Como NÃO se apaixonar no colegial
3 Capítulo 2 - A invasão na secretaria
Notas iniciais
Desde o primeiro dia de aula, muitas coisas aconteceram. Lisa e Louis agora eram amigos de Gabi e eu. Gabi e eu agora compartilhávamos segredos um com o outro. O professor de matemática vomitou no caderno de Antoine. Antoine me chamou de bicha. Eu vi Etch conversando com uma garota ruiva no corredor e mamãe saiu para um encontro. Com quem? Acho que você e eu sabemos.
Eu estava me aprontando o mais rápido eu conseguia para poder me encontrar com Gabi em uma lanchonete. Eu disse que queria conversar antes de irmos para a escola e ela topou. Eu estava pronto para contar que eu gostava de meninos.
Saí sem tomar café. Peguei o ônibus e parei um ponto antes do ponto da escola. Mandei mensagem para Gabi falando que eu havia chegado e dois minutos depois ela chegou.
Nos cumprimentamos com beijos na bochecha, entramos e sentamos numa mesa de canto, longe de todos, para que ninguém nos ouvisse conversando.
Pedimos uma coxinha para cada um e uma latinha de Coca-Cola para dividirmos. Começamos a relembrar coisas que aconteceram na última semana.
Eu estava ansioso, mas ao mesmo tempo um frio na barriga me impedia de entrar no assunto do qual eu queria entrar. Uma hora ou outra ela tinha que saber, eu não aguentava mais esconder isso dela, afinal, nesta última semana, ela me contara tanta coisa sobre sua vida. Confesso que algumas até me surpreenderam.
Terminei de comer minha coxinha. Antes de finalmente começar a contar, eu estava esperando que ela terminasse de comer a dela, depois, tomar três goles de Coca-Cola, e por fim, piscar os olhos oitocentas e quatro vezes.
“Ai meu Deus. Eu acho que estou procrastinando”.
Ela terminou a coxinha e antes que eu pudesse tocar no assunto, ela perguntou:
— Tá, agora sobre o que realmente estamos aqui para conversar?
Estremeci. Ela me pegara de surpresa antes que eu enrolasse mais um pouco para finalmente entrar no assunto.
Seus olhos brilhavam curiosidade.
— Olha, vou direto ao ponto.
Depois de dizer isso, bebi mais um gole de Coca-Cola, que aliás, fora o último da latinha.
— Por que você está demorando tanto para me falar?
— É que é um assunto muito delicado. — Eu disse tentando evitar a gagueira de nervosismo.
— Você gosta de meninos?
“Puta que pariu, como ela sabe? Ai meu Deus, será que eu deixei tanto na cara assim? Será que ela vai parar de ser minha amiga ao descobrir isso e então vou ficar sozinho naquela escola pelo resto da minha vida? Será que vou me matar antes mesmo de chegar nos dezesseis? ”.
— Não! — Respondi rindo —, mas teria problema se eu gostasse?
Estava aí, a minha deixa para descobrir a opinião de Gabriela Monteiro sobre o assunto. Dependendo da resposta, de minha vida poderia sair um grande peso, ou, dobrar o que já tinha.
Gabriela riu parecendo não acreditar no que tinha acabado de ouvir.
— Claro que não! Isso é extremamente normal Nick. Eu não julgo ninguém por essas coisas, love is love cara! — Disse levando o canudo à boca para tomar mais refrigerante, mas desapontando-se ao perceber que tinha acabado
“Meu Deus, que alívio”.
Eu literalmente conseguia sentir minhas costas relaxarem e ficarem mais leves. Gabriela Monteiro era a primeira pessoa da qual eu contaria aquele segredo que me perseguia desde os quatorze anos de idade.
— Na verdade, — Eu finalmente disse, — Eu estou... — uma gota de suor escorreu em minha testa. Mesmo depois de ouvir a maravilhosa opinião de Gabriela sobre o assunto, o nervosismo retornou com saudade e se instalou dentro de mim. — ... gostando de uma garota do primeiro ano.
“Ai que merda! Nick você é muito idiota. Por que você não falou para ela? Meu Deus do céu! Agora vai ser complicado tentar dizer isso de novo”.
— Nossa, era só isso? — Perguntou desapontada, como uma criança no Natal esperando ganhar brinquedos, e no final acaba ganhando meias, camisetas e um aperto de mãos.
— É que eu nunca tinha gostado de ninguém antes na vida, — Respondi tentando fazer a mentira continuar cada vez mais parecer com uma verdade.
— Bem, vai me dizer quem é? Agora eu fiquei empolgada. Estou prestes a descobrir qual é o primeiro amor de alguém na vida aos quinze anos.
— Eu ainda não sei o nome dela.
Gabriela pareceu desapontada novamente. Eu tinha feito ela ficar animada e curiosa para a nossa conversa na lanchonete, e tudo que eu estava fazendo, era provocar desilusões em sua manhã. Que tipo de amigo eu era?
— Por que você simplesmente não pergunta para ela? Garotas não são tão amedrontadoras igual todos pensam, na verdade, às vezes até gostamos quando garotos perguntam nossos nomes para a gente.
— Tenho muita vergonha para chegar neste estágio.
E então, nós dois abaixamos a cabeça e ficamos um tempo sentados quietos, não tinha nada o que falarmos, e então, uma ideia maravilhosamente magnífica acabara de surgir em minha cabeça, talvez esta fosse a melhor ideia que eu havia tido na vida.
— Você disse que queria fazer coisas loucas neste ano lembra? Coisas que você nunca havia feito antes na vida! — Eu disse fazendo com que Gabi sorrisse interessada.
— Meu Deus! No que você está pensando? Estou curiosa!
— Nós podíamos chamar a Lisa e o Louis para nos ajudar a entrar na secretaria, abrir a gaveta com os as listas de alunos, pegar a da sala da garota, tirar foto e depois procurar no Facebook cada nome até encontrarmos.
Gabriela me encarou séria e com a boca aberta, parecendo não ter acreditado no que acabara de ouvir. Ela provavelmente estava pensando: Você é louco, isso pode gerar consequências sérias, isso com certeza deve ser crime!
— Ai meu Deus... — Eu disse logo depois de perceber que a ideia era totalmente idiota e sem cabimento. — Na minha cabeça tudo pareceu mais fácil e sem riscos, mas pensando melhor agora...
— Tá brincando? — Finalmente Gabriela falou alguma coisa enquanto trocava radicalmente a expressão de seu rosto. — Essa foi a melhor ideia que eu ouvi na vida!
Certamente, Gabriela Monteiro havia ficado louca, até mesmo eu quem tive a ideia já estava receoso em excuta-la.
— Cara, pensa bem! — Gabriela continuou —, os irmãos com certeza vão querer ajudar a gente, e com a ajuda deles, vamos conseguir encontrar a garota que você gosta!
Aquilo que ela dissera, fez com que eu refletisse.
“Nossa, é mesmo. Com a ajuda dos dois, o plano tem tudo para dar certo, eles são muito bons no que fazem! Isto é, se as histórias que nos contaram eram verdadeiras... ”
— Olha, não sei... E se nós formos expulsos? Essa escola, foi a melhor escola da qual eu já estudei em toda a minha vida!
