Como amar Roderich Edelstein
20 Capítulo XIX
Notas iniciais
Capítulo XIX
A semana pós provas fora tranquila. Já estávamos no fim de setembro e o tempo estava cada vez mais frio. As folhas estavam cada vez mais douradas e alaranjadas. O sol poente tingia o céu de laranja, vermelho e amarelo, enquanto o outro lado estava colorido de azul, rosa e púrpura. Meus colegas já começavam a tirar o casaco do armário, e a chuva vinha pra ficar.
As tarde de outono são para mim algo especial. Quando eu era novinho, costumava separar algumas folhas pela tonalidade, e meu avô Fritz, pai do meu pai, me ajudava. Nos damos tão bem, e eu costumava a dividir meus segredos com ele. Preparávamos tortas juntos, jogávamos bola no jardim e no fim da tarde, quando o céu estava cinza escuro e chovia cântaros, ele tocava flauta enquanto eu comia um pedaço de torta, na biblioteca.
Uma coisa que nos deixa ainda mais unidos é que nós dois somos albinos. Ele me dizia para me orgulhar dos olhos vermelhos, que ele invejava (ele nasceu com olhos azuis cristalinos tão lindos!). Ele é fascinado na história da Prússia, tinha uma bandeira enorme dela na biblioteca, e acabou me contagiando também. Seu nome era em homenagem a Fritz, o Bom, um dos maiores reis que a Prússia já teve. Ele tinha tanto amor por este país que um dos carros que desenhou, o Königs, foi batizado com este nome em homenagem a antiga capital, Königsberg.
Ultimamente temos nos visto tão pouco, sinto saudades dele... está com 73 anos, e eu queria contar-lhe logo sobre mim, sobre minha sexualidade, sobre Roderich (a quem ele adoraria, afinal, ambos amam música clássica). Mas ele está morando um pouco longe, e aproveita as férias para conhecer o mundo.
Eu não me esqueço do dia em que eu tinha catorze anos, ele comentara que não saberia se veria meu casamento. Dói pensar nisso.
–x-
Quinta-feira a tarde chovia muito, e como havíamos sido liberados, eu e os rapazes ficamos no pátio, trocando algumas ideias não muito proveitosas. Misteriosamente, as garotas sumiram. Antônio queria passar a tarde com a quase namorada, trocando beijos e tomando chocolate quente com marshmallows. de Por incrível que pareça, Roderich estava na roda e próximo a mim. Eu observava seu braço engessado e morria de vontade de perguntar como ele estava, mas sentia que ele ia usar o gesso como luva de boxe e enfiar aquela brancura imaculada na minha cara.
A nossa conversa foi cortada por um esbaforido Alfred. Ele tornou-se presidente do grêmio, numa votação feita pouco depois das provas.
– Galera, o que acham de uma festa top das tops no Halloween?
– Só vou se tiver funk! – anunciou Luciano.
– Deus me livre! Quem é que dança isso?! – Martin redarguiu.
– Eu e o Antônio, tô ensinando a ele remexer o popozão!
– Vai ter vários tipos de música, só mandar sugestão no meu whatsapp – Alfred parecia levemente irritado. – então, vocês iriam?
– Claro que sim!
– Vocês já sabem, é a fantasia, bebidas e comidas personalizadas, já encontrei uma empresa que vai fazer isso. O diferencial dessa festa é que vai ter a banda dos nórdicos, a chamada Nordic V. Conversei com eles e eles toparam.
– Que milagre! Nunca achei possível que fossem sociáveis! Será que vão realmente aparecer? – Francis alfinetou.
– Claro que vão! Já preparei um contrato! Aqui é coisa de profissional! E o DJ é um dos melhores! Já vi a decoração, mas preciso saber se realmente querem.
– Vai ter bebida? – Ivan perguntou.
– Só sem álcool. Quem quiser, traz escondido. Eu não me responsabilizo. Fechou?
