Como Vivem Os Anjos
20 Terceira Temporada — O Último Leão Dourado
Notas iniciais
No mais, espero que gostem. (:
(Little Boxes – Malvina Reynolds – Tradução)
“Pequenas caixas na ladeira,
Pequenas caixas feitas de ticky tacky,
Pequenas caixas na ladeira,
Pequenas caixas todas iguais.
Há uma verde e uma cor-de-rosa
E uma azul e uma amarela,
E todas elas são feitas de ticky tacky
E todas elas parecem simplesmente iguais.
E as pessoas nas casas
Todas foram para a universidade,
Onde foram postas em caixas
E saíram todas iguais.
E há médicos e advogados
E executivos,
E são todos feitos de ticky tacky
E todos eles parecem simplesmente iguais.
E todos eles fazem o curso de golf
E bebem seus dry martinis
E todos eles têm crianças bonitas,
E as crianças vão à escola
E as crianças vão ao acampamento de verão
E então para a universidade,
Onde são postas em caixas
E saem todas iguais.
E os garotos entram para os negócios
E se casam e criam famílias
Em caixas feitas de ticky tacky
E todas parecem simplesmente iguais,
Há uma cor-de-rosa e uma verde
E uma azul e uma amarela,
E todas elas são feitas de ticky tacky
E todas elas parecem simplesmente iguais.”
OoO
— Pequenas caixas, ele disse! — exclamou Ritchi.
— Vamos todos compartilhar! — complementou Melchior.
— Porque se o Nicholas virar um playboy… — foi dizendo London.
— … o Ethan vai chorar! — completou Nick.
Eles riram e a música foi repetida. Era pequena, com apenas aqueles quatro versos cantados em marcha militar, enquanto os quatro garotos caminhavam pelo meio-fio da rua asfaltada, bem em frente a uma casa de tijolos amarelos com um bonito jardim na frente. Ritchi Revonne havia criado a música em menos de meio minuto quando Ethan comentou alto demais com Nick o que pensava em viver num condomínio como Jardim de Ouro.
— Se você prefere viver num apartamento sem telhado, vá lá, mas eu vou ficar aqui — dissera Nick, logo antes de Ritchi, pela primeira vez, recitar os versos que tanto eram repetidos.
Desde o acidente de avião ocorrido no final de 2012, Ethan Lemnsack, Nicholas Hentz e Lorenzo Barcarolli mudaram-se para a antiga mansão de Luca Granelli no condomínio Jardim de Ouro. Luca voltara à Itália depois de seu pai, Enzo Granelli, ex-Líder Supremo da máfia italiana, ser deportado e condenado à prisão perpétua após ter tentado assassinar Nick com um tiro no peito. Havia sido acusado de algumas outras coisas também, mas essa foi a que repercutira mais no mundo todo. Nick havia ficado com uma cicatriz permanente no peito, mas não se importava. Garotas gostavam de cicatrizes.
Por causa disso, a mansão de Luca ficara tão desvalorizada comercialmente que fora alugada por um preço ridiculamente pequeno. O antigo prédio não sofrera mais danificações além do telhado arrancado, mas o avião chocara-se com a rua tão fortemente que devastou todos os edifícios e casas naquela área. A área estava interditada, mas a Academia Alphonse Enoi, não. Esse fora o demônio de Nick.
Pelo menos, o avião era de carga e não transportava nenhum outro passageiro além do piloto e do copiloto, de modo que apenas eles dois (e mais meia centena de pessoas nas ruas) morreram.
— Pequenas caixas, ele disse! — repetiu Ritchi. Era realmente bonito, com um longo e bem cuidado cabelo beijado pelo fogo, da cor de uma chama crescente, com grandes orbes azuis e sardas espalhadas pelo nariz e pela parte inferior dos olhos. Tinha ombros e costas largas e por baixo daquelas roupas era provavelmente cheio de músculos. Ritchi também era um delinquente juvenil, mas Nick não se importava, embora Ethan sim.
— Vamos todos compartilhar! — disse Melchior. Esse não era seu nome verdadeiro, Ritchi dissera certa vez. Era Melon. Melon Chioren, mas ele odiava esse nome, de modo que pegou as primeiras letras do nome e juntou com as do sobrenome. Melchior usava sempre um sobretudo de variadas cores mesmo no mais quente dos dias, quando o sol rugia tão alto quanto uma montanha, sem piedade pelos transeuntes. Curiosamente, Melchior nunca suava. Nunca. Era o mais quieto, sempre com bonitos olhos púrpuras a espreitar e a observar, sem nunca deixar passar nada. Esse era o mais estranho, às vezes, seus olhos pareciam azuis, em outras, eles pareciam roxos. Havia algo de sobrenatural naqueles orbes claros. Tinha um cabelo castanho claro do tamanho do de Nick que às vezes tornava-se cinza e um rosto pálido de anjo incrivelmente enigmático.
— Porque se o Nicholas virar um playboy… — foi dizendo London Weswalk. Apesar de Melchior ser o mais quieto, London era o que menos falava, sua voz era quase um sussurro, cavernosa e grave. Andava sempre de cabeça baixa, deixando um macio cabelo preto jogado ao vento como folhas de inverno, e era obcecado por pentagramas. Naquele dia, usava um como medalhão, prateado e pesado, preso por uma corrente da mesma cor. Da primeira vez que Nick vira seus olhos, tomara um susto. “Não se preocupe”, dissera Ritchi, “não são vermelhos de verdade. Ele usa lentes. Na verdade, são castanhos.” Vermelhos ou castanhos, seus olhos eram intimidadores. London parecia estar sempre revoltado com a vida. “Talvez porque ele tenha nome de mulher”, Melchior comentara certa vez, com aqueles lábios fino e compridos mal se movendo.
— … o Ethan vai chorar! — completou Nick. Depois de Ritchi ter criado aquela música para atormentar o irmão mais velho de Nick, este a cantava dia e noite. Cantava-a quando voltava para casa, sendo seguido por Ritchi, Melchior e London, cantava-a quando passeava pela mansão, ouvindo o eco da própria voz ressoar nas paredes de pedra, cantava-a enquanto tomava banho e quando ia visitar a floresta de Middleland pelo túnel secreto que havia debaixo da casa. Ensinara-a a Lorenzo e ele a cantava todo dia antes de dormir, com aquele delicioso sotaque italiano rasgando cada palavra, sob o pretexto de que o ajudava a pegar no sono. Nick sabia que era mentira.
Cantava até quando ia pra cama com Ethan. E isso acontecia com bem mais frequência agora que ele e Gabriel Melnick haviam terminado. Na verdade, Gabriel terminou e Ethan se humilhou ao implorar para voltarem. Ele cometera a fabulosa imbecilidade de confessar que havia dormido com Danny Nevarnost. O mais novo não perdoara.