— E se isso... E se aquilo... vamos fazer alguma coisa louca pelo menos uma vez na vida! Vamos parar de sermos certinhos por um momento e vamos fazer alguma loucura!
Pensei por um momento.
— Pensando melhor... se algo der errado, podemos falar que estávamos procurando o banheiro, certo? — Eu disse, por fim, pensando em concordar com a ideia.
— Sim! Somos alunos novos... se nos encontrarem abrindo as gavetas cheias de documentos, podemos falar que estávamos pegando o papel higiênico — Riu.
— Este plano tem tudo para dar certo! Agora estou confiante, eu vou conseguir encontrar o nome dela! — Eu disse levantando da cadeira com os braços para cima esperançoso, enquanto mentalizava Etch aceitando minha solicitação de amizade no Facebook.
Gabriela sorriu parecendo estar animada por ajudar um amigo a descobrir o nome da “garota” que ele gostava.
No meio de tanta alegria e diversão, a morte acabara de entrar na lanchonete.
“Merda! ”, pensei enquanto sentava depressa na cadeira me encolhendo rapidamente.
— O que foi? — Gabi perguntou — De quem você está se esconden... — disse enquanto olhava para a porta, e interrompendo a frase quando percebeu quem entrara. — Ai que merda.
Antoine entrou na lanchonete junto com um cara um pouco mais velho, ele parecia ser do terceiro ano. Ele tinha braços ligeiramente fortes e um corpo definido. Seus olhos azuis deduravam que talvez ambos fossem da mesma família.
— Quem é aquele cara? — Perguntei.
— Alex, o irmão dele.
”Como Gabriela sabia daquilo? Eu nunca vi Antoine com o irmão antes na vida...”.
Eu virei a cabeça a fim de me esconder, mas, Gabriela parecia querer que Antoine olhasse para ela.
— Que merda você está fazendo? — Sussurrei —, se esconde! Não quero que ele nos veja aqui juntos. Puta merda, odeio esse menino. Gabriela, vira a cabeça por favor!
Quando ela revirou os olhos pronta para virar, Antoine nos viu.
— Pronto! — Eu disse —, mais um início de semana interessante.
— Relaxa Nicholas... nem estamos na escola, não tem como ele fazer nada. Olha quantos adultos tem em nossa volta.
Parei por um momento e percebi que realmente não tinha como Antoine fazer nada. Enquanto Gabriela o encarava, meu amigo frio abraçou a minha barriga.
Enquanto Alex conversava com o atendente para pedir alguma coisa, Antoine e Gabi não paravam de trocar olhares. Por fim, Antoine mandou um beijo para Gabriela, e ela o retribuiu com um dedo do meio.
Antoine estava tão concentrado em impressionar Gabriela, que quando Alex virou com dois copos de refrigerante em suas mãos, acabou trombando com o irmão e sujando todo o seu uniforme.
Gabi riu alto, como nunca antes. Todos da lanchonete pareceram segurar seus risos.
Antoine franziu as sobrancelhas e pareceu discutir irritado com o irmão, enquanto esse ria de toda a situação.
Uma mulher vestida de faxineira, chegou a frente de Antoine com um pano molhado para limpar sua camiseta. Ele a afastou e olhou furioso para mim, que nem sequer estava rindo de nada daquilo.
Ele saiu irritado soltando alguns palavrões, meu amigo frio apertou mais ainda minha barriga.
Enquanto Gabriela se mantinha ocupada rindo de tudo que havia acontecido naquele momento, eu chorava por dentro enquanto pensava no que poderia acontecer depois.
Gabi parou de rir, e quando checou o horário em seu celular, arregalou os olhos.
— Puta merda, estamos atrasados. — Disse levantando enquanto pegava sua mochila do chão com pressa. — Vamos!
Eu estava receoso em relação de ir à escola naquela manhã.
“Por que esse tipo de coisa sempre acaba acontecendo comigo? Eu sou uma pessoa tão boa... toda hora estou fazendo boas ações”.
Peguei minha mochila e corremos para a escola antes que o sinal tocasse. Aqueles foram os dois quarteirões que eu mais tinha corrido na vida.
***
Primeira aula: Artes. Todos sentamos em nossas carteiras para esperarmos a professora chegar. Olhei em volta, Antoine não estava na sala. Provavelmente tinha desistido de ir à escola.
A classe toda estava conversando, enquanto eu, bem, estava debruçado em minha carteira olhando para o corredor através da janela que tinha na parede do meu lado, apenas esperando Etch passar a qualquer momento para poder contempla-lo.
Enquanto eu estava perdido em meus pensamentos, notei que a sala tinha ficado em silêncio, e então, olhei para a porta.
— Puta merda! — Gabi disse —, não é que ele veio mesmo?
Antoine Cavalieri entrou normalmente como se nada tivesse acontecido. Como era de se esperar, muitos acabaram rindo da cara dele, mas ele riu também e começou a fazer piadas consigo mesmo. Em menos de um minuto, ele já havia cumprimentado todos da sala e estes tinham curtido seu uniforme manchado de refrigerante.
— Ele sabe como dar a volta por cima! — Gabi comentou enquanto ria baixo.
Fiquei irritado com toda aquela situação.
“Como assim? Se fosse eu quem estivesse entrando por aquela porta com a camiseta manchada, todos ririam e debochariam de mim”.
Por fim, Ali finalmente chegou, atrasada como sempre. Ela viu Antoine de pé e o mandou sentar para que pudesse começar a aula.
Naquele dia, aprendemos sobre a arte barroca de um jeito bem divertido, Ali sabia como manter os alunos entretidos.
Tudo que eu conseguia fazer naquela manhã, era esperar pelo intervalo para que eu pudesse contar meu plano para Lisa e Louis.
“Será que eles vão topar o desafio? ”
***
O sinal tocou. Gabi e eu fomos para o refeitório e sentamos em nossa mesa como todos os dias.
— Cadê eles? — Perguntei enquanto olhava ao redor.
“Onde será que Etch está? ”
— Eles já devem estar chegando, eles estão tendo História agora. Esqueceu que o professor demora para liberar os alunos? — Gabi respondeu enquanto descascava sua banana.
— Acho que eles vão demorar para chegar então... vou comprar o meu lanche, volto já!
Gabriela assentiu com a cabeça enquanto pegava seu celular para checar suas redes sociais.
Caminhei até o balcão da cantina dentro do próprio refeitório para comprar salgadinho e suco de laranja.
Voltei para a mesa e sentei. Abri o salgadinho enquanto os irmãos não chegavam.
— Ué, achei que eles vendiam o suco em caixinha. — Disse Gabriela.
— Parece que o suco deles é natural, por isso vem em copo.
— Experimenta.
Levei o copo de plástico à boca e comprovei o meu palpite.
— É natural, quer um pouco?
— Não gosto muito, prefiro os industrializados mesmo — Gabi riu.
Quando fui tomar o segundo gole, Antoine passou com um grupo de amigos pela mesa batendo no meu copo, fazendo com que metade do suco caísse em minha camiseta branca.
— Ops! — Antoine riu enquanto olhava para os outros quatro meninos que estavam com ele.
