Como Treinar o seu Dragão Interior 2
8 Um conto de amor e tortura
Notas iniciais
A história de Stormy começa com ela voando tranquilamente pelo céu perto de seu ninho, quando do nada surgiram cordas com pesos que a fizeram trombar no chão. A pancada foi tão forte que a fez voltar para sua forma humana, entretanto, isso não comoveu seus agressores. Eles vieram como urubus na carcaça, a imobilizaram e a levaram sem nenhuma explicação. Stormy ficou sentada com os braços presos numa corrente no teto; suja em uma cela imunda, úmida e com goteiras, privada até das roupas.
Já haviam se passado alguns dias – Stormy não soube dizer quantos. –, em quase todos eles, a Nader passou por torturas, mas, graças a sua regeneração de dragão, ela ficou sem sequelas.
O propósito daquilo parecia ser deixa-la louca ou coisa assim, pois sua personalidade parecia estar mudando; Stormy começou a odiar tudo e todos.
Isto é, até ele aparecer.
Stormy estava quase dormindo quando ouviu um rangido de ferrugem.
— Quem está ai?! – Gritou a Nader quando ouviu o barulho da porta se abrindo.
— Fale baixo! – Sussurrou uma silhueta de sombra que era difícil, até para Stormy, identificar. Deu para perceber que estava meio nervosa, talvez por Stormy estar nua. – Trouxe comida descente para você.
— Então enfia ela no meio do seu...! – Deteve-se Stormy. – Eu Não confio em nenhum de vocês. Eu não quero nada de vocês. E quando eu sair daqui, eu vou matar todos vocês!
— Para isso é preciso energia. – Brincou a sombra.
— Eu não estou com fome! – No mesmo instante em que ela terminou a frase, a barriga de Stormy roncou.
O homem da sombra riu.
— Pelo menos agradeça tá? Deu trabalho para trazer! Eu não estou tentando fazer você confiar em nós, só queria que você comesse alguma coisa descente.
Stormy parou para pensar. A única coisa que a alimentava desde que chegou naquele lugar foi uma gororoba que parecia lavagem, se não fosse pela fome ela teria vomitado tudo.
— Está bem, você venceu... Mas eu quero que você venha para a luz aqui na minha frente!
A sombra, levemente receosa, fez como a Nader pediu e ficou frente a frente com Stormy. Era o Eret. Stormy sentiu algo dentro de seu peito, seu coração deu um leve aperto, sua expressão, antes ríspida e amedrontadora, ficou mais calma e ela relaxou os ombros. Quanto ao que viu, foi o mesmo efeito da Heather sobre o Melequento, o rosto do Eret pareceu se iluminar de uma hora para a outra.
— Ah, eu esqueci, vou abaixar as correntes. – Eret foi até a manivela da roldana e fez como disse. Com os braços quase livres, Stormy aproveitou para esticar os membros para aliviar as dores. Em seguida, Eret a entregou um saco de pano cheio de carne crua. – Tá aqui, eu soube que os seus preferem assim. Eu vou ter que vigiar para ver se ninguém aparece do nada.
Stormy não sabia o que dizer, acenou com a cabeça e aproveitou a refeição.
O resto do tempo passou com a Nader se sentindo, finalmente, satisfeita e com Eret tomando conta da porta, não houve grandes problemas, a maioria era apenas nervosismo. Eret também pediu para Stormy lavar seus dentes para que ninguém visse os restos ou sentisse o cheiro, ela o fez e ainda sujou as partes que a água tinha limpado. Chegando a hora de ir, Eret foi orientado por Stormy sobre a altura em que as correntes estavam.
— Pronto, – Começo Eret. – agora você não pode contar sobre mim para ninguém! Eles vão me matar se...
— Não se preocupe, não direi nada. – Disse Stormy sorrindo pela primeira vez em tempos.
— Obrigado. – Disse ele quase do lado de fora. – A propósito, meu nome é Eret: filho de Eret, qual o seu?
— Me chamam de Stormy. – Isso saiu no lugar de um “Por que você quer saber?!”.
— Tudo bem, até mais tarde, Stormy.
— Até mais... – Sussurrou ela esperando até ele sair para abrir mais um sorriso.
