pega, estaria ferrada.


O segundo final de problema foi dois dias depois daquela noite. Hogwarts, de repente e por motivos que iam além da minha compreensão, estava um caos.


— As coisas estão estranhas hoje… e ainda nem é meio-dia – falei.


— Isso tem nome e sobrenome... — Rony respondeu, baixo. Automaticamente, olhei para a mesa da Sonserina e vi Malfoy conversando com Blaise Zabini. Ronald e Harry se viraram para olhá-lo


— O que está acontecendo hoje? — perguntei arqueando as sobrancelhas. Na mesa da Sonserina, Malfoy ria com Zabini enquanto Pansy Parkinson e Alec Foster contavam alguma história.


Harry se virou pra mim.


— Ahhh… Felicidade estampada no rosto do Malfoy normalmente significa infelicidade estampada em outro rosto.


— E Donna Singer – Ronald disse.


— Quem? – Harry e eu perguntamos.


— Donna Singer – Rony apontou, disfarçadamente, para uma garota que se sentou na mesa da Sonserina junto com o quarteto. Donna era da Corvinal e normalmente tímida.


— E Alexandra Femmer – vi outra garota se aproximar da mesa da Sonserina e abrir espaço entre Donna e Foster para se sentar. Alexandra era da Lufa-lufa.


— E Charlotte McKinn – falei quando outra garota da Corvinal chegou e se sentou entre Parkinson e Alec Foster.


Vimos mais umas garotas se amontoarem na mesa da Sonserina, querendo falar com o Malfoy enquanto ele sorria para cada uma delas. Um canalha.


Até mesmo algumas garotas da Grifinória se amontoaram na mesa, e foi aí que perdemos as rédeas de vez.


— O que é isso? Malfoy está distribuindo dinheiro? – Rony resmungou quando as garotas formaram fila na mesa da Sonserina.


O sinal da primeira aula tocou e eu arrastei Harry e Rony até a aula de Feitiços.


Nos intervalos das aulas, ainda tinha garotas indo falar com o Malfoy, que dava atenção para cada uma delas com muita gentileza e cordialidade, características muito desafiadoras para um Malfoy. Como ele esse garoto é um filho da puta!


O dia todo estava muito estranho.


Quer dizer, sempre tinha alguém tentando chamar a atenção dele no corredor, mas fazer fila para ter a atenção da vez? O que está acontecendo? Colocaram alguma poção de amor no ar?


E aí veio o terceiro sinal de problema.


E veio como um tapa na cara.


Aconteceu depois do sinal da última aula da manhã, antes de irmos para o Salão Principal.


— Olá, Hogwarts – os alto-falantes velhos soaram fazendo todos prestarem atenção. Primeiro, fiquei surpresa por ter alto-falantes em Hogwarts – Meu amigo aqui, Draco, está atrás do amor da vida dele…



Alguém pega o microfone.

Malfoy.

"Tá, tá, obrigado, Alec", ele disse, "Aaah, como ele disse… estou procurando uma pessoa, e ela… ela é importante para mim. Agora ela é importante para mim”, escutei um suspiro, "Ok, vamos lá. Há alguns dias, eu ouvi você cantar… Você é muito boa nisso… Era alguma coisa com Love Love Love. Isso não sai da minha cabeça… Você não sai da minha cabeça, e essa música me chamou muito a atenção e eu quero achar você. Por favor, me procure… Só me procure. É importante. Estarei te esperando. Obrigado.”


Respira.


Respir


Respi


Resp


Res


Re


R


Ro


Ron


Rony


Ronald me chacoalhou pelos ombros, me fazendo voltar para a realidade, e acho que se ele não tivesse feito isso, eu teria caído dura no meio do corredor.


Harry me perguntou se estava tudo bem, mas eu não consegui responder, porque estava muito ocupada gritando comigo mesma que aquilo era uma pegadinha ou outra pessoa deve ter feito uma música igual a minha e era essa pessoa que Malfoy procurava, não eu.


— Você precisa ir pra enfermaria – Harry disse me puxando pela mão – Olha sua cara.


Merda, mil vezes merda.


— Enfermaria? Não, não. Preciso ver Lilá – falei rapidamente, indo na direção contraria.


— Lilá? Mas o quê...


Não deixei Harry terminar e fui encontrar Lilá Brown. E a encontrei em um grupo de corvinos conversando.


Ela abriu um sorriso quando me viu, e me puxou para a roda que tinha se formado no corredor. As outras garotas sorriram para mim, me cumprimentando.