Gabriela levantou depressa fazendo barulho com a cadeira.
— Mudei de ideia Nick, adoro sucos naturais, me dá isso aqui! — Disse pegando o copo da minha mão e jogando o resto na cara de Antoine.
— E lá se vão os meus dois reais... — Sussurrei enquanto continuava sentado lamentando pelo suco, literalmente derramado.
Os colegas dele não acreditaram no que Gabriela acabara de fazer, todos se entreolhavam espantados tentando segurar os risos.
Antoine passou a mão no rosto para tirar o excesso de suco, olhou para Gabriela e em seguida para mim furioso. Seus olhos vermelhos irritados pelo suco, fizeram com que o azul se destacasse ainda mais.
— Vocês vão se arrepender por terem feito isso.
— Eu vou me arrepender se eu não conseguir dar uma na sua cara. — Gabriela ameaçou. — Então é melhor você cair fora desta mesa agora.
Antoine ficou cada vez mais ofegante enquanto encarava Gabriela com as sobrancelhas franzidas de raiva. Por fim, ele olhou para mim que continuava sentado, deu dois tapinhas na minha bochecha, abaixou e sussurrou em meu ouvido.
— Ela não estará sempre com você para te defender, garotinha.
E então, ele foi embora com o resto dos garotos o seguindo. Todos por quem ele passava riam da sua cara.
— E é assim que se tira o pirulito de uma criança! — Gabi comemorou enquanto voltava a sentar-se, — Você viu a cara dele Nick?
“Não acredito que agora eu vou ter que ficar com essa camiseta suja o dia todo. Tenho que começar a trazer uniformes reserva de casa. ”
— Você é louca Gabriela Monteiro — Eu disse olhando para ela finalmente achando graça de tudo aquilo.
— O que aconteceu aqui? — Perguntaram ambos os gêmeos juntos.
— Nossa, que susto! Como vocês conseguem chegar no nada toda hora? — Perguntei enquanto enxugava parte do suco que tinha caído na mesa.
— Costume. — Respondeu Lisa.
Os gêmeos sentaram, desembrulharam seus lanches e começaram a comer.
Gabriela olhou para mim como se quisesse que eu dissesse logo o meu plano para eles.
— Hey! — Falei.
Os dois pararam o que estavam fazendo e olharam para mim. No fundo sempre imaginei que eles fossem robôs e que juntos dominariam o mundo. Eles pareciam máquinas.
— Estão a fim de fazer algo louco e insano hoje?
Lisa e Louis se olharam por um momento, e então, seus olhos transmitiram total interesse em minhas palavras.
— Bom... eu preciso de uma coisa, e essa coisa... bem, tenho que invadir a secretaria para pegar.
— Continue... — Louis disse.
— Preciso entrar na secretaria para encontrar uma lista de alunos de uma sala do primeiro ano.
— Você precisa da lista de qual sala? — Perguntou Lisa.
Foi então que eu pensei:
“Merda, eu não sei qual é a sala dele”.
— Bem, não sei a sala que é, mas eu sei que tem um menino lá chamado Etch. Etch é um apelido ou algo do tipo.
Os dois irmãos se olharam como de costume e eu não estava gostando da maneira que eles se encaravam.
— Não conhecemos nenhum Etch. — Disseram juntos.
“Merda! Além de me dar um apelido, ele ainda o inventou”.
Eu estava torcendo com todas as minhas forças para que Etch, ou sei lá como devo chama-lo, aparecesse naquele refeitório para que eu pudesse usá-lo como referência, mas parecia que eu só conseguia encontra-lo em banheiros.
— O jeito é pegarmos todas as listas então... mas para que você quer elas? — Louis perguntou.
— Preciso encontrar o nome de uma garota nela, quero muito saber seu nome.
— Por que você simplesmente não pergunta para...
— Ele tem vergonha, tipo, muita vergonha —, disse Gabriela interrompendo Lisa.
— Com certeza eu e Lisa sabemos o nome dela! É só você a encontrar e nos avisar, e então lhe daremos o nome. Conhecemos todos da escola, da mesma forma que sabemos sobre a vida de cada um.
— Eu quase nunca vejo ela em lugar nenhum e, vocês me dão medo um baita medo! — Confessei.
Ambos se olharam e sorriram de maneira assustadora.
— O que vocês sabem sobre Antoine Cavalieri? — Gabriela perguntou parecendo interessada.
Olhei para ela tipo: O quê?
— Um dia, vimos Alex, seu irmão, fazendo algo do qual nos pediu para nunca revelarmos a ninguém. Nem mesmo a Antoine. — Lisa respondeu parecendo estar interessada em nos deixar curiosos.
“O que será que ele tinha feito? ”, pensei.
Bem, isso não me importava, Antoine não me importava. Tudo que me importava era encontrar O garoto do banheiro no Facebook e enviar uma solicitação de amizade logo após passar o dia inteiro o stalkeando e salvando suas fotos no celular.
— E então...? Estão dentro? — Perguntei animado e ansioso pela resposta.
— Não temos nenhum plano concreto ainda, — respondeu Lisa, — Eu e Louis tentaremos pensar em algo e no almoço explicaremos o plano final.
— Não tinha como eu receber uma resposta mais perfeita que essa! — Falei sorrindo.
— Mas primeiro, precisamos que um de vocês faça algo para já irmos adiantando o plano. — Louis comentou.
— O quê? — Perguntei enquanto pegava o último punhado de salgadinho e o colocava na boca.
— Todo o prédio possui tubos de ventilação. Eu e Lisa temos alguns mapas da escola, mas não temos dos locais específicos por onde estes tubos passam.
— Vocês querem que... — Gabi tentou antecipar o raciocínio.
— Sim, — disse Lisa — Queremos que um de vocês entre nos tubos e percorra-os enquanto os mapeiam em alguma folha de papel. Quando formos invadir a sala de arquivos na secretaria, precisamos ter o mapa para usá-lo como referência, — terminou sorrindo ao levar o último pedaço de seu pão com mortadela à boca.
Gabriela e eu nos encaramos durante um tempo e depois retornamos o olhar aos gêmeos.
— Ok! — Dissemos.
— Tudo certo! — Concluiu Louis, — nos encontramos nesta mesma mesa no almoço. Conseguiremos fazer tudo hoje se vocês conseguirem nos trazer o mapa dos tubos do prédio principal.
— Só uma perguntinha... — Gabriela assumiu, — por onde entramos nestes tubos?
— Há uma entrada bem ao lado da porta da sala do zelador. Mas vocês devem tomar cuidado, o quarto dele fica num local onde costuma ser bem movimentado, — Lisa respondeu.
— Conseguimos fazer isso, — assenti.
“Não, nós não vamos conseguir e eu nunca vou ter o nome verdadeiro de Etch”, pensei.
O sinal tocou e todos foram para a sala. Tive a impressão de ver Etch no corredor novamente com a mesma garota ruiva que eu tinha visto semana passada, mas acho que era apenas uma impressão mesmo.
De qualquer maneira, eu não estava em posição de me preocupar com quem Etch conversava, eu tinha mesmo, era que pensar em como eu iria conseguir andar por aqueles tubos sem que ninguém me visse entrando ou que me ouvisse engatinhando neles.