Nick quase bateu em Ethan quando soube o que ele havia feito. Na verdade, deu um chute nele.
— Por que não aproveitou e contou que você trepa com o seu irmãozinho?! — ralhara, a voz envenenada de cinismo.
Depois de emprestar seu ombro para que ele derramasse suas lágrimas, fodeu com Ethan até calar a boca dele. Funcionou, mas toda solução era apenas temporária.
Pequenas caixas, ele disse! Vamos todos compartilhar! Porque se o Nicholas virar um playboy, o Ethan vai chorar!
O horizonte tornava-se cada vez mais alaranjado enquanto o pôr-do-sol se aproximava. Chegaram ao Cruzamento Apogeu dos Deuses que, apesar do nome ridículo, era onde as principais ruas de Jardim de Ouro interligavam-se. Eram quatro ruas: Avenida Renome, onde Ritchi morava, Avenida Chimera, onde morava Melchior, Avenida Andante, que tinha a casa de London e Avenida Coruja Dourada, onde havia a mansão de Nick e a de…
Do outro lado da rua, em frente a um muro coberto por uma espessa folhagem verde escondendo uma larga e baixa construção dourada e vermelha, um garoto extremamente pequeno vestido apenas com um short azul celeste pequeno e apertado demais para ele e um casaco branco inacreditavelmente grande demais equilibrava-se no meio-fio com apenas um pé, como um bailarino. Seus braços estavam estendidos como asas, como se ele fosse alçar voo. Como uma coruja.
Nick estremeceu. O fazia toda vez que via aquele garoto. Owl era uma cópia esculpida em Carrara de Oliver Castanelli. Possuía o cabelo com a cor exata da de Oliver, aquele louro prateado quase branco, e até o mesmo corte de cabelo, do mesmo tamanho atrás e dos lados e com uma longa franja caindo pelos olhos, escondendo-os. A mesma cor e textura de pele, os mesmo lábios grossos e rosados, os mesmos olhos enormes e azuis, parecendo dois mundos orbitando cheios de vida em sua face, tão vivos que era como se não houvesse ninguém atrás deles. Owl era muito baixinho, menor que Nick, possuía provavelmente 1,50 metro. O casaco que usava passava um palmo da cintura e as duas mangas passavam uns bons dez centímetros das mãos. Nick não se lembrara de alguma vez tê-lo visto sem ele, ou sem aquele short e aqueles sapatos brancos tão encardidos quanto o casaco era grande.
Vestido quase todo de branco, parecia uma coruja. Era irônico, afinal, Owl era coruja em inglês.
E ele era autista. Não suportava qualquer tipo de contato humano com a própria pele, tinha tiques frequentes e irritantes, parecia nunca estar prestando atenção no que os outros diziam e ficava irritado quando alguém o chamava pelo nome verdadeiro. Owl era apenas um apelido, já que era a única palavra que alguém já o ouvira alguma vez dizer. Ritchi dissera a Nick que seu verdadeiro nome era Rhanys. Rhanys Olrwen.
— Mas não o chame de Rhanys na frente dele, ou a coruja pode acabar arrancando sua língua, pequeno leão — dissera London, com aquele ar sombrio de sempre.
Leões comem corujas, Nick pensou teimosamente, mas decidiu obedecer.
Owl se desequilibrou no meio-fio e caiu de joelho, ralando-o.
Levou as mãos à ferida que se formara, gemendo.
— Owl… — lamentou-se, fazendo uma careta de dor. Tinha uma voz doce e tão pura quanto o ar de inverno, quase uma melodia, sem uma falha sequer. Sentado ali, no meio da calçada, sob a luz dos postes de iluminação, parecia um bebê, menor que Lorenzo. O ferimento deve ter começado a arder, pois ele continuou falando. — Owl, Owl, Owl, Owl… — Cada gemido era mais lamuriante que o outro.
Ritchi atravessou a rua e ajoelhou-se ao lado dele. No momento em que tocou um de seus dedos no joelho pequeno do louro, este afastou-se como se tivesse sido picado. Ritchi sabia que isso aconteceria, e se divertia torturando-o.
— Calma, corujinha — ele disse, com um sorriso sacana cheio de dentes brancos. — Como espera que te ajudemos se você não nos deixa tocar em você?
— Deixe-o em paz, Ritchi — Melchior ralhou, com um tom divertido na voz. Seus olhos pareciam sem cor ao reluzirem a luz do poste. Quando a luz se afastava, tornavam-se duas ametistas. — Não quer que a coruja dê-lhe uma bicada e arranque sua língua.
Ritchi riu. Nick estranhava isso. Certo dia, eles poderiam ser uns amores de pessoas, mas, em outros, tornavam-se tão irritantes e incomodavam tanto quanto fosse possível. Pareciam retroceder aos primórdios da própria vida e voltavam a serem crianças. E eles só tinham quinze anos. London e Owl também, embora Owl fosse quase do tamanho de Lorenzo.
London silvou como uma cobra, mas permaneceu calado.
— Se continuarem a mexer com a coruja, o leão vai comer todos aqui — Nick falou, com um sorriso de canto de boca. — Eu o acompanho até a casa dele.
— Agora que estava ficando bom? — London murmurou.
Despediram-se e Nick acompanhou Owl pela rua asfaltada através da Avenida Coruja Dourada sob a luz alaranjada de postes e o luar, tão roxo quanto escuro. Owl saltitava ao invés de andar, sempre murmurando o próprio nome com uma frequência melódica e olhando para o chão. Nick notou que ele evitava pisar nas linhas dos ladrilhos da calçada e sempre que o próprio Nick pisava, Owl murmurava um Owl consternado.
A casa dos Olrwen era uma construção branca (por que tudo naquela família era tão branco?), alta e estreita, com um portão de ferro branco coberto por raízes verdes que o envolviam como um parasita. Era possível ver uma varanda coberta de baixo até em cima com uma grade de proteção preta, que a fazia parecer uma prisão. Cortinas brancas esvoaçantes chocavam-se inutilmente contra as grades como fantasmas, apenas para serem repelidas pelas mesmas.
Owl atravessou a rua e ficou na ponta dos pés para alcançar o interfone. Apertou o botão por cima do casaco absurdamente grande e esperou o portão ser destrancado. Virou-se para Nick.
— Owl — agradeceu afetadamente, antes de sumir dentro da própria casa, seus cabelos prateados esvoaçando ao vento. Parecia tanto com Oliver, tanto. Só era um pouco mais baixo.
Nick continuou seguindo pela Avenida até chegar aos muros da própria casa.