– Fechou! – respondemos em uníssono. Alfred se virou e foi correndo terminar de resolver o que faltava. Alguns já começaram a falar quem convidariam e suas fantasias. Mas não eis que de repente algumas de nossas amigas apareciam vestidas de blusas brancas e saias pretas, sapatos boneca e lábios pintados de vermelho.
– Boa-tarde, meninos! – Elizaveta quem se pronunciou. – Hoje o dia está frio e as garotas sugeriram que fizéssemos o trote do batom vermelho, que nada mais é beijar no rosto – ela frisou bem – os amigos que a gente mais gosta!
Os garotos ficaram empolgadíssimos, menos eu, Roderich e Martín. Ganhei um beijo estalado das gêmeas, um em cada bochecha. Eu achei aquilo muito estranho que ideia era aquela?! Mas Lovina havia sussurrado para mim que era por causa da Feli, para que ela perdesse a timidez com o meu irmão.
Eu observava a garota italiana mais nova beijando quase todo mundo. Como ela gostava dos amigos, caramba! Ludwig estava amuado e sentado um pouco mais afastado. Elizaveta acabara de beijar Roderich na testa e eu mordi o lábio enciumado. Ai que vontade de descer do salto e dar uma na cara daquela garota!
Mas meus pensamentos mudaram quando ela se aproximou de mim. Liz perguntou se poderia me beijar, eu fiquei tentado a responder um sonoro não, mas guardar mágoa faz mal. Então autorizei e ela me beijou da mesma forma que em Roderich. Assim q ela saiu, olhei de soslaio para ele, que me encarava de uma forma instigante.
A italianinha estava absolutamente vermelha. Enquanto a irmã beijava o namorado freneticamente, Feliciana não conseguia pronunciar uma palavra sequer, apenas contorcia as mãos. Liz passou por ela e disse algumas palavras de incentivo. Após mais alguns minutos se preparando, Feli conseguiu gaguejar o pedido, o que deixou meu irmão surpreso e estupefato. O beijo fora rápido, mas a marca estava forte. Meu irmão estava roxo de vergonha, e me encarava também. Acenei positivamente para ele. Aposto que está transbordando alegria por dentro!
–x-
Só havia um casal muito particular no colégio, e esse envolvia dois garotos, mas calma aí! Um deles era transgênero, ou seja, se identificava como uma garota, vestia-se como uma garota, andava como uma garota, mas gostava de usar as vezes o uniforme masculino, quando o colégio tinha visitas especiais – ele era obrigado. Feliks era um cara, digo, uma moça divertida, que sofrera grandes problemas no passado. Ele, perdão, ela namorava um dos primos de Ivan, o Toris, um garoto tímido, e nós nunca adivinharíamos que ficariam juntos pela diferença gritante de personalidade. Mas para tristeza – ou alegria – o colégio o considerava com um menino, então ele ficaria na ala masculina. Por sorte, Como Toris conseguiu trocar de quarto com Tino, ambos ficam no mesmo quarto.
Eram muito conhecidos, exceto pelos novatos. Feliks estava vestido como as garotas e beijava o namorado. Coisa que não passou despercebida por Rod.
– Porque aquele garoto está participando da brincadeira das meninas? – questionou aproximando-se de mim e dos meus amigos de quarto.
– Ah, ele é transgênero. – Francis respondeu.
– E deixam?
– Como assim “e deixam”? – Antônio retorquiu. – ele é assim e age assim.
– Ou tem algum problema com homossexuais? – Francis completou, e me olhou de soslaio. Eu estava tenso, apenas aguardando a resposta, encarando o austríaco, institivamente, ele acarinhou o braço engessado e desviando o olhar, disse que não.
– Mas infelizmente alguns têm sérios problemas – e se virou apressado, sem rumo certo. Minha vontade era de correr atrás dele, mas Francis me impediu.
– Suspeita confirmada – o louro respondeu.
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