O sinal tocou e fomos para a sala. Confesso que eu estava ansioso.
***
Português, penúltima aula antes do almoço. Gabi e eu estávamos perdendo o tempo que quase não teríamos mais.
— Temos que ir agora, — murmurei.
— Sim, agora ou nunca! Eu estava esperando por sua iniciativa. — Riu.
Ambos levantamos juntos e fomos até a mesa da professora que parecia chorar enquanto corrigia algumas provas.
— Professora, — chamei.
Sra. Susanne nos olhou como se estivesse vendo dois cachorros sujos de lama invadindo sua casa e sujando todos os seus tapetes brancos.
— A gente precisa resolver algumas coisas sobre nossa matrícula com a diretora, — Gabriela explicou.
— Por que não vão um de cada vez?
— Olha, eu também não sei viu — Gabi riu como se tivesse feito uma piada sem graça.
A professora nos observou durante um tempo, provavelmente estava pensando em dez maneiras diferentes de nos matar.
— Podem ir... quanto menos alunos nesta sala para me atrapalhar, mais tempo tenho para pensar na dura e triste vida que tenho.
Assentimos. Passei em minha mesa para pegar uma folha sulfite e uma caneta. A professora nem sequer prestou atenção.
— Cara, — Gabi disse — Essa mulher me dá medo.
Rimos enquanto tentávamos não pensar na possível suspensão que levaríamos naquele dia.
***
Chegamos. O largo corredor extenso que dava para a recepção vulgo secretaria, havia algumas pessoas andando para um lado e para o outro, provavelmente eram pais tentando encontrar o banheiro ou seus filhos malcriados.
Saindo do corredor da morte, chegamos num ambiente grande onde tinham vários bancos e um balcão com as mesmas mulheres que fizeram minha matrícula. Vários vasos de plantas eram espalhados pelo local, tornando assim, o lugar ainda mais vivo. Ao lado do balcão, tinha uma porta que levava à secretaria de fato, com vários computadores e pessoas.
— Onde fica a sala do zelador? — Perguntei.
— Se você não sabe, como é que eu vou saber? — Gabi respondeu um pouco grossa. — Desculpe, é certamente o nervosismo.
— Não deve ser tão difícil encontrar, na verdade, é só encontrarmos uma porta que ao lado tenha a entrada para os tubos.
Eu procurava no fundo de minha cabeça possíveis lugares da escola que eu havia ido. Eu estava tentando lembrar se eu já tinha visto a porta do zelador.
— Ai merda, — eu disse — O corredor dos banheiros! No dia da minha matrícula, lembro que no final do corredor tinha uma porta com algumas vassouras e coisas de limpeza.
— Puta merda! Você lembra se ao lado tem a entrada para os tubos?
— É isso que vamos descobrir!
Corremos sem que ninguém percebesse. Quando chegamos no corredor dos banheiros, era impossível haver pessoas mais sorridentes que nós dois naquele momento.
— Eu amo este banheiro, — comentei enquanto mentalizava eu caindo e Etch me ajudando a levantar.
— Por quê? — Gabi riu logo depois de enxugar sua testa um pouco suada.
— Porque encontramos os que estávamos procurando. Agora vamos depressa.
Corremos para a porta, nos agachamos e tentamos abrir a tampa para conseguirmos entrar no tubo. Tiramos a tampa, colocamos no chão e quando enfiei minha primeira perna para entrar, um adulto saiu do banheiro e olhou para a gente.
— Uau! — Ele disse enquanto apoiava-se na parede para não cair.
— Trabalho de Geografia, — tentei explicar a situação — Lugares misteriosos no planeta terra. Animais fantásticos e onde habitam, — ri como se estivesse tendo uma convulsão.
— A melhor matéria de geografia que tive na vida, tenho que admitir — Gabriela falou tentando ajudar na desculpa.
O homem começou a andar cambaleando e em questão de segundos o perdemos de vista.
— Acho que ele está bêbado —, sussurrei enquanto enfiava o resto do meu corpo lá dentro.
— Acho melhor eu ficar aqui fora. Preciso verificar se alguém está vindo ou não. — Gabi sugeriu.
— E eu andar sozinho lá dentro? Em tubos? Eles com certeza devem estar cheios de teias de aranhas, preciso de você comigo, e se eu me perder? E se eu cair em algum lugar e nunca mais conseguir sair? E se...
— E se... E se... Nunca vamos saber o que vai acontecer se não nos arriscarmos. — Gabi disse enquanto eu já estava dentro do quadrado prestando atenção em suas palavras. — Nick, você precisa ser menos medroso, se continuar assim, você nunca vai viver a vida por inteira. Temos que nos arriscar as vezes, enfrentar perigos e medos. E se nada de ruim acontecer? E se você conseguir mapear tudo certinho e conseguirmos seguir com o plano? E se lá dentro não tiver teias de aranha? Nunca saberemos as respostas se nunca tentarmos buscar por elas.
— Meu Deus, acho que nunca tive tanta coragem depois de ouvir tantas palavras incentivadoras de alguém na vida. Na verdade, acho que ninguém nunca me incentivou do jeito que você fez.
Gabi sorriu.
— Agora vai lá! Toma o papel e a caneta. É hoje que teremos o nome da garota.
Todas aquelas cenas de amizade e incentivo, me fizeram ter coragem de me abrir totalmente para Gabi, me fez querer deixar nossa amizade cem por centro transparente e contar que a garota da qual eu queria descobrir o nome, na verdade era um garoto.
— Gabriela.
— Oi.
— Preciso te contar uma coisa.
— Agora não temos tempo Nick. Esqueceu que estamos em horário de aula? — Riu.
O clima quebrou do mesmo jeito que a ficha caiu quando lembrei que Sra. Susanne estava nos esperando e que não podíamos demorar muito para retornar à sala.
Assenti com a cabeça confiante.
— Vou ter que colocar a tampa de volta, está bem? — Disse enquanto encaixava a tampa antes que eu pudesse negar a ideia.
Com a caneta e o papel em minha boca, comecei a escalar o tubo que na verdade era um cubo. Cheguei à parte reta, em todos os quatro lados tinham corredores que davam para algum lugar.
— Gabi, não tem teias de aranha! — Eu disse rindo.
— Fala comigo por mensagem no celular Nick, todos do prédio podem ouvir a gente! — Sussurrou lá de baixo.
“Merda”, pensei.
Comecei a seguir engatinhando pelo corredor que eu acreditava que passava em cima da secretaria. Conforme eu passava por aberturas abaixo de mim, eu conseguia ouvir várias conversas aleatórias, algumas até que interessantes.
Cheguei na secretaria. Eu conseguia ouvir as recepcionistas conversando com uma família sobre não poderem matricular seu filho na escola por questão da falta de vagas. A família implorava e a única resposta que recebiam era de que aquilo estava fora de questão.
Seguindo mais à frente eu já conseguia ter visão da área dos computadores. Homens e mulheres preenchiam fichas, escreviam documentos e coisas de escola. Continuei a engatinhar tentando não fazer barulho até chegar na próxima abertura onde tinha uma mulher em pé foleando alguns documentos.