Enquanto atravessava o gigantesco pátio de cimento, era agradável pensar que viera de um apartamentozinho de classe média para uma colossal mansão que mais parecia um castelo. Com o sol por trás dela, parecia estar iluminando a si própria. Os tons monótonos de cinza da pedra que compunham a frente da casa em nada faziam jus à parte de dentro. Havia uma área gramada com uma dúzia de grandes e antigas árvores à esquerda, a qual Nick chamara de Campina. Um riacho de água límpida e transparente à direita atravessava até afora do Jardim de Ouro para ir se juntar ao Alto Cruzeiro, o rio da floresta de Middleland. Nick chamara o riacho de Garganta de Ouro.
Girou uma comprida chave de ferro na porta de entrada e entrou no hall.
Uma escada estendia-se a sua frente, bem como uma porta à sua direita e outra à esquerda. Nick entrou na da esquerda.
Agradeceu mentalmente que os Granelli tivessem deixado todos os móveis na casa. Cores pasteis e douradas decoravam o local, bem como vasos e quadros valiosos. Era triste pensar que o aluguel da casa agora valia menos que a diária do Four Seasons Hotel George V, hotel em que ficara com Ethan e Lorenzo em Paris, no ano passado.
Ethan estava deitado num sofá que parecia ser incrivelmente desconfortável. Tinha uma bolsa de gelo cobrindo o rosto inteiro.
— Sabe, é suposto que a bolsa fique só na testa, para aplacar a dor de cabeça — Nick disse. — Você pode ficar sem oxigênio.
— É isso que estou tentando fazer — Ethan murmurou, a voz abafada.
Nick sentou-se a seu lado e, delicadamente, tirou a bolsa de gelo dali.
— Tenho duas coisas a pedir pra você — declarou.
Ethan fez uma cara tão sofrida que Nick sentiu pena dele.
— Você não tem piedade de mim? — Nick ignorou a pergunta.
— Primeira coisa: alguns garotos de Jardim de Ouro vão fazer um campeonato de futebol informal naquele campo perto da Avenida Warwick. Sabia que há uma garota linda lá? O nome dela é Mia. Bem, enfim. Queria participar.
Ethan pensou um pouco, esfregando os olhos com as mãos.
— Isso foi melhor do que eu pensava. Qual a segunda coisa?
— Quero dar uma festa aqui.
A gargalhada que o maior deu foi tão alta e ressonante que Nick se assustou. Parecia estar zombando dele.
— Engraçado. Que engraçado.
— Eu juro que vou pagar por tudo.
— Jura que vai limpar tudo também?
— Err… bem… — O louro hesitou. Uma coisa era pagar para um monte de adolescentes beberem e transarem sem preocupações, outra coisa era limpar um castelo de quatro andares sozinho. — Nós podemos trancar o primeiro andar. Acho que o térreo é suficientemente grande. Seria menos trabalho para limpar.
— Mesmo assim, você vai?
— Vou. Eu vou. Posso fazer?
— Não.
Aquilo foi como um soco na cara.
— Por que não?
— Porque nós não somos qualquer tipo de adolescentes, Nick. Se você fizer uma festa, pode ter certeza de que os paparazzi vão saber disso. Agora, imagine a beleza que seria se descobrissem um monte de pirralhos menores de idade bebendo e transando? Eu posso me dar mal. Posso perder a sua guarda. E ainda tem Lorenzo.
— Eu juro que posso controlar a entrada e saída de pessoas na casa. E seria apenas para umas… quarenta pessoas. — Quarenta pessoas era o número oficial, não queria nem pensar na quantidade de penetras que viriam. Seria impossível controlar o fluxo de pessoas entrando e saindo, Nick sabia disso. E Ethan também.
— Você não consegue controlar nem a própria língua.
— Mas… Ethan. Por favor. — Esbugalhou os olhos e deixou-os úmidos. Andava treinando aquilo. Podia chorar a hora que quisesse.
— Guarde suas lágrimas de crocodilo pra si. Pode ir ao campeonato, mas esqueça sobre a festa. Ela não vai acontecer.
Nick pulou do sofá vermelho de raiva, enquanto Ethan punha a bolsa de gelo de volta no rosto. Atravessou a sala até a porta posterior, que dava no corredor grande.
— Pequenas caixas, ele disse!— gritou, o mais alto possível. —Vamos todos compartilhar! Porque se o Nicholas virar um playboy, o Ethan vai chorar!
E repetiu a música aos berros até chegar ao próprio quarto. Ficara com o antigo quarto de Luca Granelli, no quarto andar. A cama estava impregnada com o cheiro dele quando se mudaram, mas já havia se passado quase duas semanas. Jogou-se no colchão, frustrado e estressado.
No dia seguinte, ainda carrancudo, Nick recusou-se a falar com o irmão no café da manhã. Sentou-se à mesa e começou a passar geleia num pão de forma. Lorenzo estava bem ao seu lado, comendo cereais como uma criança. Seus olhos cinza estavam cheios de vida àquele dia.
— Bom dia, Lore — falou, logo antes de enfiar o pão na boca. Ethan estava a sua frente, mastigando e fingindo que ele não estava ali.
— Bom dia — Lorenzo falou. — Você vai ao campeonato de futebol?
— Decidi ir, sim. — Um relampejo de qualquer coisa perpassou os olhos de Ethan.
— Eu vou assistir, mesmo que eu não possa ver. Tenho certeza que você vai se dar bem.
— Você é tão gentil. É a pessoa mais gentil que eu conheço. É a melhor pessoa que eu conheço. — Limpou a boca com um guardanapo, virou um copo inteiro de suco de uma vez, limpou a boca de novo e deu um beijo na bochecha do menor, bagunçando seus cabelos. — Vou sair agora. Boa sorte.
Saiu da mansão com uma calma digna. O inverno ainda estava ali, mas o dia estava tão quente quanto tinha o direito de estar às nove horas da manhã. Era uma tentação ver o rio Garganta de Ouro e não se jogar dentro dele, mas Ethan proibira Nick de fazer aquilo.
Atravessou os portões e seguiu a esmo pela rua até sair da Avenida Coruja Dourada. Em certos lugares, o muro que cercava Jardim de Ouro não existia, era apenas uma cerca farpada eletrificada. Ritchi dissera-lhe uma vez que nem sempre estavam eletrificadas. Eles a desligavam todo dia das duas da tarde às seis da noite.
Chegou a uma praça arejada cheia de árvores altas e um campo de recreação, cheio de brinquedos infantis, onde algumas crianças brincavam avidamente. Melchior estava sentado num banco de madeira, observando-as atentamente. Naquele dia, usava um sobretudo marrom.
Nick sentou-se a seu lado.
— E então — falou. — Qual o seu? — Com um movimento de cabeça, indicou as crianças.
— Todas.
Devia ter uma dezena de crianças ali.
