Como chegamos aqui?
1 Capítulo Único
Nós estamos no ultimo dia. O final nada épico de um ciclo longo e atormentador que insistimos em chamar de escola. Viro-me a tempo de encontrar o olhar dela. Ela sorri e dá de ombros. Eu me pergunto, como que chegamos até aqui?
Está tão bonita, abraçada com seu irmão e sendo paparicada por um pai aparentemente muito orgulhoso. Seus cabelos estão curtos, e lembro-me de que quase ninguém conseguiu acreditar quando ela saiu do banheiro dos monitores com vários centímetros a menos de cabelos ruivos.
Como nós chegamos até aqui? Eu e Ela.
Quando que pegamos a curva contraria do romance e estacionamos na frase mais clichê de todos os tempos? Apenas amigos. Bons amigos. Qual foi o evento desencadeante que nos trouxe ao afastamento critico. Estamos no ultimo dia de Hogwarts com nossas tão diferentes famílias, olhando um para o outro e dando de ombros como quem diz “não sei o que estamos fazendo?”
Ela está dando uma risada típica, chamando a atenção de todos em volta. Suas risadas sempre causam esse efeito nas pessoas, não importa se sejam meninos ou meninas. Eu estou certamente ignorando algum discurso monótono de meu avô enquanto observo a curva dos lábios, os dentes ligeiramente tortos de quem se recusou em usar aparelhos.
— Seu filho poderia ser um pouco mais educado. – Escuto a voz de meu avô e me viro a tempo de observar meu pai respirando fundo.
— Scorpius, responda as perguntas. – Draco Malfoy trinca os dentes e eu finjo um sorriso animado.
— Qual a questão? – Olho por sobre o ombro, mas ela já não estava mais ao alcance de meu olhar. – Vovô.
— Por que você não conseguiu o discurso? – Meu avô ainda não acredita em como seu neto, único neto, conseguiu ficar com notas médias.
— Os melhores alunos fazem os discursos. – respondo como se fosse a resposta mais obvia.
— Scorpius... – Draco Malfoy suspira cansado e se encaminha para a mesa de bebidas.
— Esse é o ponto. Você deveria ser o melhor. Um Malfoy. Nós somos os melhores. – Estou olhando em volta procurando por ela. Enquanto tento não ser um neto pior do que já sou. – Os melhores.
— Vovô, não somos os melhores – digo em voz baixa. – Só podemos manter a mansão porque a mamãe tem ótimas posses.
— Scorpius, querido... – Minha mãe segura meu braço enquanto tenta não sorrir. – Talvez devesse ir se despedir de seus amigos, afinal não vão se ver como antes.
Astória Greengrass Malfoy. Minha mãe. Sempre foi a mediadora quando eu resolvi ser mediano e não extraordinário. Sempre tentando manter a linha de mãe durona, mas quando meus avós estavam suficientemente longe sua risada era tão chamativa. Tanto quanto a dela. Tanto quanto a de Rose Weasley.
— Obrigado. – Digo enquanto a abraço e aceno formalmente para Lucius e Narcisa. Avós queridos e assustadores.
Não queria me despedir dos amigos, mas comecei a andar pelo salão principal e sempre acabava sendo abraçado por alguém do time de quadribol, ou por alguma ex-namorada. Não que me orgulhe do número, tive algumas boas histórias. Nenhuma no final. E entre todos os amigos e conhecidos, eu procurava por ela. Queria me despedir dela. Um último momento Rose e Scorpius. Scorpius e Rose.
Durante sete anos tivemos tempo suficiente para criar muito momentos. Rivais no campo de quadribol, parceiros nas aulas de poções, concorrentes na defesa contra as artes das trevas, parceiros nas explorações de um castelo cheio de passagens confusas. No quinto ano quase nos tornamos uma pessoa só.
“Bom dia, Rose e Scorpius...”
“Tudo bem Scorpius e Rose...”
“Rose e Scorpius estão em Hogsmeade...”
Ainda lembro quando ela se irritou quando um dos muitos pretendentes falou bom dia para ela e para Scorpius sem que ele estivesse presente.
— Eu não tenho personalidade. – Rose dizia com o rosto transtornado. – Sou Rose e Scorpius. Não quero ser Rose e Scorpius.
— Eu gosto de ser Scorpius e Rose. – Disse esperando que ela sorrisse.
