Como Ser Um Pegador Em 12 Lições.
1 Capítulo 1 - A aposta.
Notas iniciais
1ª Lição: Fica aqui, morre aqui.
Se você, pegador, arma com seus amigos pra ficar com uma garota e esse plano não é lá muito ortodoxo, atenção: tenha cuidado pra não vazar.
Obs.: é muito difícil cumprir essa lição. Sempre tem alguém que dá com a língua nos dentes.
Fred
Eram sete horas da manhã quando meu despertador tocou Rebel, Rebel de David Bowie. Levantei-me coçando os olhos. Era costume acordar com mais sono ainda.
Era segunda-feira, e o pior: tínhamos feito uma pequena festa aqui em casa, ou seja, bebida – muita bebida –, música, mulheres, amigos e várias competições no PS3.
Eu estava só o pó.
Abri a porta do quarto e não vi ninguém no corredor. Ótimo, os caras não tinham acordado.
Tive uma ideia genial.
Fui até a cozinha, peguei uma panela e uma colher de pau, e subi as escadas rumo ao meu primeiro alvo.
Quarto do Davi.
Abri a porta devagar, entrando em seu quarto. Fui de pé ante pé até sua cama, prendendo o riso.
Davi estava dormindo inocentemente, babando no travesseiro. Era agora.
— ACORDA PRA CUSPIR, PORRA! – gritei com toda força que os meus pulmões fumantes podiam ter e bati a colher na panela, rápido e com muita força. Davi pulou da cama, e eu caí na gargalhada.
— Tá doido, seu mal comido? Era capaz de eu ter morrido de susto! – Davi falou, sentado em sua cama com a mão no peito. Boiola.
— Deixa de boiolice! Vamos acordar o resto. – dei uma gargalhada fatal e ele concordou, se levantando. Fomos até o quarto do Guto, que ficava em frente ao meu.
Pus o dedo indicador na boca pedindo silêncio a Davi. Abri a porta do quarto e vi o que era normal: Guto com o seu pijaminha azul estrelado.
Esse cara nunca que ia crescer.
Guto estava dormindo de barriga pra cima, largado. Seu lençol estava enroscado pelas pernas.
— Puxa o lençol no três! – sussurrei pra Davi que estava no outro lado da cama. – U,mdois... AGORA!
— GUTO, A CASA TÁ PEGANDO FOGO! – gritei em seu ouvido e bati a panela. Nessas horas, eu não tinha pena, não.
— MULHERES E CRIANÇAS PRIMEIRO! –ouvi Davi gritando e correndo com a mão na cabeça no meio do quarto pra dar veracidade. Eu ri demais. Guto, com o Com o que ele estava sonhando?
— FOGO? Onde? – já acordado e com os olhos arregalados, nos viu no chão se embolando de tanto rir. – Seus filhos da puta! Eu estava quase me mijando de medo!
Aí eu não aguentei, ri mais!
— Mas me conta, com que você estava sonhando? Seus socos no do ar me assustaram. – tentei parar de rir e consegui falar.
— Eu estava num ringue de boxe, lutando com o Mike Tyson. E acredite, eu estava ganhando.
— Ah tá. Só em sonho você ganhando daquele cara. Um peteleco dele, tu voa! – Davi falou se levantando e sentando na cama. Guto levantou o dedo do meio e falou:
— É o que tem pra hoje, acordar meninos indefesos? – me olhou com malícia. Acho que vem aí uma ideia boa.
Guto se levantou e saiu do quarto, nos deixando com caras de tontos. Nos fez esperar por alguns minutos e voltou com um ovo, um prato e um garfo.
— Mas que merda é essa? – Davi perguntou, mais confuso que eu
Arqueei a sobrancelha. Pra quê um ovo? E pra que prato e o garfo?
Alguém me explica?
Guto sentou no chão e olhou pra nós.
— Ok, escutem. Ontem fizemos uma festa. Vários amigos do colégio, meninas e principalmente bebida. O André bebeu mais do que todos aqui, porque ele apagou e eu tive que levá-lo pro quarto.
— Tá, qual é o plano? – Davi perguntou se aproximando de Guto pra ouvir atentamente. Eu me sentei no chão ao lado do Guto, esfregando minhas mãos, ansioso.