— Vou levar estas fichas dos últimos alunos matriculados do primeiro ano para a sala dos arquivos, falta mais alguma? — Ela perguntou enquanto direcionava o olhar para o resto de seus colegas de trabalho.
Todos fizeram que não.
A mulher começou a andar em direção a um pequeno corredor que no final tinha uma porta. Procurei engatinhar rápido tentando não fazer barulho para não perde-la de vista. Ela entrou na sala e eu a segui. A sala era bem pequena e tinha muitos armários verdes com gavetas grandes.
Por sorte, havia uma saída de ar perto do chão. Poderíamos entrar dentro da sala em segurança através da tubulação.
Ela começou a procurar por uma gaveta específica, provavelmente a do primeiro ano do ensino médio. Finalmente ela a encontrou e abriu. Ela começou a folear os documentos a fim de encontrar o lugar certo para enfiar as fichas. Enquanto isso, eu desenhava no papel o caminho que eu tinha feito até então.
“Pronto, agora finalmente posso sair daqui”, pensei finalmente.
A mulher fechou a gaveta e eu bati a cabeça no tubo quando me assustei com o barulho. Ela então olhou para cima. Ela parecia que estava tendo a sensação de estar ouvindo minha respiração. Depois de um tempo, ela balançou a cabeça como se achasse que estivesse ficando louca e então saiu da sala.
Expeli o ar que eu mais tivera segurado em meus pulmões na vida. Virei para o lado oposto e comecei a engatinhar para voltar até Gabriela. Peguei meu celular e mandei mensagem falando que estava voltando. Ela visualizou, mas não respondeu.
Eu estava quase chegando no corredor da descida para a saída, quando ouvi uma vóz familiar vindo do corredor em direção ao teatro.
“Parece Etch falando! ”.
Desviei da descida e segui em frente. A cada joelhada que eu dava, mais alta a voz dele ficava.
Cheguei nos tubos de ventilação que ficavam em cima do teatro. Olhei para baixo através de uma saída e tentei procurar por ele até encontra-lo em cima do palco encenando algum papel.
“Merda! Não acredito! Ele faz teatro! Tenho que fazer também! ”
Foi então que eu perdi a noção do tempo quando debrucei dentro no tubo e fechei os olhos enquanto eu o ouvia dizendo suas falas. Sua voz suava como um sussurro gostoso nos ouvidos dizendo “Eu te amo”.
A todo momento eu esperava que alguém dissesse seu nome, mas a diretora da peça e os integrantes apenas se referiam a ele pelo nome da personagem.
Foi então que meu celular começou a vibrar em meu bolso.
“Puta merda! Gabriela está me esperando! ”.
Quando consegui me virar para voltar, Etch pegou um violão e começou a tocar uma música da qual eu nunca tivera ouvido antes na vida.
“Gabriela com certeza pode esperar mais um pouco! ”.
Ele começou a tocar e cantar, meu Deus do céu, como sua vóz era bonita. A cada verso que tocava, mais intensa minha paixão por ele ficava. Comecei a imaginar ele tocando músicas românticas para mim na frente de toda a escola, e no final todos nos aplaudindo.
Meu celular não parava de vibrar, e então, decidi ver as mensagens. Gabriela não parava de perguntar o que estava acontecendo, se eu estava bem e coisas do tipo. Ela falou que o homem que tinha saído do banheiro tinha vomitado e que todos estavam o ajudando. Respondi que estava voltando, menti que eu tinha esquecido a folha em algum lugar e que tinha voltado para pegar.
Comecei a engatinhar de volta. Desci o tubo e saí.
— Estamos fora da sala à meia hora! — Gabi alertou.
— Merda! Demorou tudo isso? Caramba!
— Temos que correr!
Começamos a andar depressa em direção à sala, foi então que eu lembrei de um pequeno detalhe.
— Temos que passar na diretoria antes!
— Por quê?
— Se a professora perguntar para a diretora se realmente falamos com ela, quando ela negar a professora vai nos matar.
— Beleza, mas o que vamos falar com a diretora então?
— Eu tenho algo em mente. Agora, se a professora perguntar o porquê de termos demorado... o que você vai dizer?
— Eu invento na hora.
Chegamos na sala da diretora.
— Com licença? — Pedi.
— Pode entrar! — A diretora Clarisse permitiu sorridente. Ela também era coordenadora do teatro da escola. Descobri isso quando vi um panfleto do teatro num lixo quinta-feira passada.
Gabi e eu entramos e sentado à frente de sua mesa, sua sala era cheia de flores de todas as cores.
— Meu nome é Nicholas! Vi em um panfleto na secretaria dizendo que as inscrições para o teatro estavam abertas, mas vi também que já passou da data para me inscrever... será que ainda há possibilidade de me incluir na peça deste ano? Sou aluno novo e sempre quis participar de um teatro escolar.
“Meu Deus como eu odeio teatro. Não acredito que estou perguntando isso só para poder conseguir ver Etch duas vezes por semana”.
— Bem, na verdade, as vagas para os papeis já acabaram.
Fiquei triste e fiz questão de tornar essa expressão aparente.
— O que eu posso fazer é conversar com os integrantes da peça. Você pode entrar se eles precisarem de ajuda ou algo do tipo.
“Eu preciso muito entrar para a peça, esta é a única chance de conseguir me encontrar com Etch sempre que o grupo for se reunir! ”
— Quantas são as chances de eles aceitarem novos integrantes ou ajudantes? — Perguntei enquanto tentava forçar que as lágrimas caíssem de meus olhos.
— Bem, digo que são poucas. Pelo que eu vejo, eles não estão precisando de ajuda, afinal, eles sabem se virar muito bem. O prazo para as inscrições terminou na quarta-feira. Na quinta eles já fizeram as audições e na sexta já divulgaram os resultados. No momento eles estão tendo a primeira reunião de elenco.
“É... eu sei disso...”
Me fingi desapontado, na verdade, parte de mim realmente estava.
Se eu conseguisse entrar para a peça, de qualquer maneira eu iria acabar descobrindo o nome de Etch, e então não precisaria mais ter que invadir a secretaria para descobrir isso, mas, minha entrada na peça não era algo concreto, eu não podia me dar ao luxo de contar com isso, teríamos que seguir com o plano.
— Obrigado pela atenção, — agradeci.
— Falarei com eles o mais rápido que eu puder. Acredito que ainda nesta semana eles lhe trarão respostas.
Assenti sorridente.
— Caso você consiga entrar, — continuou, — vai amar a experiência! — Garantiu.
Gabi e eu levantamos, agradeci novamente e começamos a correr em direção à sala de aula.
Batemos na porta e entramos ligeiramente suados.
— A conversa estava ótima suponho. — Sra. Susanne disse em pé olhando para a porta enquanto todos da sala faziam o mesmo. — Por que demoraram tanto?
Gabriela olhou para mim com uma expressão da qual nunca tinha feito antes, fiquei curioso, mas logo depois que ela se virou para responder, percebi que não era coisa boa.
— O Nicholas teve que passar no banheiro para fazer... bem, o número dois.
Todos da sala riram de mim. Antoine e os meninos se contorciam com as gargalhadas.