— Porque você não precisa se esforçar para ser amado. – Ela suspirou. – Ou odiado. Simplesmente acontece.
— Todos te amam Rose. – Falei fazendo ela finalmente suavizar o vermelho do rosto.
— Quero ser só Rose Weasley. – Seu jeito era cansado. – Na verdade, quero ser só Rose.
Nós éramos amigos nos dias bons, eventualmente inimigos. Só não tínhamos sido realmente um casal como todos da escola achavam que éramos. Na verdade metade das garotas só saiam comigo por acharem que eu saia com Rose Weasley. E quase todos os garotos não saiam com ela por acharem que ela saia comigo. Mas só no quinto ano que por alguns minutos fomos um casal.
— Você ouviu que eu disse que todos te amam? – perguntei usando todo o charme que herdei da minha mãe.
— Está sendo fofo para que eu faça seu trabalho de herbologia? Eu sei que você não gosta do professor e fica escutando música enquanto ele fala.
— Você é sempre tão irritante. – Falei me aproximando dela e tocando seu rosto.
Os olhos estavam tão arregalados. E seu cabelo preso em um rabo de cavalo não atrapalhou em nada quando eu finalmente a beijei. E ela me beijou de volta. E ficamos nos beijamos um ao outro por alguns minutos. Até nos afastarmos e encararmos um ao outro.
— O que está acontecendo? – Ela perguntou confusa.
Voltei a me aproximar.
— Scorpius, espere. – Ela se afastou. – Por que estamos nos beijando?
Nunca tinha sofrido um questionamento como aquele. O que poderia responder. Eu não sabia naquela época, com meus quinze anos e hormônios agitados.
— Porque você parecia querer me beijar. – respondi dando de ombros. – Não precisa mais reclamar do Rose e Scorpius.
— Sério? – Rose acabou rindo. – Scorpius, eu nunca vou ser “Rose e Scorpius”, eu sou Rose. Tenho um nome, uma personalidade, não preciso de complemento algum.
— Está me chamando de complemento? – Questionei confuso. Normalmente quando beijava uma garota nós não conversávamos, apenas nos beijávamos. Com Rose tudo tinha que ser a base de conversa.
— Scorpius... – Ela se aproximou e acariciou meu rosto. – Não estou te chamando de complemento. Estou dizendo que não preciso de um namorado.
— Todas as garotas querem um namorado. – Respondi parecendo que era obvio. – Elas querem me namorar porque acham que sou seu namorado.
— Por favor, isso foi a coisa mais deplorável que eu já ouvi. – Rose parecia muito ofendida. – Scorpius, você deveria namorar alguém que te quisesse de verdade e não por um status.
Ela suspirou cansada. E me beijou. Um beijo tão quente e intenso que não consegui superá-lo pelos dois anos seguintes. E ainda não superei.
— Não estamos namorando. Eu não quero um namorado. Quero notas altas. Quero ganhar as copas das casas. Quero defender todas as jogadas da Corvinal. Quero terminar Hogwarts e começar a escrever reportagens sobre como as bruxas estão ganhando espaço como Aurores e diretoras de escolas Bruxas pelo mundo. – Ela falava animada com o mesmo sorriso que fazia todos quererem ser amigos dela, ou beijá-la. – Mas você beija bem.
E enquanto ela se afastava eu fiquei parado olhando para seu cabelo balançando de um lado para o outro, armado mesmo que preso. Eu tinha sido dispensado por a única menina que não queria o pacote “Scorpius e Rose”.
Ainda estou a procurando. E a cada passo me lembro de tudo que passamos depois do primeiro beijo. Rose conseguia ser doce, encantadora e incrivelmente cruel com o meu coração.
Quase um ano depois, quando estávamos prestes a jogar um dos jogos mais importantes para as casas, ela resolveu que seria divertido disputar mais do que uma taça.
— Se vocês ganharem eu te dou um beijo na frente da escola toda. – Ela disse enquanto lia um livro para as aulas de runas antigas.
— E se vocês ganharem? – Perguntei apreensivo.
— Você canta o hino dos Chudley Cannons na frente da escola toda e declara que é o melhor time de todos os tempos. – Ela respondeu sorridente. Sua camiseta laranja parecia brilhar enquanto ela falava.