— Todas?
Melchior sorriu.
— Sim. Veja ali, na casinha de plástico. — Na casinha de plástico, havia três meninos. — São meus irmãos, Samwell, que tem onze anos, Tarly, que tem sete, e Robbet, que tem oito anos. Na caixa de areia — Na caixa de areia, havia dois meninos e uma menina —, também são irmãos. Daemon tem dez anos, Marco tem nove e Julie tem doze.
A garota parecia ter idade mental de metade de sua idade, mas Nick não se atreveu a comentar.
Melchior indicou um canto mais afastado do campo. Havia algumas gangorras.
— Na gangorra amarela, do lado de cá, é meu primo Hugh; do outro lado, o gêmeo dele, Howl, de dez anos, filhos do meu tio Lance, irmão do meu pai Leoh. Odeio meu tio, mas os filhos dele são uns amores. Ah, e no banco, perto das gangorras, é meu outro primo, Robb, filho da minha tia, Mel, irmã da minha mãe, Any. O garoto sentado ao pé do banco, brincando com a terra, é o irmão dele, Grey, de oito anos. E o bebê que Robb segura é meu irmão, Teo. Ele tem um ano.
Robb parecia ter em torno de catorze anos. Era um garoto bonito, com o cabelo castanho acinzentado e a pele bronzeada pelo sol. Realmente segurava um bebê rechonchudo e rosado. Teo chupava avidamente uma mamadeira cheia de leite.
— Você tem sete irmãos. E pensar que meu irmão tomou minha guarda porque não tínhamos mais nenhum outro parente. — Melchior gargalhou longamente. — Todos eles moram com você?
— Robb e Grey ficam conosco durante as férias. Meu tio Lance é um parasita, então está morando com o irmão, meu pai, até se estabilizar financeiramente após a esposa tê-lo deixado. Creio que, quando eu terminar a faculdade, ele vai estar começando a abrir os classificados de emprego.
Nick riu, logo antes de imaginar como seria viver com mais catorze pessoas dentro da mesma casa.
Como de tivesse lido seus pensamentos, Melchior falou:
— Não é tão difícil se acostumar com o barulho das crianças. Não é porque você está ouvindo que está escutando.
Nick sentiu um arrepio. Não é por que você está vendo que está enxergando, Peter Marahana dissera uma vez, num passado longínquo que mais parecia ser outra vida.
— Meu irmão não me deixou fazer a festa — declarou.
— Que pena. Estava tão ansioso. — O tom dele era tão monótono que Nick não saberia dizer se era sarcasmo. — Do que adianta viver num castelo se não se pode sequer dar um baile?
— Diga isso a Ethan. Ele tem medo daquele negócio de menores de idade, bebidas, etecétera e tal. Aliás, haveria muita divulgação.
Melchior deu um sorriso cheio de intenções.
— Talvez eu diga. Pessoas sempre podem ser convencidas. Mas, antes, tenho que cuidar dos meus passarinhos — murmurou, olhando fixamente para o garoto que Nick pensava ser Marco. Ele estava de cabeça para baixo, segurando-se com as pernas na barra de ferro que servia de apoio aos balanços, balançando-se perigosamente para frente e para trás.
Ethan nunca me deixaria fazer aquilo.
— Como assim, “passarinhos”?
— Já ouviu a frase “Um passarinho me contou”? — Melchior levantou-se do banco. A barra de ferro começava a ranger, mas Marco continuava a balançar-se.
— Já.
— Pois é isso mesmo. — Caminhou para perto do irmão menor e, no momento em que o arrancou da barra com os braços, esta desmoronou. Metal retorcido caiu por cima de velhos balanços enferrujados, espetando o ar à toa.
Nick aproximou-se dos dois. Se Melchior não tivesse tirado Marco dali, este poderia ter se machucado gravemente. Olhou carrancudo para o menor.
— Quantas vezes eu já avisei para não se balançar nessa coisa?
Marco era um pouco maior que Lorenzo, tinha o cabelo castanho acinzentado (todos os irmãos e primos de Melchior pareciam ter o cabelo castanho acinzentado) e encaracolado, inteligentes olhos azuis claros que estavam a um passo de se tornarem roxos como os do irmão, um rosto fino e bonito e uma expressão obstinadamente teimosa.
— Essa conta?
Melchior torceu a orelha do irmão com dois dedos, que se contorceu de forma exageradamente violenta. Levantou a voz para a praça inteira ouvir.
— Muito bem! — A voz dele era surpreendentemente alta e autoritária, como a de Ethan. Ele é o mais velho de oito filhos e quatro primos, tenho que me lembrar disso. — Tarly, Robbet, Grey, vocês vêm comigo. Sam, Julie, Daemon, Hugh, Howl, podem ficar. Robb! — berrou. Seu primo surgiu carregando Teo, que ria adoravelmente para cada movimento de Melchior. Robb era claramente mais novo que Melchior, mas eles eram da mesma altura, a mesma de Ethan. Tinha olhos azuis, mas não eram como os de Marco, que pendiam ao roxo. Eram mais escuros, e não se comparavam àquele tom claro de violeta de Melchior. — Cuide das crianças. Me dê ele aqui. — Pegou Teo com um braço, o que só o fez sorrir ainda mais. — Se um deles quiser ir embora, espere até outro querer também. Por algum motivo, eles só sabem ir pra casa acompanhados.
Apesar de Grey ser irmão de Robb, Melchior parecia mandar nele tanto quanto nos próprios irmãos.
Robb olhou para Nick.
— Você é Nicholas Hentz?
— Ele é — confirmou Melchior, que lutava para segurar Marco com um braço e Teo com o outro. — É com todo prazer que apresento-lhe Nicholas Antonella Lemnsack Hentz, o último leão dourado, salvador de garotinhos cegos e irmão de leões negros e de cantores.
Nick tentou esconder a incredulidade. Sabia que, com “cantores”, ele se referia ao fato de Lorenzo ter cantado, ou seja, delatado, tudo o que sabia sobre a máfia italiana para a polícia do país, o que ocasionou na ruína da organização. Mas ninguém sabia que Lorenzo havia feito isso.
Fitou Melchior longamente, mas ele brincava com Teo, fazendo gargalhar uma risada gostosa.
Ele tem uma cara de anjo, mas é mais capcioso do que eu pensava. Tenho que tomar cuidado com ele.
— Nossa, é um prazer imenso te conhecer — Robb tomou as mãos de Nick nas suas, sacudindo-as com demasiada violência. Passou a praticamente resumir a vida de Nick, desde a fundação da Kruger-Vorheel até morte de seus pais e o acidente de avião que quase o matou. — Talvez sua família seja amaldiçoada por aviões. Sabia que a Kruger-Vorheel já fabricou aviões supersônicos? A maioria custava 1,1 bilhão de dólares, mas, no momento em que um deles explodiu no ar, eles abandonaram o projeto.
