Como amar Roderich Edelstein
14 Capítulo XIII
Notas iniciais
Capítulo XIII
Joguei a água gelada em meu rosto, na tentativa não de me deixar mais desperto, mas para criar coragem. Eu olhava fixamente para meu reflexo no espelho. Pescoço, ombros e tórax um pouco avermelhados pela água quente do banho que acabara de tomar. Mais um final de semana se passou e agora era segunda-feira, o dia D.
Passei o sábado e um pouco do domingo com meus pais e Lud, em um hotel, numa cidade um pouco distante. Jantamos em um caro restaurante, pois meu pai entraria em um grande acordo. Obviamente eu não queria “estragar” aquele atípico momento em família com alguma revelação. Eu vou contar aos meus pais somente se eu estiver realmente namorando (de preferência com o Roderich), do que passar por um estresse desnecessário, caso meus planos deem errado e eu resolva ir para um convento.
Combinou-se que Feliciana ficaria grudada na húngara, para descobrir pistas, e até mesmo começar a conversar com o austríaco, com aquele jeitinho cativante de ser. Francis ia ajudar também, tentando incluir Roderich na nossa roda de conversa. Tudo para casualmente nos conhecermos.
Eu queria simplesmente puxar assunto, mas é muito, muito complicado; minha língua se enrola toda. Eu mal podia vê-lo no meu campo de visão que já sentia falta de ar e o estômago embrulhado. Odeio a sensação de adolescente apaixonada. Droga!
Fui tomar o café da manhã pensando como contaria ao meu irmão. Todas as ideias me pareciam forçadas demais, simples demais, enfim, nenhuma me agradou e comecei a ficar desesperançoso. Eu tinha que contar logo, porque seria um grande alívio para minhas costas. Mas soma-se a pressão a qual eu me impunha com a urgência que tudo pedia, eu mal conseguia raciocinar, e isso poderia me gerar uma gastrite nervosa.
Passei todas as aulas com a cabeça longe. Antônio e Francis me disseram no intervalo que eu poderia pensar a vontade, depois me passavam toda a matéria. As únicas matérias que eu quis prestar atenção foi Literatura e Filosofia; a primeira falava de romances platônicos presentes em livros, muitas vezes paixões proibidas inspiradas na vida dos autores. A professora citou também romances que eram considerados errados em algumas épocas, o que mexeu comigo. Na aula de filosofia, o professor nos apresentou concepções filosóficas contemporâneas, e comparou as do passado, e como a humanidade mudou. “Mesmo assim” pensei comigo mesmo “a raça humana ainda não está com a mente aberta para algumas coisas. Coisas que aconteciam desde o Império Romano. Claro que naquela época era apenas por prazer, mas acredito que hoje em dia há o amor. Bem, pelo menos eu não vejo o Roderich como um cara a quem eu vá apenas ter relações íntimas, eu quero amá-lo de verdade. Se eu já não o amo...”.
Hoje teríamos sopa de legumes para jantar. Eu queria estar com o estômago cheio para que ele não doesse tanto de ansiedade. Queria logo tomar um banho e me preparar psicologicamente. Já comecei a digerir a ideia de que seria melhor se fosse algo espontâneo; o que me machucava seria a reação, mas lá no fundo eu sinto que meu irmão não seria capaz de me ofender.
Ao bater do sinal, saí da sala, absorto em pensamentos, quando uma mãozinha me parou.
– Gil, preciso te falar uma coisa. – Feliciana estava séria, o que deixou preocupado.
– Pode falar...
– O Ro... – ela olhou ao redor — Você sabe quem... Está muito estranho.
– Como assim? O que houve?
– Não sei o que houve, mas ele está diferente. Ele é tímido, mas até sexta transmitia uma aura tranquila. Hoje ele parecia triste... Ficou o dia todo na sala, quietinho... Nem a Liz falou com ele hoje...
– Mas será que foi grave? – eu sentia uma coisa crescendo em mim, um instinto de proteção.
– Não sei, Gil... Deve ser algo que aconteceu no fim de semana... – ela abaixou a voz – deve ser saudade de você – ela riu ao perceber meu rosto corado.
– N-não acho que seja, Feli...
– Enfim, hoje é o dia D. Vou deixar você se preparar... Boa sorte, Gil – ela me abraçou apertado.
– Obrigado, cunhada – senti-a tremer em meus braços.
–x-
Lovina deixou Antônio longe do lugar onde escolhi para conversar com o Lud. Iria deixa-lo “muito bem ocupado” o que gerou um comentário pervertido de Francis. Obviamente, ele ficou com uma marca de mão no rosto.