— Prepare-se para o segundo melhor beijo da sua vida. – Falei enquanto apertava a mão dela.
— Segundo? – Alvo perguntou confuso.
— O primeiro foi o ano passado. – Falei piscando e voltando a anotar algumas informações de poções.
— Isso não vai dar certo. – Meu amigo disse balançando a cabeça negativamente.
Nós nos beijamos ainda em cima das vassouras. E podíamos escutar a arquibancada da Corvinal inflamando logo abaixo de nós. Rose estava raivosa, mas ainda assim beijava como nenhuma outra.
— Te odeio. – ela disse indo em direção de onde narravam o jogo.
— Seu beijo me diz outra coisa. – Gritei rindo e voando para a comemoração da Sonserina.
Estava no meio dos abraços quando a voz dela soou por toda escola.
— Que fique claro que Rose Weasley sempre paga suas apostas. – Ela disse olhando direto para mim. – Scorpius, você continua beijando bem.
Ela saiu do campo enquanto um irmão enciumado me ofendia com palavras muito fortes para o horário do jogo. E eu apenas fiquei rindo. Porque eu sabia que mesmo assim ela não queria um namorado. Queria apenas o amigo. Em alguns dias o inimigo.
No ano seguinte nos beijamos muitas vezes. Normalmente nas festas, ou nos dias em que a neve não deixava a gente sair do castelo. Quando ela deixava a guarda de lado e sorria livremente. Quando eu a puxava para alguma sala vazia.
— Não estamos namorando. – Rose sempre falava antes de me beijar de volta.
— Okay. – Eu respondia.
Só no ultimo mês que não tínhamos nos beijado, quase nem nos falávamos. Ela passava muito tempo no quarto tentando fazer o discurso. Eu passava muito tempo escapando para Hogsmeade com os amigos.
E eu não a enxergava em nenhum lugar do salão principal. Seus pais estavam lá, conversando com Neville Longbottom, seu irmão de braços dados com a prima enquanto os gêmeos os empurravam e riam dos rostos vermelhos.
Quando finalmente desisti de procurá-la escutei seu riso livre.
— Está procurando por mim? – Ela parecia tão confiante. Finalmente era a Rose. Sem acompanhantes.
— Na verdade estava sim. – Digo me encostando ao seu lado.
— Imaginei. Não consegue ficar longe mim. – Ela deu de ombros. – Scorpius e Rose.
— Rose e Scorpius. – Digo também rindo.
— Como chegamos até aqui? – Ela pergunta olhado em volta. Todos estão muito ocupados aproveitando a festa.
— A base de muita cerveja amanteigada, e alguns Whiskys de fogo. – Estou sendo o Malfoy engraçadinho.
— Alguns beijos roubados. – Rose me encara.
— Você é uma ladra excelente.
Ela chuta minha canela. Mas em seguida me beija.
Quase dois meses sem nenhum beijo. E de repente seus lábios estão deslizando sobre os meus e sua língua está compartilhando o mesmo espaço que a minha. É como dar uma droga a um viciado em abstinência. Quero mais.
Quando nos separamos sou eu quem fala.
— Não quero namoradas.
Ela ri.
— Quando quiser uma me mande uma coruja.
Voltamos a nos beijar. E sabemos que não estamos namorando. Rose quer conquistar o mundo. Eu quero apenas visitar ele. Rose quer ser independente e trabalhar duro para isso. Eu quero uma caneca de cerveja trouxa e uma música boa. Rose quer ver as mulheres mais preocupadas com os abusos do ministério do que com o futuro casamento. Eu quero beijá-la eventualmente em seu apartamento de Londres.
— Você não quer namorados. – Falo enquanto ela brinca com meus cabelos compridos demais.
— Não quero namorados. — ela se afasta de mim e bagunça os próprios cabelos, agora na altura da nuca. – Quero Scorpius Malfoy.
— Scorpius e Rose? – Pergunto.
— Rose e Scorpius.
Ela diz. E volta para a festa. Ainda tem um discurso para fazer. Está só começando.
E eu ainda me pergunto: Como nós chegamos até aqui?
Não importa a resposta. Melhor pensar até onde iremos depois daqui.
Volto para minha família cheia de problemas, com um Draco querendo fugir, com uma Astória sendo a elo entre todos, com um Scorpius quase namorando. Apesar de não se importar tanto com títulos quanto meus avós.
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