Como James Dean e Bons Filmes Antigos
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Como James Dean e Bons Filmes Antigos
Chovia.
Existe sempre algum ponto da vida em que a chuva se torna algo mágico de várias maneiras.
Para algumas pessoas, o cheiro de terra molhada e a umidade do ar trazem lembranças boas e mergulham o clima em uma sensação gostosa de nostalgia. Para outras, apenas o barulho das gotas trombando na janela do quarto acalmam o suficiente para tornar uma longa noite de sono em um período de sonhos tranquilos. Tem também quem goste de ficar na chuva, como quem acredita que a água consegue lavar as impurezas da alma. Existem ainda aquelas pessoas que gostam da chuva simplesmente por gostar.
Todos têm motivos e maneiras diferentes de se aproveitar a chuva.
Quero dizer, quase todos.
Rafael detestava a chuva, mas ele estava ali, sentindo as gotas gordas explodirem em sua cabeça e escorrerem até sua nuca. Estava parado em frente uma casa que não conhecia, para ajudar uma pessoa que não gostava.
Não existiam motivos concretos para estar fazendo tudo o que fazia, porém isso não era importante agora. Aliás, dentro de todas importâncias que martelavam em sua cabeça, ele só conseguia pensar em como queria estar em casa, ignorando a chuva e, principalmente, ignorando-o.
Cansado de esperar o amigo sair da casa desconhecida, Rafael se sentou na calçada. Suas roupas estavam pesadas por estarem molhadas demais, e seus cabelos cacheados insistiam em pregar no seu rosto, fazendo-o implorar por uma toalha.
“Você não deveria sentar aí” Ele disse. “Está sujo”
Tudo aqui está sujo, pensou Rafael. Inclusive, ele mesmo. Principalmente Rick. Olhou para o garoto parado em sua frente, tomando chuva com um sorriso gigante no rosto. Como se tudo aquilo fosse bom para alguém. Ele estendeu a mão, oferecendo uma ajuda que não precisava. A única pessoa que precisava de ajuda era ele mesmo, e Rafael estava ali por isso. Para ajudá-lo, apoiá-lo, mesmo que detestasse isso.
Rafael estava na chuva que tanto detestava por ele. E só havia uma coisa que ele detestava mais do que a chuva: Rick.
“O último metrô vai sair daqui a pouco. Vamos?” ele voltou a falar. E assim os dois, sem guarda-chuva ou sombrinhas para os protegerem da chuva, caminharam na rua larga até a distante estação de metrô.
E, mesmo com as roupas sujas por ter sentado na calçada e o cabelo encharcado, Rafael se sentia bem por estar do lado do amigo. Sentia-se estúpido, mas bem. Rafael detestava a sensação agradável de preenchimento por estar apenas caminhando devagar até estação com Rick, mesmo que fosse só porque os dois moravam na mesma rua.
Porque sim, ele amava demais o amigo. Mesmo que não fosse certo.
Rick tinha aquele corte de cabelo atrapalhado e os lábios finos, que normalmente seguravam um cigarro forte da marca que mais amava, dando-lhe um certo charme quase exótico. Seus olhos claros e puxados continham todo o carisma que ele precisava para conquistar mais da metade das pessoas que conhecia.
E, na chuva, com aquela jaqueta vermelha cara e as pupilas dilatadas, Rick tinha alguma coisa de James Dean no seu caminhar rebolado. Fosse pelo cabelo, pelo jeito de sorrir de lado ou pelo apelido quase americano, sempre existiria algo nos olhos azuis e nos maus hábitos que lembravam o famoso viva rápido e morra cedo.
E Rafael detestava cada uma dessas semelhanças.
Porque por mais que estivesse chovendo mais do que a previsão do tempo esperava, Rick ainda tinha aquele cheiro insuportável de álcool e as pupilas dilatadas demais para àquela hora da noite. E por causa de todas as drogas pesadas e as indiferenças do garoto, Rafael não conseguia deixá-lo em uma festa cheia de desconhecidos, muitos quartos e diversas incosequências – por isso, e só por isso, aceitara sair de casa.
Rafael não era de sair muito e, especialmente em dias chuvosos, ele preferia ficar trancado no seu quarto escuro a se atrever a sair de casa. Todavia, bastava algumas palavras bem colocadas de Rick para fazer o loiro acompanhá-lo aonde quer que fosse.
Não tinha como Rafael deixar Rick no meio de tantas incertezas, porque ele sabia na capacidade impressionante do melhor amigo de se colocar em situações perigosas, até não conseguir mais caminhar de volta para casa.
Claro que, apesar de ambos saberem disso, nada daquilo era do interesse pessoal de Rafael. Acontecesse o que acontecesse, a vida era de Rick e ele fazia o que bem entendia. E era por isso que, mesmo que os dois fossem juntos para qualquer lugar, no fim, o moreno sempre iria se drogar até cair no chão e fazer muito sexo com algum cara que tinha acabado de conhecer, em algum quarto sujo de algum desconhecido qualquer.
Enquanto Rafael ficava na chuva, do lado de fora, esperando.
“Viu? Já chegamos.” Rick voltou a falar, rindo feito tonto. “Eu te disse que não era longe”
“Você nunca me disse nada disso, Henrique” o outro comentou, meio incomodado, chamando o amigo pelo primeiro nome completo.
