Como a número um
59 Família
Notas iniciais
Sinto uma coceira nos pés. E a iluminação irrita meus olhos. Estou viva. Só por que eu havia me preparado para a morte?
Abro os olhos e ouso aquele som que já estou acostumada. Quantas vezes eu já fui parar no hospital? Christopher que deve saber. Sorrio. Levo a mão até minha barriga e tomo um susto até me lembrar que não estou mais com meu filho.
Estou numa sala verde. Nossa, sempre é branco. Fico um tempo olhando para o nada absorvendo a vida. Nunca me senti assim, nem das muitas vezes que eu acordei depois de uma quase morte. Seria por que desta vez eu não lutei contra ela?
–Como ele tá mamando? –Ouso uma voz atrás da porta.
–Por mamadeira, é claro, idiota. –Responde outra. Dou uma risadinha. Sei a quem pertence essa voz.
–Por que vocês estão aqui? Eu sou o pai, e sou eu que estou passeando com o meu filho. –Reviro os olhos. A porta se abre e finjo que ainda estou dormindo. –Agora saem.
–OK, chato. –Diz Thalles. –Vem Idiota.
–Hum, filho de uma... –Começa Luca, mas ele é atrapalhado.
Ouso apenas os passos deles se afastando e a porta se fechando. Christopher para do meu lado e fala com uma voz fina e dócil:
–Olha a mamãe ali. –Diz para alguém. –Ela é gordinha como você.
–Ei, eu não sou gorda. –Digo acordando com petulância.
–E preguiçosa também. –Ele sorri para mim. E antes que eu responda, estou chorando. De ver ele ali com a luz brilhando em seus olhos... Sorrio e ele sorri de volta. Sinto uma complexidade no ar. De perfeição.
–Oi, meu amor.
–Oi, minha vida.
Abaixo meu olhar para a trouxinha em seus braços e um sorriso maior cresce em meu rosto. Estendo os braços e então Christopher me entrega nosso filho. O contrário do parto.
Ele é pesadinho e quente. Está usando uma roupa que escolhi. Ele tem cabelo. Muito cabelo loiro. Ele tem olhinhos claros redondos e sua boca se abre como se fosse um sorriso. Ele é vermelhinho e eu consigo vê-lo sendo um problema para o futuro. Um problema bom. Ele vai trazer muita encrenca, mas ele vai ser uma boa pessoa.
–Thomas.
–Thomas? Gostei
–Sim... Tommy. Meu neném. A coisa mais linda do mundo. –Dou uma risadinha. –Dados?
–Nasceu com 3 kg e 51 cm. Ele dorme muito e soube que come também.
–Ele parece com você. De fisionomia. Eu acertei.
–Mas, ah, ele é igual a você em tudo. –Chris balança a cabeça. – Pisca, sorri, grita, chora... Bate em mim.
–Não bato em você.
–Bate sim.
–Ele bate em você?
–Quase sempre. –Christopher ri e eu quase rio junto. Mas não quero senti como se tivesse perdido parte da vida dele. Ou, bem, do começo dela.
–Quanto tempo estou dormindo?
–Dois dias. Mas é normal. Você teve uma convulsão durante e depois. E... você quase morreu na minha frente. Eu...
–Xiu, Chris... Estou aqui. –Pego seu rosto e o beijo. –Sou imortal, se não percebeu.
–Acho que é o destino. E sabe o quê ele está dizendo? –Balanço a cabeça. –Que eu te amo.
–Eu também te amo. –Thomas dá um gritinho e coloca a mão no meu rosto. –E você também, Tommy. Na verdade, te amo mais que esse lerdo.
–Ei. –Chris ri e me abraça junto do nosso filho.
–Agora, né Tommy... –Beijo o nariz do bebê. –Eu vou descobrir como é dar mamar.
–Tu já sab... –Dou um soco no Christopher.
E a melhor parte é que quando meu Tommy pega minha mão sinto como se fossemos uma família de verdade.
Oooooooooooo
C
Ooooooooooo
Meses depois
–QUEM É A COISA MAIS GOSTOSA DO MUNDO?! QUEM É?! –Falo com voz de criança. –É o Super Tommy.
–Super-heróis não são gostosos.
Jogo almofada no Christopher e ouso ri.
–Eu acho os super-heróis gostosos. Principalmente sem camisa.
–Então por que você não dorme com eles?
–Por que eu prefiro o meu maridinho sexy. –Mostro a língua para ele. –Né, Tommy?
–Hum.
Tommy dá um gritinho e fala algo na língua dos bebês e depois aperta meu nariz.
–Quem é o melhor neném do mundo? Aquele que dorme muito como a mamãe? É o SUPER TOMMY! –Coço sua barriquinha e ele abre a boca sem dentes. Pego sua mão e coloco sobre meu rosto de novo –Mamãe. Sou a mamãe. Diz. Diz mamãe.
Mais gritinho.
–MA-MÃE.
–Ele vai falar papai primeiro, não é? –Christopher pega Thomas do chão e começa a girar com ele. –Né filhão?
–Vai falar mamãe e depois Harry Potter, isso sim.
–Harry Potter não é o pai do seu filho.
–Só por que a Ginny pegou ele primeiro. –Brinco, mas beijo a carranca de Chris.
–Vai ver seu e-mail.
–Por quê?
–Só vê.
Sento na nossa cama e pego o Notebook. Clico num e-mail suspeito na minha caixa de mensagem. Começo a ler rápido, mas logo volto desde o começo e releio. Solto um grito de felicidade. Vejo Chris colocar Tommy na cadeirinha então tiro o computador da minha perna, salto da cama e corro para seus braços abertos.
–Meu livro vai ser publicado! Você fez isso?
–Claro.
Começo a pular em cima e a beija-lo. Meu livro vai ser publicado e eu estou tão feliz. Tão feliz quanto quando eu acordei naquele hospital e vi que ainda respirava.
–Obrigada. Obrigada. Eu te amo tanto.
–Não precisa agradecer. Isso foi parte do nosso acordo, lembra?
Lembro de como tudo isso começou e onde estamos agora. Parece que foi em outra vida. Em outro começo.
–Você só fez por isso?
–Ér... não, tá. Fiz por que eu também te amo.
Sorrio e me atiro nele. Caímos na cama juntos.
–Dá para acreditar em como isso começou?
–Não. –Ele ri. –Eu estava com você por obrigação. Hoje nem por isso eu me separaria por você.
–Por que? Eu sou um problema. Sempre entro em problemas e sempre vou para hospital. Tipo aquele meninas clichês.
–Ollie, eu te dei seu sonho. Ser amada de qualquer forma. E você me deu o meu. Ficar ancorado. Mas isso não é o único fato de eu te amar. Talvez eu queria ter alguém para cuidar. Pois eu sei, que se um dia eu precisar, você estará lá.
–Sim, eu estarei.
Christopher me beija. E algo em mim diz: Talvez seja destino mesmo. Ser imortal. Talvez sorte. Ou talvez... acaso. Mas não importa. Tudo aconteceu, e eu não mudaria nada. Não, provavelmente eu mudaria o fato de que em poucos minutos eu teria que trocar a fralda de Tommy.
Mas valia a pena, o homem que eu amo e que me ama estaria segurando minha mão. Mesmo depois de tudo que aconteceu e vai acontecer. Provavelmente em uma semana estarei no hospital outra vez. Mas por enquanto. Estou com a minha família. Minha linda família, a que eu sempre sonhei e não sabia. Eu, Christopher e Thomas.
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