A noite estava bonita, com alguns fiapos de nuvens espalhados, e as estrelas estavam especialmente brilhantes hoje. A Lua estava nova, como se resolvesse se esconder para deixar as companheiras brilharem. O vento estava fresco, um pouquinho gelado, mas não era preciso usar casaco, embora a ansiedade me fizesse suar frio.
Estava calmo e as folhas das árvores bailavam conforme o vento; me lembrei que no final do ano teria meu baile de formatura e pensei como seria, fechei os olhos e sorri ao ver meus pais, Lud, Feli e Roderich na minha mesa. Obviamente, o garoto de olhos lilases seria meu acompanhante e par na valsa. Mas meu sorriso sumiu quando lembrei que isso poderia não ser possível, e mordi meu lábio ao recordar as palavras da italianinha.
Ouvi passos e folhas secas sendo pisadas. Voltei à realidade, sentindo o estômago se revirar. Ouvi a voz grave do meu irmão, calma e curiosa, chamando pelo meu nome. A hora é agora.
– Oi, Lud! Bela noite, não?
– Sim... O que queria falar de tão importante? – ele estava ansioso. Deve ter pensado que seria algo relacionado a Feliciana.
– Não quer se sentar? – indiquei um banco de madeira.
– Não, obrigado.
– Tudo bem, então... Eu quero te contar uma coisa... Mas você não pode contar a ninguém. Nem pro papai e pra mamãe. – minha respiração estava acelerada, e eu a queria calma; esperei algum espanhol aparecer atrás de uma moita berrando. Suspirei aliviado quando ninguém apareceu. Começou a esfriar.
– Gilbert, você fez alguma coisa errada? – Ludwig me lançou um olhar preocupado, quase desesperado. Ele tinha um estranho temor militar quando achava que eu estava fazendo algo errado, nem que fosse mínimo. Me chamar pelo nome não era um bom sinal.
“Se for errado, não fiz com intenção”, pensei.
– Bem, Lud. Você é meu irmão e meu melhor amigo, nunca pude contar com alguém como você. Eu tenho Antônio e Francis ao meu lado, mas com você é diferente. Amo muito você, bruder – sorri – e espero que você não vá me odiar pelo que eu vá te contar...
Lud começou a ficar rosa, depois vermelho, quase roxo.
– Não! Não tem nada haver com a Feliciana – ele deu um suspiro de alívio, sussurrou um “mein Gott”e voltou a cor normal.
– E o que é então? – ele parecia calmo.
– Lud... – Abaixei a cabeça e tateei minha nuca, procurando me acalmar... – eu gosto de rapazes – fechei as pálpebras com força. Esperei algum tempo e como não ouvi nenhuma reação, verifiquei se estava tudo bem. Eu não sabia se estava. Lud estava estupefato, o olhar vazio fixado em mim, sentou-se pelo susto. Fiquei nervoso e comecei a tremer.
– Bruder... – me aproximei – e-eu...
– Não, Gilbert... – a mágoa espremeu meu coração – Não sei o que pensar... Preciso digerir a ideia... – ele se levantou e saiu – boa noite.
Sentia meu coração dilacerado. Eu não conseguir dar um adjetivo aquele olhar que ele me lançou ao se despedir. Não sei se era nojo, se era pena... Eu fiquei destruído por dentro, e sentia uma imensa vontade de me debulhar em lágrimas, mas não o fiz. Com os olhos marejados e fungando, voltei ao meu quarto; meus amigos fizeram inúmeras perguntas, mas disse que só responderia noutra hora. Eu só queria dormir.
–x-
Lud não falou comigo durante dois dias, e quando nos encarávamos sem querer ele desviava o olhar, o que me magoava ainda mais.
Francis e Antônio apenas me abraçaram silenciosamente. Não havia nada para dizer, e eles sabiam que com o tempo ele se acostumaria, ou aceitaria, ou não.
Estava tão triste que mal me dei conta que estava voltando do almoço com Roderich um pouco atrás. Sentia vontade de abraça-lo, de confortá-lo, pois percebia seu rostinho triste. Meus problemas eram nada, apenas queria ver Roderich sorrindo – ou pelo menos com aquele arzinho metido de volta.
– Olá, Roderich – tomei coragem mais uma vez naquela semana.
– O-olá – ele ficou surpreso.
– Como vai?
Ele demorou um tempinho para responder.
– Bem... E você?
– Ahn... bem... O importante é ter saúde... – chegamos em frente a sala dele. – Até outra hora... – notei uma estranha mancha roxa em seu braço – o que foi isso, Roderich?
Ele olhou para onde eu observava.
– Não é nada! – ele escondeu com a mão – acho que caí... – ele desviou o olhar. Até outra hora.
– Mas não quer ir à enfermaria cuidar disso não?
– Tchau, Gilbert! – ele parecia nervoso.
Fui para minha sala, com mais perguntas na cabeça. E muita, muita dor no coração.
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