Eu não tinha muitos amigos fora da Grifinória. Para ser sincera, eu não tinha muitos amigos além de Ron, Harry, Parv e Lilá, e qualquer interação com qualquer pessoa de outra casa me assustava um pouco, porque muitas pessoas em Hogwarts me conheciam por causa e exclusivamente de Harry Potter.


— Lilá, preciso falar com você – falei baixinho. Lilá riu de alguma coisa que alguma corvina disse e passou o braço pelo meu, mas sem me responder. Tentei de novo – Lilá Brown, é sério! É um caso de vida ou morte.


— É sobre o Draco, não é? — ela disse sem tirar os olhos de uma corvina que contava uma longa história sobre uma aula de feitiços.


— Cuidado com as palavras, Lilá Brown – retruquei.


— Isso aí é ciúme, Hermione Granger? — ela me alfinetara. Revirei os olhos mais uma vez e Lilá suspirou – Onde esteve nos últimos dias? Hogwarts só fala disso! – ela disse como se eu fosse obrigada saber. Senti uma vontade de gritar com ela, mas Lilá não tinha culpa e coisas ruins aconteciam comigo quando eu brigava com Lilá. – Mas é o que você ouviu mesmo, baby. Nesses dias surgiram boatos de que o Draco estava procurando por uma garota que ouviu enquanto fazia monitoria. Ele está muito disposto a encontrar ela, sabia? E só por Merlin o que ela falava nessa música, porque o homem está apaixonadíssimo.


Enquanto Lilá falava, eu sentia o chão se abrir nos meus pés. Eu queria fechar os olhos e ser teletransportada para qualquer outro lugar, menos Hogwarts naquele dia.


Por que, de todas as pessoas em Hogwarts, ele tinha que ouvir minha música? E o que ele tem no lugar do cérebro para procurar uma garota que fez uma música como aquela?


— Ele não está apaixonado, Malfoy é um maníaco – eu resmunguei.


Antes que Lilá pudesse responder, Draco Malfoy — magicamente — apareceu no corredor e Lilá estendeu a mão para cumprimentá-lo, muito simpática.


— Oi, Draco – a traidora disse se aproximando da cobra e me levando junto.


— Olá, Lilá – Malfoy responde, sorrindo.


Senti Lilá bater no meu ombro. Revirei os olhos.


— Malfoy.


— Granger.


Malfoy se virou para sair, mas Lilá emendou um assunto no outro, o que fez ele ficar.


— Grande anúncio, Draco – ela disse, simpática.


Eu queria me jogar da torre de astronomia.


E quero que todos saibam que Lilá foi a principal culpada.


Malfoy sorriu, e me olhou, como se esperasse que eu fizesse algum elogio para ele, como geralmente fazem. Eu fiz careta e Lilá bateu no meu ombro de novo.


— Ah, certo – me ouvi dizendo — E como vai sua procura? A música, ah, Love Love Love… É isso? No piano ficou mesmo muito bonita, etc. Muito bonita.


Me dêem um tiro. Só um tiro.


— Que piano? — Malfoy frangiu o cenho. Não sei se estava se divertindo com a situação ou se pura curiosidade.


Mas aí vi que eu estava realmente ferrada.


— Piano? – repeti, me recompondo — Quem está falando de piano?


— Você.


— Eu?


— É, você disse — ele discutira. Dessa vez parecia interessado na discussão – Disse que a música era bonita no piano, mas eu nunca falei que foi no piano. Como você sabe disso?


Eu ri.


— Te drogaram? Eu não falei de piano, Malfoy.


— É claro que falou – então ele se virou para Lilá: — Não falou?


— E foi no piano? — perguntei, cortando Lilá. A última coisa que eu precisava era que ela falasse.


— Granger — Malfoy disse já impaciente — Você disse.


— Malfoy – falei pausadamente — Eu não sei da onde você tirou isso, sinceramente…


— Você sabe de alguma coisa.


— Você bebeu.


— Você disse piano.


— Eu não sei do que você está falando, eu supus.


— O que você sabe? – ele cruzou os braços.


— Ah, meu Merlin, quanto drama – resmunguei cruzando os braços também – Eu não sei de coisa alguma. Descobri agora que Lilá me contou.


— Sei… Eu não vou esquecer isso, Granger.


— Não me irrita, Malfoy. Boa sorte com isso – puxei Lilá para sair dali, mas, antes de virar, vi Malfoy se afastar por trás fazendo final de "estou de olho em você" e finalmente se virar.


Foi o quarto final de problema. Aquilo, com toda certeza, não terminaria bem.