— Com o tempo que demorou, com certeza a feijoada de ontem deve ter rendido um barrão! — Antoine disse quando finalmente conseguiu parar de rir, mas logo em seguida começou novamente.
A sala continuou rindo por mais alguns minutos, até a professora tinha deixado escapar uma breve risadinha, mas eu não me importava, eu talvez estava prestes a ver Etch duas vezes por semana.
— Vão se sentar, — Susanne disse fazendo gestos com a mão.
— Me desculpa! — Gabi pediu.
— Está tudo bem, vou ter que me acostumar com essas risadas mesmo... no final do ano vai ter a apresentação de teatro, e eu, bem, se for participar, com certeza alguém vai rir... — Ri.
Sentamos. Gabriela começou a fazer a lição depressa, enquanto eu estava perdido em meus pensamentos enquanto imaginava Etch respondendo “aceito” em nosso casamento.
***
O sinal tocou. Peguei o mapa que eu havia feito e Gabi desceu comigo até a nossa mesa no refeitório.
Chegamos, sentamos e esperamos pelos gêmeos.
Lisa e Louis chegaram e se sentaram.
— Vai dar tempo para almoçarmos primeiro? — Perguntei — minha barriga está literalmente roncando.
— Não! Talvez só depois que conseguirmos as fotos das listas. — Louis respondeu. — Fizeram o mapa?
— Sim, — respondi enquanto colocava o mapa sobre a mesa. — Vocês já têm um plano?
— Sim também! — Lisa respondeu.
Os gêmeos analisaram o mapa durante alguns minutos. Eles murmuravam coisas um para o outro e por fim olharam para Gabi e eu.
— Beleza, — disse Louis, — Lisa e eu entraremos pelos tubos. Ela vai ficar em cima observando a área da secretaria e eu vou descer na sala dos arquivos.
Antes que eu pudesse perguntar quais seriam minhas funções e as de Gabi, Lisa explicou:
— Nicholas vai ficar no corredor dos banheiros garantindo que ninguém estará lá quando eu e Louis sairmos. Gabriela ficará sentada nos bancos da recepção caso precise executar o plano da Mega Operação.
— Mega Operação? — Gabi Perguntou.
— Se houver alguma complicação, — disse Louis, — esperamos que você seja boa em atuar.
Eu e Gabriela nos olhamos assustados.
— Peguem isso! — Lisa mandou ao nos entregar rádios de comunicação.
— Caramba! Vocês andam preparados mesmo. Vocês são alunos ou agentes secretos enviados pelo governo para espiar a escola?
— O governo não possui agentes espiões à nossa altura! — Louis assumiu rindo.
O medo que eu tinha dos irmãos se intensificou naquele mesmo momento. De qualquer maneira, eles estavam nos ajudando, confiavam na gente do mesmo jeito que confiávamos neles.
— Isso vai ser interessante! — Falou Gabi.
— Vamos!
Levantamos e andamos em direção ao prédio principal, o pátio estava um pouco vazio, apenas algumas mesas estavam ocupadas com alunos almoçando nelas, certamente, quando fossemos finalmente almoçar, ali estaria lotado.
Chegamos na entrada dos tubos. Os gêmeos entraram e antes que eu encachasse a tampa de volta, eles sinalizaram para que Gabriela fosse à recepção.
Fechei e fiquei ali sentado abraçando os joelhos sozinho. Naquele horário, aquele prédio ficava praticamente vazio.
Era possível ver o próximo corredor dali, e em seu final, a entrada para o teatro.
De repente, a porta do teatro abriu, e de lá, começaram a sair os mesmos estudantes que eu vi ensaiando quando estava dentro dos tubos.
“Parece que terminaram de ensaiar”.
Foi então que eu percebi que Etch também sairia de lá alguma hora.
“Ai que merda! ”.
Antes que eu pudesse pensar em alguma coisa, ele saiu com seu violão nos braços e permaneceu parado na frente da porta conversando com a misteriosa garota ruiva.
“O que será que eles estão falando? ”.
Depois de alguns minutos, a menina começou a andar para sair do corredor, virar à esquerda e ir almoçar. Quando ela me viu, fez careta como se estivesse pensando: O que será que um menino está fazendo sozinho em um corredor vazio sentado no chão?
Etch trancou as portas duplas pretas, e quando começou a andar em minha direção para poder virar à esquerda, me viu.
Eu não sabia como passar por aquela situação. Tudo o que eu conseguia fazer era encará-lo sem dizer nada, apenas esperando sua reação perante a situação.
— O que você está fazendo sentado no chão sozinho em um corredor vazio? — Perguntou.
“Não sei, talvez porque eu esteja esperando amigos voltarem de uma missão totalmente maluca, pondo suas vidas em risco apenas para conseguirem tirar foto de seis listas de alunos de seis salas diferentes para que um dos cento e noventa e dois nomes seja o seu”.
— Nada. Apenas pensando na vida... — Respondi forçando o riso.
— Está bem então. Tenta só não perder o almoço de hoje, vai ser macarrão com queijo.
“Se eu for almoçar agora, posso sentar com você na mesa e te observar enfiar cada garfada de macarrão na boca enquanto conto quantas vezes você o mastiga antes de engoli-lo? ”
— Vou tentar! — Disse enquanto direcionava meu olhar ao violão. — Bonito violão.
“Merda, o que foi que eu disse? “Bonito violão”, sério Nick? ”
— Ah, obrigado! — Riu — Ganhei ele de aniversário. “Parabéns para você” foi a primeira música que aprendi a tocar nele. Quer ouvir?
“Puta merda, caralho, socorro Deus! Ele está perguntando se eu quero ouvi-lo tocar violão para mim enquanto estamos sozinhos em um corredor vazio! ”
— Claro! — Respondi tentando disfarçar os gritos internos de alegria que eu estava tendo.
Etch caminhou até o meu corredor e sentou do meu lado. Ele cruzou as pernas, apoiou o violão nelas e começou a tocar.
A cada nota que ele reproduzia, mais feliz era o futuro que eu me imaginava junto a ele.
“E se ele estiver interessado em mim? E se ele apenas está querendo me mostrar o quão bem sabe tocar violão? E se... E se... Acho que terei que beijar sua boca para descobrir as respostas! Meu Deus, no que estou pensando? Tomara que eu não esteja ficando louco...”
Enquanto ele cantava, eu observava seus olhos, o nariz, sua boca e seus dentes. Suas mãos tocando o violão, as unhas, e de como eram lindas algumas veias que ele tinha saltadas em seus braços.
Ele sorria, como se estivesse cantando para alguém íntimo. Quando terminou de tocar, respirou profundamente, fechou os olhos e os abriu quando expeliu todo o ar de seus pulmões.
— Gostou?
— Sim, você definitivamente toca muito bem! Se eu soubesse tocar assim, eu sairia por aí fazendo shows por todo o país.
— Obrigado! — Riu. — Na verdade não é tão difícil assim, você só tem que conectar as cordas com a música e a voz, como se os três fossem um só, e no fim, os deixe fluir juntos com a mesma intensidade.
— Uau.
Tudo que eu conseguia dizer era “Uau”. Etch era profundo em suas palavras. Eu queria muito perguntar seu nome verdadeiro, mas, se ele não me dissera antes, não seria naquele momento que me diria.