Depois de ele explicar, todos os três foram pro primeiro quarto do corredor. Davi fez sinal e eu abri a porta. Fiz com o maior cuidado possível. Entrei primeiro, e logo atrás, Guto com as coisas na mão.
Davi se aproximou da cama rindo, e eu o mandei fazer silêncio. Ele entendeu o recado e começou a botar em prática o plano. Pegou o lençol e o tirou da cama, o jogando no chão. Foi em direção à mesa, pôs o prato em cima da mesma e tentou quebrar o ovo.
— Vai logo! – sussurrei.
— Calma, to quase conseguindo. – ele ainda tentava quebrar o ovo sem fazer barulho, e foi quando a gente ouviu um “creck”. – Consegui. Vou separar a clara da gema e bater um pouquinho. Espera.
André se mexeu um pouco na cama e eu fiquei com medo dele acordar. Aproximei-me de Guto, já desesperado.
— Dá pra acelerar?
— Pronto. – ele deu um sorriso de lado. Davi e eu estávamos do lado da cama.
Guto pegou o conteúdo e passou na bunda do André. Se não o conhecesse, juraria que ele era viado.
— Tem certeza que ele vai fazer o que você acha que vai? – perguntei.
— Tenho certeza absoluta. – ele me respondeu, ainda passando a clara batida na bunda do André. – Pra ficar mais real, me ajuda a tirar a samba canção dele. – Guto deu o prato pra Davi e olhou pra mim.
— O que? Eu não vou tirar cueca de macho nenhum. – falei me afastando.
— Fred, você quer tirar onda ou não? Sempre tem um sacrifício! Agora vai, me ajuda a tirar essa merda. – eu não tive escolha. Fiquei de joelhos na cama e ajudei Guto a tirar a samba canção do Piu-Piu de André. A nossa sorte é que André era uma pedra dormindo e por isso, era o melhor pra pregar peças.
— Me dá o prato. – pedi a Davi, que só olhava. Com os pratos nas mãos, derramei o resto do conteúdo na bunda branca do meu amigo.
— Ok! Saiam todos e vamos fechar a porta. Ajam normalmente. Fred, já sabe o que vai fazer? – assenti com a cabeça como uma criança obediente.
Saímos quase correndo e loucos pra rir, mas nos seguramos. Fechei a porta atrás de mim, Guto me olhou em sinal de que era pra pôr a segunda parte do plano em prática.
Bati na porta.
— André, acorda. Temos que ir pra aula. – falei com uma voz leve, como faço todos os dias. Sabendo que André não acordaria facilmente, gritei um pouco.
— ANDRÉ, ACORDA! TEMOS QUE IR PRA AULA! – bati na porta com mais força – OS CARAS JÁ ESTÃO LÁ EM BAIXO. ANDA LOGO. – olhei pros meninos que estavam com a mão na boca, segurando a risada.
— To indo! – finalmente ele deu sinal de que estava acordado. – Mas que porra é essa? CARALHO! FUI COMIDO! CARAS VENHAM AQUI, RÁPIDO.
Apontei pra escada, a gente ia fingir que estávamos subindo. Nós três – os amigos do bem – forjamos os barulhos nos degraus e entramos com tudo no quarto de André.
Ele estava em pé. E pelado.
Era agora que eu tinha que fazer valer as aulas de teatro do colégio.
— O que foi que aconteceu? Perdeu a cueca? – Davi perguntou sério. Cínico.
— Eu fui comido! Fui comido!Fui comido! Olha a minha cueca. Olha como ela está! – peguei a cueca dele e prendi o riso.
— Eca, mano. Que porra é essa? – joguei a cueca na cama.
— Eu não sei! – André passou a mão na bunda – Tem na minha bunda também! Fui comido, tenho certeza... – ele falou com voz chorosa e sentou na cama – O que vou dizer pro meu pai? O que eu vou dizer pro meu pai? – a cada frase dele, André se balançava pra frente e pra trás nos olhando, e a gente fazendo a linha de preocupado.
-Calma cara. Relaxa, vai ver tu cagou água! – Guto tentou amenizar a situação.