— Nicholas não precisa que você resuma a vida dele — murmurou Melchior. — Daemon, não coma a areia! — gritou. Virou-se para Nick. — Estou indo. Tenho certeza que, hora ou outra, poderemos fazer a festa. Basta ter paciência.
Melchior partiu, levando consigo quatro irmãos mais Teo nos braços. O dia estava ainda mais quente do que quando acordara e o sobretudo dele parecia mais quente ainda, mas Melon Chioren não estava sequer vermelho.
Nick despediu-se de Robb e continuou andando pelo condomínio. Era um lugar surpreendentemente grande. Cada esquina tinha uma casa, algumas ruas eram mais bonitas que outras, mais arborizadas, algumas casas eram incrivelmente extravagantes, outras, como a de Owl, mais simples.
Encontrou Owl no meio fio de uma rua curta com árvores centenárias dos dois lados, na exata posição do dia anterior. Usava a mesma roupa, Nick notou, embora o short fosse outro, era idêntico ao anterior. O casaco realmente era o mesmo.
Owl estava empoleirado na calçada, equilibrando-se com um só pé, o outro estendido perpendicularmente, os braços abertos, com as mangas do casaco branco caindo por seus pulsos. A coruja não fazia sequer um movimento, mas quando uma folha caiu de uma árvore e roçou em seu pescoço, Owl pulou para trás como se tivesse levado uma facada.
— Owl! — gritou, arrastando-se no chão. Quando viu que não passava de uma folha, suspirou aliviado: — Owl.
Na primeira vez que Ethan vira Owl, quase caíra de joelhos. Eu também, pensou Nick. Pensei que Oliver tivesse se levantado dos mortos para se vingar de mim. Mas então percebi que ele era apenas uma corujinha inocente. Ethan chorara naquela noite no ombro de Nick, que aguentara tudo pacientemente.
Foi então que uma senhora surgiu de detrás de uma das árvores. Era muito velha, muito velha, com o rosto enrugado como uma passa, a pele pálida, o cabelo da cor da neve amarrado num coque apertado atrás da cabeça. Usava um andador e era quase da altura de Owl.
— Mais devagar, Rhanys — ela disse, numa voz dez vezes maior que ela. — O que uma velha precisa fazer para ter um pouco de descanso? — Owl pareceu não ouvir. Começou a saltitar no meio da rua. — Faz cinquenta anos que não consigo pular, não esfregue isso nos meus olhos. Ande, me ajude aqui.
Nick já havia se surpreendido por ela ter usado o nome verdadeiro de Owl, mas se espantou ainda mais ao vê-lo tocando no braço dela. A velha segurou no garoto, usando-o de apoio, e ele sequer contestou.
Nick continuou a marchar. Entrou na Avenida Andante, onde sabia que London morava. Só não sabia aonde.
Descobriu onde quando viu dois garotos idênticos de cabelos pretos e provavelmente uns dez anos correndo impetuosamente de uma casa de apenas um andar, marrom e vermelha. Carregavam o que parecia ser uma nécessaire.
London surgiu de casa, vermelho de raiva.
— DEVOLVAM — ele berrou. Nick nunca o tinha ouvido falar tão alto — AS MINHAS LENTES!
Os garotos riram da cara dele e correram para longe. London urrou de frustração e voltou pra casa, batendo a porta.
A Avenida Renome ficava algumas ruas após a Avenida Chimera. Era uma rua comprida e irregular, parecendo um tobogã de cimento cozinhando sob o sol. Não havia ninguém nas ruas àquela hora, exceto por Ritchi. Ele estava sentado no meio fio em frente a uma casa verde e amarela, com um garoto maior que ele ao seu lado. O garoto estava de pernas cruzadas e observava a rua com uma atenção absurda. Era ruivo também.
Quando Nick se aproximou, Ritchi o puxou para que ele se sentasse.
— Esse é o meu irmão, Terrence. Nós o chamamos de Terry.
Terry levantou a vista para eles. No momento em que Nick fitou seus olhos azuis e não percebeu nada além de um profundo e vago vazio, soube que ele era como Owl.
— Ele é autista, assim como Owl — explicou Ritchi. — Mas acho que o caso da coruja é menos grave. Owl sabe ler e escrever e fala ao menos uma palavra. Terry não sabe fazer nada disso e só responde ao próprio nome.
Pela primeira vez, Nick notou um resquício de maturidade nos olhos de Ritchi. Ter um irmão mentalmente lento seria um fardo que ele teria de levar quando seus pais morressem, sabia disso.
— Encontrei Owl hoje — murmurou. — Ele estava com uma senhora. Ela o chamou de Rhanys e ele a deixou tocá-lo.
— Você conheceu a Senhora da Língua de Aço?
— Quem?
— Olenna Olrwen. É a avó de Owl, mãe do pai dele. Mas não a chame de Senhora da Língua de Aço na frente dela, ou pode perder a sua. Chamamos-lhe assim porque ela não tem medo de usá-la. Dizem que já fez uma família inteira se mudar de Jardim de Ouro apenas numa discussão. Outra vez, ela fez uma mulher entrar em depressão. E parece ser a única pessoa que pode chamar Owl de Rhanys sem que ele fique irritado, ou pode tocá-lo sem que ele se debata como uma truta epiléptica.
— E eu que pensava que Jardim de Ouro fosse um lugar pacato.
Ritchi riu.
— De longe, parece que somos todos perfeitos, com famílias bem equilibradas e estruturadas. Mas isso é bem mais que uma mentira. A família Redwyne tem dois filhos dependentes de drogas. Os O’Donnel já traficaram drogas. Os Montgomery têm dois filhos, um menino bebê e uma menina, mas, na verdade, o bebê é filho da menina, que eles estão criando como se fosse irmão da mãe e filho dos avós. A família Bell tinha uma grande corporação que foi levada à falência de propósito antes que a polícia descobrisse um grande golpe que eles haviam aplicado nela. Aquele senhor Morris, que mora naquela casinha de madeira no fim da Rua do Arco-Íris, que faz esquina com a Avenida Warwick, é nazista e membro da Ku Klux Klan. E minha mãe, Farris, tem um caso com o pai de Melchior.
Nick arregalou os olhos.
— Tem?
— Tem. E o tio dele, Lance, tem um caso com a mãe de London, Brienne. Por isso que Melchior o odeia e London é tão revoltado com a vida.
Nick mal podia acreditar.
— Vi London gritando com dois meninos gêmeos agora há pouco.