Os outros dias foram ficando mais toleráveis. Durante o dia, torturas, humilhações, fome, dentre outras desgraças, à noite, Eret vinha ver como Stormy estava e não importa o quanto ela estivesse com dor, a Nader sempre mostrava seu sorriso quando ele aparecia.
Logo as conversas foram ficando mais longas, a ponto de eles mal perceberem o amanhecer. Eret e Stormy iam fiando mais íntimos e Eret já não se importava por Stormy estar sempre sem suas roupas. No dia seguinte a Nader se esforçava para não deixar evidente que alguma coisa tinha mudado, porém isso não a impedia de relaxar na próxima noite. O dia foi ficando cada vez mais como um pesadelo e a noite parecia ser o mundo real.
Um dia desses, durante a manhã, Stormy estava se recompondo da visita de Eret, visualizando coisas que a deixassem fria de novo, quando um guarda com cara de poucos amigos veio ao seu encontro com uma espada em uma das mãos. Stormy já tinha todas as respostas na ponta da língua quando viu que tinha mais um: Drago. Stormy sentiu muito medo e tentava não fazer parecer que sentia, mas à medida que o bárbaro ia se aproximando a Nader tremia e tinha vontade de chorar.
— Quem é? – Perguntou Draco com sua expressão sem vida.
— M-m-meu n-nome e-é Stormy! – Retrucou a Nader se esforçando para ser firme.
Draco deu um tapa muito forte na garota que a fez sangrar.
— Não é você! É quem está te visitando durante a noite!— Gritou ele.
— D-do qu-que você e-está falando?!
— Não se faça de idiota. Eu soube de fontes confiáveis de que há um soldado que vem te visitando, te trazendo comida, conversando... Que demônio esperto, tentando meus homens com pensamentos podres. Bom, eu não os censuro, você é uma bela visão. – Drago sorriu e segurou Stormy pelo queixo.
— E-eu não estou entendendo nada. – Gemeu Stormy com medo de se livrar do toque.
Dessa vez foi um soco no estômago.
— Já disse para não agir como idiota! – Drago se afastou, pôs uma mão atrás das costas e começou a bolar uma estratégia. – Vamos fazer o seguinte: Se você nos contar quem está vindo te visitar, libertamos você.
Mesmo com muita dor, Stormy conseguiu entender o que Drago queria. Lógico que ele não iria libertá-la e mesmo que fosse Stormy nunca diria uma palavra a ele sei isso fosse fazer mal à Eret. De uma hora para a outra, o medo se foi, a nader abriu um sorriso cheio de sangue e declarou com todo o ar de seus pulmões.
— Mentiroso! Nunca direi nada a você!
Drago deu outro sorriso que fez o medo triplicar dentro da Nader.
— Está bem, será do jeito mais divertido. – Drago pegou uma cadeira com o guarda e se sentou. Mais outros homens com aventais e instrumentos de tortura cheios de sangue entraram na cela e aguardaram as ordens. Stormy arregalou os olhos e lágrimas caíram sem que ela percebesse. – Podem prepara-la, rapazes. – Drago riu.
Os carrascos se aproximaram, amarraram os pés da garota e puxaram ainda mais as correntes. Durante aquele meio tempo só restou para ela gritar e implorar.
Horas se passaram até que Stormy cedesse e decidisse contar quem vinha visita-la. – Segundo ela. – Quando ela enfim concordou, todos os homens foram chamados e colocados em fila ombro a ombro. Eret era o décimo sexto na fila. Quando ele viu Stormy, teve vontade de gritar. Ela estava coberta por um lençol velho e suja de sangue, seu cabelo estava todo bagunçado, algumas partes de seu corpo estavam inchadas e outras feridas; seu olho parecia uma bola de bilhar, seus lábios escorriam de tanto sangue e haviam sinais que indicavam uma tentativa de arrancar a sua orelha. Ela também estava tremendo e com as mãos juntas, como se sua sanidade tivesse acabado.
— Pronta para dizer quem é o seu amigo, demônio? – Perguntou Drago cínico.
— Sim... – Murmurou Stormy.
Eret já estava vendo toda a sua vida passar diante de seus olhos, contudo ele não culpava Stormy, ele estava pensando em mata-la quando seu nome fosse dito para que ela não sofresse mais.
A Nader olhou em volta procurando por ele, quando o avistou, a Nader levantou sua mão lentamente para apontar o dedo. Eret forçou os olhos.