— Será que vou virar viado? Eu não me lembro de nada! Só lembro-me da gente jogando, bebendo com vários amigos e umas minas. AMIGOS! TINHA HOMEM COM A GENTE! VIREI VIADO! – eu não aguentei mais, ri até chorar. Guto e Davi me acompanharam.
Fizemos um high-five triplo e rimos mais ainda.
— Quê? –André ainda sentado se lamentando com sua nova sexualidade, perguntou perplexo com as nossas risadas – Eu aqui, to fodido, literalmente, e vocês rindo da minha desgraça? Linda essa nossa amizade!
— Seu tonto. Fomos nós! Os créditos vão para o nosso querido Gutão.
— Oi? Isso tudo era brincadeirinha de vocês? Eu não acredito! E jurando que tinha virado gay! – André disse se levantando – Bando de doente! Agora vão se arrumar porque a gente tem uma escola pra ir! – ele apontou pra porta e saímos rindo.
Agora imagina a cena. André bravo,todo vermelho e pelado.
Isso ia ficar pra história.
E assim, mais um dia começava na nossa casa.
Os meninos foram tomar banho enquanto eu comia. Morávamos todos juntos. É assim desde que nossos pais nos deram autorização pra morar numa casa só. Você me pergunta “como pais deixam filhos irresponsáveis morar numa casa todos juntos?”.
Pois é, não respondo perguntas complexas.
Só sei que temos dinheiro todo mês em nossas contas.
Tá, eu acho que você deve estar pensando em como somos mimados e tal. Até admito que somos, mas temos que aproveitar, certo?
Estávamos na garagem, entrando na Pajero prata de André. Falando no Fontes, ele ainda tava puto com a pequena brincadeira matutina.
— Hey, cara. Fica assim não, você sabe que sempre rola uma brincadeira assim. Foi mal. – me desculpei em nome dos três, mas não tava adiantando.
— Te juro que a gente não faz mais isso... Desculpa, Deco. – foi a vez de Davi se desculpar.
— Foi minha ideia, não desconta neles. Se você não quiser falar comigo, eu entendo. – Guto falou olhando pra fora da janela, claramente se arrependendo da merda que fez.
O Andrielli era desses. Fazia as coisas e não tava nem aí se havia pegado pesado ou não, até quando visse algum de seus amigos com raiva.
-Vai. Ter. Volta. – foi o que André falou durante o trajeto todo.
Chegamos ao colégio e sentamos na nossa mesa favorita no pátio. Acenamos pra várias meninas, que respondiam com piscadas e sorrisinhos safados.
Nós éramos os mais pegadores do Colégio Cruz Almeida. Modéstia à parte, eu pegava mais. Não sei por que, vai ver eu tinha pegada e eles não.
— Mano, acho que vou chamar aquela loira – apontei discretamente pra uma menina gostosa perto da cantina – pra sair. To afim dela desde a semana passada.
— Nem vem, Fred. Já tinha pensando nisso. – Davi falou. O QUÊ?
— Não! Eu vou pegar primeiro! Você sabe que ninguém resiste a mim. Eu posso ter qualquer uma aqui, na minha mão. – falei com ar convencido e logo Davi revirou os olhos. André, ainda calado, olhou pra o outro lado do pátio (pra parte sombria da escola, onde só havia gente estranha que usava preto) e deu um sorrisinho.
— Eis a minha vingança: se você acha que pode ter qualquer uma, aposto que não pega aquela. – André apontou pra a parte sombria do colégio.
— Quem? O cabeludo ali? – Guto perguntou.
— Não, aquela. – por trás do cabeludo, havia uma menina baixinha ouvindo música no seu Ipod.
Não, não podia ser.
Júlia Torres não.
- Porra, Deco! Quer me foder mesmo? – falei num to desesperado – Nem fui eu que tive a ideia do ovo, foi Guto! – apontei pro Andrielli.
— A ideia pode até ser do Andrielli, mas quem inventa essas putarias de manhã é você. E aí, acha que consegue? Eu aposto cem libras que não. – virei pro os outros dois pedindo ajuda e eles só levantaram a mão como se dissessem que não podiam fazer nada. Ótimo. – Você se diz o rei, que pode pegar qualquer uma aqui, então eu aposto você pegar a Júlia Torres.
— Mas a mina não é lésbica?
