Ash saiu da escola apressada, andando em passos largos, seu rosto estava vermelho e seus olhos ardiam, tinha vontade de chorar, de gritar, mas não o fez. Andou sem rumo até perceber que havia chegado ao centro da cidade, seus pés começavam a arder e ela presumira que haviam inchado.

Olhou ao seu redor, as pessoas passavam apressadamente, pareciam nem a notar e, talvez, nem a notassem mesmo, estavam tão perdidas em problemas que não eram capazes de enxergar o mundo ao redor.

Havia uma sorveteria a esquerda de Ash e ao lado uma vitrine brilhava com algumas luzes vermelhas de coração, uma vendedora, supôs Ash, acabara de arrumar uma manequim, que estava de vestido roxo em uma posse de dança. A loja se chamava Princess, nada atraente e muito menos bonito, mas o vestido havia atraído a atenção de Ash, que adorava gastar quando tinha alguma crise.

Assim que entrou na loja, o aroma de menta deixou Ash meio tonta, uma mulher baixinha com os cabelos pretos amarrados em um rabo-de-cavalo veio em sua direção, usava um uniforme rosa com o nome da loja bem em cima de seus peitos, um tanto cafona.

― Em que posso lhe ajudar? ― A moça, que Ash descobriu pelo crachá se chama Lory, disse em tom amistoso.

― Eu gostaria de experimentar o vestido da vitrine. ― Ash apontou para o vestido roxo que parecia ainda mais bonito de perto.

― Uma ótima escolha, acabou de chegar. ― A moça sorria de modo que começara irritar Ash. ― Só há dois na loja. Pode ir para o provador e eu levo-o para você.

Os provadores ficavam no fundo da loja, Ash entrou na última cabine, havia um espelho grande, um cabideiro e um sofá de cor estranha arrumado de qualquer jeito, Ash sentou-se deixando a mochila no chão, apoiou os cotovelos no joelho e a cabeça nas mãos, bufou. Seu reflexo no espelho só deixava tudo pior, parecia triste, e realmente estava, seu passado era algo que pertencia só a ela e deveria permanecer assim, mas Crystal parecia querer mudar as coisas, como sempre fazia.

Lory abriu a cortina vermelha, o vestido roxa nas mãos e o mesmo sorriso no rosto, Ash pegou-o e pediu licença. Retirou a roupa rapidamente, sua calcinha e seu sutiã de bolinhas rosas era bem infantil, mas ela gostava assim, mas Prince aparamente gostava de coisas mais ousadas.

O vestido parecia ter sido feito para Ash, o laço na cintura deixava-a ainda mais magra, o vestido ia até o joelho, e os babadinhos no final deixavam ela ainda mais bonito, Ash rodopiou em frente ao espelho, sentindo-se bonita pela primeira vez desde que havia acordado.

Colocou novamente sua roupa, a mancha em sua blusa estava a incomodando e ela pensava seriamente em dar o troco em Noah, mas deixaria isso para outra hora.

Dirigiu-se ao caixa de modo tranquilo, a loja por mais simples que parecesse era absurdamente cara, mas Ash queria aquele vestido, não, ela não queria, ela necessitava dele. Depois de passar o cartão e revirar os olhos para a atendente várias vezes, Ash já ia ir embora, mas dessa vez a atendente lhe chamou a atenção.

― Esse vestido deve realmente ter ficado lindo em você, seu par ficará encantado, tenho certeza.

― Meu par? ― Ash perguntou confusa com a sacola já em mãos.

― Sim, do baile. Você não vai faltar não é mesmo?!

Ash apenas assentiu e saiu da loja, precisava "tomar" ar. Ela havia se esquecido completamente do baile, e o pior é que ela era da comissão de organização, levou a mão na testa inconsciente, ainda faltavam três meses. Respirou profundamente. Prince. Prince ainda não havia a convidado e isso a deixava ainda mais estressada.

Apertou a alça da sacola e assim como havia saído da escola começou a andar apressada para sua casa.

* * *

Abriu a porta bruscamente, iria diretamente para seu quarto, mas assim que entrou tropeçou em algo e caiu com tudo no chão. Quando se levantou percebeu que havia tropeçado em uma enorme mala, que estava seguida de malas menores, ela conhecia aquela mala de couro marrom e velho, era de seu pai. As vozes alteradas vinham da cozinha, mas depois do barulho que Ash fez, pareciam ter se calado. Segundos depois seus pais apareceram, sua mãe ficou encostada na porta, observando de longe, enquanto seu pai vinha em sua direção. Aquilo não podia estar acontecendo, pensou Ash, conectando as brigas e as malas.

― Você vai embora? ― Perguntou já sabendo a resposta, seu rosto ardia.

Seu pai não disse nada, os olhos negros pareciam terrivelmente cansados, havia rugas em seu rosto jovem e os cabelos loiros estavam bagunçados também.

― E não ia me dizer nada? ― Ash quase gritava indo em sua direção. ― Ia embora enquanto eu não estava aqui?

― Eu não queria me despedir e ver você sofr...

Sua fala foi interrompida pelo dedo de Ash, a garota tremia e apertada a sacola sobre as mãos.

― Pois que vá embora e se esqueça que um dia teve uma filha. ― Disse decidida com a voz tremula.

Ash contornou seu pai, antes de subir as escadas correndo viu o olhar triste de sua mãe.

Bateu a porta do quarto e a trancou, se jogou na cama esmurrando os travesseiros e gritando sobre eles. Era o pior dia da sua vida. Desde que se mudara seus pais brigavam, mas ela não achava que eles terminariam, eles se amavam. E ela não acreditava que seu pai seria capaz de abandona-la sem ao menos dizer adeus.

Ash chorava descontroladamente, um toque irritante fez com que levantasse a cabeça, o visor de seu celular brilhava, a foto de Crystal e Ash apareceu na tela, Crystal estava ligando.

Ash apenas desligou o telefone e voltou a chorar. Sua vida não podia piorar. Ela estava tremendamente enganada quanto a isso.

* * *