Os dois ficaram então em silêncio, com a água fria pingando na falta de assunto; a estação estava vazia e o metrô ainda demoraria vinte minutos para levá-los para casa.
Diferente de todas as pessoas que se acostumaram com apelidos, quaisquer que fossem estes, Rick não se sentiu incomodado por ouvir seu nome por inteiro em uma situação consideravelmente casual. Fossem as drogas ou a sua personalidade rígida, não veio de seu rosto nenhuma expressão sequer.
Pensou no que poderia chamar de fato a atenção do amigo. Ele não precisava de muita coisa, concordou consigo mesmo. Apenas uma pequena reação, um mínimo sentimento, qualquer que fosse, bastaria para acalmar seu coração torto.
E então, Rafael detestou-se.
Detestou-se por amar Rick a ponto de desgostá-lo, e esgotar a si mesmo com sentimentos errôneos e esperanças sem gosto. Detestou a si mesmo por ter saído de casa em um dia chuvoso, para ficar duas horas em uma festa e esperar três do lado de fora. Detestou-se por ter molhado o all star novo, e ter arrumado o cabelo depois do banho.
Rick acendeu um Marlboro vermelho com seu isqueiro pequeno, sem se importar com as placas proibindo o ato irresponsável, e soltou a fumaça, inclinando o rosto.
“Você não se importa com nada, Henrique?” perguntou.
“Claro que me importo.” Rick respondeu, dando outra larga tragada. “Nós estamos indo para casa, não estamos?”
Parou para pensar se concordava ou não. Se, talvez, aquilo significava que só estavam indo embora, depois de três horas na chuva, por sua causa.
Inconscientemente, deu uns passos para frente. Rafael podia sentir seu olhar empurrando-o, e doía.
Andou lentamente mais alguns passos. Ultrapassou a linha amarela que limitava o espaço seguro e o suicida.
Até um tempo atrás, Rafael considerava o suicídio algo impossível. Sempre aceitara as drogas e a sujeira que sustentavam a amizade frágil dos dois para evitar esse tipo de ato. Sempre corria atrás de novas causas para fugir dessa realidade frágil que era forçar a própria morte.
Seria um bom modo de morrer: acabaria com tudo que incomodava e deixaria de incomodar Rick e suas noites incríveis, fazendo-o durar até o primeiro metrô do dia seguinte. Henrique poderia deixar de fingir dar tanta importância a suas boas causas, e Rafael poderia deixar de odiar a si mesmo por gostar tanto de uma pessoa detestável.
Eles iriam acabar com aquela brincadeirinha sem graça que eles chamavam de amizade.
Olhou para seu all star azul e mexeu os dedos dentro da meia molhada. Dobrou os joelhos e caiu nos trilhos gelados. Seria um bom jeito de morrer, pensou. Nada de gritarias, pessoas assustadas, traumas. Matar-se-ia em dia chuvoso e frio, como nos bons filmes antigos, sentindo as tão esperadas reações de Rick derramarem no seu corpo sem vida. Seria a melhor cena, concluiu silenciosamente.
E então, nada.
Não veio o metrô, e muito menos alguma reação de Rick.
O silêncio vivia mais do que qualquer um naquele recinto.
E então Rafael chorou alto, em bom tom. Deixou o gosto salgado das lágrimas molharem sua boca aberta, berrando sentimentos que nunca seriam escutados por ninguém. Chorou, chorou, chorou. O som áspero de sua voz reverberava por todos os cantos da estação de trem, causando angústia em si mesmo.
“Ei, Rafa” ouviu Rick o chamar, de mãos estendidas para baixo, depois de jogar o resto do cigarro no chão. “O trem já está chegando.”
Deram as mãos e se forçaram para trás da faixa amarela de proteção. Soltaram os dedos assim que conseguiram se estabilizar no chão sujo. Rafael olhou para si mesmo e quis voltar para junto das trilhas – estava imundo. Seus cabelos estavam oleosos demais e suas mãos abraçavam a poeira do lugar.
Ouviram o barulho do metrô chegando de longe e, aos poucos, parando na estação da zona sul.
Rick tirou sua jaqueta de couro vermelho, e fez um sinal gentil com a mão esquerda, quase convidando o amigo a se apressar. Sentaram-se lado a lado dentro do metrô.
Naquele instante, Rafael percebeu que Henrique não merecia toda aquela dor, todas aquelas lágrimas, todas aquelas gotas que encharcavam seu tênis novo. Ele nunca iria ter a reação que tanto esperava, pelo simples fato de que ele nunca teria reação alguma.
Sempre faltaria alguma coisa.
A sensação inesperada de alívio percorreu sua corrente sanguínea e secou as lágrimas do seu rosto. Prestou atenção nos olhos claros e apáticos do seu melhor amigo, que já estava caindo de sono. Talvez, aquele fosse o momento mágico da sua vida que tanto esperou chegar. De repente, seu pulmão se encheu de ar, e Rafael pode respirar pela primeira vez em muito tempo.
Tirou os cabelos da testa e limpou a mão na calça jeans molhada.
Olhou para a janela larga do metrô.
Chovia.
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