— Ron e Jimmi. São irmãos dele. London diz que os odeia, mas não acredite nisso. Ele os ama ferozmente e os defende com unhas e dentes quando alguém fala dos garotos. Por algum motivo, eles parecem que vivem para perturbar as pessoas. Principalmente os irmãos de Melchior. E tem aquele primo dele, Robb. O garoto teve a felicidade de perder a virgindade mês passado. Com a madrasta do Owl, Olívia. — Nick quase engasgou com a própria saliva. — Ela deve ter quase o triplo da idade dele, mas ainda é bonita, embora seja tão apática quanto uma princesa presa numa torre. Você já percebeu que todos os Olrwen têm nomes começando com O? O pai de Owl se chama Ottis. A mãe dele, que morreu no parto, chamava-se Onnie. A avó se chama Olenna. E a outra avó, mãe de Olívia, se chama Odette. Rhanys foi o primeiro que quebrou essa tradição, e nem isso fez direito. Penso em como ele reagiria se descobrisse que a amada madrasta que ele adotou como mãe tem um caso com um garoto mais novo que ele. — Ritchi riu novamente. — Ah, não confie em Robb. Ele é um psicopata.
— Como assim?
— Ninguém sabe disso, isso é, oficialmente. Mas quando Robb tinha uns seis anos, Melchior me contou, ele tinha uma gata. A gata ficou grávida e a mãe dele contou a ele que havia vários gatinhos pequenos na barriga dela.
Nick sentiu-se subitamente nauseado.
— Ele abriu a gata com uma faca e tirou os fetos de dentro dela. Falando em facas, Owl é obcecado por facas.
A súbita mudança de assunto fê-lo lembrar-se de… si mesmo.
— Todo ano, no aniversário de um de nós, ele nos presenteia com uma faca. No aniversário dele, todos devolvemos as facas, e ele se alegra como uma criancinha. É sempre assim, desde que eu posso me lembrar. Nós crescemos juntos, sabia? Eu, London e Owl. Eu gosto de encher o saco deles, mas… sabe como é que é.
Você os ama.
— Sei. Como sabe de tudo isso? Sobre… as pessoas daqui?
Ritchi levantou as sobrancelhas, como que surpreso pela pergunta.
— Porque eu sou amigo de Melon Chioren. Nicholas… Melchior é um mestre dos segredos. Tudo o que há para saber sobre qualquer pessoa, ele sabe. Se ele não sabe, é porque não é verdade. Ele tem cara de anjo, mas há um demônio por baixo daquela pele. Ele é do tipo que maquina, manipula, mente, trai, conspira, trapaceia, ameaça e chantageia para conseguir o que quer, cobre tudo com um cinismo venenoso e uma frieza calculista. Coloca amigos contra amigos, transforma-os em inimigos quando bem entende e vice-e-versa. Tem um instinto natural para a liderança. As pessoas para ele não passam de peças nesse grande jogo chamado vida. Ele usa os irmãos e primos menores para conseguir informações. Chama-os de passarinhos. Crianças são pequenas, de modo que adultos não temem em dizer qualquer coisa perto delas. Mas eles são astutos, Melchior os ensinou a serem assim. Marco, principalmente. É o menino de ouro dele. Adquirem informações e passam ao irmão mais velho. Melchior tem um império feito de segredos e sussurros. Tê-lo como inimigo é um erro terrível… principalmente se você tem segredos a esconder.
Ninguém tem mais segredos a esconder do que eu.
— Mas tê-lo como amigo pode ser bastante prazeroso — continuou dizendo Ritchi. — Seja amigo dele. É a melhor coisa que você pode fazer. E ele é superdotado, é um gênio, de verdade. Sabe, ele foi o último que eu conheci. Tinha doze anos quando ele se mudou para a Avenida Chimera com aquela horda de crianças. Um dia, eu pus fogo num armazém acidentalmente, mas eu já era conhecido por fazer coisas que não devia, de modo que tinha absoluta certeza de que me culpariam por aquilo, sendo que foi sem intenção. Melchior me ajudou a fugir do armazém e me escondeu na floresta de Middleland até que as coisas baixassem. Ele armou uma situação em que a culpa caiu sobre outro garoto.
— Ele culpou um inocente? — A voz de Nick estava impregnada de incredulidade e de um certo asco.
— Mais ou menos. O garoto, Nottie, era um delinquente também, uma hora ou outra ele faria aquilo. Aliás, ele gostava de mexer com Owl de formas que você nem imagina. E com London. O que Melchior fez foi o seguinte: havia uma câmera de segurança no local, mas que só filmava a parte da frente da loja, sendo que o fogo começou na de trás. Melchior acessou uma fita em que Nottie aparecia e mudou as datas para pouco antes de o fogo começar. Como ele fez isso, bem, nem eu sei. Há coisas que ele não me conta. De qualquer jeito, assim que Melchior arregalou aqueles grandes olhos púrpuras e arrumou naquele rosto de bebê uma expressão eternamente culpada para dizer que viu Nottie começando o fogo, ele foi preso e a família dele se mudou daqui. Depois disso, me tornei amigo dele.
E mão direita de seu império de segredos.
Terry soltou um grunhido gutural quando viu algumas formigas atravessando o asfalto quente.
— Está quente pra caramba, não? — comentou Ritchi. Puxou Terry para cima e pôs um dos braços dele em volta de seu ombro. O mais velho fitou Ritchi vagamente, sem entender. — Acho melhor eu entrar. Se você for esperto, pode se dar bem aqui, Nicholas. — Passou a caminhar para longe dali com o irmão mais velho. — Nesse jogo, ou você vence, ou você morre.
O campeonato de futebol aconteceu algumas poucas semanas depois. A pouco tempo de voltar à escola, Nicholas Hentz sentia-se ansioso a cada passo que dava. Chegou a pensar em desistir, mas Ethan obrigou-o a ir.
O campo de futebol de Jardim de Ouro era composto de um terreno regular, com uma grama verde e brilhante, com arquibancadas dos dois lados do campo, como no ginásio da Alphonse Enoi, só que menor e aberto ao ar livre. Uma cerca de corda cercava todo o lugar, deixando espaço apenas para uma abertura que as pessoas usariam para entrar. Havia um vestiário subterrâneo cuja entrada era dentro do campo. Nick pegou-se perguntando se o túnel secreto da mansão passava por lá, mas achou melhor não arriscar. Luca Granelli deixara-lhe um mapa dos túneis, mas Nick sentia-se tão estúpido ultimamente que era mais provável que se perdesse mesmo assim.
