Como Manda o Coração
1 Aquela tal Amizade
Notas iniciais
"Amizade, 1 Sentimento de grande afeição, simpatia, apreço entre pessoas ou entidades. 2 quem é amigo, companheiro, camarada."
No papel, a amizade é linda. Mas como é difícil! Uma, ou mais pessoas, que são completamente diferentes de você, convivendo juntos, seja vinte e quatro horas por dia, seja uma vez na semana, ou apenas via internet. É claro que uma hora ou outra vai dar problema! Ter amigos é muito bom, não me interprete mal, por favor! O que estamos discutindo aqui é como manter essa amizade intacta, afinal, os seres humanos e suas relações com seus iguais, são muito complicadas.
Nos últimos meses tenho sentido na pele essa complicação. Como manter uma amizade intacta se você e seu amigo possuem tantas diferenças? Como não se deixar abalar pelos problemas da vida, quando seu amigo não quer nem saber sua opinião a respeito?
Imagine o seguinte cenário: você, mulher de vinte e poucos anos, possui uma amiga que considera parte da família, daquelas que conquistou no tempo de escola, que chama seus pais de tio e tia. Uma verdadeira irmã. Vocês tem muito em comum, o amor pelos mesmos livros, pelos mesmos passeios, os mesmos sonhos para o futuro. Claro que possuem diferenças, gosto musical, estilo de roupas, vontades diferentes. Mas são essas diferenças que te fazem completas, são elas que se encaixam perfeitamente nessa loucura de amizade que construíram em quase dez anos juntas.
Imaginou? Pois bem! Agora vamos complicar a situação. Um outro personagem entra na história, alguém por quem sua amiga se apaixona. Qual seria o próximo passo? Conhecer o namorado dela, mesmo que em um primeiro momento você não queira dividi-la com mais ninguém. Vocês são como irmãs, independente de quem seja o cara você está feliz que sua amiga “desencalhou”.
Passa-se um mês desde que você conheceu seu novo “cunhado”. Sua primeira impressão não foi das melhores, mas você dá uma chance a ele, o motivo disso é que pode ver como os olhos de sua amiga-irmã brilham quando eles estão juntos. Vocês continuam saindo, se relacionando, se adaptando a nova rotina que começou, uma rotina onde você precisa dividir a pessoa que sempre foi sua com uma outra que mal conhece.
Depois um tempo que esse relacionamento está acontecendo você percebe coisas que sua amiga não. Coisas que só quem está de fora consegue perceber. Você nota que aquela pessoa por quem sua amiga se apaixonou não é o príncipe encantado que ela pensa que é. Você começa a se sentir mal perto dele, como se ele te puxasse para baixo, quisesse te deixar em maus lençóis para que tudo o que ele fizer seja melhor do realmente é.
Você começa a se distanciar de sua amiga porque onde ela está, ele também está. Você vê que ela o ama mas, ao mesmo tempo, que ele não é bom pra ela. Que ela se fecha pra ele e esquece das outras pessoas que a amam.
Você tolera, para que ela não se magoe. Você se machuca todas as vezes que está perto dele, mas o faz calada, para que sua amiga não saiba o que você sente a respeito do homem que ela ama.
Até que uma hora tudo sai pelos ares. É como encher um balão. Vai chegar uma hora que todo aquele ar precisa sair, mas causa uma pequena explosão no caminho. Você conta para ela o que sente. Traz à tona todas as vezes que chegou em casa chorando por se sentir diminuída, menosprezada, humilhada. Todas as vezes que tolerou situações com o único e exclusivo motivo de fazer sua amiga-irmã feliz. É claro que essa explosão não foi premeditada, você tentou evitar, mas as emoções ficavam transparentes em sua face.
O estrago foi grande. Ela ficou do lado dele. Ela preferiu aquele homem que entrara em sua história a pouco mais de um ano e deixou de lado aquela pessoa que esteve lá em quase metade de sua vida.
Você fica desolada. Não sabe o que fazer, como agir nessa situação. Vocês conversam, fazem as pazes e tudo fica aparentemente bem. Conversam vez ou outra, se encontram raramente, mas tudo parece normal.
Passa-se um tempo e você descobre que era tudo fachada. A pessoa com quem você compartilhou momentos muito importantes de sua vida não te olha mais como antes. Para ela você deixou de ser aquela amiga-irmã, aquela pessoa com quem se pode manter os segredos mais obscuros. Agora você é uma simples colega. E ela te diz isso com todas as letras!
Imaginou todo esse cenário, caro leitor? Pois bem, é assim que vivo hoje. Vivo com medo de que, de uma hora para outra, a minha amiga-irmã simplesmente suma de minha vida para todo o sempre. Não conversamos mais, faz muitos dias. Os sonhos que compartilhei com ela, sobre o futuro, que sempre envolvia nós duas formando nossas famílias, uma ao lado da outra, não existem mais. Não sei o que me aguarda nos próximos anos. Se faremos as pazes, ou se apenas nos cumprimentaremos, civilizadamente, numa rua qualquer da cidade. A única coisa de que tenho certeza é que quero ver minha amiga-irmã feliz. Não quero que ela se machuque, porque, mesmo depois de fechar a porta em meu rosto, ela continua sendo minha família.
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