Notas iniciais
Olá, a história é nova e postei um capítulo pequeno só para ver se as pessoas vão gostar da abordagem! Por isso, se puder, deixe um comentário no final! Significa muito para quem está escrevendo. Obrigada e boa leitura!

Meu nome é Savannah e eu tenho uns 20 anos. Posso imaginar que você esteja se questionando sobre: “O que ela quis dizer com uns 20 anos? ” Mas acredite, pela vida que eu levo, já parei de me preocupar com aniversários há algum tempo. E também não tenho mais ninguém que poderia se preocupar.

Sou filha de New Orleans e não tenho família ou amigos. Nem me recordo de qual fora a última vez em que pude manter contato com alguém por muito tempo. O motivo disso tudo é muito simples: não posso me apegar a ninguém. Não é uma opção estar sozinha, é um destino; não saberia dizer se um dia já tive uma vida diferente, mas desde quando me foi destinado este trabalho, foi assim. Eu não abandonei meus pais, aliás. Ambos morreram. Não seria segredo dizer que este tal “negócio de família” pode ser meio intimidante, usam você até enquanto convir e depois você talvez perca a utilidade. Eles perderam.

Desde os meus 12 anos eu vivo acompanhada com o maior peso nas costas que alguém poderia ter: eu sei quando as pessoas vão morrer. Para mim, já é algo consideravelmente normal; estranho mesmo é saber que outras pessoas não vivem assim, não veem os números brilhantes acima da cabeça de cada um. Dizem que você pode acostumar com tudo, mas eu não concordo. Acredite, tem coisas que eu vejo que fariam com que qualquer pessoa, por mais íntegro que seja, querer pegar um revólver e disparar uma bala contra o próprio crânio para não ter que viver assim.

Sei o que deve estar pensando: que eu acho que sou “forte demais”. Pois saiba que eu não sou. Essa dor só é impossível de lidar para quem é 100% humano – e não é o meu caso. Não vou dizer o que sou ainda porque também estou tentando descobrir, sei que meu trabalho é levar as almas para o lugar aonde pertencem, o qual você conhece por purgatório. Faço isso através de um toque, quando os números se limitam, não sou permitida a dar segundas chances e devo convencer quem quer que seja que a melhor saída é vir comigo.

Mas nem todos aceitam, claro. E eu não posso levar ninguém a força também. Então essas almas ficam por aí, por milhares de anos, consumindo toda a energia pura – fazendo com que só restem as ruins. A raiva, a violência, as aparições e vinganças. Mas aí, já não me convém mais.

Eu não sou a única com esse dom também. Na verdade, devo conhecer uma meia dúzia de pessoas como eu, e eu até gosto de dois deles, como o Jeff — ele é só uns dois anos mais velho que eu e é quem eu passo maior parte dos meus dias, e também tem o John, que foi quem me ensinou como realizar meu trabalho da forma mais humana possível — o cara deve ter uns 300 anos mas tem aparência de 40.

Se eu tivesse amigos, com certeza seriam esses dois.

— E aí, Ceifa Jr.!

Sinto um vento forte atrás de mim.

— Já disse para não me chamar assim, Jeff. Não é engraçado. – Respondo de forma defensiva.

Observo-o revirar os olhos.

— Você já me disse muitas coisas, e não é por isso que eu a obedeço. – Jeff dá um sorriso de canto de boca, tirando uma risada de mim.

— Babaca – respondo.

Jeff era um homem considerado muito bonito pelos padrões estéticos atuais. Gostava sempre de se vestir bem e possuía cabelos pretos que eram puxados para cima num topete. Tinha o corpo malhado e um sorriso tão angelical que parecia que passara toda a semana no dentista.

— Beleza Sav, eu adoraria ficar para bater papo mas temos trabalho a fazer. Teve um acidente envolvendo um ônibus na St Bernard Ave. e precisamos limpar o local. Sem sobreviventes.

Droga.