— Vou almoçar agora. — Disse enquanto levantava. — Quer vir almoçar comigo e meus amigos?
“Puta merda. Eu não acredito que ele está me chamando para almoçar com ele e eu não posso aceitar. Nossa, sério, não estou acreditando nisso”.
— Eu juro que eu gostaria, juro mesmo, mas eu estou esperando por alguém.
O sorriso no rosto de Etch foi diminuindo até ficar quase que imperceptível.
— Ah, tudo bem. Achei que você estava sentado aí apenas pensando na vida.
“Merda! Ele sabe que eu menti. Será que ele acha que eu recusei porque não quero sentar junto com ele? Caramba, por que tudo tem que ser difícil para mim? ”.
— Me desculpa mesmo, é que eu estou realmente esperando por alguém...
— Tudo bem cara, relaxa! — Riu. — Terão outras oportunidades. A gente se vê por aí!
Sorri, e então ele foi embora.
Fiquei sentado durante um tempo digerindo o que tinha acabado de acontecer. Eu não estava acreditando que Etch sentara do meu lado e que tocara uma música no violão para mim. Depois de alguns minutos, notei que até o momento ninguém havia falado nada no rádio.
— Está tudo bem? — Perguntei. — Câmbio!
— Eu estou foleando as fichas na gaveta há alguns minutos. São muitas... não estou encontrando as listas de alunos das salas do primeiro ano — Respondeu Louis, — Câmbio.
— Estou tendo um relacionamento intenso com o banco do qual estou sentada. A planta perto do balcão está olhando com cara feia para nós dois, acho que ela está com ciúmes! — Disse Gabriela. — Câmbio.
— Vamos levar isso mais a sério pessoal! — Lisa sussurrou. — Câmbio desligo.
Gabriela riu.
Continuei sentado ali ainda pensando em Etch. Eu estava ansioso esperando pelas fotos das listas, é claro que eu teria que procurar cada nome no Facebook, mas pelo menos naquele momento eu tinha um objetivo de vida.
— Caramba galera! — Disse Louis —, achei!
— Gente, como eu sei que vocês não estão me ouvindo falar? — Gabriela perguntou.
— Ai que merda, — Lisa disse.
— O que foi? — Perguntei aflito.
— Louis, estão indo para aí! Dá o fora agora!
— Meu Deus, não dá! Ainda não tirei fotos de todas as listas e a gaveta ficou toda desarrumada. Se eu deixar como está, vão saber que alguém invadiu.
— Gabriela, é com você agora! Seja criativa.
— Beleza! Câmbio desligo.
Era possível ouvir o barulho do microfone do rádio de Gabriela encostando em sua calça. Ela certamente não tinha o desligado. Ela estava andando para algum lugar do qual estávamos prestes a descobrir e acompanhar.
— Me ajudem! Estou passando mal, socorro! — Implorou Gabriela.
De repente, um som alto veio do rádio. Com certeza ela se jogara no chão.
— Está funcionando, continua! — Sussurrou Lisa.
Várias tosses forçadas e convulsões exageradas fizeram parte das mensagens enviadas pelo rádio de Gabriela.
— Meu Deus, está saindo espuma da boca da garota! — Disse uma voz feminina, — Chamem uma enfermeira agora!
“Caramba”, pensei, “Ela é boa”.
— Pessoal, já estou dentro dos tubos! — Avisou Louis. — Nick, vai para a recepção para que a Gabriela te veja para parar com a encenação. Ela não consegue nos ouvir pelo seu rádio. — Câmbio.
— Estou indo! — Câmbio desligo.
Levantei depressa. Comecei a caminhar pelo corredor quando esbarrei num garoto. Era Antoine.
“Por que esse menino sempre está em todo lugar? ”
— Opa, opa. Calma aí garotinha, onde vai com tanta pressa? — Perguntou debochando enquanto olhava para a recepção e via o que estava acontecendo. — Ai merda.
Comecei a correr em direção à Gabi enquanto Antoine ficou no corredor. Eu agachei, olhei para ela e ela olhou para mim. Pisquei o olho e então ela entendeu o recado.
Drasticamente, ela parou com toda a encenação.
— Estou bem, estou bem! — Disse levantando como se nada tivesse acontecido. — Eu achei que estava sonhando, não precisam se preocupar.
— Precisamos ligar para sua mãe para avisá-la! — Ofegou uma mulher.
— Não, não precisam. Estou bem e minha mãe está ciente que a qualquer momento este tipo de coisa pode acontecer. Avisarei ela, obrigada!
Ela andou até mim e ambos fomos ao corredor esperar pelos gêmeos.
— Por que eles sempre falam em avisar as mães? — Gabi perguntou não esperando por qualquer resposta. — Meu pai é quem realmente é responsável por mim. — Concluiu revirando os olhos.
Chegamos no corredor e nos deparamos com Antoine debruçado na parede, apenas observando os gêmeos saírem dos tubos.
— O que vocês estavam aprontando? — Perguntou sorrindo maliciosamente como se estivesse pensando que poderia usar aquilo como algum tipo de chantagem.
— Não fique num lugar onde não foi chamado garoto! — Disse Gabriela.
Antoine começou a andar em nossa direção lentamente. Ambos os irmãos já tinham saído e aguardavam em pé para ouvir o que Antoine tinha a falar, e então, este parou no meio do corredor enquanto encarava nós quatro.
— Nossa, isso vai acabar em uma bela suspensão hein... caramba! — Riu ironicamente.
Louis começou a andar em direção a Antoine. Os dois se encararam por um tempo, até que Louis soltou um sorriso interessante.
— É isso que vamos ver! — Disse enquanto encostava um aparelho no pescoço de Antoine, por fim o fazendo cair no chão.
Gabi e eu olhamos espantados.
— Caralho! Você matou ele? — Perguntei.
— Claro que não. Ele só levou um choque... — Louis respondeu —, agora vamos sair daqui. Ele vai acordar em três minutos e não se lembrará de nada.
Nós quatro saímos dali depressa. Era interessante, pois mesmo depois do que tinha acabado de acontecer na recepção com Gabriela, o local estava mais deserto que nunca.
Naquele momento, de uma coisa eu tinha certeza: esses gêmeos eram loucos.
***
Depois de nós quatro terminarmos de almoçar, tudo que eu conseguia prestar atenção, era em Etch rindo com os amigos em sua mesa.
“Eu podia estar lá com eles, rindo, como num comercial onde as famílias sempre riem à mesa como se nenhum deles tivessem intrigas entre si”.
Os gêmeos levantaram e se despediram. Foi então que eu soube que era hora de contar a verdade para Gabriela Monteiro.
— Gabi.
— É sobre aquilo que você ia me falar quando estávamos com pressa antes do almoço?
— Caramba, você é boa em adivinhações.
Ela soltou um sorriso e virou para mim com total atenção.
— Pode falar.
— Olha, vou ser bem direto. Talvez eu nunca fui tão direto em toda a minha vida igual estarei sendo com você agora. O céu é azul, as rosas são vermelhas...
— Nick, você está enrolando... — Riu.