— É este. – Stormy balbuciou.
Eret abriu os olhos esperando um dedo apontado para seu rosto, mas ao invés disso, a mão apontava para o outro lado em direção a alguém anônimo.
Houve protestos por farte do acusado, mesmo assim ele foi levado arrastado e teve a sua cabeça cortada na frente de todos os presentes.
— Que sirva de aviso! Não se misturem com esses monstros! – Bravejou Drago sem qualquer sinal de remorso. – levem-na de volta e a deixem se recuperando, amanhã voltamos à rotina.
Assim que chegou a hora certa, no meio da madrugada, Eret foi igual a um raio ver como Stormy estava. A dragão já estava bem melhor do que de manhã, mas ainda parecia abalada emocionalmente, ainda assim a Nader deu o seu sorriso de sempre, ainda mais largo. Eret não se aguentou e deu um abraço forte na amiga.
— Stormy, eu sinto muito. Eu não queria que isso acontecesse.
— Está tudo bem, Eret.
— Não, não está! – Eret separou o abraço. – Você não está segura aqui.
— O que você vai... – Antes que ela pudesse terminar Eret já tinha girado a manivela afrouxando as correntes, pegou uma chave escondida no seu cinto e abriu as algemas, em seguida deu a ela roupas limas e enrolou o rosto com um lenço.
— Você tem forças para voar?
— Sim, mas...
— Então se vista e vamos!
O tom de Eret foi tão dominante que a Nader teve que obedecer. Quando estava pronta, Eret sacou sua espada e se preparou para a fuga.
— Você vem comigo? - Ela perguntou ainda com esperanças.
Eret hesitou.
— Veremos.
Stormy ficou assustada com a resposta.
— E qual o seu plano?
— A maioria dos guardas está dormindo, então é só andar por ai sem sermos vistos até achar um lugar seguro para você ir embora.
— E se nos descobrirem? E se descobrirem que foi você que me ajudou? – Stormy segurou o rosto do amado. – Eu não posso nem pensar em ver você machucado.
Ele hesitou de novo.
— Não temos tempo pra isso. Só faz o que eu fizer, ok? – Eret tirou delicadamente a mão de Stormy do seu rosto e segurou seus ombros.
Stormy desanimou, porém assentiu.
Os dois foram seguindo pelas sombras a caminho da liberdade da Nader-Mortal. Graças as Nornas não aconteceu nada. Não houve necessidade da espada, nem do lenço que cobria o rosto de Eret.
— Que bom, sem problemas. Você pode ir embora. – Eret sorriu.
Stormy ficou em silêncio com cara triste.
— Tudo bem? – Eret a fez olha-lo nos olhos.
— Vem comigo! – Stormy agarrou seus ombros.
— Eu queria, mas eu não posso.
— Vem comigo ou eu grito agora mesmo! – Ela retrucou como uma criancinha mimada.
— Já disse que não posso. – Antes que Stormy gritasse, Eret tampou sua boca. – Tem uma pessoa aqui que precisa de mim. Eu prometi que ia cuidar dela.
— “Dela”...? – Desanimou Stormy. – Entendo... – Lágrimas.
Eret riu.
— Não. Ela é só uma amiga importante, eu gosto é de você.
Stormy ouve isso e se lança nos lábios de Eret. O primeiro e, potencialmente, o ultimo beijo. Eret logo se entregou ao momento, porém não deixando isso distrai-lo.
— Vai! Você consegue!
— Vamos nos ver de novo?
Eret não respondeu, apenas fez sinal para a Nader ir logo. Stormy se transformou e saiu voando daquela prisão. Estava enfim livre, entretanto, ela sentia tristeza, pois lá tinha ficado aquele a quem ela escolheu.
***
— E foi isso... – Stormy finalizou a resenha.
— Eles são... Cruéis! – Se revoltou Perna-de-Peixe, mas ainda assim com medo.
— Então aquela tal experiência...
— Foi para ver se eu conseguia me apaixonar por outra pessoa. – Stormy respondeu à Helga com um sorriso triste.
— O que faremos, então? – Perguntei para o soluço.
Todos nós olhamos nosso líder esperando a sua resposta.
— Eu vou até esse tal de Drago pra tentar falar com ele e seja o que os Deuses quiserem.
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