Ethan e Lorenzo estavam lá, na arquibancada direita. Ethan não entendia nada de futebol e Lorenzo era cego, mas Nick sentiu-se feliz mesmo assim. Melchior estava lá com mais cinco crianças das quais ele só reconheceu Marco e Daemon e com Robb, além de London que, pelo visto, levara os irmãos gêmeos. Os meninos não paravam quietos e o mais velho estava sombrio como sempre. Owl estava sozinho num canto, balançando as pernas e murmurando seus Owls. Eram onze contra onze, metade vestida com camisas azuis e a outra metade, com camisas vermelhas. Nick estava de vermelho, assim como Ritchi Revonne.
O jogo começou quando o juiz, um homem imensamente calvo e gordo, apitou. Ritchi era incrivelmente rápido e violento nos passes e dribles. Por vezes, quase derrubou Nick, que se esforçava para acompanhar o ritmo dele, descobrindo-se cansado demais para isso.
Quando eu fiquei tão sedentário que não consigo nem correr atrás de uma maldita bola?
O inverno de Middleland estava pregando uma peça cruel nos garotos naquele dia. Quando o meio-dia chegou, o sol estava alto como um gigante e pesava sobre as cabeças dos jogadores. Nick tinha os pés doloridos e cheios de bolhas dentro das chuteiras, suava tanto que parecia que acabara de sair do banho sem se enxugar e estava vermelho como um tomate.
Quando o primeiro tempo acabou, sentou-se na arquibancada, arfando desesperadamente. Ethan sentou-se do seu lado e tirou a franja empapada de suor delicadamente de seus olhos.
— A culpa disso é sua — Nick falou, mal-humorado. — Me perturbou tanto o ano passado inteiro insistindo para que eu fosse passivo que acabei ficando preguiçoso.
— Como se você não tivesse gostado. E fez um terço dos gols do jogo.
Perto dali, Lorenzo falava com Jimmi e Ron animadamente. Do outro lado, também perto dali, Daemon Chioren e outro garoto mais velho que julgava ser Samwell observavam fixamente o campo. O problema é que não havia ninguém lá.
— Seja cauteloso — sussurrou Nick para Ethan.
— Com o quê? — ele indagou, sem entender.
— Há passarinhos por aqui. Há passarinhos por todo lugar.
O intervalo acabou e os rapazes voltaram ao campo. Ethan podia não entender nem gostar de futebol, Nick notou, mas que ele gostava de ver os garotos sem camisa, gostava.
Em certo momento, deu uma rasteira tão forte num garoto do time adversário que ele caiu e, pelo som de crack que seu tornozelo fez, o quebrou. Seus gritos de dor corroboraram a teoria. Foi aí que a confusão começou.
— Seu filho da puta! — o garoto gritou, ainda segurando com força o tornozelo, contorcendo-se de dor. — Você fez de propósito!
— Ah, pelo amor de Deus — Nick gritou de volta, as bochechas rubras. — Cara, olha pro seu tamanho e olha pro meu! Você deve ter o dobro do meu peso, se alguém aqui fez algo de propósito, foi você que caiu porque quis!
— Cala a boca, seu orfãozinho de merda — gritou outro de azul.
Os garotos de azul começaram a gritar apoiando o garoto que estavam no chão, enquanto os de vermelho falavam contra. Quando um de azul levantou a mão para ameaçar bater em Nick, este já tinha antecipado o ato. Ele realmente era maior que ele, de modo que jogou-se contra seu peito e, quando ele caiu, começou a chutar suas costelas. O garoto puxou-o pelo tornozelo, derrubando o louro no chão com um baque surdo e pulou em cima dele. Porém, antes que pudesse usar os punhos tão grandes que mais pareciam presuntos contra o rosto vermelho de Nick, alguém o puxou para trás.
No fim, os dois estavam expulsos do jogo.
Sozinho no vestiário com Ethan, Nick apertava as palmas das mãos contra as orelhas. O mais velho berrava um sermão sem parar há alguns bons minutos
— Francamente, quantos anos você tem?!
— Tenho catorze anos — respondeu teimosamente. — Sou adolescente. Faço besteiras. Acostume-se com isso.
— Eu deveria te trancafiar num daqueles quartos da mansão. Você é um perigo pra sociedade.
— Quem, um sujeito simpático como eu?
Ethan urrou de frustração. Após alguns segundos praguejando a amaldiçoando o louro com todos os xingamentos possíveis, sentou-se ao lado dele no banco e suspirou pesadamente.
— Você tem razão. Eu estou exigindo demais de você. Sinto muito por isso.
No fim, eu só preciso dar uma resposta malcriada ou duas para ele negar todo o sermão que passara meia hora dando.
— Sinto muito ter brigado com aquele garoto estúpido — disse Nick. — Mas teria valido mais a pena se tivesse me deixado quebrar o nariz dele, além do tornozelo.
— Nos mudamos para cá há pouco tempo. Aqui é outro lugar, outra sociedade.
— A sociedade das pequenas caixas.
Ethan riu.
— Sim, isso mesmo. Temos que aprender a conviver em Jardim de Ouro. Apesar de ser a uns vinte quilômetros do nossa antiga casa, aqui é diferente. Não brigue mais.
— Não vou brigar. Fisicamente. — Talvez eu possa me tornar um Senhor da Língua de Aço.
— Obrigado. Agora vá tomar um banho. Você é só suor e terra.
— Eu vou. Mas faz umas boas semanas que eu não transo. Me ame agora.
— Estamos dentro de um vestiário público.
— Foda-se. — Ele usa os irmãos e primos menores para conseguir informações. Chama-os de passarinhos. — Ou você me come agora ou não come depois.
Puxou-o violentamente para si. Nick estava cansado e exausto, mas não o suficiente para não conseguir prender o irmão com os braços e pernas. Seus pés eram carne viva e não havia como seu rosto ficar mais vermelho, mas um rubor tomou conta de seu corpo e ficou lá.
A camisa de Ethan foi jogada num canto, logo depois sua bermuda teve o mesmo destino, assim como a cueca. A camisa de linho de Nick fora rasgada de cima a baixo. O short que ele usava era tão pequeno e apertado que tinha certeza que Ethan preferia vê-lo usando-o.
Ficou de quatro enquanto sentia o irmão enfiar o rosto em sua nuca e chupar a pele e o suor, tudo junto. Sentia a ereção dele por cima da seda do short. Estava tão duro quanto tinha o direito de estar.
— Me coma, Ethan — Nick gemeu. A língua de Ethan descia por suas costas, sorvendo o suor impregnado. — Me coma, me tome, me ame. — Ele mordeu uma de suas nádegas por cima do short. Estava tão excitado que se um dos passarinhos de Melchior surgisse ali naquele momento, era capaz de convidá-lo para participar. O short foi abaixado. — Isso… enfie a língua na minha abertura. Ahhhh! — Ethan realmente o fez. Lambeu o ânus do louro com tanto desespero, resvalando a língua pela abertura que não parava de piscar. Beijou-o e chupou-o com sofreguidão, masturbando-se enquanto isso. Seu membro estendia-se duro e vermelho. — Deixa eu chupar seu pau.