— Rapaz, isso já não é problema meu. – agora Deco me fodeu legal.
— Isso é um desafio? – foda-se! Se a mina era lésbica, vai ter que voltar a gostar de homens!
— Desafio, aposta, entenda como quiser... – ele deu de ombros.
— E se ficar com ela, o que eu ganho?
— Além de cem libras, uma bela de uma ficada e a moral dos seus amigos. Agora, se você perder...
— O que... Você vai fazer?
— Espalho pra todo mundo que naquela viajem pra Noronha, você ficou com um instrutor de de mergulho e que toda essa fama de pegador aqui em Costa Nova é fachada. Você sabe que eu posso provar, não sabe? – É, eu sabia. André tinha uma grande habilidade em Photoshop e afins. Ele podia fazer uma montagem perfeita de uma foto minha com um cara gostosão pelado com uma nadadeira escondendo os documentos. – Vai arregar?
— Arregar? Parece que nem me conhece. Beleza, aposto com você que fico com a Torres-mãos-de-tesoura e mais, vou pro Baile de Verão com ela.
— Tem certeza? – Guto perguntou temeroso. Engoli em seco.
— Tenho. E aí, fechou? – falei olhando pro Deco, jogando minha mão em sua frente pra selar nosso pequeno acordo. Eu tinha que mostrar que era capaz de ganhar a aposta. André arqueou a sobrancelha e logo menos juntou nossas mãos.
— Só quero ver.
— Agora, essa aposta morre aqui. Nada de dizer pra alguém. – falei olhando diretamente pra Davi
- Se isso foi uma indireta, saiba que estou extremamente ofendido.
— Não interessa, eu te conheço muito bem. E a qualquer momento, sem querer isso pode sair da sua boca. Por isso, fica aqui e morre aqui, ok? – todos assentiram
Porra, e agora? Além de pegar a louca lá, tinha que ver se ela era mesmo lésbica. Como é que vou me aproximar do projeto de Satã?
Júlia
Eu estava ouvindo Spanish Bomb, do The Clash, uma das minhas preferidas deles, quando Mike, um dos meus melhores amigos, sentou perto de mim me oferecendo um cigarro. Eu já tinha fumado antes de chegar ao colégio.
— Você não sabe que não pode fumar dentro das dependências desse colégio? – perguntei.
— E você não sabe que eu to pouco ligando pras dependências desse colégio? Se to na vontade, eu fumo. Não interessa onde eu estou. –falou dando um trago profundo, parecendo que não havia fumado há dias.
Mike era um dos meus mais queridos amigos no colégio, mas ainda tinha as outras três pessoas mais idiotas e as mais amadas também.
— O que você tá ouvindo?
— The Clash, tá afim? – tirei o fone esquerdo pra Mike pegar. Normalmente não faço isso, acho chato dividir fone, mas como era o Mike, tá tudo certo.
Ficamos ouvindo a música até quando não aguentei. Tirei o cigarro da boca dele e coloquei na minha.
-Desculpa, é mais forte que eu. – sorri, e em resposta, Mike deu uma piscadinha. A minha amizade com ele era daquelas em que a intimidade é uma merda. Eu dava liberdade a ele pra falar de qualquer coisa sobre a minha vida e ele o mesmo. Passamos por muita coisa juntos. Por isso o considero tanto.
Estudamos em outros colégios e aprontamos também. Aprendi a tocar bateria por causa dele, porque ele tinha a ideia fixa de montar uma banda e eu queria seguir seus passos. Pra mim, Mike era meu irmão mais velho, meu porto seguro. Ele me ensinou tudo o que sei, desde tocar bateria até a dar murros em pontos estratégicos nos caras.
Ele era uma referência. E eu era muito agradecida a ele.
Se não fosse por ele, eu estaria fugida de casa, na sarjeta, e com certeza drogada. Mas isso a gente deixa em off.
Já as meninas, conheci aqui. Elas são as únicas amigas que eu tenho na vida. Mas não são tão diferentes de mim e nem de Mike. Vestiam-se de preto, usavam piercing. Com exceção de Sophie, mas dela a gente fala mais tarde. Ouviam as bandas que eu curtia e compartilhavam as mesmas ideias que eu.