— Ai merda. Está bem. Lembra aquela garota que eu tinha falado que eu gostava e queria muito saber o nome?
— Sim... — disse Gabriela talvez suspeitando de que a garota fosse ela.
O suor em minha testa sentiu-se prazeroso ao escorrer como sempre. Meus olhos não mantinham o foco nos de Gabriela. Meus pés pareciam ter vida própria.
— Ah foda-se, quer saber... não era uma garota, era um garoto!
— Ai, meu, Deus. — Disse abrindo a boca espantada e logo em seguida substituindo o espanto por alegria. — Por, que, você, não, me disse isso antes?
— Eu estava com medo da sua reação. Eu estava com medo de talvez você começasse a me tratar diferente depois que eu te contasse.
— Ai Nick, claro que não. Foi por isso então que você tinha feito aquela pergunta para mim hoje de manhã? Sobre o que eu pensava sobre isso?
Assenti com a cabeça envergonhado.
— O Antoine não pode saber disso, pelo amor de Deus Gabriela! — Implorei, — Na verdade, ninguém pode saber disso de jeito nenhum.
— Não vou contar para ninguém Nick, eu não sou assim, você pode confiar em mim. Lembra que eu já te contei segredos profundos meus que poucas pessoas sabem? — Disse tentando me acalmar.
— Foi muito bom contar isso para você Gabi, eu estou me sentindo transparente agora.
Gabriela riu.
— E então? Quando é que eu vou saber quem é o garoto hein?
Aquela pergunta soou como algo tão natural, eu estava finalmente me sentindo aceito por alguém na vida.
— Acho que isso você terá que descobrir por conta própria. — Ri quase que alto.
— Ah sério? Quero dicas! Podemos fazer como se fosse um jogo, você me dá as dicas e eu dou até três palpites. Você não pode mentir de jeito nenhum, temos que ser honestos.
— Ok então, vamos para a primeira dica!
Aquilo estava me deixando empolgado de alguma forma, desde pequeno eu sempre gostei de fazer charadas para as pessoas a fim de que no final elas as acertassem.
— Ele é muito bonito.
— Essa não vale, bobo!
— Está bem então, — eu ri, — ele tem cabelos pretos e é um pouco mais alto que eu. É só isso que eu posso dizer agora, nada a mais.
— Beleza, vou começar a prestar atenção nos meninos que você olha.
Automaticamente, olhei para a mesa onde Etch ainda estava com onze meninos e quatro meninas. Gabriela percebeu meu olhar e deixou escapar um sorriso malicioso.
— Bem... ele está naquela mesa? — Perguntou confiante de que estava certa. — Não pode mentir!
— Ai meu Deus, sim! — Respondi empolgado.
Eu estava querendo muito que Gabriela acertasse, mas ao mesmo tempo, eu não queria que o jogo terminasse alguma hora.
— Ele tem...
— Chega, vamos embora logo! — Eu disse fechando os olhos para que ela não conseguisse ver para onde eu estava olhando. — Não vou ouvir mais nenhuma pergunta.
Gabriela riu de uma maneira muito contagiante.
— Vamos.
Gabriela levantou, fomos levar nossas bandeijas para lavar.
Ficamos andando pela escola enquanto conversávamos sobre coisas aleatórias de nossas vidas. Ela estava me contando com mais detalhes como seus pais haviam se separado, de como era desgastante cada final de semana intercalar entre ficar com seu pai e ficar com sua mãe.
O sinal tocou e fomos para a sala. Vi Etch mexendo em seu armário sozinho, eu queria muito ir conversar com ele, mas Gabriela não podia desconfiar de nada, afinal, ela nem percebera que eu estava olhando para ele.
***
Finalmente, a última aula do dia tinha acabado de acabar.
— Hoje foi bem divertido, — Gabi assumiu, — estou aguardando ansiosa para a nossa próxima aventura, como já disse, este ano quero fazer coisas loucas, quero curtir a vida.
Sorri enquanto arrumava meus lápis e canetas em meu estojo.
— Sabe no que eu estava pensando? — Perguntei enquanto saíamos da sala e íamos aos armários. — Você já está gostando de algum garoto? Não pode mentir hein!
Gabriela riu sem graça.
— Olha, não vou dizer que estou gostando de alguém, — respondeu rindo, — mas também não vou dizer que não estou. De qualquer forma, ainda não tenho certeza, então não vou falar.
— Ok então Sra. Mistério... não esquece de fazer a lição de física. Vou ter que levar o livro para casa.
— Não vou mentir... estou quase terminando já.
— Putz, eu ainda nem comecei! — Ri enquanto caminhávamos até as escadas.
Gabriela respondia algumas mensagens no celular, quando Antoine passou por mim derrubando o livro que estava em meus braços, enquanto mandava beijos com a boca e fazia um coração com as mãos.
Peguei o livro no chão. Gabi olhou para mim como se estivesse imaginando o quão idiota Antoine era.
Descemos e quando chegamos no hall, ouvi alguém cantando enquanto tocava um violão. Aquela voz era muito familiar e eu já sabia de quem era.
— Está ouvindo? — Perguntei.
— Uma música suave romântica? Acho que estou!
Saímos para o pátio e de longe vi uma roda com várias pessoas em pé. Não dava para enxergar quem estava sentado no banco tocando o violão, mas no fundo eu já sabia quem era.
Nós dois começamos a andar em direção à multidão. Quando chegamos, as pessoas das quais estavam em nossa frente, afastaram-se como se quisessem que eu conseguisse olhar Etch tocando, fazendo com que um “caminho” se abrisse em nossa frente. Olhei para Etch e ele olhou para mim sorrindo enquanto continuava a cantar e tocar.
— Tenho que ir, está bem? — Disse Gabriela parecendo apressada.
— Ok, nos vemos amanhã então.
Gabi foi embora e eu voltei a olhar para o anjo que estava tocando violão.
Durante algum tempo, fechei os olhos e procurei relembrar Etch tocando “Parabéns pra você” para mim sozinho no corredor dos banheiros. Tudo que eu conseguia demonstrar fisicamente era um sorriso representando a alegria que eu estava sentindo.
De repente, abri os olhos e vi a garota ruiva vindo em direção da roda. Ela parecia olhar para Etch como se estivesse com fome e ele fosse o seu banquete predileto.
Ela sentou ao seu lado, o fazendo parar de tocar e disse:
— Você é meu Ethan Marquês!
Ela então, segurou o seu rosto rapidamente e tudo que eu consegui fazer depois que ela o beijou na boca, foi fechar os olhos tentando me fazer acordar daquele pesadelo.
Quando abri os olhos novamente. Eles ainda estavam se beijando fazendo com que toda aquela cena se passasse em câmera lenta na minha cabeça. O caminho aberto em minha frente, me fez sentir como se eu estivesse num camarote vip de um show chamado: “A desilusão amorosa! ”.
Tudo que lembro, foi que eu saí dali o mais rápido que eu pude, segurando as lágrimas com todas as forças que ainda me restavam.
Naquela tarde, tudo que consegui fazer quando cheguei em casa, foi deitar em minha cama, abraçar meu travesseiro e chorar enquanto torcia para que nada daquilo tivesse de fato acontecido.
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