Observei Jeff desaparecer e, fechando os olhos, desapareci também.

Nosso meio de transporte é bastante atípico. Consigo ir de um lugar para outro em questão de segundos, de acordo com a distância. Mas temos que ser bem discretos com o transporte e procurar lugares onde não tenha humanos perto por motivos óbvios.

Reapareci em uma rua vizinha, atrás de uma caçamba, segui reto com os passos apressados e avistei Jeff tocando sutilmente na testa de alguma das vítimas, fui atrás.

Aquilo lá estava uma bagunça, pessoas chegando ao redor, impressionadas, barulho de trânsito e buzinas, e um casal de idosos agonizando no chão. E eles seriam os primeiros.

Aproximei-me do casal e delicadamente toquei o rosto da senhora, que rapidamente fechou os olhos, dando o último suspiro.

— O... o que f-foi isso? Você m-matou min-nha Mary!

Ouvi o idoso em prantos ao observar a morte de sua querida amada.

— Está tudo bem, meu amigo. – Eu disse.

Olhei os números acima de sua cabeça em contagem regressiva aos trinta segundos.

— Vai ficar tudo bem...

Passei a mão em seu cabelo grisalho e ralo, observei uma lágrima descendo de seu olho direito. A última lágrima.

— Pode ir agora, vai descansar.

— Obrigada. – Ouvi a voz fraca da tal Mary e virei o pescoço para ver a alma do casal de mãos dadas.

Então as almas do casal foram desvanecendo-se pelo ar.

Ouço um choro de bebê, meu corpo estremece. Sigo o som até me aproximar de uma criaturinha chorando que me deu um frio terrível na espinha. Essa não. Bebês são a pior parte.

Ajoelho-me perto dele e carrego-o em meus braços. Uma sensação horrível me corrói de dentro para fora.

Não consigo fazer isso.

Sinto uma mão tocando meu ombro esquerdo e vejo a outra mão se aproximando do rosto do bebê.

— Deixa comigo, Sav.

Então o barulho do choro agoniante se cala, e tudo parece em paz agora.

Coloco o corpo do bebê no chão novamente, e ando de cabeça baixa para longe do acidente.

Durante a caminhada, um homem se aproxima de mim:

— Meu Deus, você sabe o que aconteceu aqui?

Um homem alto, com cabelos castanhos e maxilar forte me encarava com seus olhos verdes e momentaneamente assustados.

Senti meu corpo estremecer, e tive que respirar fundo antes de responder.

— Um acidente de ônibus, mas todos morreram.

— Droga, droga. Acabei de chegar na cidade, e se isso não for um sinal divino que eu fiz a escolha errada, não sei o que seria.

Ri nervosa.

— Não foi sinal divino. Só mais um dia comum.

— Dia comum? Sinto muito se isso for verdade na sua vida. – Disse ele, tentando descontrair e esconder seu nervosismo. – A propósito, eu sou Noah.

Olhei para cima de sua cabeça e...

— Interrogação? – Falei alto, por acidente.

— Interrogação? – Ele riu. – Não é um nome muito comum, mas eu gostei.

Assustada e trocando as palavras eu disse:

— Não, er... Não! Meu nome é Savannah. Desculpe, eu...

Noah me interrompe.

— Tudo bem, Savannah. Imagino que esteja tento um dia difícil, mas é um prazer te conhecer. – Ele me estende a mão.

— Certo, b-bom, eu tenho que ir, até mais.

E sem olhar para trás, saio apressada. Resolvo ir andando até minha casa enquanto questiono como é possível alguém ter uma interrogação no lugar do tempo que lhe resta, e sinto que estou perdendo minha sanidade. Aquilo não era possível.

Quem é aquele homem e por que ele é diferente de todas as outras pessoas que já conheci?

Notas finais
Olá! Se você chegou aqui, deixe um comentário ♥ críticas construtivas também são sempre bem vindas! Obrigada!