Se você ouvir por aí que eu sou mulher do capeta, que me acho a fodona por falar o que quero sem medir as palavras, que sou a feminista lésbica e que sempre faço uma orgia com as minhas amigas toda sexta...
Saiba que tudo isso é mentira.
Primeiro, acha mesmo que o capeta ia casar comigo com tanta mulher bonita por aí? Tá, piada sem graça. Segundo, só porque falo o que eu penso e no que acredito mesmo sem ligar pro que as outras vão falar, tiram conclusões precipitadas de mim. E na real? Nem ligo! E terceiro, feminista eu sou, mas quanto ao ponto do lesbianismo...Pergunta ao meu ex-namorado se sou lésbica.
Bom, tiradas as dúvidas, vamos seguir em frente.
— Jú! – voz de Cris piou, me chamando. – Você tá preparada pra notícia?
— Se for não for boa, não precisa nem dizer!
— Júlia , para de drama. A notícia é ótima! Envolve você, eu, a galera e uma banda.
— Calma, que meu coração não aguenta. – coloquei uma mão no peito esquerdo.
-A gente vai pro show da Sounds Of Darkness! – A MINHA BANDA PREFERIDA VEM PRA MINHA CIDADE? AH!
-EU NÃO ACREDITO! – falei fazendo uma dançinha da vitória. Eu tava muito feliz! Sabe quanto tempo estou faz que eu estou esperando essa banda? Dois anos. Eu tenho que ir pra esse show. Eu vou pra esse show.
— E as meninas estão sabendo?
— É claro! – Cris quase gritou – Eu só não falei pra você nesse final de semana porque não te achei. Falando nisso, onde estava?
— Er... Eu fui ver uns amigos – olhei pro Mike que se fez de desentendido.
— Hm... Vou fingir que acredito. – Cris era daquelas que desconfiava de tudo, e pra mim era um desvantagem, porque eu não sabia esconder coisas não muito legais das minhas amigas.
O sinal tocou.
— Que aula você tem agora? – ela me perguntou.
-Tenho de biologia no laboratório e você, gata?
— História com o resto das meninas. Nos vemos no intervalo? – assenti com a cabeça e ela foi pro pátio central.
Nós estudávamos separadas por um simples motivo: fazíamos muita bagunça juntas. Desde o primeiro ano, ouvíamos reclamação dos professores, e como eu não levava desaforo pra casa, sempre acabava numa detençãozinha básica.
No segundo ano, tudo mudou. As meninas foram pra outra sala e digamos que nosso comportamento melhorou um pouco.
Um pouco.
Mike e eu fomos pro Laboratório de Ciências Naturais do Colégio Cruz Almeida. Mike era loiro de olhos azuis e tinha uma argola no nariz como piercing. Ele era bonito demais, mas nosso relacionamento não passava de amizade. Nós éramos mais amigos do que um casal.
Sentamos lado a lado. Era normal ele ser a minha dupla de qualquer coisa naquela escola. Nós não éramos bem aceitos – pra não dizer que somos excluídos – pelos colegas de classe.
O professor Robson passou uma prática de queimar alguma coisa com alumínio. Eu fui acender a parada pra queimar o alumínio quando ouço alguém dizer:
— Já está acostumada a usar utensílios pra queimar alguma coisa, né não Torres? Aposto que já usou um desses pra ficar chapada. – John, o ogro, falou.
— Eu sou tão boa em queimar coisas que se fosse você, ficaria com medo de eu “sem querer” queimar o que tem no meio das pernas. – e toda sala riu.
— Já chega! Sr. Straford, pode por favor parar de mexer com a senhorita Torres? E Júlia, não pode ficar ameaçando seus colegas de classe assim. – Sr.Robson disse com gentileza, mas sinceramente, fiquei revoltada.
— Mas me chamar de chapada diante da sala toda ele pode, né?
— Não ligue pro que esse garoto fala. Ele é um monte de músculo ambulante, desconsidere. – sussurrou em meu ouvido. – E tenho certeza que chapada você não é.
Professor, eu não teria tanta certeza assim.
E aula prosseguiu. Queimando coisas sem importância e fazendo coisas que o professor pedia.
E ainda era segunda. Será que se eu fechar o olho bem forte, a sexta chegava?
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