Sentado no banco frio de metal, Nick meteu o pênis do irmão na boca e não tardou em estocá-lo no fundo da garganta. Apertava as coxas e as nádegas de Ethan enquanto isso, perguntando-se por que não era ativo nele mais vezes. Ele era tão delicioso.
Quando terminou, surpreendeu-se ao ver como as coxas dele estavam vermelhas de arranhões.
— Você devia jogar futebol — falou. — Ficaria mil vezes mais gostoso.
Ethan não respondeu. Ao invés disso, deitou Nick de bruços, deitando-se por cima dele logo depois. O suor do corpo dos dois unia-os como um só.
— Vai, me fode, maninho. — Nick suprimiu o grito que quis dar quando ele enterrou os dentes em seu ombro. — Me fode com esse pau grosso e molhado, Ethan Lemnsack.
Ethan enterrou-se nele e passou a estocar com tanta força quanto era possível. O banco tremia sob os dois corpos unidos. Nick sentia-o entrando e saindo de si, montado nele com tanta decência quanto dois animais copulando. Esse pensamento fê-lo rir para logo depois gemer de prazer quando sentiu o gozo quente jorrar de Ethan para dentro de si.
Tomaram banho juntos, abraçados, beijando-se, tocando-se. Nick ensaboou todo o corpo de Ethan, que fez a mesma coisa com o louro. Quando terminaram, Nick vestiu as roupas que o irmão trouxera para ele e saíram para o sol quente lá fora.
Ritchi estava sentado na arquibancada entre Melchior e London, suado, vermelho e feliz. Owl estava sentado um andar acima, fazendo círculos no cimento dos bancos com os dedos. Usava o mesmo short e o mesmo casaco de sempre. London usava uma camisa escura com a estampa de um pentagrama. Nick jurou ver um anel com o mesmo símbolo em um dos dedos.
— Vencemos? — indagou ao ruivo.
— Vencemos. Fiz o gol da vitória.
Melchior passou a fitar Ethan penetrantemente, com uma expressão indagativa, uma das sobrancelhas levantadas. No começo, este fingiu que não perceber, mas quando o tempo se alongou demais, foi obrigado a devolver o olhar.
— Você tomou banho também? — indagou numa voz sussurrante, seus olhos púrpuras ardendo em chamas roxas. Há alguma coisa inumana naqueles olhos. — Seu cabelo está molhado. Suas roupas estão coladas ao corpo.
Nick não se atreveu a engolir em seco, muito menos a deixar Ethan responder.
— Ele tomou. Qual o problema? O dia está insuportavelmente quente. — Como sempre, Melchior usava um sobretudo, mas não suava, e parecia tão confortável quanto se estivesse no meio da neve. Como ele consegue?
Melchior sorriu afetadamente.
— É claro. Também estou com calor. Está terrivelmente quente.
Se você cozinhasse dentro dessa roupa, eu faria um ensopado.
Voltaram para casa juntos, com Lorenzo em seu encalço. O sol dera uma trégua, o cimento agora não parecia ferver ao toque, mas sim apenas queimar.
— Pequenas caixas, ele disse, vamos todos compartilhar… — Nick cantarolou.
— Cala essa boca.
— Porque se o Nicholas virar um playboy, o Ethan vai chorar! — Lorenzo completou, com uma risadinha. — Essa música é engraçada. Gosto do Ritchi.
— Eu também — corroborou Nick.
Ethan fez um grunhido de asco.
— Ele é um delinquente.
— Ele é. Fuma e bebe como um peru em véspera de Natal, mas tem mais fôlego que eu. Às vezes fica dias fora de casa, anda com ex-presidiários e se prostitui de vez em quando. Também é gostoso pra cacete. Você deveria aproveitar, agora que Gabriel te deixou.
Podia sentir o rubor subindo ao pescoço de Ethan.
— Ou por acaso prefere o Owl? Ele é adorável, mas é autista e não suporta que ninguém o toque, de modo que fica meio difícil levá-lo pra cama.
— Cala a boca!
— Gabriel terminou com você por sua causa. Eu disse pra não contar a ele sobre Danny. Não era necessário.
— Por quanto tempo mais você vai me importunar com isso?
— Até que você cresça um pouco.
— E quem vai me ensinar, você? Você é mais criança que Lorenzo.
— Ei! — protestou o menor.
— Não compare Lorenzo a mim. Ele é muito melhor que eu.
Toda vez que Ethan dizia algo que desagradava Lorenzo, Nick dava um jeito de puxar a criança ainda mais para seu lado. Ethan ainda não percebera isso.
— Vou trazê-lo de volta para você.
— Não.
— Não?
— Sim, não. Já não basta você tê-lo feito praticamente se declarar pra mim, pra começar. Eu não preciso de ajuda para tudo.
Ah, o velho orgulho dos Lemnsack.
Quando chegaram em casa, foi com Lorenzo ao jardim interno da mansão. Era um local pacato e harmonioso, com arbustos, bancos de descanso, um coreto branco hexagonal e a piscina da casa. Havia árvores que floresciam uma exótica flor roxa, motivo pelo qual Nick chamou o jardim de Jardim Púrpura.
Lorenzo jogou-se dentro da piscina. O garoto aprendera a nadar com uma facilidade surpreendente, logo após Ethan tê-lo ensinado ele mesmo. Parecia um peixe dentro d’água, conseguia submergir e emergir com uma rapidez incrível. Desde que começara a nadar, seu peito ficara um pouco mais definido e seus braços e pernas, mais grossos.
Levantou a cabeça molhada para fora d’água e cuspiu a água transparente, rindo adoravelmente a todo momento.
Têm dezenas de crianças em Jardim de Ouro, Nick pensou, Deus sabe quantas são passarinhos de Melchior. Ele sabe que escondo um segredo, e se descobrir sobre mim e Ethan, vai me ter na palma da mão pálida dele. E se ele tentasse converter Lorenzo para o lado dele?
Observando o irmão nadando de um lado da piscina para o outro, Nick sorriu.
Melchior deve ter segredos também. Talvez eu devesse começar meu próprio império dos segredos. Lorenzo pode ser meu primeiro passarinho, ele escuta bem até demais e é fluente em duas línguas. Aliás, quem suspeitaria de um garotinho cego?
Enquanto o tempo passava e ideias fluíam em sua mente, Nicholas Hentz esticou-se na espreguiçadeira do Jardim Púrpura e aspirou o perfume das flores.
Pequenas caixas, ele disse. Vamos todos compartilhar! Porque se o Nicholas virar um playboy, o Ethan vai chorar… Pequenas caixas, ele disse…
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